terça-feira, junho 23, 2020

General Nhongo em Maputo *


A chuva intermitente que caía era afinal o prenúncio. Também houve graniso do qual ninguém se apercebeu, a não ser o próprio Mariano Nhongo, hospedado na suíte presidencial  do Hotel Polana,  a partir de onde ele observa a exuberância do Índico, sem que o luxo, mesmo assim, lhe retire o foco da sua luta. Chegou na noite de terça-feira, transportado num hélio das Forças Armadas Zimbabweanas, que aterrou na base aérea instalada do outro lado do Aeroporto de Mavalane. Foi tudo feito num secretismo absoluto que até a segurança destacada para o receber, não sabia de quem se tratava.

Chovia uma chuva leve, e o silêncio na pista e em todo o perímetro das instalações, era por demais sepulcural que entre os anfitriões que incluiam oficiais de alta patente moçambicana, perguntavam-se entre eles afinal quem é esse fulano. Nhongo saíu do pássaro metálico vestindo uma gabardina preta e um gorro que lhe cobria completamente a cabeça e uma boa parte do rosto, tornando-o irreconhecível. Um dos capangas que o aguardavam quis protegê-lo com o guarda-chuvas, mas o general recusou. Caminhou resoluto para o Range Rover cinzento luzidio que o esperava e sentou-se no banco da trás. O motorista tremeu quando viu um homem encapuzado a entrar apressadamente para a vitura. Parecia um algoz.

Eu já estava em Maputo há uma semana, discretamente, sem o conhecimento do editor, alojado no quarto contíguo ao que acolheria um homem cujas acções, façanhas para outros,  podem ter já superado a sua condição de pessoa vulgar. Nunca o vi pessoalmente, mas ele é que me escolhe para a materialização da entrevista, e não poderia questionar sobre esta preferência. Lembrei-me de um dia que Deus disse a Moisés, vai ao Egipto libertar os filhos de Isarael! E Moisés perguntou, porquê que tenho que ser eu? E Deus trovejou como o Leão dos Céus, porquê que não tens que ser tu?

Estou deitado com o televisor desligado num quarto sumptuoso que nunca antes imaginara. Mas também já superei há muito os materiais da vida. Desactivei os dados do meu celular para que o silêncio tome livremente conta do meu espaço. Aliás, do espaço onde me colocaram. Quero ouvir os movimentos da chegada do General de Gorongosa, já que ele me avisara, através do telefone ligado directamente ao satélite, que a entrevista aconteceria ainda naquela noite.


Alguém bateu à porta dos meus aposentos, sem que antes tivesse havido qualquer sinal indicando a chegada de uma figura temida. Era estranho porque devia receber antecipadamente uma informação da recepção. Mas, nada! Perguntei quem era, e do outro lado respondeu-me o mutismo. Saltei da cama apressadamente, já estava vestido, calçado  e tudo, como se estivesse no teatro das operações, sob comando de Nhongo. Peguei no gravador e no bloco de notas e disse, Deus, seja feita a Tua vontade.

Abri a porta e dei-me com dois homens dessimuladamente armados, do tipo furtivos. Balancei de medo na espinha, mas logo recompus-me. Olharam para mim de cima a baixo sem falarem, e logo a seguir indicaram-me a entrada ao lado onde supus estar o general, o próprio Nhongo. Entrei de mansinho e vi um personagem sentado tranquilamente na plotrona, de pernas cruzadas e as duas mãos por sobre o joelho direito. À mesinha de centro uma garrafa indisfarçada, dois copos que foram abastecidos na minha presença, ao mesmo tempo que o meu anfitrião indicava-me o lugar que me colocaria frente a frente com ele.

A suite, sob luz ténue, ficou impregnada com o aroma agradável de algo que reconheci ser aguardente de massala. Mariano Nhongo já não se cobria com o sinistro gorro, porém continuava com a gabardina. Bebeu num trago o conteúdo do copo sem cerimónias, e o que me disse logo a seguir foi de tal maneira inesperado que o seu sentido  ganhou a dimensão da espada. Falava como se tudo estivesse sintetizado naquelas palavras. Ele disse assim, enquanto a preocupação forem os ganhos individuais ou de grupos, então jamais vai amanhecer em Moçambique.

