
Hoje, impera a economia do saque, sendo exemplo
disso, a devastação da floresta e da fauna bravia, de recursos minerais, dos
contratos pouco transparentes e com grandes benefícios fiscais e baixos royalties
com as
multinacionais do gás e petróleo, do carvão, das areias pesadas, de pedras
preciosas e do alumínio. São exemplos os contratos de exportação ao desbarato
da energia, os contratos para a construção de infra-estruturas megalómanas a
preços exorbitantes e realizados sem estudos de viabilidade económica, social e ambiental.
Imperam as relações promíscuas entre o partido no poder e o Estado, a
subjugação dos interesses nacionais aos da elite partidária. Existem os fluxos
directos e indirectos de recursos do Estado e das empresas públicas para
suporte de actividades partidárias. O procurement constitui um canal de corrupções comprovadas, que
articula empresas públicas e a administração do Estado com empresas muitas
vezes pertencentes às mesmas elites. O Estado assegura privilégios aos seus
servidores superiores e rendas para toda a vida. Por outro lado, o Estado é
fragilizado e desestabilizado com o objectivo de dificultar ou impossibilitar o
exercício das funções legislativas, de regulação, fiscalização e sancionamento.
Facilita-se, ou encobre-se, o não respeito pelos direitos humanos. Finge-se não
conhecer os mandantes e executantes de assassinatos políticos e de ajuste de
contas. Conhece-se e não se actua em relação a práticas de actos próprios da
escravatura na actividade do garimpo. Montam-se as frauds eleitorais. Mata-se. E
tudo isto, no essencial, com os mesmos dirigentes que lutaram pela libertação
do país e que propagandeavam o socialismo e os valores acima enumerados, entre outros.
Põe-se ainda a hipótese que tudo foi uma mentira meticulosamente arquitectada.
Infelizmente, grande parte desses moçambicanos, que poderia ficar na história
dourada de Moçambique,ficará nas páginas negras. Não é a estes que dirijo este
texto. A história não os absolverá. A história não será, e já não é, escrita
somente pelos vencedores. A questão deste texto é: por que razões os militantes
da FRELIMO que mantiveram condutas pessoais e profissionais decentes, continuam
militantes desta FRELIMO?
Por decência, refiro-me simplesmente ao não
envolvimento em casos de corrupção, ao enriquecimento não transparente, a práticas
de assassinatos, tortura e outras formas de agressão dos direitos humanos. Porque esses militantes se mantêm como militantes
da FRELIMO, mesmo ostracizados, mal-tratados e excluídos? Várias possibilidades
podem justificar para caso concreto (por pessoa ou grupos de pessoas). Quando
se pergunta a alguns desses militantes, a resposta tem um denominador comum: é
preciso fazer esforços de mudança a partir de dentro da FRELIMO, recorrendo-se
ao facto de, ao longo da sua história, terem acontecido grandes mudanças e que
estes processos são lentos e sempre acarretam riscos de desintegração da
organização. Alguns referem, ainda, que, mesmo com os problemas existentes, é preferível
esta FRELIMO a qualquer das alternativas do poder.
Pensando em outras possíveis razões, é possível
referir:
Todos
os militantes da FRELIMO possuem uma fidelidade (geralmente canina) ao partido.
Cimentam esta fidelidade vários tipos de compromisso criados natural ou
artificialmente, como sejam: segredos da guerra, de assassinatos, de negócios,
de alianças intestinas, de comportamentos desviantes à “linha política do
partido”, de lutas pelo poder, entre outros. A manutenção do sigilo fez, e
porventura ainda faz, parte dos mecanismos de protecção e reprodução do poder e
da imagem “imaculada” (já não) da FRELIMO e dos seus militantes. A quebra do
sigilo é considerada uma traição de consequências imprevisíveis. É prudente
evitar esses riscos e, por isso, muito dificilmente esses militantes “decentes”
dizem algo relacionado com os casos referidos, entre outros. Quase todos sofrem
de amnésia aguda e crónica. E, quando dizem, imediatamente são “chamados à ordem”
e acusados de “indiscipline partidária”. Diz-se que internamente há algum
debate, mas estes ficam nas quatro paredes. Talvez um dia o povo destruirá
essas paredes. Muita coisa, para além do que devem pensar, se sabe caros
militantes decentes.
A FRELIMO é poder e, com isso,
existem acessos multiformes a privilégios e mordomias de que os “decentes” beneficiam
(mesmo que sustentadas por leis que eles próprios imaginaram, escreveram e
aprovaram), como, por exemplo, casas, carros, negócios (decentes), lobbies, acesso à informação
privilegiada, recebimento de salários sem presença no local de trabalho (o que
se designa por “estar na prateleira”), entre outras. A saída da FRELIMO poderia
implicar a perda dessas importantes fontes de rendimento.
Finalmente,
a maioria já não é jovem e, naturalmente, resguarda-se no anonimato que a
sabedoria da idade lhes aconselha. As frases de que “isso agora fica para os jovens”
ou que “já dei o meu contributo” são bastante enunciadas. Lembram-se da frase “morrer pela
pátria? Regra geral, estas e outras razões estão presentes num mesmo caso
(pessoa). Mesmo considerando os erros cometidos, os militantes decentes merecem
uma forte vénia de respeito e reconhecimento pela simples, mas fundamental,
razão de se manterem coerentes com os princípios fundamentais da ética, dos
sacrifícios consentidos e do contributo para a libertação. Mereceriam muito
mais consideração e respeito se se desmarcassem desta FRELIMO actual.

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