sexta-feira, maio 23, 2014

"Nós de Nós mesmos"


Muito curiosa esta abordagem à discriminação racial dentro da mesma raça! Donde se conclui que a discriminação está mais na luta económica ( nível de vida ) do que na cor de pele. Todas as generalizações levam ao mesmo objectivo – preservação do status social pela diferenciação da restante população.O guebuzismo fez ressurgir, a discriminação racial, um tipo de “apartheid”, fundado num sistema de castas raciais, mais pelo determinismo social e político, como acontece na Coreia do Norte. Tal é manifestado nas seguintes categorias raciais: os moçambicanos de gema, os goeses, os expatriados, os tribalistas e os párias.Os moçambicanos de gema, por contraposição aos goeses, são os negros. Estes constituem a classe dominante.Na procura do lançamento de um nacionalismo negro, o guebuzismo cunhou de goeses a uma determinada elite que na primeira república era mais chegada ao presidente Samora Machel e hoje é crítica aos métodos de governação de Armando Guebuza. São indivíduos de primeira linha da Frente de Libertação de Moçambique,
Comprometidos com o ser africano e a Negritude. Estes indivíduos, agora expurgados, têm reminiscências raciais africanas, asiáticas e europeias.
Na lógica dos porta-vozes do regime, os expatriados são jornalistas independentes tidos como portadores de uma segunda pátria ou que não se deixam arregimentar. São implicitamente os moçambicanos de origem europeia e africanos com uma atitude de cidadania marcadamente universais e que se notabilizam por uma atitude crítica e distanciada da governação de Guebuza. No advento da independência assumiram a cidadania moçambicana e engajaram-se em todos os processos/frentes da revolução.
Com a emergência do liberalismo económico e da corrupção adoptaram uma atitude social em função da realidade. São os considerados detractores e hostis ao regime do dia, pois mantém a luz do dia, aquilo que foi o conto de fadas da Frelimo: libertar a terra da opressão e do colonialismo, criação de uma sociedade de bem-estar comum, um Estado social a exemplo da União Soviética.Alguns hoje tidos como expatriados eram também intelectuais da primeira linha de Samora Machel, a quem os novos ideólogos da Frelimo imputam as falhas e descalabros cometidos pelo dirigente da primeira república.
Os tribalistas são fundamentalmente os nacionais que se distanciaram da Frelimo e encarnam outro conceito de progresso e nacionalismo. São os cidadãos das cidades da Beira, e Quelimane, segundo disse recentemente um dos corifeus do regime, porque votam no MDM. Contam-se neste grupo descendentes dos que combateram o marxismo-leninismo e a ditadura em Moçambique mais os excluídos da nova aristocracia e burguesia nacional. Contam-se também como tribalistas aqueles cujo pensamento nacionalista não vai de acordo com o dogma do regime.
Os párias do sistema são os cidadãos que exercem assumidamente a cidadania, quer através de partidos de oposição, quer através do activismo em organizações da sociedade civil. São os que o sistema não conseguiu capturar, incluso mais de cinquenta por cento de cidadãos com idade eleitoral que não vota em virtude de descrédito dos órgãos eleitorais.São os tidos como cidadãos financiados com fundos estrangeiros para desestabilizar o poder do “Filho Mais Querido do Povo”, termo que textualiza com “Querido Líder”, como é apanágio do regime norte-coreano tratar Kim Jong I, no nosso caso o Presidente da República.
Os goeses, os expatriados, os tribalistas e párias são os considerados detractores do regime e por isso alvos da purga do regime, quer a partir do aparato militar, quer a partir dos órgãos judiciais.
A primeira casta é a dos leais, coincidentemente o mesmo género adoptado pela Coreia do Norte. Dela fazem parte os mais próximos ao Guebuza, aqueles que evocam e exaltam o nacionalismo económico moçambicano (analogia implícita a uma elite económica negra/de gema/genuína). Aqui cabem os filhos de Guebuza e dos combatentes da luta de libertação entre si unidos, em diferentes alianças e conexões empresariais. Inclui-se o círculo restrito do poder, a chamada linha dura do actual regime e mais todos os entusiastas do presidente da República e da Frelimo. Desta casta também fazem parte aqueles que buscam pela salvação económica e temem o ostracismo (directores, ministros, governadores, secretários dos bairros, administradores, chefes dos postos e secretários permanentes) e parte dos cerca de duzentos mil funcionários públicos que não têm outra forma de sobrevivência e não têm como se livrarem das amarras de O Glorioso.Aqui cabem ainda os juízes dos tribunais judiciais, administrativos e aduaneiros, conselhos superiores de comunicação social e magistratura, reitores de universidades públicas, PCAs de todas as empresas públicas e entidades eleitorais.
