segunda-feira, fevereiro 17, 2020

A primeira vítima de uma guerra: A VERDADE



Todas as escolas de jornalismo são unânimes em considerar que, de todos os tópicos conhecidos da profissão, a reportagem sobre a guerra é a mais complexa.  Por isso nos grandes “media” as equipas destacadas para reportar sobre guerras devem possuir duas características essenciais: coragem e alto sentido ético. 
Resultado de imagem para A verdade na guerraPor coragem entende-se aqui a capacidade (intelectual e, por vezes também física) de captar e revelar as informações que sejam de interesse geral, ao mesmo tempo que se afasta de propaganda (a favor de qualquer parte) ou da autocensura. 
Significa saber interpretar e contextualizar a informação recolhida. Porque filmar e divulgar imagens de pessoas mortas ou de palhotas queimadas, sem mais, não é informação: é mera confusão! E há-de ser aí onde o jornalista se distingue do mero “facebookeiro”. 
Por sentido ético entende-se aqui a virtude de exprimir, nas notícias, o princípio fundamental de que na guerra está sempre posto em causa o maior de todos os bens: a vida humana. Porque as pessoas não são números: são seres humanos, cobertos de dignidade. E aqui, “pessoas” referimo-nos a qualquer individuo, seja entre a população civil, seja entre as partes em conflito. 
Estamos no campo da linguagem, seja verbal, seja visual. Em muitos países existem códigos de reportagem sobre guerra. Nos Estados Unidos por exemplo, nenhum órgão de informação mostra o cadáver de um soldado americano!
Resultado de imagem para A verdade na guerraMas a mãe de todas as questões, colocada ao jornalismo sobre conflito, há-de ser sempre a mesma: a comunicação social reporta com verdade? Mas o que é verdade? As teorias de jornalismo (e a nossa Lei de Imprensa) falam da “verdade dos factos”.  Mas quais factos? 
Não serão também os factos uma questão de escolha, portanto do domínio da subectividade? 
É que, mesmo a própria verdade dos factos pode chegar ao público com cores bem diferentes. Veja o seguinte caso: reportando sobre a mesma morte de soldados em combate, um jornal vai dizer que “cinco soldados foram alvejados mortalmente ”; e um outro vai dizer que “cinco homens armados foram abatidos”.
Nos tempos modernos, marcados pelos media digitais e, nomeadamente pelas chamadas redes sociais, os debates sobre a media e os conflitos militares não têm nunca fim. Pelo largo alcance e impacto proporcionados pelos veículos da Internet e suas gravíssimas implicações éticas.
Resultado de imagem para A verdade na guerraO Estado Islâmico usou a Internet para aterrorizar a Humanidade, mostrando actos macabros de decapitação de pessoas em direto! Em resposta, as forças aliadas recorreram igualmente aos mesmos meios digitais, exibindo a partida e a chegada de assombrosas máquinas de guerra ao terreno e as operações de libertação de territórios antes ocupados pelo DAESH.  Porque, na era digital, é simplesmente inútil querer “esconder” a guerra: não se esconde um cabrito com chifres dentro de um saco! Pelo contrário: define-se uma estratégia de comunicação, tão robusta quanto a dimensão do conflito o exige. Para dar ao público a nossa verdade dos factos.
E pontualmente. 
(Por Tomás Vieira Mário)

0 comments: