terça-feira, dezembro 28, 2021

Clube grande com grande problema de governação

Vieira contratou Jesus para mudar de assunto depois de um fracasso. Rui Costa despede-o para mudar de assunto depois de um fracasso. Jesus serviu para tudo menos para ganhar jogos. Só dinheiro

O cheque em branco do Benfica em 2020 acabou num xeque ao banco em 2021. O treinador sai forrado, Rui Costa desforrado e o Benfica segue saltando de nenúfar em nenúfar sobre um pântano de maus resultados. Jesus soube gastar dinheiro, soube ganhar dinheiro, só não soube ganhar troféus. Como o próprio disse uma vez, “ganharam bola”.  Zero.

“Zero titoli”, diria hoje de novo José Mourinho. 18 meses e mais de cem milhões de euros depois, nem houve “Benfica europeu” nem há Benfica nacional, nem taças nem campeonatos, e grandes vitórias só se foram camisolas contra coletes nos treinos no Seixal.

Provavelmente, a contratação de Jesus foi o pior investimento de sempre do Benfica. Foi contratado a ganhar mais dinheiro do que qualquer jogador em Portugal e teve os famosos “cem milhões” para construir a equipa que quis. Mais do que dependurá-lo hoje pelo fracasso depois de voltar ao sítio onde foi feliz, é preciso questionar a megalomania e a arrogância do Benfica, cujo então presidente sai agora coberto de ridículo de cada vez que se ouvem as suas promessas de “hegemonia”.

Um treinador treina, um presidente gere – e não é possível olhar para o investimento no projecto de Jesus sem concluir pelo rotundo fracasso. Alguns números que comparam 2020/2021 (depois de Jesus) com 2019/2020 (antes de Jesus). A folha salarial subiu de Benfica subiu de 85 para 97 milhões de euros (14%) mas as receitas caíram de 140 para 94 milhões (33%).

A pandemia só explica parte deste desaire: da queda de 56 milhões nas receitas, as perdas em bilheteira “só” representam 17 milhões. Onde o Benfica falhou foi nas receitas de competições internacionais. E nas vendas de jogadores: com o investimento realizado, o valor líquido do plantel aumentou de 103 para 146 milhões (41%) mas os ganhos líquidos com transações de jogadores caíram de 126 para 88 milhões (quase 30%). O investimento fez o passivo subir de 325 para 380 milhões (17%), reduzindo o (ainda sólido) capital próprio de 161 para 144 milhões (11%), depois de os lucros de 42 milhões de 2020 se terem transformado em prejuízos de 17,5 milhões em 2021.

Insisto: a covid-19 não explica tudo. Não só o investimento em Jorge Jesus é realizado em plena pandemia, no verão de 2020, assumindo pois esse risco, como tanto os resultados desportivos como os financeiros demonstram o fracasso de quem investiu. Mas porquê?

Porque Luís Filipe Vieira quis mudar de assunto. Tinha acabado de perder mais um campeonato, tinha eleições pela frente e obnubilou as mentes dos benfiquistas com o futuro para fazer esquecer o passado. Gastou o que foi preciso para isso, ganhou as eleições e prometeu o céu. Zero. Hoje fora do Benfica e dentro de um processo judicial, Vieira sai como o presidente que estourou dinheiro num desapontamento. E Rui Costa?

Rui Costa também usa Jorge Jesus para se safar. As manobras de comunicação dos últimos dias serviram para isso, para deixar o novo presidente do Benfica ileso. É por isso que Jesus é um seguro de vida dos presidentes, do que foi e do que está. Um seguro com apólice cara.

Jorge Jesus vai agora à sua vida, bem na vida e provavelmente de bem com a vida. Já o Benfica fica com um problema: a meio de mais uma época em perda e concluindo que o dinheiro não resolve tudo e pode mesmo não conseguir nada. O novo presidente tem a sua primeira prova agora, o bode Luís Filipe Vieira já não será expiatório para o que se segue.

É melhor Rui Costa pensar bem no que vai fazer, ou acabará também num lugar difícil: onde Jesus perdeu as botas.


Acabou!

O regresso de Jorge Jesus ao Benfica redundou num enorme fracasso.

Jesus fora a carta que Luís Filipe Vieira havia lançado para a mesa para ganhar o jogo da reeleição.

O ex-presidente dos ‘encarnados’ lançou mão de uma relação muito próxima (chamam-lhe amizade) e explorou até ao tutano o efeito do trabalho realizado por Jorge Jesus na liderança do Flamengo.

Jesus chegou a Lisboa de peito feito. Com o ego em alta. Inchado de orgulho e de conquistas no Rio de Janeiro. O seu discurso de (re)apresentação foi retumbante: era ganhar, jogar o triplo e unir a nação benfiquista.

Não ganhou, nunca jogou o triplo e desuniu ainda mais a já fraturada nação benfiquista. Talvez tenha unido ainda mais a fação mais radical contra a sua presença na Luz e perdido alguns ‘votos’ entre os apoiantes, porque perante o investimento também era legítimo esperar mais do seu desempenho.

A questão da união ou da desunião resultou determinante e foram elas que tiveram um peso inelutável neste desfecho.

Jesus acreditou que conseguia impor as suas ideias, métodos e forma de estar junto dos jogadores e do ‘aparelho’, mas essa ‘imposição’, isto é, a projecção da “autoridade com brutalidade” — o verdadeiro calcanhar de Aquiles do treinador — acabou por ser a sua guilhotina.

Há uma lei inexorável que Jesus desprezou, com toda a sua experiência: não há nenhum treinador que resista se não tiver o apoio dos jogadores.

A quebra de confiança foi decisiva: Jesus já não tinha a confiança de ninguém e o próprio Jesus já não confiava em ninguém. E, aqui, a responsabilidade é geral.

Jorge Jesus só funciona se tiver apoio máximo de toda a gente: do presidente, de cada um dos dirigentes (que ele genericamente despreza), da equipa técnica (com a qual chega a ser implacável), de cada um dos jogadores (se não houver veneração fica mais difícil), do tratador da relva e da águia Vitória (activa ou passiva).

Jorge Jesus acreditou que Rui Costa iria ser a sua rede. Não foi: por uma razão. Porque Rui Costa quer sobreviver. Rui Costa está numa fase em que faz crer que é capaz de liderar ou não.

Jesus rebentou, mas é preciso ter a noção de que há muitos culpados nesta incrível telenovela. O que se consentiu (os ‘cafezinhos’ do Flamengo), o que não se fez e as ilações a tirar de toda esta representação.

Um clube tão grande com um grande problema de governação. Esta é a verdade. Jesus constituiu-se num problema, mas o Benfica tem um enorme problema pela frente: redefinir o seu centro de poder e introduzir um treinador que ‘pense Benfica’ além de ‘pensar futebol’. Com uma ‘paixão racional’, com uma comunicação justa e equilibrada, com vontade de agregar e compreender o fenómeno global.

Jesus teve um problema adicional: o contraste estabelecido por Rúben Amorim, no Sporting. Rúben Amorim era o treinador certo para o Benfica, mas esse deixaram-no voar…

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