sexta-feira, outubro 11, 2019

Revitalizar!


Aqui vai a minha intenção de voto. 
Há sinais fortes de que estas eleições sejam decididas pelo voto imbecil. 
Resultado de imagem para elisio macamoQuem vota desta maneira não é aquele que vota pelo partido ou candidato que eu não apoio. Voto imbecil é o voto de protesto. É legítimo não estar satisfeito com o desempenho da Frelimo e do seu candidato. É também legítimo decidir, na base disso, não votar neles. A democracia é isso mesmo. O problema, porém, é que a democracia não é uma brincadeira de crianças que se punem negando apoio umas às outras. Democracia é uma das melhores maneiras encontradas para comprometer cada um de nós com o País. Quem não quer votar nos que estão no poder agora, tem que o fazer em plena consciência do que vai acontecer depois.

Dito doutro modo, o eleitor tem que saber ou considerar que as coisas serão melhores. Para saber isso, precisa de se informar sobre os outros programas e candidatos e na base dessa reflexão certificar-se que o País estará em melhores mãos. Dizer apenas tudo, menos estes, é não só votar de forma imbecil como também ser imbecil. Não há na história país que tenha sido construído por imbecis e tenha sido bem sucedido.
Resultado de imagem para voto imbecilAtenção que não estou a dizer que quem não votar na Frelimo e em Nyusi é um imbecil. Estou a dizer que não votar neles sem também ter boas razões para achar que um outro governo possa ser bom para Moz é votar de forma imbecil. Há anos, perante a escolha entre um candidato da direita (Chirac) e um da extrema-direita (Le Pen), muitos eleitores socialistas votaram em Chirac e logo a seguir foram lavar as mãos com sabão. No Brasil (à esquerda) e nos EUA o voto imbecil levou ao poder dois energúmenos que não só não trazem a solução que se esperava como também estão a destruir a democracia e o tecido social.

O voto imbecil decorre duma leitura problemática do País com três desdobramentos. 
          O primeiro consiste numa abordagem moralista da política. Espera-se dos governantes uma conduta moral e ética que simplesmente é irrealista. Isto não quer dizer que roubar fundos públicos ou tirar proveito pessoal dos cargos sejam condutas aceitáveis. Não são e devem ser sancionadas. Mas é um equívoco grave pensar que eles sejam responsáveis pela ausência de desenvolvimento. Não importa quantos doadores dizem isso e quanto dinheiro eles dão a incautos e oportunistas para promoverem a ideia de que a ausência de desenvolvimento é culpa dos governantes moçambicanos. O argumento da corrupção é a mentira do século e é profundamente anti-político porque promove a ideia de que desenvolvimento é questão técnica, não política.
         O segundo desdobramento consiste na ideia de que maus governantes necessariamente são maus para o País. Também não é verdade. Eu acho que o actual presidente não está à altura do cargo, mas não é por isso que o país está ou estará mal. A questão sempre é o contexto em que ele age. Tivemos presidentes com perfis completamente diferentes, mas os resultados não são necessariamente diferentes. O que é recordado como tendo sido o melhor, o barbudo, foi o que mais estragos fez ao País apesar (ou se calhar por causa) do seu carisma, da sua integridade e do seu suposto compromisso com o País. O que me mete medo em Nyusi é a evidente mediocridade do secretariado do partido - que inclui pessoas com evidentes dificuldades com a língua portuguesa, 40 anos depois da independência! - a trivialização da Comissão Política e a hostilidade crescente em relação ao pensamento crítico no interior do partido.
              O terceiro desdobramento consiste na ausência de visão. É verdade que, como se costuma dizer, quem tem visões precisa de psiquiatra, mas a pobreza é gritante neste quesito. O País é dum modo geral pensado em termos emprestados da indústria do desenvolvimento: acabar com a fome, analfabetismo e, claro, com a corrupção. Muita gente que se considera crítica percorre Moz de cima para baixo convencida de que isso é que é visão e nivela o debate na esfera pública com slogans e palavras que pensam por nós. Visão é algo mais profundo. Tem a ver com o tipo de valores que a nossa comunidade política deve emular. O debate político, então, é sobre o tipo de instituições que devem ser criadas, ou reforçadas, para que os princípios que promovem esses valores funcionem. O republicanismo, por exemplo, é o compromisso com a cidadania. O debate é sempre sobre as instituições políticas necessárias para que princípios como a liberdade de expressão, por exemplo, funcione como garante da cidadania.
Imagem relacionadaEu acho que a Frelimo e o seu candidato não representam o que de melhor existe na nossa sociedade. Infelizmente, os outros, pela leitura que faço das suas propostas, das suas intervenções e da sua postura, inspiram-me menos confiança ainda. Continuo a achar que estamos a escolher o menos mau, mas mesmo aí precisamos de ser cuidadosos. O que isso significa para mim é que já sei o que devo continuar a interpelar depois do dia 15. Vou insistir para que a Frelimo revitalize o partido. Vou insistir para que haja maior transparência governativa. Isso significa para mim que o governo tem que se abrir à assessoria pública. Não se explica que depois das dívidas ocultas o governo tenha tido o desplante de negociar e decidir sobre os destinos a dar aos proventos da exploração de recursos naturais em Cabo Delgado sem ampla discussão pública. Esse autismo governamental tem sido, desde os gloriosos tempos da “revolução “ um dos nossos maiores calcanhares de Aquiles. Finalmente, vou continuar a insistir numa maior reflexão sobre as instituições políticas. O acordo de paz definitiva foi a esse nível um grande retrocesso. Enraizou uma lógica neo-patrimonial que vai continuar a atrair para a política oportunistas, não patriotas. Foi o maior erro deste governo!
Mas, prontos, aí está a minha intenção de voto. Não é voto imbecil.
(Prof. E.Macamo )

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