Mas houve
quem pretendesse transformar o desastre num mistério, antes sequer do início
das investigações. Recorreu-se à desinformação, orquestrada a partir de Maputo
e de Moscovo. São conhecidos os que consciente ou inconscientemente agiram como
agentes da desinformação. A estes sucedem-se novos agentes, como que a manter
viva uma versão meticulosamente construída, divorciada da realidade e da lógica
– e do bom senso. Os novos agentes não diferem dos antigos: desconhecem as
circunstâncias do desastre, não se esforçam por estudá-las ou aconselharem-se
junto de quem de direito. Mas são tidos como pessoas de renome, as tendências
políticas de cada um – todas inseridas num mesmo espectro – um valor
acrescentado. Com a mesma arrogância e desplante, decidem à sua maneira o que
terá acontecido há mais de três décadas, omitindo factos e passando sobre
regras e princípios de aeronáutica, contribuindo assim para escandalosa e
flagrante adulteração de um episódio recente da história de Moçambique.
Pedro de
Pezarat Correia integra a nova geração de agentes da desinformação. Faz parte
dos que desinformam por insinuação. Não são, portanto, directos, tornando-se
óbvia a intenção de dar consistência a teses de conspiração. Pezarat Correia é
militar de carreira. Especializou-se em Ciências Militares. Em afamada
universidade portuguesa, instalou e leccionou a cadeira de Geopolítica e
Geoestratégia. É autor e co-autor de muitas dezenas de livros e trabalhos sobre
geopolítica e geoestratégia, estratégia e conflitos, guerra colonial e
descolonização. A seu favor, o facto de ter integrado o movimento que em Abril
de 1974 derrubou o regime vigente em Portugal. É, pois, um «Capitão de Abril»,
de “esquerda”, naturalmente credível, o que diz ou escreve aceite como válido –
depois repetido por quem o lê e dele aprende. Nada no perfil de Pezarat Correia
que indique ter conhecimentos de aeronáutica, ou que tenha dedicado tempo a
estudar questões de aviação para que pudesse assentar em bases sólidas o que
defendeu sobre Mbuzini em livro recentemente publicado. (1) Numa simples frase
revelando a ignorância do autor sobre as circunstâncias do acidente que vitimou
Samora Machel, lê-se que “as causas do acidente e o eventual envolvimento da
África do Sul continuam envoltas (sic) em mistério e nem o fim do apartheid
permitiu que o processo fosse reaberto e definitivamente esclarecido”.
George
Bizos é advogado. Notabilizou-se em casos de direitos humanos, envolvendo
presos políticos do regime do apartheid, incluindo Nelson Mandela. É próximo do
ANC e da família Mandela. Conheceu Graça Machel em casa de Nelson Mandela. Em
livro de memórias, (2) Bizos afirma ter ficado “impressionado com a
determinação de Graça Machel em provar que os militares sul-africanos eram
responsáveis pela morte de Samora Machel”. Bizos é apologista da teoria da
conspiração. Tal como Pezarat Correia e outros autores, (2) deixa transparecer
uma profunda ignorância sobre questões de aviação e das circunstâncias do
acidente, afirmando – melhor, repetindo – que “o piloto pensava que estava
prestes a aterrar, confundidos que estavam por faróis falsos, que os
moçambicanos afirmam terem sido instalados pelos militares sul-africanos”.
Daniel L.
Douek é um académico canadiano. Em 2017 publicou um estudo, cujo título é
esclarecedor: “New light on the Samora Machel assassination: ‘I realized that
it was no accident’”. O autor baseou-se em depoimentos feitos perante a
Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC) da África do Sul.A TRC não estava
habilitada a investigar desastres de aviação. Nenhum dos membros do painel da
TRC, incluindo o seu presidente e a jornalista que desempenhou as funções de
consultora, possuía formação em aeronáutica.
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1. «… da
descolonização. Do protonacionalismo ao pós-colonialismo», Porto. 2017, p. 332.
2. George
Bizos, “65 Years of Friendship”. Umuzi, Cape Town, 2017, p. 36.
3. Joseph
Hanlon e Marcelo Mosse, “Mozambique’s Elite – Finding its Way in a Globalized
World and Returning to Old Development Models”, UNU-WIDER, Helsínquia, 2010.


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