
Professor, como
é que olha para o actual estágio do ensino superior em Moçambique?
O facto de o
ensino superior se ter transformado em business não atenta contra a qualidade
de ensino?
Não
atenta, não. O ensino, a educação, é um business que tem de meter dinheiro para
manter o nível e a qualidade de vida do pesquisador e do professor.
Mas essa
perspectiva comercial não põe em causa a qualidade mesmo?
Não,
senhores. E volto a Marx: a qualidade está na quantidade. Eu chamo muitos
daqueles que defendem a qualidade em todas as esquinas, de ruminantes da
qualidade. Você não vai discutir qualidade, neste país, sem quantidade. Onde
não há expansão territorial e quantidade, não há um bom indicador de qualidade.
Meta todos, altere a mente. Vamos aplicar o conceito de Max Weber, o sociólogo
que diz que “ai de nós se na educação, pensarmos mais no professor do que no
aluno”. A expansão da educação e do ensino superior em Moçambique está atrasada
com o ritmo das necessidades.
Mas Professor…
Questione-se o conteúdo programático. E na sua opinião o conteúdo
que se dá nas nossas universidades prepara o Homem para os desafios que se lhe
colocam no nosso contexto? Não o suficiente que queremos porque o mundo está
rápido. A questão é: quantos filhos de Chicualacuala entram na UEM? Poucos ou
nenhum. De Massangena? De Mabote? Não quero ir para o Niassa, lá no mato. Não
têm direitos eles de entrar como os filhos que estão na cidade? Não é uma
rasteira política perigosíssima esta?
A propósito da
rasteira que tanto repisa, dizia-nos, há dias, em conversa, que se a Frelimo
quiser se manter no poder por mais tempo, deve abolir os exames de admissão
para o ensino superior. Quer se explicar melhor?
Um exército de
licenciados, isto é, de pessoas formadas, mas no desemprego, não pode também
ser perigoso para o partido?
Eu sou
contra os que produzem este pensamento a dizer que nós temos um exército de
licenciados parasitas. Mentira.
Mesmo pululando
pelas ruas por falta de um emprego?
Ensina-lhes
para terem emprego e fazer auto-emprego. Vamos discutir o conteúdo programático
e não a estrutura.
Portanto, não
preocupa o Professor o facto deste país estar a formar cada vez mais pessoas,
mas em contrapartida, a crescer o número de desempregados formados?
Não. O
desemprego é um problema que temos de discuti-lo política e tecnicamente. O
ensino é só para ser só empregado? Então, vamos discutir o conteúdo
programático, mas não o acesso ao ensino. Porquê temos medo de pegar no ensino
e agitá-lo, não no acesso, mas no seu conteúdo?
Uma das medidas
bastante criticadas do Professor Machile enquanto reitor da UP foi a introdução
do chamado PAGE Planificação e Administração Escolar que, em alguns sectores,
foi visto como uma vulgarização do ensino superior. Acha que foi mal entendido
neste assunto?
Com a chegada de
Rogério Uthui, como reitor da UP, a PAGE, emprestando um vocábulo da economia
agora em voga, foi “intervencionada”. Acha que ele também é medíocre?
Não
gostaria de responder o exercício do meu sucessor. Ele respondeu a uma
necessidade também, mas ele não era da área da educação, ele veio da UEM para a
UP e não sei o que veio da cabeça do presidente Guebuza para coloca-lo lá
porque não era candidato e nós tínhamos pessoas. Agora, ele tem qualidades
enormes. Eu é que mandei o Uthui para ir se formar na Bielorrússia. Tem
qualidades enormes, agora, não é o que nós queríamos na educação, mas ele
continuou com o projecto de expansão territorial da UP. Meteu outros cursos no
meio ali. Mas aí eu digo que Uthui podia ter sido mais cuidadoso. Neste país
somos ainda 40% ou mais analfabetos. Não acha que a educação ainda é
extremamente prioritária? Em vez de dedicar 90% de atenção na resposta à
exigência prioritária de formar professores, discutir o conteúdo programático
da alfabetização, do primário, do ensino técnico, da universidade e dizer ao
Governo que o caminho é este, começou a meter muitas coisas, que é a vocação
dele: ele é um cientista natural, é um físico. Pode não ter errado, mas tirou a
vocação da UP e compete aos que chegaram agora ir recuperar a vocação da UP
porque é uma necessidade prioritária deste país.
A UP nasceu como
uma instituição vocacionada, exclusivamente, à formação de professores, mas
hoje questiona-se o P, alegadamente, porque de pedagógico a universidade já tem
muito pouco por ter virado as atenções ao bussiness, ou seja, na oferta de
cursos virados ao mercado. Como alguém que se bateu por uma UP verdadeiramente
pedagógica, qual é o seu comentário?
Até
porque podem formar em todas as áreas, mas a prioridade deve ser a sala de
aulas. Isto é que Moçambique precisa.
Claro.
Essa proposta nem é nova. É de Chissano, em 1998. O projecto é que a
universidade deve ir ao distrito e não se pode fazer uma universidade para os
distritos de Manica e de Tete, estando em Maputo. Até porque a meta é cada
província com o seu reitor para ser responsável da expansão do ensino superior
no distrito, que é o pólo de desenvolvimento. Em cada distrito há 12ª classe,
então, a Universidade deve ir ter com os jovens e também é um contributo para a
democracia. O ensino superior deve ir ao distrito e se a Frelimo demorar, há-de
fazer o MDM.
Como assim?
Sim, no
dia em que o MDM entrar no poder, há-de fazer isso porque não se vai contentar
de ficar com o que fazemos. Sabe que um dos candidatos a último reitor da UP
foi (Silvério) Ronguane do MDM que chegou a ficar em quarto lugar. Ou a
Universidade vai ao distrito ou a Frelimo morre.(SAVANA)
0 comments:
Enviar um comentário