quinta-feira, março 15, 2018

Está ela preparada para voltar a fazer política?



 Os resultados eleitorais de Nampula são interessantes por aquilo que dizem sobre a qualidade da nossa análise política bem como da nossa política ela própria. É como se tivesse havido uma revolução em Nampula quando, na verdade, ocorreu algo de certa forma esperado. Por razões que só estudos sérios poderão apurar, a Frelimo não é bem vista em Nampula. Há eleitores que votam contra a Frelimo. 
Mas o que é impressionante, dada a oposição visceral que algumas pessoas têm em relação a ela, é constatar uma certa estabilidade no seu eleitorado. A ilação mais importante que a Frelimo precisa de tirar desta “derrota” não é de que tudo está mal. É de que ela é um partido nacional que não precisa de ganhar Nampula para ganhar no país inteiro, mas sim não perder o seu eleitorado base nessas regiões onde existe uma certa hostilidade.
Imagem relacionadaA questão, portanto, é como não perder o seu eleitorado. Aqui as coisas complicam-se um bocado. Desde a inauguração da democracia multi-partidária, a Frelimo apostou numa política virada para a emocionalização que ganhou contornos problemáticos no segundo mandato de Guebuza quando pareceu vingar a ideia de que votar ou não votar Frelimo era uma opção a favor ou contra Moçambique. Essa emocionalização tirou da equação política questões de fundo onde a Frelimo, apesar de tudo, tem os melhores trunfos, que dizem respeito à vida económica e projecto de sociedade. Em Nampula e em todos os lugares onde as pessoas não gostam da Frelimo, rejeita-se o Moçambique representado pela ideia que as pessoas têm da Frelimo. O trabalho político com estas pessoas não pode consistir em lhes dizer que estão a ser estúpidas ao preferir outros, mas sim mostrar a elas porque essa ideia de Moçambique é melhor para elas próprias e como é que a Frelimo pretende chegar lá. Ou por outra, a Frelimo precisa de voltar a fazer política, algo que ela abandonou um bocado nos últimos tempos a favor da emocionalização.
Agora, está ela preparada para fazer isso? Tenho sérias dúvidas. 
Resultado de imagem para Nampula autarquicasO último Congresso mostrou claramente que ela tem tudo menos uma visão estratégica. Ou melhor, sacrificou o trabalho numa visão estratégica no altar da celebração dum timoneiro que, por enquanto, ainda não tem obra palpável. Este, por sua vez, provavelmente enganado por essas celebrações “kimilsungianas”, descurou completamente aquilo que assegura o poder numa democracia representativa, nomeadamente o trabalho partidário. Foi, por exemplo, sintomático o seu alheamento em relação às eleições em Nampula onde não se fez presente, nem mandou verdadeiros pesos pesados do partido para mostrar ao eleitorado nampulense em dúvida que aquela cidade é importante para a Frelimo. Estes também, por sua vez, não mexeram por iniciativa própria palhinha que fosse. Ficaram sentadinhos lá na Comissão Política de certeza a fazer o rascunho da mensagem de saudação ao Presidente no caso duma vitória de Cololo.
Sou um pouco suspeito para dizer o que vou dizer em seguida, mas é assim: acho que tem sido um erro estratégico de grande envergadura prescindir dos préstimos duma pessoa como o Gabriel Muthisse. Uma pessoa com o tipo de instinto estratégico como ele o tem – misturado com uma forte lealdade ao partido – reúne todas as condições para ocupar o posto de secretário geral da Frelimo e prosseguir o trabalho iniciado pelo seu mentor, Guebuza, na revitalização do partido porque este, com todo o respeito por quem tem esta missão agora, está entregue às moscas. Teria sido um forte sinal de continuidade, de afirmação do que a Frelimo chama de unidade nacional e de renovação da política da própria Frelimo. Sei que o coloco numa situação embaraçosa com este reparo, mas como ele neste momento está mais preocupado com o amor nunca correspondido de Ngelinane nem vai reparar que escrevi sobre ele. Na verdade, não se trata de promover uma certa pessoa. Trata-se de promover um certo perfil que neste momento a Frelimo não tem nas suas hostes partidárias.
