sexta-feira, junho 08, 2018

Quanto maior a corda, melhor.....

O partido no poder lançou as comemorações dos 50 anos do II Congresso, cujo ponto mais alto será a 25 de Junho próximo, na localidade de Matchedje, distrito de Sanga, no Niassa, e foi entrevistado o docente de ciência política, João Pereira, para uma leitura pontual sobre a Frelimo de hoje. Para Pereira, 50 anos depois do II Congresso da Frelimo, a única memória positiva é o facto de ser o movimento que libertou o país. É que, disse, a Frelimo tem sido, sobretudo nos últimos 25 anos, um desejo menos uma posssibilidade.
Resultado de imagem para joao pereira maputo“Decepção porque grande parte da elite política da Frelimo perdeu os seus valores como ética, integridade e solidariedade com o povo. Hoje, a Frelimo e os seus dirigentes parecem mais máquinas de acumulação primitive de capital do que servidores dos interesses mais nobres do povo moçambicano”, precisou o académico, para quem “a Frelimo moralista, galvanizadora ou agente transformador da sociedade, deixou de existir”. Entende que, como partido, a Frelimo está num estado de degradação e a seguir um caminho que não representa aqueles que foram os seus grandes e nobres valores, e diz que é muito triste ver um partido desta dimensão neste estado por causa da ganância. “Deve ser muito penoso para aqueles que são saudosistas  da era da purificação das fileiras na Frelimo. Deve ser doloroso para um Jorge Rebelo, para certas figuras da Frelimo, para milhares de antigos combatentes sem benefícios, quando 10 ou 15 famílias da Frelimo é que têm força suficiente para beneficiar de tudo; deve ser muito penoso para eles porque não foi isso que lhes levou a lutar”, comentou. Afirma que os moralistas de ontem são os grandes lobistas de hoje. “Nacionalizaram grande parte do que era propriedade privada dos colonos para eles se tornarem os novos proprietários. Nacionalizaram grande parte das fábricas para hoje se tornarem os grandes proprietários das fábricas, mas com a única característica de que as fábricas deles já não produzem nem criam riqueza para o país. Grande parte deles, aquela elite que tanto defendia o campo, a zona rural, a transformação do campo, hoje simplesmente são lobistas e vivem do lobby”, sublinha, repudiando que “não é essa a Frelimo que nós os moçambicanos sonhávamos”. Diz que o partido perdeu os princípios no processo da liberalização da economia, em finais da década de 80 e início da década de 90. “A morte do presidente Samora, a saída dentro da esfera do poder de algumas figuras emblemáticas que deixaram de ter o seu peso na estrutura do partido, a entrada duma geração mais virada à ganância, ao control do poder, ao controlo económico, ao roubo, ao saque, a fragilidade das instituições de justiça, que foi feita de propósito para facilitar essa ganância toda, então, chegou a uma altura em que elas próprias, as lideranças, perderam o controlo”, disse.
Imagem relacionadaPara ele, as ligações com o grande lobby internacional de tráfico de influências, das negociatas, do enriquecimento ilícito, tudo isso fez com que grande parte das elites da Frelimo perdesse o seu norte. “A partir da década de 90 começámos a ver a degradação da propria Frelimo. Até certos sectores da liderança da Frelimo diziam até que o cabrito come onde está amarrado, só faltou dizer que quanto maior for a corda, melhor e porque o raio de acção e da comida é maior quer dizer quando você chega a este extremo, mostra claramente que já não havia outra saída a não ser cabrito e esperar que em volta houvesse mais capim para comer”, comenta. Questionado se a Frelimo vai ou não a tempo de recuperar os seus princípios, foi peremptório em afirmar que não acredita, porquanto grande parte das pessoas honestas, que têm valores e que podiam ser elementos transformadores dentro da estrutura do partido, ou estão marginalizadas ou desligaram-se do partido para evitar chatices. Anotou também que, ao nível da Frelimo, não existe uma predisposição de ir buscar esses elementos e trazê-los dentro do partido ou se existe, é simplesmente para acomodá-los, mas não lhes dar espaço de transformação. “Mesmo se existir esse indivíduo vai ser um pastor sem seguidor porque grande parte da actual elite política da Frelimo sobrevive a partir de redes clientelistas, do roubo, da reprodução de influências, do gangsterismo, de tudo o que é mais nefasto hoje na sociedade, é encontrado dentro do partido Frelimo também”, remata. Vinca que a situação é tão grave que, se alguém aparecer no partido a pregar valores, não terá seguidores. “Até vai ser zombado, dizendo que ‘esse velhote está caduco’, como o fazem com Jorge Rebelo, que dizem que ‘está cansado o velho’. É como você criar uma igreja e você sozinho entrar com a bíblia querer pregar evangelho, mas ninguém está para lhe seguir, nem para aplaudir, então, você vai ficar isolado”, metaforizou. Lembra que antes havia um mecanismo de casting para a entrada nas fileiras da Frelimo e lamenta que hoje qualquer indivíduo, seja ele ladrão ou não, ingressa no partido sem passar por nenhum crivo. Pereira não tem esperança de que o partido recupere os seus valores nobres, pelo menos, nos próximos anos.
Resultado de imagem para frelimo“Os valores da ganância estão sendo transmitidos dos antigos fundadores que se tornaram em grandes burgueses a partir da captura do Estado e da sua própria reprodução e desenvolvimento da rede clientelista, estão a ensinar até aos seus próprios filhos que aquele é que é o caminho e não estão a resgatar os valores da Frelimo”, lamenta Pereira, que vê uma Frelimo moribunda e sem coragem de se tornar naquela força aglutinadora que já foi. Diz que o mais grave é que esse é o legado que a Frelimo vai deixar, o facto de ser o partido que espalhou corrupção na sociedade inteira

