quinta-feira, novembro 08, 2018

...buzistão


Era uma vez, nas longínquas terras africanas, existia um reino para lá do comum. Algumas pessoas chamavam-no “Pérola do Índico” e outras simplesmente “Pátria de Heróis”. Mas havia uns que preferiam designá-lo “Guebuzistão”.
Pouco importa o nome, bem poderia ser “Pátria Amada” ou “Pátria Qualquer Coisa”, mas tinha de ter um Rei.
O Soberano, de nome desconhecido, tinha quatro paixões (só não se sabe se é nesta ordem), designadamente helicóptero, piripiri, cachimbo e ampliar o seu património (financeiro) pessoal para lá de insuportável, adquirindo participações nas poucas empresas que movimentavam a economia daquele reino. Mas há quem fala de uma quinta paixão: adorava ser bajulado.
Como todo o Rei, ele tinha os seus funcionários – verdadeiros mestres em reproduzir o discurso da sua majestade – que fingiam estar preocupados com o bem-estar do povo, quando, na verdade, acomodavam a corrupção e o nepotismo.
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Diga-se, o reino parecia um covil de abutres com as unhas cravadas na garganta dos súbditos que eram forçados a viver à intempérie, sem transporte, um sistema de saúde condigno e uma educação decente.
Apesar de as estatísticas mostrarem, vezes sem conta, o crescimento da economia local, os súbditos continuavam a morrer de fome, miséria (i) merecida e doenças curáveis. Mas o Rei cinicamente continuava a repetir até à náusea – qual um robô programado – qualquer coisa como :
“Estamos no bom caminho, rumo à prosperidade”.
Quando o povo pedia pão e água, o Rei e os seus sequazes serviam excessivamente NADA, quando não eram overdoses de promessas e discursos cheios de nada e de nenhuma coisa.
Nas suas habituais brincadeiras e com o apoio dos seus títeres, começou por falar de “Revolução Verde” que morreu antes de nascer, inventou a história de “Jatropha” que continua sem pernas para andar e, mais tarde, forjou uma tal de “Cesta Básica” que ninguém chegou a ver.
Aliás, para entreter e domesticar o povo, compôs uma canção intitulada “Auto-estima” e decidiu dividir o reino em três gerações. Engendrou ainda uma guerra que denominou “Combate à Pobreza Absoluta” e, até então, ninguém sabe em que estágio se encontra a luta. Mas uma coisa é certa: ninguém deu o primeiro tiro, até porque os soldados de ontem não têm motivos para lutar, uma vez que levam uma vida abastada.
Cansado de receber o atestado de estupidez que era passado a todos os súbditos daquele reino, um jovem desconhecido decidiu rebelar-se. Sem escudo, apenas com uma azagaia, dispôs-se a fazer frente à monarquia e todos os meios de repressão modernos ao seu dispor.
Chamaram o rapaz à razão, mas ele fez orelhas moucas. Inebriado pelo apoio que recebia do povo, o jovem seguia, sem escudo (apenas com azagaia), desferindo violentos golpes ao regime.
Num certo dia, quando se preparava para arremessar mais uma lança, caiu nas mãos dos carrascos. Foi encarcerado. Motivo: levava consigo uma erva que naquele reino era proibida. Paradoxalmente, prenderam-no por transportar apenas quatro gramas de uma planta proibida, mas ninguém prende os guardiões do Rei que exportam impune e sistematicamente FLORESTAS DE MADEIRA PROIBIDA para o reino de Bruce Lee.
Contudo, há quem acredite que foi mesmo por causa do instrumento de combate. Dois dias depois, o rapaz foi liberto, mas não se sabe se ele viverá feliz para sempre.
*PS: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
*
Mia Couto

quarta-feira, novembro 07, 2018

Pensando diferente


Em vez de convidar os ricos para uma pose inaugural da Ponte paga em leilão, a Maputo-sul podia ter arregimentado os batalhões de pobres urbanos produzidos também pela decisão errática de se construir um monstro sobre-facturado como aquele quando havia mais alternativas e podia ter sido feito barato. A Maputo-sul podia ir buscar as crianças deserdadas da Dom Orion ou essa moldura de nossas velhas e velhos andando pelas ruas da cidade, catando esmolas a uma sociedade cada vez mais incapaz de partilhar. 
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Podia ter ido buscar as milhares de crianças nas escolas suburbanas da grande Maputo, dando-lhes uma flor, um balão e um lanche, e elas abençoavam a ponte na espontaneidade de cada sorriso, insuflando seus sonhos com um futuro onde elas, também elas, um dia, poderiam calcorrear aqueles atalhos de betão e metal suspensos por cima do mar. Podia ter organizado os chapeiros numa romaria de ida e volta, carregando a vastidão dos pobres que habitam nas duas margens, naquela que seria, talvez, a sua única experiência de uma transição para a Catembe através de uma ponte que, afinal, não tem nada de social mas é, afinal, um projecto para as famílias endinheiradas da cidade. A ponte para a Catembe, percebe-se agora, foi um projecto de uma elite que se agarrou nos recursos do Estado e fez dele propriedade particular. Agora estão ávidos de curtir esse proveito.

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Projectaram uma ponte apenas para viaturas para que os pobres estivessem longe dela. A ponte é para eles! Para nossa elite de rapina! Por isso vão competir para a pose do carro inaugural. E, veremos nós, o dono do carro que vencer o leilão pagará milhões. No meio da crise, que elas próprias causaram, há quem se dispõe a um laivo de ostentação. E esse carro da pose histórica da ponte, um insosso expediente de status, não vai ser um qualquer Avensis de classe média nem uma dessas geringoças de papel, importadas em segunda mão do Japão. Não! Vai ser um Lexus 4x4 ou um Porche Cayenne. A ponte foi feita para eles. Eles é que vão brilhar!
Resultado de imagem para ponte catembeNão é o pobre, não! Esses estão já arredados da fanfarra. Nem agora nem nunca. Por isso, a Maputo-sul já calculou  preços altos da travessia, alegando que é tudo para a manutenção. Essa manutenção ainda não foi contratada.  O concurso foi lançado apenas na semana passada. Mas já tem preço para pagar a manutenção. Só esperamos que o futuro “manutendor” não aumente esse preço quando fizer, ele próprio, os cálculos relevantes.
A inauguração da ponte devia ser um motivo de festa e orgulho para os moçambicanos. Mas parece que vai calcar ainda mais o sentimento de um povo cada vez mais destinado à miséria. Um povo que, no dia em que o Estado “desconseguir” de pagar a dívida da ponte e ela se tornar propriedade da China, vai ter que pagar o seu encargo. Sim, quem vai pagar com seu suor e privações é o moçambicano comum. Não é o tipo do Porche. Esse nunca pagou nada. Nunca vai pagar nada! Porque tudo o que ele tem não lhe pertence. Incluindo os dinheiros da compra da fotografia inaugural. E o coitado do Porche! (M.M.)