segunda-feira, setembro 14, 2020

Profetas? “Por seus frutos os conhecereis”

"Será que o que preocupa as ilustres deputadas são as mesquitas onde os crentes oram, refrescam a sua fé?... Já fizeram o levantamento do número de barracas, de discotecas, de clubes noturnos onde se fomenta a imoralidade, a prostituição e a pouca-vergonha?"

De seguida transcrevemos na íntegra a veemente nota de repúdio emitida pelo Sheikh Aminuddin Muhammad, datada de 09 de Setembro de 2020, na sua rubrica Crónica Semanal:

 

"Na crónica de hoje falaremos da questão levantada por duas ilustres deputadas da Assembleia da República relativamente às mais de 500 mesquitas existentes em Pebane, um distrito litoral com cerca de 200.000 (duzentos mil) habitantes, situado a Norte da Província da Zambézia, no limite com a Província de Nampula.  Num País com inúmeros problemas como a pobreza absoluta, a falta de água potável, os assaltos, os assassinatos, os roubos, a proliferação de meninos de rua, a malária, a sida, e agora o coronavirus e muitas outras doenças endémicas, será que a preocupação com o número de mesquitas em determinada zona constitui prioridade?

Há muitos mais problemas graves que carecem de atenção, cabendo a cada um de nós dentro das suas capacidades, competências e espírito patriótico contribuir na procura de soluções para esses problemas.

Mas infelizmente há quem esteja empenhado em desviar a atenção a esses graves problemas, tentando criar outros, onde não existem, tudo com o intuito de provocar conflitos religiosos. Mas essa gente que saiba que estamos bem atentos, e sempre repudiaremos tais tentativas. Não admitiremos jamais que venham minar a nossa excelente convivência secular com as outras religiões. Não ousem deitar abaixo a harmonia, o respeito mútuo, a concórdia e a fraternidade construídos ao longo de séculos, apenas para satisfazerem fins obscuros. Pessoas nobres são as que beneficiam o próximo, e quando falam são justas e fazem coisas boas. Pessoas notáveis são as que não vivem só para si, mas sim vivem pensando sempre, que os outros também têm direitos sobre elas. E quando falam, reflectem primeiro nas consequências do que vão dizer.

A prática da liberdade religiosa está garantida pela Constituição da República.

Existem em toda a Província da Zambézia acima de 1.500.000 (um milhão e quinhentos mil) muçulmanos, não havendo nada na nossa Lei que determine o número de mesquitas que devem ser implantadas em termos proporcionais ao número de crentes, pelo que estes edificam os seus locais de culto em função das suas necessidades. E a maioria da população do Distrito de Pebane é muçulmana, e naturalmente que as comunidades neste distrito constroem mesquitas nessa base, para satisfazerem as necessidades dos crentes. A construção dessas mesquitas não tem nada a ver com o que está a acontecer em Cabo Delgado, pois as causas da violência nesta província são bem conhecidas, e a agressão só começou depois da descoberta de recursos energéticos abundantíssimos e de importância estratégica, quando os muçulmanos já lá viviam há muitos séculos.

O Isslam chegou ao Norte de Moçambique no século VII do calendário gregoriano, e o Cristianismo só chegou no século XV, isto é, 8 (oito) séculos depois. E nunca antes houve problemas de violência inter-religiosa, pois todos, muçulmanos, cristãos, animistas e gentes de outras crenças sempre viveram em paz e em total harmonia. Para além disso, as primeiras vítimas dos terroristas em Cabo Delgado são os próprios muçulmanos, pois as hordas aterrorizadoras nas suas incursões não poupam as mesquitas. Profanam-nas, vandalizam-nas, destroem-nas e queimam-nas, matando os seus líderes (imames).

Na realidade as mesquitas sempre foram a alma da sociedade isslâmica. E os que as frequentam e são educados dentro delas tornam-se cidadãos responsáveis, e edificam sociedades cujos cidadãos também se tornam homens conscienciosos. No Mundo existem diversos tipos de fábricas, desde as de vestuário, às de utensílios, de alimentos, de calçado, de carros, etc. E as mesquitas são como fábricas que edificam pessoas (honestas, verazes, íntegras, etc.), razão pela qual a primeira coisa que o Profeta Muhammad (S) fez quando da sua migração ao chegar à cidade de Madina, foi construir uma mesquita, por ser nela onde os crentes se aglomeram desde a aurora, para se ajoelharem, se prostrarem e escutarem os versículos sagrados, e assim corrigirem as suas vidas.