terça-feira, maio 29, 2018

QUEM SÃO OS “CAMIONEIROS” QUE PARARAM O BRASIL?

Resultado de imagem para greve camioneiros brasilPara grande surpresa dos meios políticos brasileiros, a primeira greve geral bem sucedida, desde os governos reacionários e tucanos dos anos 1990, é uma greve quase espontânea, por adesão e solidariedade inconsciente, porém objetiva dos trabalhadores. Objetiva solidariedade – todos ganham muito pouco, renda não suficiente para sustentar uma família, péssimas condições de trabalho, total insegurança em matéria de assistência à saúde do trabalhador e sua família. Em recente pesquisa realizada², verificou-se que o rendimento dos caminhoneiros variava, em 2015, entre R$ 1.470,00 no Nordeste, e R$ 2.150,00 no Centro-Oeste. Que família, expropriada de capital cultural e de capital fictício, sem o guarda-chuva da herança imobiliária que protege os ricos, que família nessas condições pode sobreviver dignamente?
O preço do aluguel em moradia de quarto e sala em favela do Rio de Janeiro não sai por menos de R$ 500/700,00. Na verdade, nos grandes centros e cidades médias os gastos com moradia (incluindo luz, gás, IPTU) , transporte e alimentação para família de 3 ou 4 pessoas consomem facilmente um salário ou rendimento mensal de R$ 2.000,00. Cadê dinheiro para o resto? Como pagar o alojamento na estrada à noite? O jeito é dormir no caminhão, na boléia! Isto é vida?

Resultado de imagem para greve camioneiros brasilA irresponsabilidade e o entreguismo da diretoria da Petrobras, que aumentou em mais de 50% o preço do óleo diesel no espaço do últimos 12 meses, para beneficiar tão somente especuladores internacionais, é uma bofetada violenta na cara de 2 milhões de caminhoneiros que trafegam diariamente por estradas inseguras e sem qualquer fiscalização ou medidas de segurança visando a pessoa do trabalhador – o motorista do caminhão. São estes fatos que acabam por gerar o sentimento de solidariedade entre trabalhadores. Sem maiores argumentações racionais. Ou se ajudam e se unem, ou morrem todos. Provavelmente viverão melhor, os que não são autônomos, isto é proprietários do seu caminhão, viverão melhor abandonando a estrada e fazendo bico nas cidades, o trabalho “em negro”, de qualquer natureza, mesmo ilícita.  É assim que prolifera a violência nos centros urbanos em países da periferia abandonados por governos submissos ao financismo imperial.