E eu não sei se isso não é hipocrisia!

·          * Texto imaginário de autoria de Alexandre Chauque  

sábado, junho 20, 2020

Melhor forma de lidar é abrir as escolas


O médico Philipe Gagnaux é uma voz dissonante a quase tudo o que já ouvimos sobre a Covid-19. Quando o conselho é ficar em casa, o médico sugere o contrário e invoca os números de Afungi para mostrar o que pode acontecer se nos mantivermos fechados. Paradoxalmente, defende um maior número de infectados (ligeiros) para que se chegue a imunidade comunitária, uma alternativa de combate ao vírus. Esta é uma conversa contra o politicamente correcto que afasta o fantasma da morte que associamos ao coronavírus.

Magazine Indpendente - Olha para estas medidas do estado de emergência, sobretudo o distanciamento social, como suficientes para parar a propagação do novo coronavírus?
Philipe Gagnaux - Sim, por enquanto, manter distanciamento de 1,5 metros entre as pessoas, uso de máscaras e não se juntar mais do que 20 pessoas é suficiente. Mas acho desnecessário fechar escolas primárias e deixar de ir ao trabalho.Não concordo com ficar emcasa. Basta o tal distanciamento social.

Disse que não concorda com o fechar as escolas. Mas defende o distanciamento social. Como isto se ia operar?
Filipe Gagnaux 06 - YouTube
- Primeiro, não defendi obrigatoriamente o distanciamento ou afastamento social. E este não é absoluto. Por exemplo, nos transportes e nos funerais há um número limitado de pessoas. Estas medidas estão no contexto de que não queremos bloquear a epidemia totalmente, apenas atrasar o seu desenvolvimento rápido, com o objectivo de evitar sobrecarregar os serviços de saúde com os raros casos que se podem complicar. Neste mesmo contexto, as crianças, em particular as de menos de 10 anos, são as que não desenvolvem infecção severa. E os jovens e adultos jovens são o segundo grupo menos vulnerável. Daí que, sendo o objectivo principal chegar a imunidade comunitária, as crianças que serão portadoras do vírus por períodos curtos (mais ou menos 3 dias), serão o grupo melhor preparado para assumir esse papel de imunes. As crianças recebem e “aspiram” o vírus da sociedade e ele não é mais transmitido. Levando a “extinção” e interrupção da transmissão do vírus. Portanto, reabrir as escolas poderia ser a melhor forma de lidar com a epidemia.

Mas nós temos relatos de crianças que morreram pela Covid-19.
- Até ao momento não existem crianças de menos de 10 anos que tenham falecido da Covid-19. E quase todos os raros casos de crianças mais velhas e adolescentes falecidos tinham outras co--morbidades.Mas uma coisa certa é que outras viroses (vulgo gripe ou resfriados) apresentam uma mortalidade maior nas crianças.O distanciamento social que não perturbe as escolas e o trabalho (economia em geral) não é grave, mesmo que seja inefectivo. Existem várias teorias que consideram que não se consegue travar o vírus. No entanto, não se sabe ao certo e é um debate que irá continuar por muito tempo. Mesmo os países que fizeram o lockdown total continuam na sua maioria a mostrar perfis de epidemia típicos das infecções respiratórias igual aos que não tomaram medidas tão drásticas. E mesmo se o lockdown fosse eventualmente efectivo em atrasar ou aplanar o pico, ele iria prolongar a epidemia. Ou seja, estaríamos mais tempo sob o estresse de ter que proteger os mais vulneráveis (idosos com co-morbidades).

Entende que nos falta estratégia na gestão do coronavírus?
- Não há indicadores nem marcos para decidir a continuidade das medidas. Apenas se imitou aos outros. São tomadas decisões sem que se tenha raciocinado até ao fim. Não analisamos os cenários todos.Não está definido, nem nos informam, se queremos que a epidemia chegue a imunidade comunitária ou não. Neste caso, não devemos travar a epidemia intensamente, se o fizermos ficamos na casa zero por tempo muito longo.Outra alternativa seria tentarmos bloquear a epidemia para não termos mais casos e ficar totalmente livre do vírus.

