Do documento de
acordo com o documento na nossa posse, a Direcção de Segurança dos Responsáveis
(DSR) do SNASP emitiu, a 8 de Novembro de 1978, a ordem de serviço Lga- N/78
SECRETO, onde informa os Serviços de Segurança dos Responsáveis (SSR), da
província do Niassa, do seguimento em viagem de Armando Guebuza, Marcelino dos
Santos, Alberto Chipande,Sebastião Marcos
Mabote (já falecido), para aquele ponto do país. Todos eles eram membros do
Comité Político Permanente do Partido Frelimo, órgão máximo daquela organização
durante o regime monolítico e totalitário. O mesmo documento informa ainda que
na delegação vinham incluídos Lagos Lidimo e Manuel Jeremias Chitupila. Quem
assina o documento é o director da DSR, Mateus Óscar Kida, hoje titular do
pelouro dos Combatentes do consulado de Armando Guebuza. Aos SSR cabia, de
acordo com o documento “...a missão de fazerem a protecção aos responsáveis do partido
e das FDS (NR: Forças de Defesa e Segurança) que irão orientar o acto da
transferência dos elementos mantidos no centro de reeducação dos
políticos”(Sic). O autor de “Uria Simango: um homem, uma causa” relata no seu ‘best-seller’
que quem conduziu os presos ao local das execuções sumárias foi o comissário
político do Ministério da Segurança- SNASP, Major Abel Assikala. Este integrava
uma delegação de alto nível que se deslocou propositadamente a M’telela em
viaturas oficiais do governo provincial de Niassa, na altura dirigido por
Aurélio Manave, entretanto, ele também já falecido. As ordens terão sido transmitidas pelo
então vice-ministro da Segurança, Salésio Teodoro Nalyambipano, em
cumprimento de uma decisão tomada pelo Comité Político Permanente
do Partido Frelimo. Nalyambipano é hoje presidente da Comissão de Títulos
Honoríficos e Condecorações, tendo desempenhado as funções de embaixador extraordinário
e plenipotenciário de Moçambique em Luanda por incumbência do Presidente
Chissano. De facto, o documento obtido pelo Ikweli-CJI diz que “o responsável máximo
da DP vai representar este Serviço...” Segundo apurámos, o Major Abel Assikala
era esse responsável. O autor de “Uria
Simango: um homem, uma causa” relata na sua obra que, aquando da sua abertura em
1976, o centro de reeducação de M’telela tinha cerca de três mil e seiscentos
presos políticos e quando este encerrou, nos inícios da década de oitenta, só
restavam cerca de quatrocentos detidos. Estes dados sugerem o extermínio de
mais de três centenas de nacionais.
É sabido que as
execuções das vítimas do conhecido Processo de Nachingwea tiveram lugar nas
cercanias da estrada que liga M’telela a Chiputo, no Niassa. A não ser que venha
a ser possível negar a autenticidade do documento a que temos vindo a fazer
referência, ficam dissipados os rumores e encontradas as datas precisas em
que se decidiu sobre o destino a dar ao grupo composto por Uria Simango, Joana Simeão,
Lázaro Nkavandame, Padre Gwengere, Raul Casal Ribeiro. Por esclarecer na sua
plenitude as execuções de Celina Simango, Lúcia Casal Ribeiro, Paulo Gumane,
Adelino Gwambe, Basílio Banda, Eugénio Zitha, entre outros. Quando a notícia de
que os denominados “reaccionários” haviam sido extrajudicialmente executados
corria o mundo, o governo de Samora Machel, através do Ministério da Segurança,
emitiu a ordem de acção 5/80 (ver caixa desta
matéria), para se justificar de tão ignóbil acção. Desde a eclosão deste
dossiê, que ao mais alto nível do partido Frelimo, o silêncio parece ter sido o
pacto assinado entre todos os actores envolvidos directamente no morticínio de
M’telela. Nunca ninguém quis assumir a sua parte na paternidade do plano macabro.
Fernando dos Reis Ganhão, primeiro reitor da Universidade Eduardo Mondlane
(UEM) e membro do Comité Central da Frelimo, disse nos últimos dias da sua vida,
em entrevista ao autor da obra “Uria Simango: um homem, uma causa”, que “a
ordem tinha sido de Aurélio Manave”. Ganhão transferia deste modo a
responsabilidade das execuções
sumárias para Manave, alegadamente por este ter ficado aborrecido com um ‘moço
que namorava com a sua filha’. Em “Memórias indeléveis dos ‘anos da peste’”,
(SAVANA, edição de 19 de Maio de 1995), Pita Filipe relata em pormenor o
episódio do tal moço, mas só que não existe qualquer relação entre este caso e as
execuções sumárias dos presos políticos mantidos em
M’telela.O “moço” que namorava a filha Anabela (falecida numa emboscada da
Renamo a caminho da Namaacha), era Manuel (Manolo) Cabral, irmão do fotógrafo
Ze Cabral, ainda vivo e residente em Maputo que de facto foi à reeducação, mas
parece que não tem nada a haver com M’telela). Com o documento que o SAVANA hoje
publica, fica clara a responsabilidade da direcção máxima do Partido Frelimo no
destino final dado a dissidentes políticos, fuzilados extrajudicialmente depois
de um julgamento popular em Nachigwea, nas vésperas da independência de Moçambique.O Ikweli-CJI foi
ouvir Barnabé Lucas Nkomo, o pesquisador moçambicano que escreveu sobre os
factos decorridos em M’telela. Para Nkomo, “com esta prova documental que me
parece autêntica, cai por terra a tese de que as figuras do topo da Frelimo
não sabiam de nada”. De acordo com a fonte ficam dissipadas as dúvidas sobre o ano
da execução dos ‘reaccionários’. “Foi em 1978, não tenho dúvidas”, disse Nkomo.
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Texto de Luís Nhachot-Coordenador da Ikweli-Centro de Jornalismo
Investigativo

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