segunda-feira, outubro 13, 2014

A CORUJA DA MINERVA


Há quase dez anos publiquei um texto no jornal Notícias que era meio comentário, meio recensão crítica dum livro curioso. Era da autoria do ex-Presidente da Guiné, o falecido Koumba Yalá, e a intenção imediata do texto era de chamar a atenção dos governantes para a importância da credibilidade para evitar que os eleitores, desorientados, depositem a sua fé nas pessoas erradas. Fui desenterrar esse texto para o postar aqui porque em conversa sobre as eleições em Moçambique com um amigo guineense na semana passada ele falou-me de quão útil o texto tinha sido para ele nos seus esforços de perceber o desastre que se havia abatido sobre o seu próprio país. O vilão deste texto é a arrogância do poder, mas se o tivesse escrito agora o vilão teria sido a falta de discernimento, sobretudo da parte de pessoas de quem mais se devia esperar isso. É por isso que falo da coruja de Minerva. Faço-o com muita reluctância porque a expressão foi popularizada por um filósofo alemão que não é exactamente o meu ídolo, Hegel, que no final do prefácio da sua grande obra sobre a filosofia do direito compara a filosofia a essa coruja que só levanta vôo quando a noite se abate sobre a terra. Minerva (ou Atenas em grego) era a deusa da sabedoria e a coruja o seu símbolo.No parágrafo que precede essa frase célebre, Hegel escreve algo mais profundo ainda. Ele escreve que a razão não se compadece com aquele tipo de desespero que acha que tudo no mundo ou é mau ou indiferente e que nada melhor se pode esperar. Ele considera que o que honra o ser humano é a sua recusa de aceitar o que não foi justificado pelo raciocínio. Pelo menos uma vez na vida sinto-me bem no aconchego filosófico de Hegel, pois a maior licção que teremos de aprender destas eleições é justamente esta: nem todos estão preparados a confiar no seu próprio raciocínio. Quando tivermos votado no dia 15 a primeira coisa que devemos fazer logo a seguir é trabalhar seriamente na recuperação da confiança no nosso raciocínio. Esse será também o principal desafio enfrentado por Nyusi e pela Frelimo se, conforme espero, os eleitores renovarem a sua confiança neles.
Eis o texto antigo:

“A democracia e os seus riscos
‘A confusão é a certeza de uma mente, sem pista de direcção’
Estas não são minhas palavras, mas sim de alguém que, muito provavelmente, não sabe o que diz. São do excelentíssimo Presidente da Guiné, Dr. Koumba Yalá. É um presidente democraticamente eleito. A citação é extraída dum livro recentemente publicado com o título pomposo de “Os pensamentos políticos e filosóficos”. Trata-se de pensamentos, para citar o próprio autor, “sem pista de direcção” e duma incoerência vergonhosa que acabam colocando a questão importante de saber se os guineenses não terão cometido um erro grave. Ou melhor ainda, será que os africanos estão suficientemente maduros para a democracia?

