A imagem que aqui se reproduz foi publicada na primeira
página do diário «Notícias» de Maputo. A edição é de 6 de Novembro de 1986. O antigo Presidente Joaquim Chissano está sentado ao lado de
Vladimir Novoselov, Mecânico de Bordo do Tupolev 134-A, que se despenhara em
Mbuzini cerca de duas semanas antes, com o Presidente Samora Machel(foto 3) a bordo.
Segundo a reportagem do «Notícias», Chissano havia-se deslocado à
Missão Comercial soviética em Moçambique para apresentar cumprimentos de
despedida a Novoselov no mesmo dia em que este partiu para Moscovo.Para a maioria dos leitores, a partida de
Novoselov, a 5 de Novembro, não tinha significado especial. À primeira vista,
tratava-se do regresso de um cooperante ao país de origem, se bem que em
circunstâncias diferentes dos demais. Cerca de 10 anos mais tarde, porém, a
saída de Novoselov adquiria outros contornos.
Nos finais de Novembro e princípios de Dezembro de
1986, encontravam-se em Moscovo, como parte das investigações do acidente de
Mbuzini, peritos moçambicanos e sul-africanos. Apresentaram à parte soviética
um pedido formal em nome das delegações do Estado de Registo da aeronave
sinistrada (Moçambique/foto 5) e do Estado de Ocorrência do acidente (África do Sul)
para que fosse organizada uma entrevista com Vladimir Novoselov. Os soviéticos
impediram uma vez mais que Novoselov prestasse declarações, alegando não haver
meios para levar os investigadores a Leninegrado, a cerca de 400 km de Moscovo. Não era a primeira vez que Moscovo escondia provas
no âmbito de investigações de acidentes aéreos. Três anos antes do acidente de
Mbuzini, um Boeing 747 das Linhas Aéreas Coreanas (KAL), que seguia de Nova
Iorque para Seul, era abatido por um Su-15 soviético por ter penetrado uma zona
proibida do espaço aéreo da União Soviética. De início, as autoridades de
Moscovo negaram ter conhecimento do caso, mas mais tarde admitiram ter abatido
o avião por alegadamente encontrar-se em missão de espionagem. Não foi possível aos investigadores da ICAO
determinar com exactidão as circunstâncias do desastre pois não haviam
conseguido encontrar as caixas negras do Boeing 747 sul-coreano. Estas já
haviam sido recolhidas pela marinha de guerra soviética no fundo do Mar da
Japão, mas disso as autoridades da URSS não informaram a ICAO, nem o país de
registo do avião abatido.
A decisão do governo soviético de não permitir que
Vladimir Novoselov prestasse declarações a membros das comissões de inquérito
moçambicana e sul-africana, tem uma explicação: Novoselov era a testemunha
inconveniente, a testemunha idónea dos erros flagrantes cometidos por ele e
pelos colegas que tripulavam o avião e que viriam a causar o desastre de
Mbuzini; uma testemunha que não podia corroborar a existência do VOR falso,
desde o início inventada pela União Soviética como forma de lavar as mãos de um
acidente da exclusiva responsabilidade de uma tripulação que Moscovo havia
fornecido ao Estado moçambicano.
Para melhor entender os contornos da cabala
é imprescindível a leitura de um outro livro de memórias, este da autoria de
Sérgio Vieira, igualmente membro dessa Comissão de Inquérito e que à altura do
acidente de Mbuzini era ministro da segurança. A páginas 49 do livro, «Participei, por isso
testemunho», fazendo tábua rasa da prova documental da saída de Novoselov de
Maputo para Moscovo, tal como vem estampada na primeira página do «Notícias»,
diz o autor ao referir-se ao Mecânico de Bordo que havia sobrevivido ao
acidente:"Na saída do tripulante soviético para a URSS
directamente da África do Sul, onde esteve hospitalizado, em nada houve
envolvimento moçambicano, acordou-se entre as autoridades médicas soviéticas e
sul-africanas." E a rematar, num exercício claro de desinformação,
pergunta Sérgio Vieira: "Estariam os dirigentes de Pretória em conivência
com Moscovo?"
A esposa de Novoselov (foto ao lado) havia chegado a Pretória no
dia 22 de Outubro, tendo aparecido em público acompanhada de Nikolai Karpenko,
segundo secretário da Embaixada da União Soviética em Maputo. Funcionários
desta embaixada, enviados a Pretória, impediram que membros da Comissão de
Inquérito sul-africana entrevistassem, livremente, o tripulante soviético.
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