A
situação laboral do jornalista moçambicano, sobretudo, dos órgãos privados e
das Rádios Comunitárias, voltou a ser tema de debate, desta vez num encontro
organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ), em parceria com o
Instituto de Comunicação Social da África Austral, capítulo de Moçambique (MISA-Moçambique),
ainda no âmbito da comemoração dos 40 anos da organização.
Dirigindo-se
a uma plateia composta por jornalistas, de quase todas as gerações, o
Secretário-Geral do SNJ lembrou que, com o advento da Lei de Imprensa, muitos
profissionais da comunicação social criaram órgãos de informação, num gesto de
louvar e
encorajar, porém, sem se saber que representava uma mudança de paradigma. Constantino
recorda que a maior parte dos proprietários dos órgãos privados de comunicação
social fizeram a sua carreira nos órgãos públicos, onde “tinham uma condição laboral
estável”. “Tinham mínimas condições de trabalho, contratos e salários
condignos, apesar de não serem compatíveis ao tipo de trabalho que envolve o
esforço intelectual. Nos seus anteriores locais de trabalho, sempre se bateram
pelas melhores condições e trabalho e progressão nas suas carreiras profissionais
como uma forma de aumentarem a sua renda”, afirma. Entretanto, afirma
Constantino, quando tudo indicava que seriam bons patrões, a situação tornou-se
pior. “Exploram os seus colegas, particularmente, os jovens jornalistas. Não
criam condições dignas de trabalho”, defende, acrescentando:
“Os chamados
correspondentes dos órgãos, baseados nas províncias, elaboram os seus trabalhos
em bares, restaurantes ou bancos de jardins porque não têm instalações
apropriadas para poderem trabalhar. Passam a vida em boleias para se deslocar
de uma cobertura para a outra. Não celebram contratos de trabalho como o
pessoal que está nas redacções, que é para facilmente correrem com eles.Os que
têm contratos, os mesmos são precários. Contratos que poem o indivíduo numa
situação eterna de estagiário, em flagrante violação da legislação laboral.
Pagam salários de miséria. Muitas vezes abaixo do salário mínimo nacional”. Segundo
aquele jornalista, agora reformado na Rádio Moçambique, aquando da
transformação da Organização Nacional de Jornalistas (ONJ), em Sindicato, em
1996, ficou assente que o salário mínimo seria de três mil meticais (três
milhões, na altura), mas, 22 anos depois, há pessoas que recebem abaixo desse
valor.
“Outros
recebem, de acordo com o número de peças que o órgão publica ao longo do mês,
para não falar dos eternos voluntários que, apesar de cumprirem o seu horário
de trabalho, não recebem nada, como é o caso das Rádios Comunitárias”,
sublinha, antes de revelar a existência de empresas que proíbem os seus jornalistas
de se sindicalizar, como forma de perpetuar esta situação. “É preciso que os
colegas se sindicalizem para combatermos este mal. O jornalismo não se
compadece com o voluntariado”, esclarece. Referir que o pagamento por peça é a
modalidade mais usada por maior parte dos órgãos privados, em particular jornais.
“Se
o órgão tem lucros é graças a esses profissionais, que estão a dar o máximo de
si para que as coisas andem na melhor perfeição. Então, porquê este
tratamento?”, ressalvou. No debate presenciado pelo Director Provincial do
Trabalho, ao nível a Cidade de Maputo, Jafar Buana, o Secretário-Geral do SNJ
criticou também a actuação da Inspecção Geral do Trabalho que nunca puniu nenhuma
empresa, mesmo perante os factos relatados. “A Inspecção age de uma forma educative
e não punitiva, o que faz comque os problemas se arrastem há mais de 15 anos.
Temos um caso, em que um Director foi notificado três vezes a comparecer na
Inspecção-Geral do Trabalho e não o fez e a Inspecção também não fez nada”, sublinha.Por
sua vez, o Director do Trabalho, Emprego e Segurança Social, Jabar Buana,
comparou as empresas jornalísticas
às
de segurança privada, sublinhando que em ambos os casos elas são muitas vezes
dirigidas por profissionais das respectivas áreas.As empresas privadas de
segurança, disse, são dirigidas por antigos militares superiores, que recrutam
antigos subalternos, mas a quem oferecem condições de trabalho precárias.
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