Neste caso, teríamos que ficar fechados até que a pandemia termine no mundo inteiro. Será que é fazível?
O comportamento e a forma como informam parece que é esse o objectivo. Dependendo destas reflexões, as medidas têm que ser dirigidas de forma diferente.

Podemos nos permitir testar até onde este vírus nos consegue infectar?
- No sentido individual ou de grupo?

De grupo, de país...
- Os argumentos, ainda não comprovados, por se tratar de uma epidemia nova, são muito convincentes e se baseiam numa lógica e opinião pessoal compartilhada por outros médicos ou epidemiologistas.Os idosos padecendo de co-morbidades na Itália, Espanha e Europa em geral são os responsáveis da alta taxa de fatalidade. As excepções nos mais jovens não se aproximam da fatalidade da gripe, doença que convive connosco desde séculos sem que se pare o mundo por causa dela. Portanto, não tendo Moçambique esses vulneráveis, a nossa taxa de fatalidade não deverá nunca ser preocupante e entrará nas estatísticas normais de fatalidade por doenças respiratórias virais. Daí que dificilmente se justifica as medidas drásticas tomadas. A partir do momento que se tomam medidas que vêem impactar a vida normal dos moçambicanos, pode criar mortes silenciosas, falência de pequenas e médias empresas. Tudo torna-se complicado. O correcto na avaliação de risco seria também avaliar o impacto nas perdas de vidas usando um indicador de “anos vida” perdidos e não “vidas humanas perdidas”. Pois obrigar toda uma sociedade inteira a sacrificar-se por idosos doentes que irão viver mais um ou dois invernos em troca do aumento das mortes silenciosas de jovens é descabido.

Há pesquisas que vaticinam um futuro sombrio da pandemia. Dizem que o pico para África apenas se está a demorar, mas que, quando chegar, os estragos serão tão grandes como os da Europa. Como olha para esta perspectiva?
- Parece-me uma avaliação errónea, baseada apenas em especulações alarmistas. Comparam países com dados sócio-económicos muitíssimo diferentes. Ora, as epidemias são muito diferentes, dependendo das características populacionais e climáticas. Se não temos os vulneráveis (idosos com co-morbidades que morrem no Hemisfério Norte) quem irá morrer para chegarmos a esses números elevados que parecem justificar medidas de paragem da economia? Poderemos, sim, demorar a chegar ao pico. Mas o problema não é a epidemia. Mas sim a taxa de mortalidade. Se a taxa de mortalidade e o absenteísmo forem baixos, a epidemia é benigna.

E estaria a demorar por estarmos a sair do Verão e eles do Inverno?
- Seria uma possibilidade. Por isso, mais uma razão para rapidamente chegarmos a imunidade comunitária antes que chegue o Inverno. No entanto, acredito que os nossos invernos são mesmo assim mais quentes. No entanto, estamos a falar de taxa de infecção por coronavírus alta. Sabemos que mesmo onde a fatalidade é elevada temos mais de 97% de casos ligeiros e na sua maioria assintomáticos. Não faz mal sermos milhões de infectados. Já somos milhões de infectados com herpes, por exemplo, mas não temos taxas elevadas de mortalidade. O infectar em si não é o problema, o que muita gente pensa. As medidas preconizadas fazem pensar que os riscos de morrermos são enormes, o que não é verdade. As nossas crianças têm mais probabilidades de morrer num acidente de chapa ou autocarro do que pelo coronavírus. Mandarmos as crianças para ficar em casa é uma atitude totalmente desnecessária. A agravar, sabe-se que as crianças ficam com o vírus 3 dias e ficam imunes rapidamente. Servindo de aspirador ou tampão para o vírus. O nosso país é maioritariamente de crianças, o que nos permitiria atingir a imunidade comunitária muito rapidamente sem ter mortes.

Algumas vozes defendem que o índice de HIV positivo possa ser uma desvantagem?
- Também considero ser mais uma especulação sobre esse assunto, pois o HIV também existe nos países desenvolvidos e não há registos de que eles estejam mais vulneráveis. Por várias razões, primeiro a seropositividade não é imunodeficiência; segundo, a maioria dos que desenvolvem SIDA apresentam-se doentes e são rapidamente postos sob tratamentos anti-retrovirais. Isto leva a duas coisas:
a) aumento das suas células de defesa para valores normais, o que lhes recupera a imunidade;
b) os tratamentos anti-retrovirais poderiam lhes dar uma protecção contra outros vírus, incluindo a Covid-19.