Para mim, o grande vencedor destas intercalares na Frelimo é o seu candidato, Amisse Cololo. Ele tem uma oportunidade ímpar para fazer a diferença no modo de fazer política. Ele fez uma campanha séria num ambiente hostil e sem grande ajuda do seu chefe máximo. Ele mostrou que o seu partido tem, apesar de tudo, inserção naquela cidade. Ele tem que capitalizar tudo isto através duma política municipal de oposição construtiva. Os seus assessores precisam de lhe dizer parra não cair no erro pérola-indiano do ressentimento e de oposição por pirraça. Ele precisa de continuar a identificar os problemas reais de Nampula, oferecer soluções para eles e, se necessário, distanciar-se da Pereira do Lago pelo bem do seu município. Não vai ser fácil num partido que facilmente confunde crítica e independência de pensamento com insubordinação. Mas os tempos são outros.
Resultado de imagem para Nampula autarquicasA Frelimo não perdeu, como se diz por aí, porque está a comer sozinha. Perdeu, talvez, porque existe a percepção de que esteja a comer sozinha. Há uma grande diferença. Reconhecê-la é crucial para uma melhor reacção. E uma coisa que não se deve esquecer, extremamente boa nesta vitória da Renamo, é a seguinte: a responsabilidade tem o potencial de comprometer a Renamo com o país, compromisso esse que ela nunca teve. Uma vez isso feito, criam-se condições para que a disputa política seja mesmo política, isto é, sobre aquilo que realmente conta para as pessoas: a melhoria das suas condições de vida.(Por:Eliseu Macamo)

...que a coca-cola não está a fazer publicidade enganosa!



A instituição do Estado que se tem destacado por fazer cumprir a lei independentemente dos infractores envolvidos (INAE) pretende juntar à fiscalização da higiene, sanidade, qualidade, prazos dos produtos e especulação dos preços o cumprimento de outros sete decretos que regem a actividade económica no nosso país. Um deles é o Decreto 38/2016 de 31 de Agosto que aprova o código da publicidade e proíbe os anúncios que usem actos depreciativos e ofensivos às instituições; quem contenham imagens que atentem contra a dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais; que envolvam menores sem ter em conta as mensagens publicitárias; que use imagens, vozes, ideias alheias sem autorização; que veicule mensagens publicitárias de bebidas alcoólicas na televisão e rádio antes das 20 horas; e que induza o consumidor ao erro, ou mesmo, que possa prejudicar o seu concorrente directo.
Resultado de imagem para mARIO FERRO MAPUTO
Questionado particularmente sobre a fiscalização à publicidade enganosa, o presidente da direcção da Associação Moçambicana de Empresas de Marketing, Publicidade e Relações Públicas, Mário Ferro, explicou que “é função e competência do Inspecção Nacional das Actividades Económicas zelar pela implementação correcta do Código de Publicidade”.
“Na qualidade de Presidente da Direcção da AMEP, defendo que o Código de Publicidade tem de ser aplicado num todo e não a retalhos. Toda e qualquer violação ao Código de Publicidade tem de ser devidamente sustentada por provas concretas e objectivas, devendo ser apuradas as respectivas responsabilidades”, explicou.
O director criativo da maior e mais antiga agência de publicidade de Moçambique, Thiago Fonseca, julga que o código de publicidade e a sua regulação vai passar por muitas fases. “Esta fase inicial em que vai enfrentar muitos desafios, por causa da imaturidade e da subjectividade das coisas. O que é que é publicidade enganosa? É claro e evidente que se um daqueles doutores que curam tudo põe um poster, bem feito ou mal feito é um anuncio, agora é publicidade enganosa, agora não sei como se chega a tal regulação”.
