sexta-feira, fevereiro 12, 2016

"Temos Várias Guerras"

É daquelas mulheres moçambicanas de fibra que ousam fazer e dizer coisas que, muitas vezes, o Governo e as multinacionais não gostam. Diz: “em democracia, eu tenho o direito e a liberdade de expressar livremente, quer o senhor goste ou não, quer o senhor seja ou não representante do Governo”. Na entrevista, concedida, Alda Salomão, directora executiva do Centro Terra Viva (CTV), afirmou que a tensão político-militar é apenas uma dimensão das “várias guerras” que o País vive. Entende ela que não estamos suficientemente tranquilos, como País, para falar do desenvolvimento, porquanto estamos todos reféns da instabilidade, incluindo as instituições públicas. Nas linhas que se seguem, Alda Salomão analisa ainda o primeiro ano do novo executivo sobre o qual afirma: “dá a impressão de que não avançamos grande coisa em termos das mudanças que muitos de nós esperá- vamos ver”. Lamenta, por outro lado, que a filiação partidária em Moçambique se tenha tornado num factor de discriminação, marginalização e estigma e questiona “quem disse que ser dum partido diferente da Frelimo significa ser inimigo?”.

Sendo o CTV uma organização de advocacia em prol da boa gestão do ambiente e da boa utilização dos recursos naturais, qual é, para vocês, o estado da nação, nestes domínios? O CTV não tem a capacidade de avaliar o estado completo da nação, por isso comentei com um dos órgãos de comunicação que nos próximos relatórios sobre o Estado geral da nação o Presidente da República apresente também a situação dos recursos naturais, porque é importante sabermos como estamos do ponto de vista ecológico. Mas desde 2002 que o CTV trabalha nestas questões.

Então, nestes 14 anos, quais têm sido os temas mais fracturantes na gestão ambiental e dos recursos naturais?
Resultado de imagem para alda salomaõCertamente que a questão do desflorestamento é um assunto sério e com causas conhecidas. Há vá- rios estudos que mostram que os factores estão muito relacionados com a sobrevivência da maior parte das pessoas. Vou dar um exemplo: agricultura itinerante. A nossa tecnologia agrícola ainda é desse tipo, portanto, as pessoas cortam árvores para abrir espaços para a agricultura e vão transitando de espaço em espaço, à medida que esgotam a qualidade dos solos num determinado terreno, passam para outro terreno porque aquele tem de ficar em poisio e no terreno para o qual transitam devem também cortar a árvore. Então, tecnologia agrícola precisa de ser mudada. Mas quem afecta a floresta, afecta também a fauna. Por outro lado, a maior parte das pessoas ainda usa o carvão como fonte energética e, nos relatórios de avaliação do sector florestal, a produção do carvão é tomada como uma das principais causas de desmatamento. Ora bem, é preciso resolver esse problema. Não basta dizer as pessoas para pararem de cortar árvores, é preciso indicar como elas vão então suprir as suas necessidades energéticas. Certamente que se lembra do programa “Um Líder, Uma Floresta”, mas então, em que medida é que esse programa foi desenhado também para ajudar os líderes comunitários a se organizarem no sentido de terem espaços reservados para o desenvolvimento de espécies florestais para a produção de lenha e carvão. É que as florestas comunitárias terão os diversos usos que têm as florestas de uma maneira geral. Umas serão para a conservação, outras serão fontes energéticas, outras para colecta de material de construção, então, é preciso organizar a utilização de recursos, mas como digo, é preciso levar estas estratégias de desenvolvimento sustentável para a base, para onde a maior parte da pessoas está porque é essa pobreza que depois resulta numa grande pressão nos recursos porque as pessoas não têm outras alternativas. Não têm fonte de energia eléctrica, não têm acesso a gás, o único recurso que tem para usar como fonte de energia é a árvore.

Disse que é preciso levar as estratégias de desenvolvimento sustentável para a base. Sente que isso está a acontecer e que há uma governação participativa no domínio do ambiente e recursos naturais?
Nós vivemos num País em que do ponto de vista político-legal estamos muito bem no que respeita a princípios de boa governação, um dos quais é a gestão participativa da terra e outros recursos. Significa que, em termos de ditames constitucionais, de disposições legais, estratégias inclusivamente políticas, nós não poderíamos estar melhor. Há muitos países que não têm a protecção político-legal que temos no sentido de assegurar que os processos tenham envolvimento de todos os cidadãos. Significa que não depende da vontade do governante incluir ou não incluir os cidadãos no processo de tomada de decisões. Não é discricionário dizer que eu vou ou não envolver os cidadãos, é legalmente obrigatório envolvê-los.

Resultado de imagem para alda salomaõHá envolvimento ou não? O problema é, justamente, o facto de que todos os actores não estão claros sobre esta obrigatoriedade legal. Os representantes do Estado, alguns deles, pensam que não têm a obrigação de envolver. Pensam que podem envolver apenas quando lhes convêm. Essa é uma componente do problema que precisa de ser abordada: nós precisamos de ter representantes da administração pública que percebam que os seus actos são guiados e orientados pelos ditames e pelas normas da legisla- ção e se a legislação impõe que os processos de tomada de decisão sejam participativos, os representantes do Estado não têm o espaço de não criar oportunidade para participação, nos moldes inclusivamente que a legislação estabelece como consultas públicas, consultas comunitárias, dar informação atempadamente, informação relevante, tudo isso está prescrito na legislação. Esta é uma componente que os nossos governantes precisam de perceber em todos os níveis, não é só os ministros, porque quando ouvimos os pronunciamentos do presidente da República e dos ministros só se fala de governação inclusiva e participativa. Ora bem, esse discurso tem de ser repetido até a base com consciência do que ele implica. Dizer que vamos promover ou somos por uma governação inclusiva e participativa tem implicações de natureza prática, significa que eu cidadão estou à espera de ver o meu governante a criar as condições necessárias para que essa governação inclusiva e participativa se possa materializar.

