quinta-feira, outubro 24, 2019

"Reencarnação"


Dizem, os que creêm em tal, que a reencarnação é como passar de uma vida, a primeira, após a morte nesta, para uma segunda vida, “funcionando” a sua alma dentro de uma outra pessoa, que vai agir como se da primeira pessoa se tratasse. Sendo isto “possível” nas pessoas, não há por que não possa ocorrer entre os imóveis. Aliás, acho-os até bem mais propensos: restaura-se um velho edifício e lá surge um novo edifício, de raízes bem fundas no velho, como que lhe possuindo igualmente a “alma”.
Conversados, já, sobre a reencarnação, situemos o Supermercado Mont´Giro. 

Para quem conhece a cidade de Quelimane, é o edifício que fica mesmo por baixo da direcção provincial da terra, ambiente e desenvolvimento rural, voltado de fronte para o balcão do reanimado banco que parece nos aglutinar, quando não confundir, pelas suas sugestivas quatro letras; na única lateral visível tem o balcão do “Aqui consigo”.Voltando aos tempos em que florescia, deste mesmo lado tinha pela frente o restaurante “Meireles Filho”, com os seus incontornáveis e sempre mais e mais apetecíveis pregos no pão – há quem jure pelos defuntos todos da família, afirmando que o segredo estava na frigideira que não conhecia água; vá lá saber-se... ele há cada uma! Visto frontalmente, tinha à sua esquerda, bem coladinho e, talvez, para não deixar dúvidas sobre a paridade de ambos, o Snack-Bar Coco; na mesma linha, geminado, debaixo-acima, o imponente e emblemático Hotel Chuabo. Do hotel só posso adiantar-vos especulações quanto à luxúria do seu...luxo. '


Do Snack-Bar Coco, sim, vos posso dizer com propriedade dos acepipes que por ali eram servidos – boa parte do que sei de cardápios aprendi por ali, à socapa. Frontalmente, ficava a Pastelaria e Salão de Chá Riviera; exactamente onde se procura dar vida a um banco que esteve dormente, se revivificavam corpos jovens e adultos, também das crianças aos fins-de-semana, com matabichos e lanches e ceias de encher o olho. Havia tudo o que uma pastelaria de primeira deve ter – sei-o melhor hoje, depois de conhecer um sem fim delas, dentro e... fora do país. Portanto, esta é a localização do então reluzente Supermercado Mont’Giro, com as suas mais variadas secções, como sejam confecções, calçado, brindes e brinquedos, peixaria, talho, etc. e mais.
O nosso Supermercado, à semelhança de todos os estabelecimentos comerciais “normais” do país, enfrentou a dura carência de quase tudo dos primórdios dos anos oitenta, desde produtos alimentares básicos à roupa, ao calçado. Nas prateleiras, apenas uns pacotes de chá e muito papel higiénico – que irónico! A vida regressava àquele estabelecimento comercial pela esperança, verdadeiramente última a morrer, das pessoas, muitas pessoas, ali rondando e até marcando bichas, de mulheres e homens, com pedras e quanto achassem conveniente, a ver se coincidiam com alguma coisa: fosse de comer! Vestir ou calçar, que o que interessava era poder comprar algo para a família, a modos de, em caso de vestir ou calçar, “desta vez te calhou a ti, vamos ver a quem calha para a próxima”, pois já não era tempo para todos de uma única vez em função unicamente do dinheiro possuído.
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Depois, foi o descalabro. Enquanto os outros se reerguiam, o Supermercado, único então em Quelimane, fechava portas e iniciava um ciclo pernicioso, quase irreversível, de pura e quase anunciada degradação. Situado nos baixos de um prédio com graves problemas de infiltração de águas, das chuvas, e carente de água, potável,não é muito difícil imaginar os contadores de água no rés-do-chão transformados em fontanários...do prédio! Água derramada pelos degraus acima e verdadeiros charcos nas fontes, naturalmente coroados de imundície. Só e abandonado, o Supermercado, mesmo inundado e imundo, e, talvez, até por isso,virou antro de marginais e indigentes, com tudo o que demais isso implica. Era até bizarro, dizer-se que, então, acima dele estava a direcção da coordenação da acção ambiental!
Passaram-se anos e anos e, de repente, ouvem-se rumores sobre disputas de “costas quentes” sobre quem seria, finalmente, míster das muitas obras a fazer e novo dono da casa. A cor das chapas trocadas antes do início das obras serviram perfeitamente para compreender isso mesmo. Tal como o surgimento do fumo branco no Vaticano é o anúncio da indicação do novo Papa.
Mais importante é que as obras arrancaram: se retiraram as não sei quantas toneladas de lixo e esterco, sugaram-se as águas barrentas, e se colocaram novos vidros onde os coloniais haviam sido estilhaçados e também se gradearam portas. Quer dízer, há ali sinais de algum renascimento, prenúncio de uma “reencarnação”. Oxalá, que, também neste caso, das cinzas renasça a Fénix!"(Por Tavares Braz in facebook)

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