Resultado de imagem para greve camioneiros brasilSegundo a pesquisa de Lucas Lima, reproduzida em O Globo, caminhoneiros não são “ignorantes”. 58% deles completaram o ensino fundamental e 35% concluíram o ensino médio. Pouco importa, os dados indicam que 43% trabalham por tempo maior do que o fixado em lei como limite superior semanal, as 44 horas semanais. Isto quando havia lei regulando as condições de trabalho. Após a reforma trabalhista deste governo não-legítimo, porque não foi eleito pelo voto popular, nem esta proteção existe mais.  Hoje vale tudo, a nova ordem é a máxima exploração da força de trabalho. Para fins de maximização de lucros, lícitos ou ilícitos!
Resultado de imagem para greve camioneiros brasilComo podem trabalhadores instruídos suportar tanta humilhação, tanta injustiça, em setor da produção nacional onde empresários e especuladores acumulam milhões e bilhões com relativa facilidade?  Vejam a fortuna que a Petrobras acaba de adiantar ao JP Morgan – R$ 2 bilhões, diz a imprensa!
Resultado de imagem para greve camioneiros brasilDesde a insana Lei Kandir, dos governos tucanos, o Brasil abre mão de impostos necessários para a construção de vida digna para os trabalhadores brasileiros, abre mão em beneficio de países ricos com os quais mantém fluxos intensos de comércio de mercadorias. Renuncia a impostos essenciais em beneficio dos lucros das corporações mundiais e do bem-estar de cidadãos de “primeira classe”, os que vivem nos centros imperiais. Agora mesmo, assistimos na Itália, um governo de direita propor renda mínima de subsistência para seus cidadãos, no valor de 780 euros, aproximadamente R$ 3.200,00.  Renda mínima sem necessidade de trabalho produtivo.  Sem geração de lucros.  150% ou mais superior à renda média dos caminhoneiros brasileiros. Anote-se que este valor proposto como renda mínima corresponde, aproximadamente, à média dos salários mínimos da Europa Ocidental e Setentrional.

Resultado de imagem para greve camioneiros brasilÉ justo subsidiar cidadãos ditos de “primeira classe” com isenção de impostos sobre produtos exportados, como fez a Lei Kandir inicial e suas derivações desde 1996? Em detrimento da saúde do trabalhador brasileiro? Não é justo! É profundamente injusto. Mas é assim que se desvia parcela enorme do excedente econômico produzido pelo trabalhador brasileiro, se desvia esta parcela para o exterior, para o mundo dos ricos e ex-colonizadores, eternamente exploradores. Outras formas, tão sutis quanto esta, existem e subtraem dos brasileiros a maior parte dos frutos do seu trabalho produtivo. Por isto nosso povo é pobre. Por isto nosso povo vive mal. Moram em favelas e nas ruas, os 30% ou mais que não possuem moradia própria. Está ameaçado de perder a escola e a saúde públicas, graças ao “decreto maldito”, de congelamento do gasto público por décadas.  Aposentadoria quando ainda se dispõe de saúde para viver em paz e curtir a família? Nem pensar, afirmam os poderosos. Pobres e remediados devem trabalhar até a véspera de descansarem nas covas.  Bolsa família para quê? Dizem os ricos que bolsa família só serve para incentivar preguiça?! Maldade extrema, negar comida em país com tanta terra mal aproveitada e apropriada por minorias privilegiadas!  Cadê a reforma agrária, pela qual lutamos há mais de meio século?

Resultado de imagem para greve camioneiros brasilTudo muito violento. Tudo muito injusto. Por isto os trabalhadores se revoltam. Surgem greves espontâneas, sem organização. Na base da solidariedade inconsciente. Por necessidade de sobrevivência. Como resposta às injustiças. Contra isto as medidas de força emanadas do governo podem se revelar inoperantes. Em quase toda América do Sul, o Império está vencendo graças ao entreguismo dos governantes de plantão. Mas até quando?
Não resistirão os entreguistas a ELEIÇÕES LIVRES, em todos os níveis de poder representativos da soberania popular. Precisamos extinguir o  judiciário vitalício. Revogar com urgência as medidas de alienação do patrimônio produtivo nacional, estatal e privado, revogar a desnacionalização que sustenta a opressão do povo brasileiro e a concentração da renda mundial nos centros imperiais. Esta é a nossa luta.  PELA LIBERTAÇÃO NACIONAL! QUEREMOS DEMOCRACIA E JUSTIÇA!

Por : Ceci Jurua
Economista, Doutora,  e especialista em transportes no Brasil