O que significa, numa espécie de dicionário para leigos, imunidade comunitária?
- Na prática, é quando uma determinada infecção numa epidemia atinge uma percentagem de pessoas infectadas e curadas que bloqueiam a epidemia. Ou seja, ela pára por si só quando o número de curados bloqueia a transmissão do vírus e os casos desaparecem. Ou seja, eu tenho o vírus activo e quando tusso salta para outras pessoas. Mas como apanha a maioria delas já curadas o vírus morre e não se consegue mais espalhar. No caso de doenças respiratórias, isso acontece por volta dos 40 a 60%.

Esperar que o vírus acabe com as pessoas trancadas é humanamente possível?
- Quase impossível nos países em vias de desenvolvimento, como Moçambique. Podemos nunca ser atingidos pela pandemia ou só ter quando surgirem as condições favoráveis, climáticas ou culturais. Mas ficar fechados à espera disso é impossível e/ou as consequências podem ser mais pesadas que a própria epidemia.

Há quem defende o isolamento de Cabo Delgado. Seria válido?
- Depende, se quisermos irradiar o vírus poderia fazer sentido, mesmo se eu não concordasse. No entanto, parece que o objectivo seria atingir uma imunidade comunitária. Aí não faz sentido, pois temos que deixar a infecção espalhar-se de forma
controlada. Por isso, fechar apenas as aldeias seria suficiente.

Com aldeias refere-se a Afungi?
- Sim, por exemplo.

Este aumento exponencial dos casos de coronavírus em Moçambique por conta de Afungi podia ter sido evitado?
- Não sei se chega a ser exponencial, mas o próprio confinamento num acampamento aumenta a “transmissibilidade”, daí que este surto não reflecte o comportamento da epidemia na natureza ou sociedade. É um dos factores que põem em causa o ficar em casa. A partir do momento que o vírus está na comunidade entre 15 e 20% de infectados, incluindo ou sobretudo os assintomáticos. Ficar em casa pode fazer disparar a epidemia (número de infectados). Sair para fora diminui o tempo de exposição ao vírus, o que acontece em locais fechados como o lar de cada família. Também permite apanhar sol (mata o vírus e aumenta a vitamina D).

Poderia [sair de casa] ser um factor protector também contra as complicações eventuais da Covid-19.
- Daí que o afastamento social, mas saindo de casa parece-me ser o mais adequado.

Isto vai contra todas as campanhas mundiais que se têm feito.
- Sim. Mas nota-se já um arrependimento por parte dos países que fizeram lockdown. Estão abrindo aos poucos.A Suécia é um exemplo de não fechar e não está muito pior que os demais. E pode ser que a epidemia termine mais cedo nesses países.A Holanda também. Esta última comparada com a Bélgica vizinha e muito similar no que diz respeito ao clima está aparentemente a safar-se melhor. Note que é a primeira vez que se afasta os saudáveis. Neste caso, deveria afastar-se e isolar-se os vulneráveis e eventualmente os infectados. Mas nunca fechar tudo. Porque de facto este vírus é relativamente benigno nas pessoas saudáveis.


Na perspectiva de imunidade comunitária, os 20 milhões de infectados que o Governo moçambicano perspectiva, no pio no pior dos cenários, não seria um problema assim tão grave.
- Sim. Pode parecer exagerado, mas não é descabido de todo, pois corresponde a cerca de 70% da população. Se a epidemia de facto florir, esse número é possível. As pessoas ainda não perceberam que não faz mal que sejamos todos infectados. O problema é haver muitos severos ao mesmo tempo que precisem de tratamento intra-hospitalar ou que haja muitas mortes. Também há ideia de que vamos todos morrer com este vírus, o que não é verdade. Neste momento, apenas se conhece a taxa de fatalidade, que é o número de identificados positivos que acabam morrendo. É diferente da taxa de mortalidade, que consiste no número de todos os infectados e a percentagem deles que morrem. Mesmo sem dados concretos, acredito que seja inferior a da gripe e viroses comuns. Pelo menos, em certas circunstâncias.