 Terá dito em 2015 que tínhamos chegado a um nível de impunidade pernicioso para o Estado. Mantém essa tese ou alguma coisa mudou neste primeiro ano do governo Nyusi?
Neste momento só posso especular com base naquilo que é a minha percepção dos pronunciamentos que temos estado a ouvir dos representantes mais altos do Estado, a começar pelo presidente da Repú- blica que dá indicações de ter uma grande preocupação em relação à legalidade, ao rigor na utilização dos recursos do Estado, na actuação da administração pública. Mas não é só ele, nós ouvimos ao longo do ano pronunciamentos do ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural que nos deixaram muito agradavelmente surpreendidos, porque há muito tempo que não ouvíamos um governante e comprometer-se, publicamente, para corrigir as irregularidades no sector e organizar a maneira como os recursos naturais e o ambiente estão a ser geridos no País. Já é um bom passo que tenhamos tido pronunciamentos dos governantes nesse sentido porque ao fazerem esses pronunciamentos sabem que estão a expor-se ao escrutínio público. Nós havemos de avaliá-los em função da maneira como eles vão conseguir ou não transformar os seus pronunciamentos em realidade. Quando um ministro diz que quer eliminar a caça ilegal, quer eliminar a exploração ilegal de recursos florestais, quando um ministro diz que vai corrigir as irregularidades que estão a ser cometidas no processo de licenciamento do uso da terra para grandes investimentos, quando diz que os processos de reassentamento resultantes de investimentos tem de ser processos de desenvolvimento que respeitem os direitos dos cidadãos, são promessas muito sérias que estes governantes estão a afirmar. Quando eu digo que o nível de impunidade é pernicioso para o Estado é que em última instância quem está a ser prejudicado somos todos nós os cidadãos e as instituições que actuam em nosso benefício. Portanto, quando nós temos uma irregularidade, as consequências vão afectar muitas vezes não só a reputação do Estado porque dizemos que os agentes do Estado não são sérios, não são moralmente íntegros, mas as consequências também podem ser de natureza financeira. Por exemplo, se tiver de corrigir uma irregularidade ou uma ilegalidade muito provavelmente esse acto de correcção vai ter implicações financeiras para o Estado porque quem emite actos de administração pública, licenças, autorizações, etc, é o Estado, então se se constata que uma licença ou uma autorização emitida pelo Estado é ilegal, tem de haver responsabiliza- ção em relação a isso e eu, cidadã que recebe a licença, o que digo é que tenho uma licença de uma entidade pública com competência para emitir a autorização. Portanto, se emitiu autorização deveria saber o que estava a fazer, se emitiu de maneira incorrecta, eu quero ser compensando pelos danos que isso me vai causar. Nós vivemos num País em que do ponto de vista político-legal estamos muito bem no que respeita a princípios de boa governação .

Outros pontos importantes sobre o funcionamento de um Estado de Direito Democrático e, a esse propósito, vamos fazer uma ponte para analisar o primeiro ano de governação do presidente Filipe Nyusi e um novo Governo. O que lhe parecem os primeiros 12 meses?
Resultado de imagem para alda salomaõDá a impressão de que não avan- çamos grande coisa em termos de mudanças que muitos de nós esperávamos ver. Temos uma situação político-militar que nos põe a todos reféns e penso que de alguma maneira paralisa a nossa percepção em relação à existência de condições e capacidade para começarmos os grandes processos noutros sectores que o País precisa de começar e que esperávamos que começassem com a tomada de posse deste novo Governo, mas sem paz não se faz muita coisa. Estamos todos distraídos com este assunto, mesmo que em alguns momentos pareça que o assunto está esquecido, etc, mas sabemos que está lá. Eu não sei se há alguém que saiba em que sentido este País está a caminhar do ponto de vista de estabilidade, de segurança, de entendimento entre nós. Estamos a falar de gestão de recursos naturais, protecção da fauna, da floresta, conferir maior segurança da terra, ouviram falar do programa «Terra Segura», tudo isso são processos de organização e estruturação do Estado. Tu estruturas o Estado em situação de insegurança militar? De insegurança política? Eu não sinto que estamos suficientemente tranquilos, como País, para falar do desenvolvimento neste momento, ainda estamos à espera de ouvir falar de paz para retomarmos as nossas atenções para o desenvolvimento. As próprias instituições parecem estar paralisadas também. É preciso mudar mentalidades Mas quando o presidente Nyusi tomou posse transmitiu um discurso de sossegar as pessoas, com garantias tipo tenham certeza de que os moçambicanos jamais voltarão a viver sob espectro de guerra… Ele ainda não conseguiu começar a fazer uma ligação entre os seus pronunciamentos e a prática. As promessas do presidente da República não estão a ser materializadas, mas também é preciso reconhecer a complexidade e a profundidade das reformas implícitas no pronunciamento do presidente da República. Tudo o que o presidente disse e se comprometeu a fazer implica que ele deveria ter a capacidade de encetar reformas profundas para que o País mudasse de rumo e começasse a seguir alinhado com aquilo que foi o seu pronunciamento: maior legalidade, maior inclusão, maior participação, paz, respeito mútuo, respeito por posicionamento e opiniões diferentes, etc, etc.
É preciso mudar as mentalidades. Eu dou um exemplo concreto. Nós estamos a fazer trabalho em Palma, fazemos parte do processo em que somos chamados a contribuir. Mas o Governo local está a dizer nos seus comícios sobre os trabalhos do CTV que “bom, nós aqui conseguimos desmantelar o colonialismo, mas ainda sobram alguns inimigos, nomeadamente a oposição e organizações da sociedade civil, que vêm para aqui perturbar o nosso trabalho”. Portanto, temos um governante a equiparar-nos ao colonialismo. O que é que significa isso? Eu acho que nós temos várias guerras, várias dimensões de instabilidade. Temos a instabilidade político-militar, esta de que falamos todos os dias, mas não prestamos atenção aos focos de instabilidade que nós temos na maneira como os diferentes actores se relacionam mutuamente. Quando eu tenho um governante a dizer que as organizações da sociedade civil são inimigas, está a dizer que vamos afastá-las, marginalizá- -las e se for necessário vamos abatê-las porque é isso que se faz com os inimigos.Eu não sei se a oposição é um inimigo e este é o outro ponto que eu gostaria de colocar. É que a nossa filiação política, a maneira como estamos a construir democracia neste País, faz com que nos dividamos, nos confrontemos, nos olhemos como inimigos e não como cidadãos do mesmo País com os mesmos direitos e mesmas responsabilidades e com as mesmas oportunidades de contribuir para os processos do mesmo País. A filiação político-partidária é hoje um factor de discriminação, marginalização, estigma. Se tu és do MDM ou da Renamo, então, és inimigo. Quem disse que ser dum partido diferente da Frelimo significa ser inimigo? Frelimo, Renamo, MDM seja lá quem for, estão vinculados ao mesmo quadro legal. Os preceitos da Constituição deste País aplicam-se tanto a Frelimo, a Renamo, etc.

