Duas semanas antes do 25 de Junho, data que, para
além do 45º aniversário da independência, marca 58 anos da fundação da então
Frente de Libertação Nacional (Frelimo), Luís de Brito, um dos mais
proeminentes académicos do país, colocava na prateleira o seu mais recente
livro. Um livro que transcende o politicamente correcto. “A Frelimo, o Marxismo
e a Construção do Estado Nacional 1962-1983” não é apenas uma análise histórica
necessária para compreender o processo moçambicano. É, sobretudo, uma leitura alternativa
que rompe com a versão oficial da história da Frelimo e de Moçambique. Uma
leitura que, ao mesmo tempo que dá a entender o passado de outra
forma, também ajuda a explicar o rumo que tomaram
os posteriors desenvolvimentos políticos, sociais e económicos no país. Na
obra, Luís de Brito começa por desconstruir as narrativas de autores que chama
de “marxistas, engajados e solidários da Frelimo” que, nas suas palavras,
caíram nas “armadilhas do discurso oficial”, limitando-se a formulações que
seguem e reproduzem textos oficiais. Autores que assumiram, acriticamente, as
construções e a ideologia do discurso oficial, os mitos sobre os quais esse
discurso assentava e, assim, participando do trabalho de legitimação próprio de
qualquer discurso de poder.
É que, para ele, as
explicações dos autores sobre as dificuldades que a organização teve de
enfrentar desde a independência, invocando, por um lado, factores externos como
a situação internacional desfavorável e mais, particularmente, a acção de desestabilização
económica, política e militar promovida pelo regime sulafricano e, por outro
lado, factores internos como os “erros” da Frelimo, particularmente, em termos
de política rural, mas também o surgimento de uma camada burocrática usando a
sua posição dentro do aparelho estatal para bloquear a acção da liderança revolucionária
do partido, não são suficientes para dar uma interpretação consistente da
realidade do processo moçambicano.

Depois de um primeiro capítulo sobre a estrutura
económica e social do Moçambique colonial, que mostra a herança bastante frágil
herdada pelo movimento de libertação, que também explica a crise económica
causada pelo processo de descolonização e, em grande medida, o fracasso da política
económica da Frelimo, o autor debruça-se sobre a constituição da Frelimo que,
de acordo com a versão oficial, é o resultado da fusão de três organizações, a
25 de Junho de 1962, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Mas para Luís de Brito,
doutorado em Antropologia e Sociologia do Político, não é linear que a Frelimo tenha
resultado da unificação da União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO), da
União Nacional Africana de Moçambique (MANU) e da União Nacional de Moçambique
Independente (UNAMI). “É difícil argumentar que a Frelimo tenha sido realmente
fruto da unificação de várias organizações”, rebate.

Conta que, nos meses que se seguiram ao primeiro
Congresso da Frelimo, que procedeu à eleição da direcção do movimento, houve
também conflitos entre Mondlane e os outros líderes, que não aceitavam de bom
grado a dissolução das suas organizações, pois isso retirava-lhes a autonomia e
reduzia o seu poder. “Mas Mondlane tinha a vantagem de receber o apoio total de
Nyerere e eles foram forçados a deixar a Frelimo: alguns deixaram-no por
iniciativa própria, outros foram expulsos”, observa.
Uria Simango, que chegou a vicepresidente da
Frelimo, e Adelino Gwambe, o dirigente da UDENAMO que estava em conflito com Marcelino
dos Santos, são apenas alguns exemplos de tantos que se viram forçados a deixar
a Frelimo. “A saída dos opositores fortaleceu a posição do grupo leal a
Mondlane”, afirma Luís de Brito. Para o académico, o argumento de que a Frelimo
resultou da unificação de várias organizações é, na realidade, um elemento do
processo de legitimação específico do discurso politico da Frelimo.
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