As
últimas eleições (?) gerais e das assembleias provinciais colocam-nos na
difícil posição de situar o tipo de modelo eleitoral adoptado pela nossa
Pasárgada. A dogmática e a academia colocam a democracia como um meio de
governação seguido nas nações civilizadas/modernas do mundo.Na academia, muito
se fala dos direitos humanos, cívicos e políticos, que, transposto para o mundo
em que vivemos, parecem resvalar no que é a realidade. Estas últimas eleições
(?) mostram que, em matéria democrática, somos “Alice no País das Maravilhas”.
A experiência faz emergir situações inimagináveis, à partida, maravilhosamente
belas, e que, depois, se convertem numa descida ao coração das trevas, numa
descida ao inferno.Este intróito vem a propósito das declarações da comunidade
internacional, que apoia com carácter cínico, sádico, a transparência e a
justeza das nossas eleições (?) – coloco ponto de interrogação porque o que
tivemos na nossa Pasárgada foi um concurso ideal de crimes, ilicitudes,
violações dos princípios elementares da Carta das Nações Unidas, no tocante aos
direitos humanos, cívicos e políticos.A indignação geral da sociedade
moçambicana, expressa em diferentes meios de comunicação e redes sociais, é
aterradora, quanto à conivência e ao sadismo com que a comunidade internacional
apoda estas eleições (?), com uma sofisticação tal que deixa entrever ouvidos
moucos e olhos grossos.Esta comunidade internacional, que agora nos atira areia
para os olhos, é a mesma que, ao abrigo do Clube de Paris (2005), financia o
Orçamento Geral de Estado, o qual, sabemos, é a fonte de um dos partidos
concorrentes. É a mesma que, com total cinismo, refere a desigualdade de meios,
imiscuindo-se a fazer uma análise incisiva sobre os pressupostos que determinam
o tal financiamento, um dos quais o comprometimento com a democracia.
Como não há bela sem senão, o que mais nos indigna no
relatório da comunidade internacional é a sugestão a um dos partidos
concorrentes no sentido de, querendo, recorrer aos órgãos competentes, para
apresentar a sua contestação. Depreende-se daqui alguma subjectividade, algo
como se a própria comunidade internacional não esteja suficientemente segura do
seu relatório. E perante a tal insegurança, mais não fez a comunidade
internacional senão colocar a carroça em frente dos bois, pois, a seguir à sua
declaração, surgem, às catadupas, relatos horripilantes e hilariantes sobre a
forma como decorreram estas eleições (?), diria, aqui, documentos eivados de
vícios e ilicitudes que presidiram ao dia da votação. Daqui, arrolam-se
eleitores que não votaram por os seus nomes não constarem nos cadernos
eleitorais, passando por mesas de votação que não abriram, enchimento de urnas,
contrários à lei que regula a matéria eleitoral. Arrolam-se ainda a Polícia,
numa acção pidesca/sisesca, a restringir aos cidadãos o acesso às urnas, nas
zonas em que os adversários reúnem supostamente mais simpatia.Nos diferentes
segmentos de opinião pública, salta à partida que a sociedade civil desta
Pasárgada levou a cabo um trabalho com maior diligência e abnegação, até ao
detalhe, comparando com o trabalho biscateiro desta comunidade internacional
asinina. A crença na nossa Pasárgada de termos uma comunidade internacional
rafeira, amoral e com a consciência a raiar para a amnésia, pois é convicção
dominante que a mesma veio cá para comer camarões, turisticar e mais nada. Que se passará com a Electricidade da nossa Pasárgada, que
foi conivente na acção criminosa do braço armado do Governo, que voltou a matar
tanto como matou nas anteriores eleições (?) – diria, aqui, festival de crime
organizado.O que tivemos foram crimes continuados por todos os lados:
assassinatos sumários a sangue-frio, assassinato de carácter contra um
determinado grupo de candidatos, com recurso a meios públicos de radiofusão e
televisão, prisões, seguidas de enchimentos de urnas, para garantir a
transferência de poderes do antigo rei ao novo, deste reino chamado
Pasárgada.E perante a farsa e a paródia ocorrida, nada se fez para que se
salvaguardasse o respeito pelas instituições. Os agiotas continuarão a explorar,
o crime organizado continuará a prosperar. Aos cúmplices, o que lhes interessa
é a posição, para regressarem, sentarem-se à mesa do rei, gozarem as praias e
desfrutarem das boas companhias “Made in Pasárgada”.Os que mataram, prenderam e
limitaram os potenciais eleitores de exercer os seus direitos esquecem que a
soberania reside neles. Tendo este direito sido pisoteado de forma grave, então
era uma vez o Estado de Direito!Eleições livres, justas e transparentes ainda
estão por fazer, já que estas deixaram muito a desejar. (A.Timóteo)