A resposta a esta pergunta é simples: toda hora, desde
que seja necessário. Mas responder assim só não é suficiente pois o orçamento
do estado é anual- o que implica planificação prévia; quanto muito, deve
submeter-se à Assembleia da República para, em casos de necessidade, aprovar o
orçamento rectificativo.
Existe uma actividade que o estado moçambicano continua a
ignora-la, que é comunicar melhor. Ora, melhor comunicar não é botar informação
em massa; é orientar os cidadãos a compreenderem a racionalidade dos seus
actos, justificando e convencendo que eles são necessários, oportunos e as
decisões tomadas depois de ponderadas todas as opções.
O que agora se tornou num escândalo é exemplo de que uma
mera informação lançada para o ar pode gerar resultados antagónicos aos
esperados. Eu até estou convicto de que a publicação dos resultados de
adjudicação de empresas para a compra de viaturas não apenas é obrigação
prevista na lei como também é um bom exercício do tal e desejado reforço da
transparência e prestação de contas. Porém, feito de forma mais infantil
possível. Até parecem iniciados. Erro de palmatória, indesculpável, tendo em
conta o contexto de austeridade (?) senão mesmo secura inexorável dos recursos
do estado.
Mas olhando atentamente aos anúncios podemos diferenciar
dois tipos de adjudicações. O primeiro, refere-se ao concurso de 2015,
portanto, há quase três anos! O segundo tipo de adjudicações é directo. Ou
seja, decisões tomadas recentemente. As adjudicações directas são pela lei
possíveis, observadas as formalidades legais. Mas também o seu abuso pode
denotar uma das três coisas ou todas: (1) incompetência na planificação; (2)
corrupção e (3) urgência.
De uma ou de outra forma, adjudicações directas
pressupõem ou disponibilidade do dinheiro ou dívida para pagamento posterior.
Ou seja, alguém que se disponibiliza em entregar o produto/bem/serviço hoje
para receber o seu dinheiro posteriormente, que pode ir de seis a três anos ou
mais, dependendo da negociação.
Da mesma forma que pode se dar o caso de o estado
levantar milho para salvar zonas afectadas pela estiagem; equipamento
hospitalar para responder a emergências como as de Kaphiridzanje ou mesmo
emprestar dinheiro para pagar professores. O negócio de combustível é um
exemplo disso.
O segundo nível de análise é saber como é que o Estado
compra bens e serviços. Como, por exemplo, o estado compra uma casa? Uma
viatura? Qual é o mandato da Direcção Nacional do Património do Estado? O que
ela faz? Quando um funcionário do Estado afecto num ministério e que tem com
direito uma viatura de afectação, pede a quem? O que eu quero insinuar com isso
é que a Direcção Nacional do Património é quem gere o património do estado. Por
exemplo, se os Mercedes-benz ou a alcatifa do Tribunal Supremo forem
descontinuados, caberá a essa direcção abater, realocar aos outros
departamentos ou outra decisão que se aprouver necessária. Da mesma forma, se
um Ministério precisar uma Ford Ranger; ou o Parlamento os seus amados
Mercedes-Benz; ou o Conselho de Ministros precisar de outro tipo de viaturas,
caberá a esta direcção comprar. Todavia, o dinheiro para a compra de cada
viatura será debitado à conta/rubrica de cada requerente.
O que acabei de explicar acima desmonta a analogia feita
pela STV, quando comparou por exemplo, o gasto em viaturas com orçamento do
INGC ou do Fundo de Combate a Pobreza Urbana. Nominalmente é sim superior ou
20% menos. Todavia, pode até ser que até o tal ING tenha desse mesmo orçamento
encomendado através da Direcção Nacional do Património um Ford Range .
Portanto, mais do que juntar o valor total da encomenda e
compará-lo com orçamentos sectoriais, o melhor seria saber quem são os
beneficiários daquelas viaturas. E aqui, temos, através do Jornal Canal de
Moçambique, algumas respostas. Sei por exemplo que alguns Mercedes-benz são
para o Conselho de Ministros; algumas viaturas são para certos departamentos, e
por aí fora. Portanto, desagregando o valor total pelos requerentes, poderemos
ver que o grande erro foi mesmo a forma como isso foi anunciado, a
sensibilidade do momento e acima de tudo, a falta de conhecimento sobre os
mecanismos de contratação por parte da maioria dos cidadãos. Mas esse nem pode
ser desculpa. Os cidadãos têm o direito de saber e pronto.
Até aqui apenas limitei-me a explicar do que sei. Assim
sendo, a informação que temos (anúncios de adjudicação), não nos permite
concluir que a despesa feita pelo estado foi a pronto-pagamento. Pode também
ser uma dívida. E lembrar que alguns destes concursos datam de 2015. E outras
decisões tomadas recentemente. E pode ser que os requerentes, ou seja, as
direcções individualmente tenham dinheiro para pagar.

(1 Mercedes-Benz, S500,
no valor de 11.429.711,14MT,1 Mercedes-Benz, S400, ao preço de 10.754.280,00MT,
e 1 Toyota Land Cruiser 200, VX, Station, de oito lugares, com o custo de
10.745.280,00MT.
20 Mercedes-Benz,
modelo C180, e vai pagar 2.290.000,00MT por cada um.
10 Ford, modelo
Ranger 3.2, cabine dupla, ao preço de 1.978.000,00MT cada, mais 1 de modelo
Wildtrak 3.2, cabine dupla, que custa 2.277.000,00MT.4 Hyundai, modelo Accent
1.6cc, ao preço de 1.905.995,00MT cada e, finalmente, no último lote são 7
Peugeot, modelo 508, com o custo de 1.385.000,00MT por cada viatura).
Ou sobre porquê a opção pelos
Mercedes-benz e não por outro tipo de viaturas mais modestas, só para
conformar-se com o espírito e a lei, no que tange ao bom uso de recursos
públicos e, mais importante ainda, em solidariedade com a situação económica
actual.
• A incompetência de uma comunicação eficaz leva a crer
que a requisição destas viaturas foi recente ou eventualmente ad-hoc. A
Assembleia da República por exemplo, foi logo no início da legislatura (2015).
Alguns deputados adquiriam cedo e outros mais tarde sendo os últimos os membros
da CPAR.
• Tal como demonstrado em alguns anúncios, outras
requisições são ainda de 2015
• As adjudicações recentes PODEM não necessariamente
significar pronto-pagamento. Pode se tratar de uma dívida; tal como o Estado se
endivida para suprir variadas necessidades.
Mesmo assim, há espaço para uma crítica fecunda, que nos
ajude a limar as arestas de um discurso de austeridade que se conforma com a
lei e a prática.
Princípio/provérbio Sena: quando fala para crianças é
preciso ser o mais explicito possível para evitar equívocos (PANGA MWANA NDI
KUMMALISIRA)
1. Não estou a criticar nem a defender o governo. Estou a
partilhar um conjunto de nuances que deve(ria)m ser ponderados tanto na feitura
de análises como nas conclusões destas.
2. Concordo com a ideia do dever do estado usar os
recursos com parcimónia e responsabilidade.
3. Um dos grandes erros deste acto de comunicar as acções
de governo é de assumir que informação por si só pode explicar. É tarefa do
governo comunicar para convencer e prestar contas.
4. Todas as consequências nefastas da má interpretação,
maledicência, oportunismo politico só podem e devem ser imputáveis ao estado
por se furtar a uma das suas obrigações: que é, através da comunicação, prestar
contas, engajar cidadãos e informar. (Dr.E.Vaz in facebook)
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