
Durante a campanha
presidencial, o então candidato do PSL foi denunciado por racismo ao se referir
de maneira desrespeitosa a cidadãos quilombolas. “Olha, o afrodescendente mais
leve lá pesava 7 arrobas”, disse Bolsonaro à época. Bolsonaro chegou a ser
condenado a pagar R$ 50 mil por ter ofendido a população de origem negra. O
dinheiro foi destinado ao Fundo Federal de Defesa dos Direitos Difusos. Para
retirar a pecha de racista, o amigo Hélio aceitou colar-se a Bolsonaro. Que,
por sua vez, emprestou nome e sobrenome ao amigo afrodescendente. Juntos, os
dois caminharam, um para a Presidência da República e o outro para a Câmara dos
Deputados.
Hélio não cansa de
exaltar o nome do seu criador, atribuindo a ele a fama que passou a ter. “Ele é
o cara mais humano que já conheci”, repetia, em voz alta, na terça-feira 26, no
Salão Verde da Câmara. Mal completara a frase, foi abordado por um grupo de
pessoas que pedia para tirar foto ao lado dele. Ele não conseguiu atender todo
mundo e houve gente que se queixou. “Que pena. Não posso falar com o irmão do
meu presidente?”, indagava uma mulher.

“Para mim, é
Deus no céu e Bolsonaro na terra” Hélio Lopes, deputado
federal (PSL-RJ)
O hoje presidente
não o conheceu na caserna, mas já nos tempos de deputado federal. Boa parte de
sua agenda política destinava-se a visitar quartéis. Foi em um deles que
conheceu o militar Hélio. A partir daí, tornaram-se amigos. Hélio era presença
constante no escritório político que Bolsonaro tinha no bairro de Bento
Ribeiro, na zona Norte do Rio. As famílias tornaram-se amigas. Hélio e seus
dois filhos viraram frequentadores da casa de Bolsonaro.
Em 2014, veio a
ideia de disputar uma vaga de deputado federal, seguindo os passos de Bolsonaro
do Exército para a política. Hélio filiou-se ao PTN. Não conseguiu seu intento.
Sua indicação como candidato não foi aprovada pelo partido. Em 2016, optou,
então, por um início político mais modesto: candidatou-se a vereador em Nova
Iguaçu, cidade vizinha a Queimados. Estava no PSC que era à época a mesma
legenda de Bolsonaro. Hélio perdeu novamente. Obteve somente 480 votos, e outra
vez não foi eleito.
Álibi anti-racismo
Muitos amigos
chegaram a aconselhar Hélio a desistir da política. Mas a onda Bolsonaro nas eleições
do ano passado alterou a situação. Hélio tinha boa parte do perfil que o
eleitorado começava a exigir: reputação honesta, inclinação ideológica de
direita, origem militar e crítico da corrupção. O empurrão final foi dado pela
fala desastrada de Bolsonaro no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, que lhe
rendeu a condenação cível por racismo. Naquela ocasião, Bolsonaro declarou que,
caso fosse eleito, não destinaria recursos para ONGs e que não haveria “um
centímetro demarcado” para reservas indígenas ou quilombolas. “Onde tem uma
terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso daí. Eu fui
num quilombo, e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem
nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais”.
Após a declaração,
Bolsonaro sugeriu a Hélio que se filiasse ao PSL e disputasse uma vaga de
deputado. Começou a levá-lo comícios e caminhadas. Emprestrou-lhe o próprio
sobrenome. “Bolsonaro me enxergou”, repete. Abençoado por Bolsonaro, Negão pode
enfim ver realizado o sonho de ser eleito. E acabou sendo o campeão de votos no
estado do Rio de Janeiro, com 345.234 votos, desbancado o favorito Marcelo
Freixo (PSOL), que obteve 342.491. É como diz o velho ditado: uma mão lava a
outra.
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