Por: Elton Pila /05.05.20

sexta-feira, junho 19, 2020

Esmagar o terrorismo


Algumas decisões estratégicas do Presidente da República, Filipe Nyusi, no comando do conflito militar na província de Cabo Delgado, são avaliadas pelas chefias militares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM),  nos chamados círculos restritos, como tendo sido pouco ajustadas para as operações no terreno.
Falso militar detido na cidade de Nampula
Comandante-em-Chefe  das  Forças  de   Defesa   e   Segurança       (FDS),       Filipe   Nyusi   e   o   seu  Governo  classificaram  de alteração    à    ordem    segurança    pública,  durante  2  anos  e  6  meses,  os  ataques  por  células  armadas   de   inspiração   islâmica   em  Cabo  Delgado.  Os  atacantes  foram  qualificados  de  malfeitores,  criminosos  ou  insurgentes. Durante  este  período,  Filipe  Nyusi  entregou  o  comando  do  combate   em   Cabo   delgado   às   Unidades   Especiais   da   Polícia   da   República   de   Moçambique   (PRM),  com  apoio  das  FADM  e  do Serviço de Informações e Segurança  do  Estado  (SISE).  Apenas a 23 de Abril, depois dos mi-litantes islâmicos terem invadido em  poucas  semanas  3  vilas sede  distritais  -  Mocímboa  da  Praia,  Quissanga e Muidumbe - o Con-selho  Nacional  de  Defesa  e  Segurança  (CNDS)  se  reuniu  para  avaliar  a  situação,  tendo  declrado o conflito de “agressão externa  perpetrada  por  terroristas”. 

A   declaração   pelo   CNDS,   que  aconselha  o  Presidente  da  República  em  matéria  de  Defesa  e  Segurança,  corresponde  a  uma  reclassificação  do  conflito  em Cabo Delgado pelas chefias mlitares,  deixando  de  ser  tratado como  uma  ameaça  de  segurança  pública.  Desde  então,  o  con-flito  passou  a  ser  tratado  como ameaça  à  integridade  territorial,  significando uma alteração imediata  no  comando,  passando  as  FADM  a  liderar  as  operações  no  terreno,  com  a  retirada  ou  recuo  das Unidades Especiais da PRM.
Na   arquitectura   das   FDS,   a    defesa    da    soberania    nacional   é   da   competência   das   FADM,   podendo   ser   apoiadas   por  outras  forças  de  segurança. Conforme   apurado,   os   militares   pretendem   ainda   a   declaração  de  Estado  de  Sítio  na  região  centro  e  norte  de  Cabo  Delgado,    para    permitir    resposta    adequada    aos    ataques. É  ainda  comum  nos  referidos  círculos  o  entendimento  de  que  a  resistência  do  Presidente  da  República  em  passar  o  comando    às    FADM    correspondeu  a  objectivos  designados  de  incompreensivies,    incluindo    possíveis    contratações  de  Empresas  Militares  Privadas  que  apoiam  as  FDS  no  combate aos militantes islâmicos. As  chefias  militares  alegam que  a  gestão  dos  contratos  de  aluguer  de  meios  aéreos  está  a  cargo  do  Comandante  Geral  da  PRM, Bernardino Rafael. 
45 anos da PRM: Bernardino Rafael enaltece papel da corporação na ... Este  e  o Presidente  Nyusi, têm proximidade familiar do General das FADM na   reserva,   Alberto   Chipande.   Os  três  são  naturais  do distrito    Mueda  ,  onde  se  localiza  o  Posto  de  Comando  das Operações (PCO) provincial. Bernardino  Rafael  é  antigo  Comandante  da  Unidade  de  Intervenção  Rápida  da  Província  de  Gaza,  unidade  especial  da  PRM  que  tem  tido  papel  de  liderança  no conflito. Da tomada  de  Macomia  entre  28  a  30  de  Maio  -  seguindo-se  a  outras  sedes  de  distrito  como  Quissanga,  Mocímboa  da  Praia  e  Muidumbe - resultou a destruição do Comando Distrital da PRM, a tiro de morteiro, do palácio do administrador distrital, o saque de bens alimentares  e  equipamentos  e  a  destruição  parcial  e  inactivação  da  central  eléctrica  que  abastece  a  região.  Outros  edifícios  públicos,  como  o  hospital  distrital  de  Macomia, também foram destruídos, bem como mais de 40 viaturas, incluindo oficiais e policiais, e   habitações.   Estabelecimentos   comerciais,  como  a  agência  do  banco   BCI,   foram   saqueados.
Spanish Air Force receives fourth SAR Airbus H215 - tangentlink.comA DAG está a preparar um reforço dos meios de combate aéreos  empenhados  em  Cabo  Delgado.  Segundo  fontes  do  sector  da  segurança,  está  previsto  o  envio  para o norte de Moçambique de 6 helicópteros de combate, entre os quais 2 Airbus H215 (ex- Euro-copter  AS332  Super  Puma  ).   
Os  aparelhos  estão  actualmente  na  Líbia ao serviço da Frontier Services Group (FSG), com sede na Republica Popular da China, pacialmente detida pelo empresário Erik   Prince,   fundador   da   Bla-ckwater  ,  e  parceiro  da  chinesa  CITIC na FSG. O Lancaster Six Group (L6G), com sede no Dubai ,  assim  como  a  Umbra  Aviation  (  África  do  Sul  ),  são  apontadas  como  empresas  de  fachada  de  Erik   Prince   (dirigidas   respec-tivamente    por    CHRISTIAAN    DURRANT e STEVE LODGE ). As chefias militares questionam a eficácia dos meios aéreos usados  para  combate  aos  militantes  em  Cabo  Delgado,  classificando-os  como  inadequados para  o  tipo  de  intervenção  que  se  exige. Referem que são helicópteros  civis  com  armas  acopladas,  com  autonomia  de  combate  limitada. 
FADM renovam prontidão para a defesa da soberania Em  particular,  é  apontado  o  caso  do  último  ataque  à  vila-sede  de  Macomia  que  os  meios  aéreos  da  DAG  tiveram  de  interromper  os   combates   várias   vezes   para   retornar  à  Base  Aérea  de  Pemba  (cerca  de  100  km  de  distância)  para   reabastecimento.   Os   militares   contestam   a   racionalidade   dos  contratos,  na  perspectiva  de  custo-benefício   em   comparação   com   investimento   nas   FADM. Entendem algumas  chefias militares  que  o  Ministério  da  Defesa  Nacional  (MDN)  e  as  FADM  estão subalternizadas em relação ao Ministério  do  Interior  (MINT)  e  ao  Comando  Geral  da  Polícia  da  República, expondo várias situações em que o Presidente privilegia a PRM em relação às FADM.É  ainda  apontado  nos  referidos círculos que a soma do Orçamento do MINT e Comando Geral da PRM é superior à soma do Orçamento  do  MDN  e  das  FADM.  Nas  comunicações  conjuntas  sobre o conflito em Cabo Delgado apresentadas  pelos  ministros  de  Defesa Nacional, Jaime Neto e do Interior,  Amade  Miquidade,  este  aparece  numa  posição  hierarquicamente superior em relação a JN. 
Terrorismo em Cabo Delgado: ministros da Defesa e do Interior sem ...Isto apesar de, formalmente, a hierarquia  da  FDS  estabelecer  que  o  titular da pasta de Defesa Nacional se encontra acima da pasta de Interior  e  do  Director  Geral  do  SISE.Geralmente,  é  Amade  Miquidade (direita), com experiência militar, o responsável  pelas  comunicações  à  imprensa,  ladeado  por  Jaime  Neto,  sem  qualquer  experiência militar. O cargo mais elevado ocupado  por  Jaime  Neto  antes  de  ascender a ministro foi o de director municipal  do  ambiente  na  cidade  da Beira e deputado pela Frelimo.Amade     Miquidade     revela     proximidade com interesses económicos   na   área   da   segurança   militar privada em torno do antigo Presidente Joaquim  Chissano,  onde  se  inclui  o  grupo  de  Mariano  Matsinhe,  nomeadamente   através   da   multinacional  G4S  e  de  Erik  Prince.
Terroristas deixam rasto de destruição na Vila de Macomia e apagão ...
O  crescimento  exponencial do  poder  de  fogo  dos  militantes  islâmicos  em  Cabo  Delgado,  exacerbou o mal estar no circuito das  FDS,  forçando  o  Presidente  da  República  e  seus  conselheiros  a  alterar  a  estratégia  inicial  de  abordagem  do  conflito,  centrada no empenho exclusivo de forças governamentais  (PRM,  FADM  e  SISE).  Nesse  pressuposto,  Filipe  Nyusi aceitou a intervenção militar de  mercenários,  sob  coordenação  da  DAG,  com  helicópteros,  aviões  e  drones  de  reconhecimento.Também  a  actuação  das  chefias militares tem sido objecto de desconfiança  por  parte  da  Presidência  da  República.  Uma  investigação  a  cargo  dos  serviços  de  inteligência  militar  apurou  um  conjunto  de  factos  que  cimentaram algumas certezas em relação à existência  de  niglegência de  altas  patentes  das  FADM  nos  ataques  “jihadistas” em   Cabo   Delgado.  
Preocupado   com   a   supremacia   das   células   armadas   de   inspiração   islâmica   sobre  as  tropas  governamentais  na província, o Presidente Filipe Nyusi enviou uma missão de reconhecimento ao terreno,  em  Fevereiro,  compos-ta por homens de sua confiança, para  estudar  a  causa  da  incapa-cidade  das  tropas  do  Governo. A referida missão, constituída por  colaboradores  próximos  da própria  presidência,  produziu  informações  de que determinadas  altas patentes forneciam ao Presidente da República sobre a evolução da situação do conflito em Cabo  Delgado  foram  durante  diversos períodos pouco precisas  e  que,  por  acção  das  mesmas,  os  grupos armados estariam a aceder a informação sobre a estratégia e logística das tropas governamentais.