Os expatriados, goeses e apelidados tribalistas têm pouca possibilidade de progredir na vida económica. Os leais são os que dentro da aristocracia têm sangue azul. Têm mais hipótese de mobilidade até escala mais alta da aristocracia/oligarquia/establishment, diferentemente de um mero cidadão comum. Por exemplo, um cidadão, que esteve desempregado durante três anos, depois de arregimentar-se de forma aberta, foi promovido a director de informação num órgão de comunicação social e obteve licença de exploração mineira.
Qualquer crítica fora da classe leal que puser em causa a forma de direcção do país, da governação de Guebuza e do partido no poder, estuda-se o autor. Se for de um goês, um indivíduo conotado tribalista ou um expatriado é alvo imediato.
Logo é para ser abatido na imprensa pública (TVM, RM). Aqui só têm direito à opinião os leais ao regime, nomeadamente os acólitos do regime, e todo aquele que, temendo o ostracismo, pense dentro da linha do regime do dia, através de hossanas ao também apelidado de Visionário, Clarividente e Generoso (termos com que se pretende elevá-lo à qualidade de Guia Espiritual).Se alguma crítica despir a qualidade sacro-santa do “Guia Espiritual”, os acólitos de regime ensaiam a preparação da cama do autor, a começar pela TVM, RM, depois via Conselho Superior de Comunicação Social. Em última instância o articulista é processado pela Procuradoria da República.Num país onde milhares de queixas-crime apodrecem nos cartórios das instâncias judiciais, o processo do expatriado é julgado com celeridade.
O caso Nuno Castelo-Branco, acusado de ofender o “Querido Líder”, é disso um exemplo.Na situação em que numa publicação os leais (Sargento Aposentado, Silvestre Nhungo e Jorge Xiyahimassiku) da aristocracia ofendem um indivíduo que não seja de gema, o pedido de desculpa deste (ofendido) é ignorado. O caso Sérgio Vieira é disso exemplo.Um dos acólitos do regime, cliente do Correio da Manhã, atribuiu parte de responsabilidades dos descalabros de Samora ao jornalista Fernando Veloso, com tons racistas, mas o CSCS faz vistas grossas.
O “apartheid” introduzido por este regime em Moçambique têm alicerces no método do controlo social do regime totalitário da Coreia do Norte.Tem uma componente mais elaborada e intrusa, o que é feito na vida social e mormente através de escuta dos telemóveis e policiamento social, incluso nas redes sociais onde os acólitos lançam pedidos de amizade imbuídos de má fé.A instrução do processo-crime contra Castelo-Branco é também mais uma forma de fazer-se ao controlo de um cidadão nacional através deste clássico método de ‘apartheid’.
A pressão sobre o poder judicial tem em vista a satisfação da expectativa de alguns moçambicanos de “gema”, que pretendem ver reposto o seu orgulho ferido, através de linchamento da “imprensa expatriada”.
No cenário político actual não se reconhece nenhuma integridade ao tribunal. O tribunal que está a julgar este processo, atendendo que o judicial está a ser industriado a agir contra a mídia independente, que na óptica dos acólitos do regime suportam a oposição.
O poder político afirma amiúde que cumpre com a Constituição da República e o princípio de separação de poderes, mas neste caso está-se a urdir uma sentença política, para desencorajar os cidadãos e a sociedade civil crítica ao sistema, de fazerem ondas.
O que suporta a tese de que a “mídia expatriada” é inimiga declarada do guebuzismo são as afirmações literais do secretário-geral do partido Frelimo, Filipe Paunde, para quem a crítica ao autoritarismo do “Filho Mais Querido” deve-se ao excesso de liberdade de opinião/imprensa. Todavia, o sentimento quase generalizado dos moçambicanos é de que a fonte de discórdia nacional e a razão da presente tensão político-militar do país é o “Filho Mais Querido”.Margarida Talapa, outra figura como Paunde pertencente a “realeza”, tem o mesmo posicionamento do seu secretário-geral no tocante a liberdade de imprensa.
A memória dos homens que libertaram a pátria está corrompida pela arrogância e prepotência.O país viveu de 1975 a 1990 um regime totalitário e monopartidário. De 1990 até 2012 houve relativa fruição de liberdades: política, de pensar, de 2013 conheceu-se uma viragem.A imprensa pública foi capturada pelo partido no poder.
O país, com índice de pobreza de 54 por cento, agora vive novo conto de fadas.É um índice de pobreza que vem de há mais de 10 anos, e que, se não tende a agravar-se, tende a criar um grande fosso entre pobres e ricos.A riqueza de Moçambique está grosso modo nas mãos da família Guebuza, o seu círculo restrito e figuras de proa do partido Frelimo. Todo o crítico das desigualdades sócio-económicas, da corrupção do Governo, da primitiva acumulação de capital da parte da família do Presidente é apelidado “apóstolo da desgraça”, “tagarela” e “intriguista”.
No passado criticava-se o colonialismo pela restrição de direitos fundamentais.
O conto de fadas que a elite política transmite é de que o colonialismo oprimia o povo.
Fazia do moçambicano a sua propriedade. Todavia, a elite política é ao mesmo tempo a elite económica que reparte entre si o queijo dos recursos naturais e energéticos. Detém o estatuto de privilegiado, é protegida por lei. Um estatuto de que se serve para tratar os demais como súbditos e subordinados.
Eis o que se vive: o endocolonialismo. Onde o negro nacional é o novo opressor.Todavia, hoje a oligarquia está a reproduzir os mesmos erros do passado. Os intelectuais são desencorajados de criticar os mega-apetites económicos e o autoritarismo do presidente.O partido Frelimo tornou-se dono do povo, a quem só é permitido venerar/exaltar o Clarividente e o Glorioso. Paunde, quando secretário da Frelimo em Sofala, defendeu a tese de que o multipartidarismo não é bom porque atrasa o desenvolvimento.Daí compreende-se a a sanha e saga contra a oposição e a liberdade de imprensa/ expressão em Moçambique.
Ressalta daqui um paradoxo recorrente, pois só a um escravo se lhe diz que tem excesso de liberdade.O hino moçambicano refere no último verso “nenhum tirano nos escravizará”, mas a escalada de violência do poder político revela uma amnésia do passado e um extremismo que poderá conduzir o país ao abismo.
Refira-se que de 1990/2003 Moçambique chegou a ocupar um lugar de vanguarda em África no campo da liberdade de expressão. À sua chegada ao poder, Guebuza agravou o regime de indemnizações para o caso de difamações na imprensa: de quinhentos meticais para vinte mil meticais.Em matéria de respeito às minorias raciais, Moçambique conheceu uma fase sinuosa, quando o então ministro do interior, Armando Guebuza, declarou 24/20 (vinte quilos de bagagem / 24 horas para a expulsão), o que precipitou na saída em debandada do país de 200 mil cidadãos brancos de origem portuguesa.
De recordar que até 1976 havia nas cadeias moçambicanas cinco mil moçambicanos detidos por pensar diferente. Os traumas estão latentes e o país funde-se numa escalada de terror.O isolamento do regime e a sua clausura, que se limita a um círculo cada vez mais fechado, fez nascer na sociedade moçambicana duas classes sociais antagónicas: os civilizados (leais ao Guebuza) e os bárbaros (críticos), por via disso excluídos. Nesta dicotomia discriminatória há claramente uma instituição do ‘apartheid’, onde se materializa a instituição dos novos “mulungus” encarnados num colectivismo dialéctico “nós” (defensores do guebuzismo) e “outros” (a classe dos inferiores).
Daqui infere-se a necessidade de os moçambicanos se rebelarem contra o ‘apartheid’ que tende a dividir os filhos desta mesma pátria. Há necessidade de os moçambicanos indignarem-se contra este regime que já não oferece nenhuma visão quanto ao tipo de sociedade que pretendemos ser. Há necessidade de os moçambicanos perseguirem esse ideal porque o poder político está algo confuso. A soberania que lhes foi outorgada na base do contracto social está a ser usada como um meio de supremacia/domínio de um grupo fundado num chauvinismo aventureiro e perigoso, capaz de levar a deterioração da paz social, deixando desamparado o povo que esperada a protecção deste mesmo poder político.
A liberdade, nos termos em que o poder político pretende coarctar, é indisponível.
Ao contrário é a escravatura.(A.Timoteo)





Instem a Renamo a deixar as armas



O presidente da Republica, Armando Guebuza, apelou, esta sexta-feira (23), à sociedade civil para que convença a Renamo, maior partido da oposição no país, a baixar as armas e a voltar à mesa das negociações com o governo.«Penso que a sociedade civil vai ajudar-nos a mobilizar a Renamo», disse Armando Guebuza num comício em Chókwè, no início da presidência aberta na província de Gaza, no sul do país.Segundo o chefe do Estado, os moçambicanos irão ajudar nessa ação porque vão «perguntar» a Renamo porque «usam as armas, porque não querem conversar para resolver o problema».Guebuza reiterou, ainda, a disponibilidade do governo para dialogar e instou a Renamo a ouvir o povo, «porque todos almejam a paz». 
Entretanto o  líder da Renamo, Afonso Dhlakama, disse na manha de hoje(23) a jornalistas, que quer sair da Gorongosa, para começar a organizar as actividades do seu partido e envolver-se no processo eleitoral. Mas diz que não o pode fazer porque Guebuza mandou concentrar tropas da FIR e a FADM com ordens para matar.Numa conferência de imprensa bastante concorrida feita por telefone e que teve lugar na sede da Renamo em Maputo, Dhlakama disse não compreender a perseguição que Guebuza ordenou. "Eu sou líder de um partido, sou moçambicano e tenho meus direitos de eleger e ser eleito, por isso quero vir organizar o meu partido. O Nyusi e os outros líderes já começaram a andar pelo País e eu quero fazer o mesmo".Dhlakama deixou claro que não tem medo da Frelimo e que “hoje mesmo chegaria a Maputo” só que segundo ele, a Frelimo vai disparar “e se eu responder poderá destruir-se tudo, o que seria mau para o País" disse.

terça-feira, maio 20, 2014

Depois de Nyuse, eis Simango....

Na qualidade de candidato do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) às eleições gerais de 15 de Outubro deste ano, Daviz Simango, iniciou esta segunda-feira (19) a sua pré-campanha eleitoral na província de Nampula, onde deve, dentre outros aspectos, colher experiência dos quadros que estiveram por detrás da vitória do seu partido nas eleições autárquicas de 2013. 
Falando num comício, Daviz Simango disse aos presentes que era chegado o momento de mudar o sistema de governação no país e que há necessidade de os moçambicanos viverem condignamente. “Não podemos continuar a ser governados por pessoas que necessitam de um aperto de gatilho para dirigir os moçambicanos.  Atingir o poder não é preciso matar pessoas e muito menos comprar armas”, acrescentou. Segundo Simango, há, no país, toda necessidade de a população ter emprego e salário condignos. 
Simango deu como exemplo as classes dos enfermeiros e dos médicos, que, na sua opinião, não devem continuar “a sobreviver” da venda de medicamentos e da prestação de serviços em clínicas privadas. Para Simango, não deve haver espaço, no país, para as pessoas trabalharem sem pensar no seu futuro. “Não há espaço para pessoas que trabalham sem pensar no amanhã. Não queremos ladrões, corruptos,.....”, resumiu.

segunda-feira, maio 19, 2014

Pérola hipotecada a médio e longo prazo?

Não é que a sociedade civil moçambicana nada esteja a fazer para honrar e dignificar o seu nome e postura. Não é que a oposição política não esteja funcionando e trazendo a público as suas preocupações e projectos. Não é que o país não esteja andando ou progredindo em determinados sectores. Não é que tudo o que o poder do dia esteja fazendo seja completamente mal feito.  Mas não se pode dizer que o país está nos carris e que tudo esteja “nos conformes”...
Há uma certa paralisia na esfera política dado o contínuo impasse no Centro de Conferências “Joaquim Chissano”. Há suspeitas fundamentadas de que as manobras dilatórias protagonizadas pelos interlocutores naquele fórum tenham como objectivo final o adiamento dos pleitos eleitorais, e desta forma prolongar a permanência no poder da actual equipa. Parece que estamos suspensos numa ponte frágil, prontos para uma queda fatal. A teimosia e o apego ao poder de certas personalidades é uma receita perigosa para o país. Armados de legitimidade conferida pelo facto de serem o Governo do dia, advogam saídas para uma crise que consome recursos e fragiliza o tecido nacional de todo inaceitáveis para a larga maioria dos moçambicanos. Convém ter olhos de ver quando se lançam ofensivas públicas de tornar os outros em demónios. Encomendam-se caixões para uns, enquanto se adquirem jactos executivos para outros.  Num autêntico golpe de rins estratégico, convocam-se marchas até bem-intencionadas, visando reclamar ou protestar contra regalias e mordomias de PRs e deputados. “Virar e o feitiço contra o feiticeiro” é um bico-de-obra de difícil realização, mas as tentativas não pararão por aqui. Com êxito ou sem êxito, a sociedade civil da capital do país vem-se mostrando interventiva, copiando em certa medida comportamentos e procedimentos similares de outras latitudes. Mas na senda do protagonismo e da oposição a determinadas decisões ou deliberações da Assembleia da República e do Governo importa não perder de vista aspectos fundamentais da governação, suas implicações e consequências. Vem isto a propósito da incapacidade de todo um pacote de dívidas assumidas pelo Governo sem consulta nem aprovação parlamentar.  A sociedade civil ainda não terá reparado que o Governo está hipotecando o país a médio e longo prazo? Os partidos políticos moçambicanos estão distraídos e são ignorantes quando se trata de verificar e aferir a viabilidade de decisões vinculativas tomadas pelo Governo na esfera financeira? Enquanto, por exemplo, a Embaixada da Suécia em Maputo ainda pergunta pela EMATUM, para a maioria dos moçambicanos, seus partidos e líderes é assunto esquecido, facto consumado? Quanto custaram os aviões de guerra adquiridos em segunda mão? Foram apreendidos pelo Governo da Alemanha, e depois o que aconteceu? Que fez o ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique para recuperar equipamentos pertencentes a Moçambique? Afinal que cooperação existe entre a Alemanha e Moçambique? Os grandes dossiers do sector de minerais e energia, que foram sendo tratados sigilosamente pelo Governo, jamais encontraram uma resposta efectiva da sociedade civil. Quando instituições como o IESE e o CIP investigam e trazem a público conclusões de extrema importância para a redução da dívida moçambicana, para o acerto de contas e adopção de procedimentos consentâneos com os preceitos de boa-governação e austeridade, quem os escuta? Quem aprende com o que dizem? Deputados improdutivos e declamadores de poesia elogiosa a líderes empurram o país para o abismo através do seu comportamento vergonhoso. No lugar de fazerem da AR a “Casa do Povo”, transformaram-se em vampiros sugando o sangue de seus concidadãos. É deplorável, triste, vergonhoso que uma minoria se tenha afastado tanto das suas proclamações pré-eleitoralistas. Saudar marchas da sociedade civil, mesmo que seja visível algum grau de infiltração por agentes estranhos às causas advogadas, não deve significar que nos calemos face a uma estratégia bem definida de depauperar o Estado e os seus recursos. Há uma manifesta agenda secreta de endividamento do país que nada tem de estratégico. Gente de escrúpulos duvidosos e suspeitos está disposta a continuar assinando acordos e contratos de contrapartidas também duvidosas. Quem vende ao desbarato o que o país possui deve ser chamado ao parlamento para, de maneira rigorosa, explicar os contornos de negócios que lesam a pátria. Não se pode brincar às manifestações e esquecer que, enquanto se manifesta, existem agentes activos cimentando a sua posição em parcerias público-privadas de interesse estranho e suspeito.  Quem autoriza garantias de dívidas de empresas de dimensão e missão desconhecida e aparentemente secreta deve ser questionado pelos representantes do povo, porque ser titular de cargo público não dá direito a posição de proprietário do país e dos seus recursos. Não se deve brincar com assuntos de Estado e deixar que os abutres tomem conta da agenda nacional. 
Os brilharetes que as marchas possam trazer para a arena pública são importantes, mas os ataques à depredação dos recursos nacionais devem ser mais acutilantes e demolidores.Quem se propõe a endividar as gerações de hoje e as vindouras deve ser travado com decisão e profundidade. Moçambique não é uma ONG nem um partido político. Não somos filhos de fundações de cariz filantrópico nem queremos viver de caridade. Não queremos esmolas nem camisetas comemorativas. Queremos dignidade, justiça e acesso ao país que nos pertence. Ao Governo só exigimos que desbloqueie as “negociações” que andam a passo de camaleão. Criar as condições adequadas para que o povo participe em eleições livres, justas e transparentes deve ser a prioridade do momento.  Os argumentos repetidamente apresentados, alegando inconstitucionalidade e quejandos sobre assuntos sobejamente conhecidos e diagnosticados, são de conveniência e um exercício de auto-protecção. (N. Nhantumbo)