O livro é uma espécie de “best-seller” em Portugal, contudo à maneira africana: passam-se fotocópias do mesmo no seio da comunidade africana e portuguesa que se interessa por assuntos africanos. Não é, porém, a sede do conhecimento que está por detrás do interesse. Todos querem se rir à custa dos guineenses. O livro não desaponta. É duma ridicularidade perversa: em 90 páginas contendo os tais “pensamentos”, alguns dos quais vou colocando aqui para a apreciação do leitor, o livro cumpre várias missões. Para algumas pessoas confirma apenas a opinião generalizada de que algo não está bem com o dirigente guineense. Para outras confirma certos preconceitos sobre os africanos. Para outros ainda o livro explica tudo quanto está errado naquele País.
‘Vento é o baralho da realidade flutuante em movimento constante’. Depois do riso vem um misto de consternação e desalento. Os “pensamentos” não são apenas ridículos porque incoerentes. São-no também porque é difícil imaginar o que deve estar a torturar uma mente para supor que o pobre povo guineense seja capaz de decifrar algo tão críptico como o que o autor propõe. A leitura causa consternação porque a Guiné já produziu cabeças excelentes: Amílcar Cabral é o exemplo eminente, provavelmente o intelectual mais coerente do movimento nacionalista das ex-colónias portuguesas; mais recentemente juntaram-se a ele jovens como Carlos Cardoso e Carlos Lopes, cuja excelente produção intelectual nos ajuda a apreciar quão aberrante esta obra é.
‘O infinito é consciência do limite do próprio infinito, que assim se define com perfeição’. Mas há também o desalento. Koumba Yalá não subiu ao poder por via de golpe de estado. Não fez guerrilha. Convenceu o eleitorado guineense que era o político mais capaz de resolver os seus problemas. Costuma-se dizer que cada povo tem os dirigentes que merece. Os guineenses, pelo que tudo indica, merecem Koumba Yalá. Eles estão a pagar bem caro um grande equívoco. Segundo muita gente que passou pela Guiné recentemente, o País já deixou de existir como estado. Faz parte dos chamados “failed states”, estados falhados. Está de rastos: descapitalizado, desabastecido, desesperado. Embora seja evidente que os guineenses estão a pagar bem caro a sua preferência eleitoral, é menos evidente que essa preferência tenha sido um equívoco. O povo, num sistema democrático, não se engana. Tal como o cliente na economia de mercado que serve de suporte às democracias mais eficientes o povo tem sempre razão.
‘O não tempo é o tempo de não poder ser tempo, com o tempo’. Em Moçambique avizinha-se um período de eleições. O caso da Guiné pode ser altamente instrutivo para os políticos moçambicanos de boa fé que apesar de todas as tentações estão na política pelo bem do País. O eleitor raramente vota pelo País, mas sim por si próprio. Ele entrega o seu voto àquele que, mesmo contra todas as regras da cautela, lhe promete o paraíso na terra. Atravessando o nosso País um momento delicado da sua evolução democrática e socio-económica é muito natural que as eleições atraiam todo o tipo de demagogos: desde aqueles que prometem acabar com as famosas assimetrias regionais num ápice até aos que vão dar emprego a todos. Seria cego o político que não visse nesta conjuntura um excelente potencial de demagogia.
‘A morte do mundo é a impossibilidade da sua morte’. Oxalá que os mais responsáveis entre os nossos políticos resistam à tentação. A história remota e recente está cheia de casos como o da Guiné, o que prova, de resto, que o equívoco, se equívoco há, não é privilégio dos africanos. O mais perverso é o de Hitler na Alemanha. George W. Bush na América é outro, embora neste caso quem paga as favas imediatas é a comunidade internacional e não o eleitorado americano (se calhar todo o mundo devia votar nas eleições presidenciais americanas). Não obstante, em nenhum desses casos o povo se enganou. O povo escolheu os que, nas circunstâncias, falaram para os seus receios, ansiedades, sonhos e fins imediatos. É assim na democracia. É uma empresa arriscada, mas risco não quer dizer perigo. Risco é, quando muito, um perigo calculado. A democracia vive do risco como a forma mais segura de auscultar o povo e levá-lo consigo.
‘A beleza duma mulher elegante, é a atrapalhação do cabrão do macaco da indochina!’. A experiência dos sistemas políticos anteriores em Moçambique parece revelar que foi melhor apostar no seguro. Todavia, as aparências, como diz o velho ditado, iludem. Tanto no período colonial como no da experiência socialista o sistema político procurou proteger-se do risco do erro do povo projectando nele as suas próprias fantasias. O estado colonial arrogou-se a missão civilizadora ao preço, como aliás Eduardo Mondlane com muita perspicácia observou, de só reconhecer os africanos como pessoas na condição de estes recusarem a sua africanidade. A Frelimo revolucionária, por sua vez, preferiu inventar um novo povo, todo ele fundado na ideia dum “homem novo”. Ambas as opções falharam porque não puderam manter o dedo no pulso do povo. No primeiro caso o povo preferiu ele próprio “civilizar-se” sem a tutela colonial. No segundo caso o povo pura e simplesmente ficou apático.
‘A mentira é o movimento do cérebro pensante em direcção da falsidade, no seu quotidiano contacto com a realidade objectiva’. Numa das teses menos compreendidas do pensamento político recente Francis Fukuyama, um autor americano, defende no seu livro intitulado “O fim da história e o último homem” a ideia de que a democracia liberal constitui a solução final, e melhor, do problema do instinto auto-destruidor do homem. A existência deste instinto é discutível, mas o argumento de Fukuyama é válido, mesmo se apresentado bombasticamente e com a convicção apodíctica típica dos americanos. A democracia liberal desenvolveu um aparato que encoraja os governantes a manter o vínculo com o povo. Este encorajamento implica responsabilidade e dignidade na gestão dos bens públicos. Implica humildade e integridade na conduta pública. Implica uma governação pelo País.
Os políticos moçambicanos responsáveis que não querem dizer, depois da vaga de eleições, que o povo se enganou, precisam de prestar muita atenção à experiência da Guiné. Se bem que a alternância democrática seja salutar, ela precisa de assentar numa base que dá ao eleitorado uma verdadeira oportunidade de decidir racionalmente. Como bem diz Koumba Yalá, como que a confirmar que apesar de tudo os caminhos da sabedoria são sinuosos, ‘grandeza é sentido de responsabilidade’. O seu livro tem o sub-título ‘volume I’. Estão todos avisados.
O livro: Koumba Yalá, 2003: Os pensamentos políticos e filosóficos, Vol.I, editora escolar: Bissau”.
Já não haverá volume II, mas o texto continua actual em todos os sentidos.(Elisio Macamo/)

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