De  acordo  com  as  chefias militares,  a  aparente  subordinação  do  seu  ministro  ao  ministro  do  Interior  tem  repercussões  no  campo  das  operações,  a  princi-pal  das  quais  o  facto  de  a  PRM  não   se   sobrepor   aos   militares. Aquando   da   deslocação   de   Filipe   Nyusi   para   reunião   da   “Troika” de Defesa e Segurança da  SADC  em  Harare,  com  os  PR  do  Zimbabwe,  Emmerson  Mnan-gagwa, da Zâmbia, Edgar Lungu e do  Botswana,  Keabetswe  Masisi,  Filipe  Nyusi  fez-se  acompanhar  por Amade  Miquidade  e  deixou em  Maputo  Jaime  Neto.  O  facto  foi   interpretado   pelos   militares   como  mais  um  sinal  de  subalter-nização  em  relação  ao  Interior.Face  à  situação,  os  militares  entendem  como  urgente  e  crucial  que  assumam  o  comando  estratégico  e  operacional  do  conflito em  Cabo  Delgado,  assim  como  o  controlo  das  fronteiras  nacionais,  que  actualmente  está  a  cargo  da  PRM,  exigindo  que  o  Comando da  Guarda  de  Fronteira  passe  de  imediato e em definitivo para as FADM. Apontam que nos 6 países da região da SADC que partilham fronteiras   com   Moçambique,   o   controlo  fronteiriço  está  a  cargo  das  respectivas  Forças  Armadas,  sendo o caso moçambicano a excepção. 

Enquanto durar o conflito,  os  militares  pretendem  ainda  o  controlo  da  Guarda  Costeira,  que  neste  momento  está  também  a cargo de um comando da PRM.A   manutenção   da   situação   actual está a frustrar as altas hie-rarquias  militares  e  poderá  repercutir   no  teatro  de  operações,   com   os   militares   a   recuar e deixar a PRM comandar as operações no terreno, com impacto negativo na moral  entre  as  tropas  e  perda  de  eficácia  operacional. A  gestão  do  contrato  com  a  DAG  e  sua  substituição  a  breve  trecho  por  militares  moçambicanos  preparados    e  equipados  de   meios   aéreos   adequados   é   outra  das  exigências  dos  mili-tares.  (ZAMBEZE)