As jornalistas não fizeram nada que não seja feito por bons
jornalistas moçambicanos em Moçambique. O que a entrevista mostrou é uma
postura política que nos tem feito muito mal. Não foi Nyusi que a inventou. Ela
faz parte da nossa constituição política genética: a hostilidade à interpelação
crítica.
Se há alguma coisa em que mais se investiu na política em
Moz, a hostilidade à interpelação crítica figura entre as mais mais. Não tem
fronteiras partidárias e até faz parte da cultura académica. Ela manifesta-se
num instinto que consiste em ter mais interesse em saber que motivações tem a
pessoa que critica do que em responder a essa crítica de consciência tranquila.
Quando um músico é criticado, ele diz que é inveja; quando um jornal é
criticado, ele diz que é perseguição; quando um académico é criticado, ele diz
que quem o critica é lambe-botas ou burro; quando um activista é criticado, ele
diz que quem critica é pelo sofrimento do povo; quando a oposição é criticada,
ela diz que é a mando do poder; quando o governo é criticado, ele diz que é mão
externa.
A hostilidade à interpelação crítica é inimiga da melhoria.
Quem se defende da crítica contra-atacando não quer melhorar. O Presidente
perdeu muita energia procurando saber as motivações das jornalistas e
contra-atacando. Curiosamente, no fim da entrevista, quando as jornalistas
tinham terminado e ele sentia que não tinha feito boa figura, ele disse uma
coisa que trouxe este problema da hostilidade à interpelação crítica à
superfície. Ele disse que lhe tinham dito que a entrevista seria sobre o
desenvolvimento e evolução macro-económica, etc., coisas boas, portanto. Sim,
foi sobre isso, mas porque ele perdeu o foco a se chatear com as jornalistas não
se apercebeu. Cada uma das perguntas que lhe foram colocadas foi uma
oportunidade desperdiçada para ele falar sobre essas coisas, reconhecer erros,
defender políticas, desenvolver a sua visão de Moçambique. O entrevistado que
não se deixa distrair pela crítica controla a entrevista.

A aversão à interpelação crítica imbeciliza. Primeiro, cala
a boca aos que dentro do governo podiam ajudar ainda mais. Desde o governo de
Chissano, passando pelo do Guebuza até ao de hoje que membros séniores ou gente
próxima me diz que considera bem vindas as minhas interpelações críticas porque
dessa maneira pode ir na boleia e se a coisa for rejeitada pode recuar sem
perder nada... Segundo, essa aversão cria espaço para que ganhem destaque as
pessoas que um partido dinâmico menos precisa, nomeadamente aqueles que acham
que a sua tarefa é “blindar” o governo. Essas pessoas atrofiam o governo. São
inimigas do próprio governo porque não querem que ele seja melhor. É claro que
um militante não precisa de se juntar ao coro crítico, mas também pode ficar
calado e não defender o indefensável.
Onde a interpelação crítica é vista como acto de
insubordinação e insolência toda a melhoria que houver será por acaso. É muita
falta de seriedade.
(Por Elísio Macamo in facebook)
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