quarta-feira, setembro 09, 2020

Salazar vê mão americana

Redigida há precisamente 60 anos, a carta de Eduardo Mondlane é endereçada a Adriano Moreira. Trata dos preparativos da visita que planeia fazer a Moçambique, acompanhado da esposa e filhos. Remetente e destinatário estão conscientes do significado da visita.

Eduardo Mondlane tem um plano delineado. Antes da visita participara no intrincado processo de descolonização dos Camarões, marcado pela guerra e por divisões decorrentes da colonização britânica e francesa. Aposta numa solução diferente para Moçambique, que visa evitar a repetição do processo da independência dos Camarões. Para tal, está disposto a seguir a via da transição – pacífica, moderada e acima de tudo apaziguadora – , que assegure a integridade do território.

Portugal, um país que não quer descolonizar por saber que não tem capacidade para recolonizar. Um país atrasado da Europa. Atrasado economicamente e na maneira de pensar e agir. Vai perdendo oportunidades, umas atrás das outras. A oportunidade criada pela visita de Mondlane uma delas. Mesmo um ano após o início da luta armada da Frelimo, Mondlane apresenta a Salazar a criação de uma comunidade lusófona, da qual a questão da independência das colónias portuguesas não é condição.

Salazar vê em Mondlane mão americana. A mesma mão por detrás da tentativa de golpe palaciano do ministro da defesa, Botelho Moniz, que Salazar faz abortar por decreto. Não aceita o direito dos Estados Unidos se imiscuírem na política ultramarina portuguesa. Por não terem legitimidade para defender os interesses dos povos africanos, pois na terra de Kennedy os afro-americanos são alvo de discriminação racial. Nas escolas que construímos em África, argumenta o regime de Salazar, alunos de todas as raças frequentam os mesmos estabelecimentos ensino; nos Estados Unidos é o próprio Kennedy a ameaçar o governador de Alabama de que não hesitará em desdobrar a Guarda Nacional para assegurar que um estudante negro possa frequentar uma universidade só para brancos; onde activistas de direitos humanos ainda dizem «ter um sonho de que os filhos um dia possam viver numa nação em que não sejam julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu carácter»; e que Portugal tem direitos a possessões ultramarinas da mesma forma que Hawaii é parte da federação americana.

A retórica de Salazar não aborda a questão concreta com que Portugal se debate em África. Quem o substituiu anos mais tarde, vai dar «continuidade» ao sistema, se bem que de forma «evolutiva». Mas há também uma evolução no pensamento de Mondlane, como concluiria depois Adriano Moreira. E depois da morte de Mondlane, a evolução da Frente que ele dirigiu é marcante, mais profundo o distanciamento com Portugal e em relação ao próprio Mondlane. 

Se o primeiro presidente da Frelimo, entre outras coisas, defendera a criação de uma comunidade lusófona, não deixando por isso de ser reconhecido como herói nacional, outros moçambicanos foram condenados por traição por defenderem, não a comunidade proposta em 1965, mas a autonomia progressiva enunciada por Caetano; o direito a um governo democrático consagrado no primeiro programa da Frelimo, foi depois considerado de heresia e os seus defensores igualmente punidos. Com a ajuda dos que sucederam a Caetano e que se diziam seguidores dos ideais e princípios da democracia. Esta seria adiada – e sistematicamente negada aos moçambicanos.

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