Resultado de imagem para coca cola lite engana“O que nós estamos a fazer, até abrimos a Fundação Local por causa do altruísmo relacionado com a importância da comunicação dado o impacto na vida das pessoas, e tendo eu uma mulher diabética do tipo 1 e uma filha também diabética, custa-me que não pode beber coca-cola. Custa-me dizer que a coca-cola não está a fazer publicidade enganosa”, afirma o mais premiado publicitário moçambicano. Fonseca partilha os seus receios em relação a “uma bebida que eu gostava de beber mas tem não sei quanto açúcar e depois lançam a coca-cola zero, a nova moda na Europa e nos Estados Unidos com uma lata vermelha por causa da sensibilidade em relação ao açúcar e aos diabetes, o problema é que tem aquele químico que substitui o açúcar e que faz cancro. Agora será que Moçambique está no estágio de se chegar e proibir?”.
O director criativo da Golo chama atenção que embora “(...) nos maços está escrito o cigarro mata mas as pessoas continuam a fumar. Portanto há uma grande subjectividade que a mim mete-me algum receio que a lei possa ser mal interpretada, afinal sempre se pode dar a volta a lei usando a ela própria. Eu tenho um bocado de medo que num mercado publicitário como o nosso que se comece a pegar nisso, é claro que o objectivo é nobre e estamos todos de acordo com isso”.
Resultado de imagem para Thiago Fonseca MAPUTOThiago Fonseca, que é também CEO Grupo LOCAL, alerta para o facto do código de publicidade ter sido elaborado à medida dos medias tradicionais quando grande parte dos moçambicanos é exposto a publicidade através de novos meios de comunicação.
“Eu acho que o código de publicidade é um codigossauro jurássico porque enquanto foi feito a pensar na publicidade tradicional as redes sociais quem vai controlar, hoje em dia temos 2 milhões de moçambicanos no facebook, temos mais da 10 milhões de celulares aí fora, temos projectos de electrificação rural com painéis solar onde os telemóveis vão chegar, temos um censo de 2017 que mostrou que a nossa população está perto dos 30 milhões e tens 70 por cento da população entre os 18 e 30 e poucos anos, essa gente já não está a ver televisão”, constata.
O publicitário nota ainda que “aquele coisa do pai ter o remote controlo da televisão já não existe. A maior parte dos jovens já não fica as 20 horas a ver o telejornal. Isso não acontece apenas entre a classe média e média alta, é extensivo aos que têm menos posses”.
“E a publicidade que se chama produto placement, invisível que passa nos programas de televisão, quem é que vai controlar, como é que se consegue controlar. Estamos a falar de controlar a publicidade clássica? Eu acho que o código (de publicidade) não está preparado para esta idade, porque Moçambique tem esta capacidade de saltar épocas. Por exemplo na Europa ainda há gente que usa telefone fixo mas Moçambique não teve tempo sequer de ter a televisão a preto e branco. Estamos a saltar eras e vamos saltar mais e que tem a missão de controlar está muito atrás. Eu acho que a abrangência e o alcance das redes sociais é muito mais perigosa por causa da fonte. Quem é que posta? O anuncio é feito agora, até com um smartphone, e colocado no youtube como se controla?”, alerta Fonseca.
No entanto o nosso entrevistado reconhece “que é muito importante haver código de publicidade só que gostaria de apelar que fosse usado de uma forma tendo em conta o avanço dos meios de comunicação que estão a mudar muito rapidamente”.
Imagem relacionadaRelativamente a proibição do uso de símbolos e personagens históricas Thiago Fonseca tem dúvidas de como se vai por em prática, “quem vai julgar se esse anúncio ou símbolo nacional não pode ser usado. Mesmo na África do Sul quando houve a mudança de regime ou em Portugal quando ganhou o Europeu (de futebol) e usaram-se os símbolos nacionais com tanto orgulho e aquilo levantou a auto-estima, foi uma coisa boa ou má para o país?”
“Agora não se podem usar os símbolos nacionais porquê? Então a lei teria que ser uma enciclopédia com um manual. Eu apelo ao Estado para que perceba que nós estamos num estágio ainda muito inicial de tudo isto, para não acontecerem inibições de coisas que possam ser boas e benéficas”, sugere o experiente publicitário moçambicano.