Que implicações para o País, essa politização? É muito perigosa porque eu deixo de olhar e lidar consigo como pessoa e cidadão igual a mim. O simples facto de você ser da Renamo e eu ser da Frelimo é factor de distanciamento e de potencial conflito. Onde é que vamos chegar como País com cidadãos divididos?


Resultado de imagem para alda salomaõQue desafios para 2016, um ano que começa com seca severa no sul de Moçambique e inundações no norte? Somos um País frequentemente assolado por desastres naturais. Temos de encontrar uma forma de nos organizarmos do ponto de vista de utilização dos nossos recursos, mas não só, também do ponto de vista de organização e ocupação territorial e também do ponto de vista de adaptação e evolução nas tecnologias que usamos para fazer frente a estes fenómenos. Era previsível que fôssemos ter seca, é possível prepararmo-nos para minimizar o impacto. Por exemplo, temos muita chuva no norte, ou seja, temos comida a ser produzida no norte e temos gente quase a morrer de fome no sul. Quer dizer, nós talvez não sejamos capazes de prevenir a seca no sul, mas acho que somos capazes de prevenir que as pessoas da região sul morram de fome por falta de comida. Somos capazes de nos organizar ao longo do ano para termos reservas de água para que as pessoas não fiquem completamente sem água porque não chove, pelo menos água para consumo humano, para as pessoas não morrerem. Estou a falar dos instrumentos de gestão ambiental que também nos ajudam a fazer face a desastres naturais e que talvez tenhamos de ser mais vigorosos na utilização desses instrumentos, mais atentos e mais oportunos na tomada das medidas necessárias para que quando os fenómenos ocorrerem eles não sejam um desastre. Por outro lado, as nossas instituições têm um papel a desempenhar. Houve, na província de Maputo, uma situação em que areeiros barraram o curso de água do rio Incomati, fazendo com que os agricultores a jusante não tenham água. Onde estão as instituições? Isto lembra-me o assunto das demolições. Eu reconheço ainda que somos um País com muitas dificuldades, mas não aceito o argumento de que temos falta de recursos e é por isso que algumas coisas acontecem porque já não estamos em 1975. Já houve uma evolução do ponto de vista de capacidade humana, financeira, instrumentos de apoio à organização e tomada de decisões para nos permitir fazer as coisas melhor do que estamos a fazer. Se não conseguimos gerir areeiros, o que vamos conseguir gerir, 40 anos depois da proclamação da independência. Quarenta anos depois não conseguimos gerir assentamentos informais na nossa capital. A nossa capital está com uma cara deplorável do ponto de vista de ocupação de espaço. Os nossos bairros perifé- ricos têm uma cara de miséria que já não justifica terem nesta altura em que nós estamos. Continuamos a ter resíduos sólidos a serem amontoados e depositados onde as crianças vivem onde as crianças brincam. Nós não temos capacidade de fazer melhor do que isso? (SAVANA)

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Sabe ler escrever e fazer contas,o resto há-de vir!

Sempre com ideias próprias e distante de paradigmas, Elísio Macamo apresenta a sua visão sobre o país.
Não vê problemas na descentralização proposta pela Renamo e diz que não faz sentido que os governadores provinciais sejam nomeados pelo Presidente.Disse ao jornal Público, de Portugal, em 2013, que Moçambique é uma construção muito frágil. “É como um castelo de cartas que pode ruir, no mínimo num sopro. Qualquer grupo de pessoas com vontade e com meios pode inviabilizar um país como Moçambique”. O que falta ao nosso processo institucional e democrático para que sejamos um país sólido, onde não haja esse risco de desagregação?

Resultado de imagem para elisio macamoEu fiz esse comentário numa altura em que havia fortes ameaças de guerra em Moçambique, algo que depois veio a confirmar-se. Não há guerra, mas há uma situação militar muito crítica. A questão que os jornalistas em Portugal estavam a pedir é que eu fizesse um prognóstico em relação à guerra em Moçambique.Num Estado como Moçambique, e isso diz respeito a qualquer Estado africano - qualquer Estado em formação - as instituições não são sólidas, naturalmente. O Exército, a Polícia, todas aquelas instituições que têm a missão de garantir a estabilidade de um país, não são suficientemente fortes, de tal modo que qualquer grupo de indivíduos que tenha um mínimo de organização e que tenha armas, sobretudo, está em condições de inviabilizar, ou pelo menos de desestabilizar seriamente esses países. Mas isso tem a ver com o facto de, apesar de muitos ainda não terem a consciência disso, sermos um país muito jovem. 40 anos de independência não é grande coisa no mundo e, depois, nós estamos sempre a ser comparados com países que existem há séculos, cujo processo de formação foi tão problemático como está a ser o nosso, aqui em África. Estamos em processo de constituição do nosso Estado e nós estamos a fazer esse processo num contexto completamente diferente do contexto em que estiveram os países europeus, na constituição dos seus Estados.

Qual é esse contexto?
Só para dar um exemplo, talvez um pouco polémico, nós estamos a formar os nossos Estados num momento em que a definição de Estado inclui dar votos a toda a gente, independentemente do seu estatuto social, educacional e qualquer outra coisa. Não estou a dizer que isso seja má coisa, mas estou a dizer que quando os europeus criaram seus Estados, não o fizeram nessas circunstâncias. Esse é um exemplo. O outro é que nós estamos a formar Estados num contexto em que nós temos que respeitar direitos humanos. Não estou a dizer que os direitos humanos não sejam importantes, mas o que estou a dizer é que, tendo que respeitar todas estas coisas que os europeus não tiveram que observar na altura que estavam a formar os seus Estados. Portanto, é um contexto completamente diferente e é natural que a gente tenha problemas.

O modelo que nós estamos a construir, por aquilo que está a dizer, é um modelo importado, mas estamos a importar de países que já ultrapassaram determinadas fases. Existe um outro caminho que não seja esse?
Resultado de imagem para elisio macamoNão sei. É capaz de existir, porque a história é um processo aberto. O que significa que qualquer momento de construção de um Estado é um momento novo. Porque os factores circundantes, os factores que envolvem esse processo estão sempre a mudar. É por isso que nós, em Moçambique, Angola e Cabo Verde, ficamos independentes, mais ou menos na mesma altura, e seguimos o mesmo modelo, mas há grandes diferenças entre nós. Há certos padrões que são idênticos, similares, mas esses factores todos, a proximidade com a África do Sul, o tipo de políticos que nós tivemos aqui em Moçambique, o tipo de povo que nós temos, tudo isso faz com que o processo, apesar de seguir algo que nós definimos como sendo o mesmo modelo, acaba sendo diferente.

Uma das coisas que sempre defendeu é que considerou uma possibilidade de guerra irreal. Defendeu que poderia haver distúrbios, mas a guerra não. Mas a ameaça em si de guerra já é em si a guerra, na medida em que tem efeitos psicológicos, tem efeitos ao nível da economia, da circulação das pessoas e das expectativas das pessoas…
Aí estamos a entrar numa questão semântica e é um pouco complicado, porque é uma questão de sensibilidade política. Por exemplo, há pessoas que têm interesse em descrever a situação em que estamos como uma situação de guerra. É um interesse político, mas também pode ser ético para chamar atenção das pessoas para a gravidade da situação. Eu não diria que nós estamos em guerra, e também não acho que venha haver guerra em Moçambique, mas pode haver uma certa instabilidade. Pode haver uma situação tensa militarmente durante muito tempo, porque simplesmente nós vivemos num Estado que não é suficientemente sólido para suster esse tipo de golpes.

Uma vez escreveu que a “Renamo se nutriu de problemas reais criados pelo totalitarismo da Frelimo, nos anos a seguir à independência”. E diz ainda que a Frelimo não é o que muitos de nós em Moçambique pensamos que é. O nosso país vive uma situação de instabilidade, de alguma forma influenciada pela Frelimo e pela Renamo. O que é a Renamo, o que é a Frelimo, do ponto de vista sociológico?
Resultado de imagem para elisio macamoA forma mais simples de responder é destacar três pontos. O primeiro ponto, eu acho que em certa medida, a Frelimo e a Renamo têm a mesma cultura política. É uma cultura que eu ia descrever como messiânica. Um pouco a ideia do salvador que vem e vai criar o Reino de Deus para os próximos mil anos. Há um pouco dessa atitude, o que cria um pouco de problemas na cultura política que temos aqui em Moçambique. A atitude é esta: eu vim libertar o povo e o facto de eu ter liberto o povo confere-me a prerrogativa de dizer como é que as coisas devem ser e as pessoas têm que ficar gratas. Qualquer crítica que as pessoas façam àquilo que eu quero fazer, é sinal de ingratidão. Eu trouxe a democracia, então toda a gente tem que estar grata, e qualquer crítica que se faça a mim é sinal de ingratidão. Isso é uma cultura política extremamente problemática que compromete a participação política das pessoas, afunila muito o campo político e faz do exercício do poder um jogo de soma zero. Ou eu tenho poder, ou eu não tenho poder e não há nada no meio, e como não há nada no meio não há nenhuma possibilidade de articulação com os outros. Nós podemos fazer mais distinções dentro disso em relação a Frelimo e a Renamo, podemos, por exemplo, fazer referência ao facto de que, apesar de tudo, a Frelimo teve um projecto político mais elaborado, muito mais claro, e com muito mais sentido, do que foi com a Renamo. Portanto, apesar de tudo nós temos que reconhecer isso. E uma parte dos problemas que a Renamo tem deriva do facto de que, ao contrário da Frelimo, o seu projecto político de viver, de se alimentar da mesma cultura política, nunca esteve claro. A democracia não é um projecto político. E nós vemos os problemas que eles têm. Quando eu dizia que a Renamo alimentou-se dos problemas da Frelimo, podia ter sido o contrário. Se a Renamo tivesse feito a independência de Moçambique, uma vez que tem a mesma cultura política, teria fechado o campo político, teria fechado tudo e teria criado espaço para que houvesse um campo de contestação que levasse, como foi no nosso caso, ao exacerbar do conflito, mesmo tendo em conta o facto de que houve o factor sul-africano, o factor do Apartheid, a desestabilização, etc, mas o facto, também, é que não havia muita liberdade aqui no país. Nós estávamos a viver um sistema que não permitia alternativas.