O Shr. Dhlakama tem que escolher o melhor para a Renamo

 Depois de duas semanas de interregno, as delegações do Governo e da Renamo retomaram as negociações esta segunda-feira (18) no Centro de Conferências “Joaquim Chissano”, na cidade de Maputo.Na semana passada, as partes não se reuniram porque o Governo havia pedido à Renamo para que não houvesse, na sequência da primeira sessão extraordinária do Comité Central do partido Frelimo, que decorreu na cidade da Matola. Desde há dois meses que as partes vêm divergindo quanto à missão dos observadores internacionais, com o Governo a exigir desmilitarização incondicional dos homens da Renamo, e esta a exigir a sua participação nas Forças de Defesa e Segurança numa base de paridade. Com vista à sua participação nas eleições gerais e provinciais de 2014, a Renamo já se inscreveu na Comissão Nacional de Eleições e o seu líder Afonso Dhlakama já se recenseou. (B.Álvaro)

sexta-feira, maio 16, 2014

Mas é isto mesmo...


"Não à legalização do roubo"

Liderados pelas organizações da sociedade civil, os cidadãos saem hoje (16) à rua em Maputo e nas outras capitais provinciais, em protesto contra as regalias aprovadas em duas leis separadas, para beneficiar os deputados da Assembleia da República e os ex-Presidentes da República. A marcha, com o lema “NÃO À LEGALIZAÇÃO DO ROUBO”, parte da estátua de Eduardo Mondlane, na avenida com o mesmo nome, e irá desaguar na Praça da Independência, frente ao Conselho Municipal de Maputo. Um estudo levado a cabo por organizações da sociedade civil revela a forma escandalosa e danosa com se gere a coisa pública em Moçambique, através da acumulação da riqueza por uma minoria, em prejuízo de todo o povo. Segundo o estudo, cada deputado aposentado ganha cerca de 910 mil meticais, aproximadamente 30 mil dólares, por ano. 
O valor é o somatório das seguintes benesses: 100% do salário mensal, isenções para a compra de viaturas e assistência médica e medicamentosa. O estudo não inclui aquilo a que chama benesses de difícil valoração.  O deputado com o salário mais baixo ganha 60 mil meticais por mês, cerca de 720 mil meticais por ano, sendo este o mesmo valor que é pago a um deputado aposentado, desde de que tenha feito respectivo desconto. O mesmo deputado aposentado tem ainda direito a isenção na importação duma viatura (de cinco em cinco anos). Tem ainda um subsídio de assistência médica e medicamentosa (família de cinco pessoas) num valor de 10 mil meticais.
     Subsídio de reintegração do deputado equivale a 30 anos de salário na agricultura.
Usando como referência o salário de 60 mil meticais por mês, e tendo como base o mandato (cinco anos), o deputado tem um subsídio de reintegração de 2.700.000,00 meticais, o equivalente a 90 mil dólares. Este valor, segundo o estudo, equivale “ao que ganharia um trabalhador agrícola com o salário mínimo em aproximadamente 30 anos, considerando o salário mínimo actual (3.010).” O chefe duma bancada, segundo o estudo, tem rendimentos 50 vezes superiores ao rendimento médio dum cidadão moçambicano. Um deputado simples “tem rendimentos vinte e cinco vezes superior ao rendimento per capita do país.”  O estudo revela ainda que “o salário dum deputado é 23 vezes superior ao salário mínimo na agricultura. O chefe de bancada possui rendimentos 46 vezes superior ao salário mínimo na agricultura.”
           Deputados podem custar ao Estado nove milhões de dólares daqui a 20 anos
O estudo, considerando uma taxa de renovação de deputados de 30% entre legislaturas, conclui que, aos valores actuais, daqui a vinte anos, as pensões representariam 9 milhões de dólares (2.250.000,00 USD para os reformados em cada legislatura x 4 legislaturas em 20 anos), o suficiente para, neste período, se construírem 12 centros de saúde do Tipo 2 e 720 salas de aula para 18 mil estudantes (considerando 25 alunos por sala).

          E o Presidente da República?
O impacto orçamental para as regalias com os ex-Presidentes da República é de 46.121.500,00 meticais, cerca de 1,537 milhão de dólares, isto é, perto de 130 mil dólares por mês. O estudo revela que os “valores, equivalem a cerca de mil e quinhentas vezes o actual rendimento per capita de Moçambique”. Este valor pode triplicar, em função do número de beneficiários. (A. Mulungo)