Será que é isso que muito incomoda a alguns?

A oração é uma conversa confidencial com Deus, e o seu efeito imediato está nas pessoas aprenderem a sinceridade para com o Criador, para com os outros, e também nos cuidados a dispensar às criaturas divinas, pois quem se treina a conversar de forma confidencial com Deus, com humildade, cinco vezes ao dia, e a praticar boas acções, purificar-se-á, abstendo-se assim da hipocrisia, da decepção, da traição, da fraude e da corrupção. É na mesquita onde as pessoas aprendem a disciplina, a solidariedade, a ética, a higiene, etc.

Jesus Cristo (que a paz esteja com ele) quando fala do sinal dos verdadeiros profetas diz: “Por seus frutos os conhecereis. Assim toda a árvore boa produz bons frutos”. (S. Mateus, Cap. 7, Vers. 16 – 17). Hoje os muçulmanos na generalidade se tornaram mais fervorosos, menos alcoólatras, menos adúlteros, menos viciados nos jogos de azar, menos tendenciosos ao divórcio, mais caridosos, etc. Moçambique é um País multi-religioso e multi-cultural. Há países que encorajam cada comunidade a manter as bases da sua cultura e religião por acharem que a sua estabilidade social assenta nesses dois aspectos. Os membros da sociedade desarreigados da sua cultura e religião assemelham-se a uma árvore desenraizada. Esse tipo de gente não é benéfica nem para com os seus, nem para com os outros.

Querer erradicar uma cultura ou uma religião é um tipo de loucura, o que pode contribuir para a violência e não para a edificação de uma nação. A cultura e religião das comunidades resultam de um processo gradual que foi ocorrendo ao longo da História. Cultura e religião não são algo que se imponha, pois impor forçosamente alguma cultura ou religião, pode desestabilizar a sociedade, e a consequência disso é sempre a desordem social Cultura e religião por si só já são coisas diferentes, e a posição correcta no que a isto respeita, é conceder liberdade a cada indivíduo, na condição de ele não usá-la para fazer destes dois elementos, meios para fomentar a violência. Cada um que siga o caminho por si escolhido, e que respeite o caminho escolhido pelos outros. O estudo da natureza humana indica-nos que as diferenças e divergências são parte intrínseca da vida humana, existindo nas diversas vertentes da vida. Não há nenhuma questão entre duas pessoas em que não sejam diferentes um do outro. Ainda que tentemos acabar com as diferenças culturais e religiosas, restarão milhares de questões em que as diferenças e divergências continuarão. Portanto, nesse caso a única fórmula é a convivência e o respeito mútuos apesar das diferenças.

De facto, segundo o Qur’án, a cegueira não está nos olhos, mas sim no coração.

Será que o que preocupa as ilustres deputadas são as mesquitas onde os crentes oram, refrescam a sua fé, resgatam alguma tranquilidade de espírito, se confortam e se consolam como o peixe se sente na água?

Já fizeram o levantamento do número de barracas, de discotecas, de clubes noturnos onde se fomenta a imoralidade, a prostituição e a pouca-vergonha? Lugares licenciados para destruir a nossa juventude, que bem guiada seria o maior tesouro para o nosso futuro?

Quantas mesquitas são, e a que distância se situam uma da outra?

Ou será que neste País tudo pode ser aceite menos mesquitas?

Um dito milenar chinês, diz: “As aparências são tudo, a realidade não é nada”! A premissa segundo a qual as pessoas actuarão na base da percepção e não de factos, dominou a forma como agimos no Mundo. Há, nas palavras de Napoleão, alguma prudência quando disse que temia mais um jornal hostil do que um exército em prontidão, pois hoje em dia parte dos media atribui aos muçulmanos muitos dos actos horrorosos e de violência que se praticam por esse Mundo fora, apenas porque ostentam nomes árabes. Que se saiba que o Isslam odeia de forma veemente a violência. A nossa fé considera a aquisição da paz, a realização do equilíbrio, como sendo uma razão física da nossa existência.

Por que razão algumas pessoas insistem em agir ou em usar termos que promovem a discórdia social?

Esta é a pior forma de intolerância, e não nos esqueçamos que muitos dos casos de genocídio ocorridos por esse Mundo fora, alguns até de recente memória, decorreram de atitudes de intolerância gratuita e doentia" -fim da transcrição.

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