quarta-feira, junho 12, 2019

Como um juíz, irrelevante, chegou a ministro da Justiça? BATOTA!!!

A acalmia desta terça-feira foi estranha para os padrões da presidência de Bolsonaro. O dia foi de alto nível institucional, sem lugar a frases de efeito, polémicas, ou invectivas contra os adversários políticos. E quase foi fácil esquecer que, dois dias antes, tinham sido reveladas conversas privadas mantidas entre Moro e procuradores do Ministério Público responsáveis pela Operação Lava-Jato, em que o então juiz federal discutia pormenores da investigação, dava sugestões, fazia reprimendas e até se punha ao lado da acusação contra o ex-Presidente Lula da Silva, que acabaria por condenar por corrupção e lavagem de dinheiro. Horas antes da cerimónia, Bolsonaro e Moro estiveram reunidos a sós para uma conversa “tranquila” sobre o caso, de acordo com um comunicado do Ministério da Justiça. Moro “rejeitou a divulgação das possíveis conversas privadas obtidas por meio ilegal e explicou que a Polícia Federal está a investigar a invasão criminosa”. Apesar da aparente tranquilidade que o cumprimento do protocolo parece indiciar, Brasília está a ferver desde que o site The Intercept Brasil publicou as primeiras mensagens, na noite de domingo. O momento actual é de expectativa, especialmente perante a certeza de que novos conteúdos sobre a Lava-Jato serão revelados nos próximos tempos. O jornalista Glenn Greenwald, um dos autores das reportagens – que se notabilizou por dar a conhecer as revelações do ex-analista da NSA Edward Snowden – disse que o que foi revelado corresponde a menos de 1% dos dados de que dispõem. O “Vaza-Jato” promete continuar a fazer manchetes.

Confrontados com uma crise explosiva, mesmo para os parâmetros alucinantes do que tem sido a vida política brasileira nos últimos anos, os diversos actores políticos fazem cálculos aos seus próximos passos. O silêncio de Jair Bolsonaro é um reflexo dessa cautela. “Ele está a avaliar”, disse ao PÚBLICO, por telefone, o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) Jean Tible. “Bolsonaro é muito sensível às posições nas redes e o resultado de ontem [segunda-feira] é bastante desfavorável”, observa o politólogo.
A divulgação das mensagens surge num momento sensível para o Governo, que enfrenta uma forte contestação nas ruas, baixos índices de popularidade, e uma relação contenciosa com o Congresso. “A base de apoio do Governo já estava diminuída e esse episódio diminui ainda mais”, afirmou Tible.
As vozes a pedir a demissão de Moro fizeram ouvir-se logo após as notícias serem conhecidas. Na segunda-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil emitiu uma recomendação em que pedia o afastamento de Moro e do procurador Deltan Dallagnol dos seus cargos públicos.
Para Bolsonaro, é possível que exista a tentação de demitir Moro, um ministro cuja popularidade é superior à sua, e que muitos até viam como um forte candidato às eleições presidenciais de 2022. Na mais recente manifestação de apoio ao Governo, Moro foi caracterizado como um “super-herói”. Porém, mesmo fragilizado Moro não é um ministro como os outros e perdê-lo poderia ter custos demasiado altos para Bolsonaro. “O que vincula muito Bolsonaro e Moro é que o Bolsonaro não existiria sem a Lava-Jato”, diz Jean Tible. Quando se pronunciar, afirma, o Presidente “terá que encontrar um equilíbrio para saber como se pode salvar nisso”.
No Governo, Moro recebeu o apoio sólido dos líderes da ala militar, incluindo do vice-Presidente Hamilton Mourão, que garantiu que o ministro da Justiça goza “da mais ilibada confiança do
Presidente”. O general Augusto Heleno, responsável pelo Gabinete de Segurança Institucional, afirmou que o objectivo da divulgação das mensagens é apenas o de “manchar a imagem” do ex-juiz, enquanto o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, reafirmou a “total confiança” em Moro.
Esta terça-feira, o ministro disponibilizou-se a comparecer no dia 19 perante a Comissão de Constituição e Justiça do Senado para esclarecer a divulgação das mensagens trocadas com Dallagnol. A imprensa brasileira dava como certa a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para se debruçar sobre o caso. No Congresso, os partidos de esquerda garantem que vão bloquear todas as iniciativas legislativas provenientes do Governo enquanto Moro continuar como ministro. O chamado “centrão”, composto pelas bancadas mais numerosas e cruciais para qualquer maioria, ainda não se pronunciou e está à espera dos próximos desenvolvimentos. A crise poderá dificultar ainda mais a relação entre o Governo e o Congresso, onde medidas fundamentais como a reforma do sistema de pensões (Previdência) continuam a arrastar-se. Jean Tible lembra que o anterior Presidente, Michel Temer, não conseguiu aprovar a sua proposta de reforma da Previdência depois de terem sido divulgadas as escutas de uma conversa em que abordava um suborno com o empresário Joesley Batista. Porém, “a situação económica é muito grave e, por isso, alguma reforma da Previdência será aprovada”, afirma o politólogo. Nos próximos tempos, um dos exercícios mentais favoritos em Brasília será seguramente o de tentar adivinhar as futuras revelações divulgadas pelo The Intercept.

0 comments: