sexta-feira, maio 30, 2014

"Na França não votam por questões ideológicas"-Michel Cahen

O académico, que falou à agência Lusa à margem da conferência sobre "Espaço Lusófono: trajetórias económicas e políticas" entre 1974-2014, caracterizou Filipe Nyusi como "um candidato do Presidente (moçambicano Armando) Guebuza""Mas também do aparelho interno da Frelimo", acrescentou, considerando que Nyusi protagoniza uma candidatura "estranha"."É um candidato que é muito pouco conhecido. Não tem carisma, não faz parte dos antigos combatentes, não foi um dirigente civil bem conhecido. É daqueles civis que tiveram uma certa importância no país. Para mim, para perceber porque realmente Nyusi foi nomeado para candidato presidencial é um fator interno da Frelimo. Mas ao meu ver é um mau candidato. Aliás, (a sua indicação) torna muito importante as próximas eleições gerais, porque a Frelimo está a ser muito criticada, por ter nomeado um candidato que, ao meu ver, é fraco", afirmou à Lusa Michel Cahen.Entrevistado pela Lusa sobre a situação política em Moçambique, um dos temas discutidos na conferência de três dias que decorre em Lisboa, Michel Cahen afirmou que "o relacionamento da população com a Frelimo está a distanciar-se", apesar a população "ainda poder votar (neste partido). Mas já ninguém continua a acreditar (na Frelimo) como antes"."Retomando a antiga concepção de Antony Gramsci, podemos dizer que já estamos a entrar no novo período político onde a Frelimo ainda é dominante, mas já perdeu a hegemonia ideológica e mental. No tempo de partido único, toda a gente reconhecia que a Frelimo era um partido histórico, de libertação anti-colonial. Podia-se criticar mas havia um modelo de desenvolvimento, portanto, havia uma ideia de nação. Hoje em dia parece que não há nada disso e o relacionamento da população com a Frelimo está a distanciar-se", afirmou.O historiador, que tem diversos estudos sobre a situação sócio-política moçambicana afirmou que, embora parte do eleitorado moçambicano apoie a Renamo e o MDM, principais partidos da oposição do país, que "estão contra a Frelimo", estes potenciais votantes "ainda estão à espera de um claro programa alternativo bem diferente" dessas formações políticas.A pergunta que esta parte da população faz é: "Querem substituir a Frelimo, mas para fazer o quê de diferente? Isso ainda não está bem claro. Isso pode permitir a Frelimo continuar a ficar com uma certa dominação. As eleições são em outubro próximo mas não há bem um debate sobre os programas alternativos. Sabemos o que a Frelimo fez, podemos pensar que ela vai continuar na mesma, então conhecemos o seu programa, mas o que os outros querem fazer?. Isso também não está a facilitar a queda da Frelimo", que de resto, "ainda é um partido hegemónico. Ainda não há uma clara distinção entre o partido e o Estado, pois a Frelimo tira muito proveito do Estado, o que os outros partidos não têm", afirmou Michel Cahen.De resto, disse, esta vantagem comparativa poderá contribuir para que a Frelimo vença as próximas eleições de 15 de outubro."Penso que a Frelimo é capaz de ganhar, mas isso não é certo. Como partido do Estado pode perder nas cidades mas a maior parte da população moçambicana ainda é rural. E na ruralidade, o neo-patrimonialismo, o controlo político da população, na maioria das zonas, com a recuperação dos chefes tradicionais que eram da Renamo, mas que passaram para a Frelimo, pode permitir, não estou certo, ganhar mais uma vez", afirmou.Questionado sobre o futuro político da Renamo, maior partido da oposição moçambicana, cujo líder, Afonso Dhlakama, continua em parte incerta após ter sido expulso ano passado da sua base em Gorongosa, por forças governamentais moçambicanas, na sequência do conflito político-militar que dura há um ano, Michel Cahen acreedita que a Renamo "tem possibilidade de sobreviver" depois de outubro."Mas", acrescentou, "se o Dhlakama for morto (pelo exército moçambicano que tem atacado a serra da Gorongosa, onde acredita que o líder da oposição esteja escondido), a Renamo pode explodir, ou seja: haverá mais cisão porque Dhlakama organizou o vazio à volta dele. 
Não há um delfim, nem segundo nem terceiro delfim. Há ele e subalternos. Se o chefe grande desaparecer isso é perigosíssimo para a Renamo. No entanto, espero que não seja morto. Aí penso que a Renamo pode até recuperar um bocadinho. Com aquela demonstração de força militar ela pode convencer o povo moçambicano que é um grupo importante e que vale a pena votar nela. (E as pessoas) podem votar nela", até porque "a Renamo nunca perdeu a totalidade da base".O historiador sublinhou que "se o contexto político mudar, pode ser que as pessoas que uma vez votaram na Frelimo voltem a votar na Renamo para exprimir o descontentamento. O voto para a Renamo é um voto político"."Para mim, a Renamo não são bandidos armados, é um fenómeno político. Estão a exprimir o sofrimento de parte da população que foram historicamente marginalizados, às vezes, desde o tempo dos portugueses, mas a marginalização continuou com a Frelimo", adiantou.Quanto ao MDM, terceiro partido com representação parlamentar, que tem vindo a destacar-se na cena política moçambicana, Michel Cahen considerou que apesar de ser um partido com uma base social que "parece muito mais urbana, (essa formação politica) é um fenómeno novo".Mas, avisou: "Em Moçambique e no meu país também, em França, as pessoas não votam por questões ideológicas. A ideologia pode ser uma coisa importante como cultura geral, mas as pessoas votam porque estão descontentes, estão a sofrer, é uma camada social que é marginalizada. No entanto, um bom debate de programas de alternativas poderia esclarecer a situação, mostrar bem a toda a gente quem propõe o quê. Isso não existe, então é uma certa confusão".

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