E é esta falta de cultura política que acaba de descrever que influencia a falta de resultados no diálogo político que nós temos hoje?
Bom, eu acho que influencia. Porque em grande medida o que está a ser negociado lá é justamente esta prerrogativa de poder. É verdade que algumas das reivindicações que são feitas pela Renamo fazem sentido, uma vez que o nosso, e qualquer sistema político podia ser melhor. Por exemplo as irregularidades nos pleitos eleitorais, a partidarização do Estado, o facto de haver mais privilégios para quem está no poder em relação a quem está fora são problemas que têm de ser abordados. Então eu acho que em certa medida está-se a negociar de facto o poder, e ao mesmo tempo essa negociação está a ser feita sob o pano de fundo de questões que são reais. Quero aproveitar a oportunidade para dizer que acho que seria importante abrir o diálogo para todos os moçambicanos. O novo governo tem a prerrogativa de dizer “vamos tentar um outro caminho”. E para mim, esse outro caminho não passa por continuarem fechados no Centro de Conferências Joaquim Chissano, mas por abrir este debate ao MDM, à sociedade civil, e a todos outros actores sociais. Precisa-se criar uma conferência nacional para se pensar neste país de novo.

Há cerca de quatro anos que o Governo e Renamo decidiram sentar para dialogar, mas vemos que não há entendimento e não se consegue desbloquear os impasses. Defendeu a necessidade de envolvimento de toda a comunidade moçambicana, no sentido de discutir a agenda nacional. Mas a questão de fundo é como é que se constrói esse caminho?
Resultado de imagem para elisio macamoO Governo, por exemplo, deve mostrar onde é que as coisas estão a imperar. Se é que, por exemplo, as coisas estão a imperar por causa da intransigência da Renamo, cabe ao Governo informar a sociedade. Por sua vez, a Renamo ganha com a abertura do debate porque ela pode mostrar a alegada falta de vontade do Governo. Penso que não precisamos de grande reflexão para encontrar o caminho para a abertura do diálogo. É simplesmente uma questão do Presidente da República ou o partido que está no poder dizer que nós já tentamos tudo, já fizemos tantas rondas negociais, tentamos o desarmamento e nada resultou, mas este país tem que continuar. Nós fizemos muito nestes últimos 40 anos e não vamos querer perder tudo que construímos. Dai tomarem a decisão de convidar todos os representantes dos moçambicanos, em jeito de partidos políticos e de sociedade civil, e as confissões religiosas.

Mas o actual Presidente logo que chegou ao poder reuniu-se com o líder da Renamo, do MDM, com as várias igrejas e chegou até a fazer uma conferência para discutir a paz e a violência. Não será um sinal de um caminho que este Presidente está a tentar mostrar no sentido de reconciliar a família moçambicana?
Resultado de imagem para elisio macamoSim, eu acho que ele tem feito muito nesse sentido. É verdade que algumas pessoas fazem troça dele, dizendo que ele ainda não é Chefe de Estado, mas ele tem feito várias coisas como as que mencionou. Mas essas são coisas pontuais. E eu estou a referir-me a uma acção muito mais formal. Ainda que tenha que chegar ao ponto de dizer “eu declaro as rondas negociais com a Renamo encerradas completamente, e nós vamos fazer outra coisa. Vamos nos sentar todos no Centro de Conferências Joaquim Chissano e vamos falar como vamos gerir este problema. Vamos falar dos pleitos eleitorais, da organização territorial”. Ainda que isso tenha que passar por uma reforma da Constituição, de modo a criar esse espaço de diálogo. Na verdade, o problema agora é que as negociações têm como fim acomodar a Renamo e a Frelimo. E o problema que nós temos agora não é a acomodação, e sim encontrar uma maneira de vivermos todos juntos.

No primeiro painel do MOZEFO discutiu-se a questão da humanização do crescimento. Na ocasião defendia-se a necessidade de um pacto social sobre os principais temas do país, e a criação de instituições que fossem capazes de conservar a memória institucional e conduzir a um processo de desenvolvimento. Qual é a sua opinião em relação a estes dois pontos?
Eu não sou muito amigo desse tipo de terminologia “pacto social”, “instituições fortes” e posso explicar porquê. Em vários pontos do país onde as pessoas vivem em comunidade não fizeram nenhum pacto social, e vivem bem umas com as outras, e resolvem os problemas quando se desentendem. Tudo o que um país precisa para viver bem é de uma Constituição que é respeitada. Portanto, para mim o melhor pacto social é a Constituição. É ela que estabelece as regras de jogo, e é isso que nós precisamos. Quando as regras de jogo não são respeitadas entra a ética e a moral. Também não sou muito amigo da agenda 2025, tanto que na altura que foi feita critiquei.

Mas então como é que identificamos os nossos objectivos a curto, médio, e longo prazo?
Não temos objectivos em comum. O problema está aí de pensar que nós temos objectivos em comum. Nós somos um acidente histórico e geográfico. Encontramo-nos por acaso e temos que partilhar este espaço, e não precisamos de ter um objectivo comum. O único objectivo comum que nós precisamos de ter é de não resolver os nossos problemas indo a garganta um, do outro e criar espaço para que cada um de nós defina o seu objectivo e o alcance.

Mas a falta dessa visão comum sobre os objectivos que nós queremos não é essa razão que despoleta os desentendimentos?
Não, não é. É o egoísmo, a prerrogativa do poder que algumas pessoas têm, e a ganância. É toda uma série de coisas menos a falta de objectivos comuns. A ideia do objectivo comum para mim só faz sentido quando ela é entendida como regras do jogo. E é a Constituição que faz isso. Eu tenho ouvido muita gente a falar disso, mas para mim esse é um pensamento extremamente nocivo para a vida em democracia. Cada um de nós tem as suas aspirações. Até pode aparecer um partido político dizendo que devemos apostar nos objectivos comuns. Mas não pode dizer que só assim o país será viável.
 Eu não acho que a pré-condição para o bem-estar, e seja lá o que isso for, seja a existência de instituições fortes. As instituições fortes são muitas vezes o resultado do desenvolvimento. Aquilo que a gente vê nos Estados mais avançados, é justamente isso. Eles não criaram instituições fortes e depois desenvolveram-se. As instituições ao longo do tempo, por si só ficam mais sólidas. Mas há uma grande guerra que a gente tem que fazer todos os dias para que essas instituições fiquem cada vez mais fortes. Mas nós temos muito essa mania de usar palavras que pensam por nós. Então nós não interpelamos o significado dessas palavras e depois temos dificuldades em perceber o que está a correr mal no nosso país, porque há muitas palavras que nos descrevem um mundo fácil de alcançar. Mas essas coisas não são fáceis de alcançar.

Os objectivos de desenvolvimento do milénio foram substituídos pelos objectivos de desenvolvimento sustentável. Como é que vê o projecto desta nova agenda global, embora já seja possível prever o que vai dizer tendo em conta que o que disse anteriormente?
Resultado de imagem para elisio macamoEu na altura critiquei muito esses objectivos do milénio. É perca de tempo aquilo. Até chega a ser uma brincadeira de mau gosto. Não quero de forma alguma pôr em causa a necessidade de não termos pobreza, e as pessoas serem saudáveis. Mas essas não são coisas que podem ser feitas com intervenção técnica. Reduzir a pobreza é um problema político. Dar a saúde às pessoas é um desafio político. A minha crítica incidiu-se mais na ideia de que alguém em Nova Iorque podia tomar essa decisão e depois dizer vocês agora têm essa tarefa de fazer isso aí e nós vamos mandar dinheiro. Como se eles tivessem feito as coisas dessa maneira nos seus próprios países. Eles têm consciência de que eles próprios levaram muitos anos, travaram muitas lutas para atingir esse patamar. E tudo isso deveu-se a intervenções políticas e não técnicas.

O professor Severino Ngoenha defende que é preciso reforçar o sentido de pertença. Aliás, esse foi um tema muito levantado aqui no MOZEFO. E é recorrente este discurso de autoestima, de dizer que os moçambicanos durante o início dos anos da independência tinham este sentido de pátria, mas hoje já não existe. Afinal de contas, o que quer dizer sentido de pertença?
Eu acho que ele tem razão. Nós precisamos sim de sentido de pertença, porque isso é muito importante. Lembro que no primeiro dia do MOZEFO falou-se que havia um maior sentido de pátria, mas eu não concordo com isso. Houve um projecto político que tinha uma ideia muito clara do que é a pátria moçambicana, e essa ideia do que é a pátria moçambicana criou-nos muitos problemas porque era muito excludente. É preciso ter em conta que o processo de construção do país tem vários níveis. Há um nível que é o do Estado, e há um nível que é da sociedade. Então, o Estado é a prerrogativa que alguém tem de monopolizar os meios de violência. Refiro-me à violência de dizer “eu estou a dar ordens para você dizer isso aí”. Olhando para a história do processo de construção de Estado na Europa, notamos que a construção foi, primeiro, por monopólio, através da implementação dos meios de violência. E este monopólio não implicava a aceitação dessa prerrogativa por parte da sociedade. Era um projecto de força contra a sociedade, mas a longo prazo foi necessário que essa prerrogativa fosse legitimada pela sociedade. E é por isso que entra todo esse processo democrático que vai permitir que o uso da violência pelo Estado seja aceite pela sociedade. Então, esse é que é o problema que nós tivemos em 1975. Tivemos um projecto político que era na verdade um Estado que queria formar um Estado-Nação, mas formá-lo é preciso esse elo de legitimação. E esse elo de legitimação sempre foi muito fraco. Na altura, parecia ser mais forte simplesmente porque nós estávamos na euforia da independência. Mas não é porque havia legitimidade para o projecto ideológico da Frelimo naquela altura.

Uma das ideias que defende é que a ausência da alternância política não é necessariamente uma coisa má. E que haja coerência no agir político, e na força da sociedade. Disse também que a dominação de um partido não tem de ser uma coisa necessariamente má. O que quer dizer com isso?
 Eu acho que o país precisa de um ambiente mais democrático do que é agora. Naturalmente, que em qualquer manifestação política há sempre vícios. Por exemplo, o facto de termos um partido que está há muito tempo no poder cria os seus vícios. Mas o problema não é nós termos partido político a ganhar sempre as eleições. O problema é toda a cultura política que nós temos. Nós podemos alterar os governos e continuarmos com a mesma situação que algumas pessoas criticam.

A Renamo levantou a questão da regionalização, centralização, ou seja, da necessidade de termos o poder mais próximo das pessoas. No seu ponto de vista como reforçar a legitimidade do poder público junto dos governados num país tão extenso, pobre e sem estruturas de base como o nosso?
A pobreza não é o problema. Muitas vezes a forma como a gente coloca as coisas sugere um problema falso. Aquando da introdução das autarquias eu defendi a ideia de que era preciso arriscarmos mais democracia. E não fazer esse gradualismo que durante muito tempo foi visto como a melhor forma de proceder. E eu dizia que nós tínhamos que ter a coragem de devolver o poder ao nível mais local. É justamente porque o país é grande que o poder precisa ser devolvido às instituições locais. Também não percebo a lógica de termos governadores provinciais indicados pelo Presidente. Eu acho que o governador provincial devia ser indicado pela assembleia provincial. Se é que existe a necessidade de eles existirem. Eu sei que um dos argumentos é a questão da representatividade do Chefe de Estado. Mas para mim esse argumento não é válido, porque toda a instituição do Estado representa o Chefe de Estado. E o Chefe de Estado é representante do povo, então onde está o povo que o Chefe de Estado está representado. E o contrario também. O segundo ponto é que nós temos uma organização política das regiões em Moçambique que é extremamente problemática, sobretudo no que diz respeito à relação entre o governador e as assembleias provinciais. O último e terceiro ponto que gostava de avançar é que houve nos últimos tempos essa coisa da Renamo querer não só criar províncias autónomas como também inclusivamente dividir o país. Penso que nós precisamos de alguma legislação que conte com essa possibilidade e permita as pessoas movimentarem-se no sentido de se separar, se o quiserem fazer. Porque como eu disse, nós somos um acidente histórico e geográfico, então não há nenhuma lei da natureza que diz que Moçambique está condenado a ser sempre Moçambique do Rovuma ao Maputo.

