quinta-feira, agosto 10, 2017

Para ler e pensar, sem rir nem chorar

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Hoje fui recenseado. Jovem simpática, de Inharrime (disse-me quando lanchávamos - fiz questão que assim fosse, para lhe descontrair, pois pareceu-me nervosa, quando nos bateu à porta). Enfim, veio-me à memória que estava no papel dela, há 37 anos, em Mocímboa da Praia, Cabo Delgado. Fazendo este post, por esta altura ter-lhe-ia acrescentado um outro qualificativo: "instruída", porque também me revelou que estava na décima classe. Mas não tenho a coragem de o fazer. Adjectivem-na como quiserem, a partir destes extractos do questionário a que tive de responder:


- "És branco?"
- Tu achas que eu sou branco? Não vês que eu sou negro, preto, ou lá como tu quiseres, minha filha?
- Oh, o tio é que sabe, escolhe lá!
- És malawiano, chinês, indiano...?
- Não, sou moçambicano
- Falas português?
- Claro, estou a falar contigo em português!
- Preenchi aqui licenciado, agora diz-me lá: estudaste?
Estávamos sentados em cadeiras assentes em chão revestido de mosaico:
- Qual é o 'apavamento' da tua casa?
Não resisti e perguntei à jovem, depois de conferir a pergunta, no respectivo campo do impresso:
- Sabes o que significa pavimento, telha e laje?
- Não sei, pai!
Apreciei-lhe a sinceridade e honestidade, coisa rara, hoje, e mais ainda quando aceitou que eu lhe explicasse, com exemplos concretos.

- O pai diz que nasceu em Inharrime, agora diz-me lá: desde quando está em Maputo?
- Em Maputo ou Matola?
- É mesma coisa, pai!
- Trabalha em empresa pública, privada ou 'currupição'?
- 'Currupição'?
- Eh pá, deixa ver: 'co-o-pe-ra-ti-vo', é isso aí, pai!
- O pai tem piscina, aqui?
- Não!
- Quer dizer, não pratica aquacultura?
- OK, já percebi, não, não crio peixes ou outras coisas que vivem e crescem em água. Mas sabes o que é aquacultura?
- Não, não sei!

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Um apelo a todos que ainda podem ajudar: temos que ajudar muitos dos nossos recenseadores, o mesmo que dizer, ajudar o nosso Estado, para que possa ter resultados que lhe possam ser úteis em qualquer coisa. Se não o fizermos, é claro que se está a deitar dinheiro à rua. Uma pergunta: alguém duvida, ainda, que em matéria de Educação temos que rever tudo? Alguém se ofenderá se eu recordar que a administração colonial foi garantida por pessoas com apenas quarta classe, primeiro ciclo e segundo ciclo do ensino geral? Não aponto culpados, mas posso apontar aqueles que resistem em não ver o descalabro que se aproxima, perigosamente, do nosso querido país, e tudo por causa da arrogância e fanfarronice políticas! (L. Loforte)

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