Mas essa ideia de separação, de dividir, de regionalização, sobretudo a nível do poder instalado, não é recebida de bom grado. Se a legislação criar espaço para essa desagregação não se corre o risco de ferir um projecto político que existe em Moçambique?
Sim, corre-se esse risco. E eu fico contente que o governo se sinta incomodado com essa possibilidade. Porque mostra também o compromisso que ele tem com o país como um todo. E não há nada demais nisso. O que eu estou a dizer é que em política real temos que contar com esse tipo de coisas. Nós precisamos de mecanismos que nos possa permitir decidir sobre essa questão. Aparecer alguém a dizer que eu já estou farto de ver a minha província como parte de Moçambique, eu quero sair daqui. Essas são as tais regras de jogo que estou a falar. Não precisamos de um pacto social para manter alguém numa situação que não lhe agrada. Então nós temos que contar com isso. O que podemos fazer é ter prudência, pois apesar de tudo um país é uma coisa séria. Temos de garantir que esses mecanismos de separação sejam os mais difíceis possíveis.

Não acha que existe o receio da descentralização acabar com as zonas de influência política?
 Pode ser que haja isso, e para mim é natural devido à própria estrutura do país. Ter o poder do Estado é uma prerrogativa muito grande. O multipartidarismo trouxe certas vantagens. De modo que é natural que aquelas pessoas que já detêm o poder do Estado tenham receio de perder esse poder, ao se descentralizar. Mas eu acho que o problema está na própria concepção política que nós temos de achar que o Estado existe para fazer as coisas para as pessoas.

Mas não deve ser essa a concepção, o Estado não está para servir as pessoas?
 Não é que não deve ser. É minha opinião e é uma opinião política. Eu acho que a melhor concepção do Estado que nós podemos ter é aquela que limita as prerrogativas do Estado apenas ao estabelecimento da ordem, a criação, naturalmente, das infra-estruturas, mas que se envolva o menos possível na vida das pessoas. Quando uma pessoa tem a concepção de que o Estado tem que fazer tudo, e uma outra aparece a dizer que tem que descentralizar, essa pessoa vai sentir-se castrada naturalmente.

Apontou uma vez que a sua maior esperança é a competência, a qualidade do debate. Disse que isso lhe preocupa muito. Aliás, suspendeu as suas análises, os comentários que fazia no seu blog, alegando ter sido mal interpretado. Que reflexos esta falta de qualidade da nossa discussão, a falta de qualidade que muitas vezes tem levantado do nosso ensino é o factor crítico para o desenvolvimento do nosso país?
Resultado de imagem para elisio macamoQuando suspendi o blog era mais por falta de tempo, não foi porque tivesse sido mal-entendido. É verdade que senti que havia alguns problemas na forma como discutíamos e que muitas vezes as discussões que nós fazíamos tinham pouco com o mérito das questões e muito mais com a protecção das convicções das pessoas. Eu acho que a competência nos debates é o que faz um país. Um país onde a qualidade do debate, onde a interpelação crítica é forte, é um país que tem grandes possibilidades de fazer muita coisa. Infelizmente o nosso país está a ficar cada vez mais polarizado, mesmo ao nível do debate intelectual. Quando eu digo polarizado quero dizer que o que conta não são os méritos das questões, mas o que conta é sempre a protecção das minhas crenças e políticas ideológicas. Eu acho isso muito triste e desanimador, muito problemático, e o debate intelectual, pelo menos aquele debate que eu sigo, sobretudo nos meios sociais, nos facebook é um debate muito ideológico, é um debate que não é objectivo, é um debate que não convida a debate. É sempre um arremessar de acusações, de especulações e isso não é bom para o país, não é bom para a intelectualidade. Isso permite-me dizer uma coisa, porque há muita gente a dizer que precisamos de educação, ensino superior para desenvolvermos, que é outro problema de reflexão que nós temos. As pessoas falam de estatísticas que mostras os países que desenvolveram, que investiram muito na educação. O outro problema é que o investimento na educação, na investigação, no ensino, também é resultado do desenvolvimento, não é o contrário. As estatísticas mostram isso para vários países. Há essa ideia de que, por exemplo, aqui em Moçambique precisamos formar as pessoas, mas quando eu vejo as pessoas que estão formadas hoje, a forma como elas discutem os assuntos, eu digo para quê que nós precisamos daquele tipo de formação, se é aquele tipo de pessoas que produzimos, que nos debates não vai a fundo nas questões. O que faz sentido é aquilo que confirma a minha opinião política de que há alguma coisa… nós podemos chegar a uma situação em seremos todos doutores. Parece que para algumas pessoas, se nós chegarmos nessa situação o país será desenvolvido. As pessoas esquecem que se todos nós formos doutores, nós vamos criar novos graus para haver de novo essa diferenciação. O que nós precisamos no país, não é exactamente de mais pessoas na universidade. O que precisamos é de pessoas bem formadas nos níveis inferiores de ensino no país. No ensino primário e no ensino secundário, gente que sabe ler, gente que sabe escrever e gente que sabe fazer contas, é isso que gente precisa, e o resto há-de vir. Se um indivíduo tem essas qualificações, pode aprender tudo, mas se não tem essas qualificações, não importa se é doutor, vai continuar ignorante.

terça-feira, janeiro 26, 2016

quinta-feira, dezembro 31, 2015

250 milhões de meticais em moeda estrangeira

Continuam as investigações para se apurar a proveniência e o real destino dos sacos de dinheiro apreendidos por volta das 5 horas da última sexta-feira, 25 de Dezembro, no posto fronteiriço dos Lebombos, na província sul-africana de Mphumalanga.Uma das grandes suspeitas que se lança em torno das enormes quantidades de dinheiro apreendido é que o mesmo poderia estar a caminho e destinado ao financiamento das actividades terroristas do autoproclamado Estado Islâmico.A suspeita, baseado em evidências e cenários anteriores já detectados na África do Sul, não vem de uma fonte qualquer. É o porta-voz da Hawks, um ramo do Serviço da Polícia sul-africana (SAPS) especializado em acções de combate ao crime organizado, crimes económicos e corrupção.O brigadeiro Hangwani Mulaudzi disse que, neste momento em que se aguarda ainda o decurso de uma investigação detalhada, todas as hipóteses devem ser colocadas.“Eles podem usá-lo para atividades terroristas” – avançou Mulaudzi, colocando, igualmente outras hipóteses.
“Onde e como eles conseguiram isso é uma daquelas (coisas) que estamos a tentar determinar”, disse Mulaudzi, citado pela imprensa sul-africana.
O dinheiro poderia ser usado em território sul-africano, por exemplo, para acções de recrutamento de novos membros para as frentes de combate em vários países, particularmente do Golfo Pérsico e Ásia.
O dinheiro, recorde-se, estava a ser ilegalmente transportado por dois cidadãos de nacionalidade moçambicana (com origem asiática) numa Toyota Hilux.Concretamente, estava escondida e disfarçada no fundo falso do canopy da viatura.Em relação à proveniência, Mulaudzi disse também que, nesta fase, não estava claro de onde veio o dinheiro, mas eles estavam a investigar para se aferir se os homens estavam envolvidos em atividades criminosas graves, sindicatos, assaltos a caixa de transporte de valores ou não.Os dois homens deviam ter sido presentes em tribunal nesta segunda-feira, mas a sessão de audição foi adiada para o dia 4 de Janeiro próximo.Em Agosto último, recorde-se, um grupo de homens que estava viajando do Aeroporto Internacional OR Tambo, de Joanesburgo para Dubai, tinha escondido 23 milhões de randes e 3.77 milhões de dólares em 12 peças de bagagem, incluindo quatro mochilas.Relatos da época sugeriram que o dinheiro estava a caminho do Paquistão e boa parte do valor para financiar as actividades naquele país e noutras partes do mundo.O embaixador do Iraque para a África do Sul, Hisham al-Alawi, disse na época que ele não ficaria surpreso se as investigações confirmassem que o dinheiro confiscado estava mesmo a caminho das finanças do EI.“Tem havido um aumento da actividade na África do Sul com relação ao recrutamento e angariação de fundos para a IS”- disse o embaixador do Iraque a propósito do assunto. (MEDIA FAX – 30.12.2015)

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Colonização

Em 1951 a Líbia era o país mais pobre do mundo. Kadafi pegou no país e transformou-o no mais rico de África. Antes de Kadafi apenas 20% do povo era alfebetizado, hoje são 83%. Antes da invasão da Nato, os líbios desfrutavam o mais alto padrão de vida de África, à frente da Russia, Brazil e Arábia Saudita. Na Líbia a habitação é considerada um direito humano. Os recém-casados recebem 50.000$00 dólares para comprar casa própria, e a energia eléctrica é gratuita para todas as pessoas. Não, eu não estou a inventar. O Kadafi prometeu providenciar habitação para todos os líbios antes dos seus próprios pais, ele manteve a promessa e o pai dele morreu sem uma habitação. A educação e saúde na Líbia são gratuitas e de altíssima qualidade, e se um líbio não consegue encontrar a educação ou serviço de saúde que necessita na Líbia, então o governo líbio financia-o para ir ao estrangeiro receber esses serviços. Todos os empréstimos são livres de juros, 0% por lei. Se um líbio comprar um carro o governo paga 50% do preço. Se um cidadão líbio quiser ser agricultor, o governo providência, terra, casa, equipamentos, animais e sementes tudo gratuitamente. Em 01-07-2011, 1.700.000 pessoas reuniram-se na praça verde de Trípoli para se manifestar contra o bombardeamento da Nato à Líbia, isso representa 95% da população de Trípoli e cerca de um terço de toda a população da Líbia. 
O Banco Central líbio é estatal e ao contrário de todos os Bancos no Ocidente não é propriedade dos Rothschilds e emite dinheiro livre de dívida. Na década de 90 a Líbia foi acusada de ser a responsável pelo atentado de Lokerbie da PanAm 103 mas foi denunciado que os EUA pagaram 4 milhões de dólares a cada testemunha no julgamento para testemunharem contra os homens líbios acusados. Sim eles foram pagos para mentir, e as provas já foram desmentidas. O Kadafi também estava a trabalhar para não usar o dólar como moeda de pagamento pelo petróleo da Líbia usando em troca o Dínar Africano baseado em ouro. Esta jogada levou Sarkosy a chamar a Líbia de "uma ameaça para a segurança financeira da Humanidade". Um dos primeiros actos dos "rebeldes" líbios foi criar um novo Banco Central propriedade dos Rothschilds como são os nossos do Ocidente. Estima-se que as familias Rothchilds possuam mais de metade da riqueza mundial. Os Bancos Rothschils criam dinheiro a partir do nada e vendem-no ao povo com juros. Isto significa que nunca temos dinheiro suficiente para pagar a dívida de volta. Portanto nós e os nossos filhos ainda não nascidos tornamo-nos escravos da dívida pelos juros dos Bancos Rothschilds. Ao contrário dos nossos líderes Cameron, Obama, Sarkozy, Barroso e companhia, Kadafi recusou vender o seu povo. A Líbia estava livre de dívida! Estás a perceber porque é que o Kadafi tinha o apoio do seu povo? Já percebes quem está por de trás do bombardeamento da NATO a um povo livre e soberano? Os Líbios tinham mais do que nós temos em Portugal, EUA e União Europeia, eles tinham um líder com integridade e coragem, que trabalhou em prol dos interesses do povo Líbio e não nos interesses dos Rothschilds. Sem a tirania dos Bancos Centrais no controle da emissão do dinheiro, todos nós poderiamos viver como pessoas ricas. Fomos e continuamos a ser roubados em triliões pelos banqueiros Rothschilds e seus politicos prostitutas. Temos sido violados e escravizados. Assim como a Líbia vai ser violada e escravizada se não acabarmos com este crime contra a humanidade.