terça-feira, maio 06, 2014

África:governar tornou-se num exercício desnaturado

Não há como compreender que os supostos libertadores de África tenham decidido abandonar seu projecto inicial. Com muito poucas excepções, de Norte a Sul, somos governados por autênticos “troca-tintas”. É vergonhoso, e historicamente um crime, destruir toda uma herança de esforços e sacrifícios de milhões de pessoas, para assegurar vantagens individuais e familiares. Transformar a política africana em um meio de enriquecimento próprio, baseados numa política de correcção da história, é o que tem sido feito e revelado pela maior parte dos governantes. Chegam ao poder advogando libertação, direitos políticos e económicos, mas rapidamente se esquecem dos verbos. Uma herança preciosa de posicionamentos firmes abraçada por saudosos políticos africanos foi abandonada por seus seguidores. Alegações de que conjunturas específicas geram posicionamentos diferentes colhem, mas não colam, pois são justificações dessa natureza as utilizadas assaltar o poder em África. Uma vez no poder, a opção seguida é cavalgar os cidadãos, reprimi-los, organizar tudo com vista à sua conservação. Os palacetes e as benesses é que catalisam a generalidade dos políticos e governantes. Acumular riquezas e amantes é uma das normas. Até se legisla a poligamia em alguns países.
Governar tornou-se num exercício desnaturado, longe do escrutínio público.
A vergonha actual é montada sob o signo da impunidade e secretismo.
Numa operação combinada entre um grupo de ineptos, colocados muitas vezes no poder através de golpes de Estado financiados e dirigidos por serviços secretos desta ou daquela potência, aliados a governantes de potências com aspirações de manter as vantagens coloniais, fazem-se jogos político-económicos que lesam milhões de pessoas.  Depois de décadas sujeitos aos ditames das potências que se digladiavam sob a Guerra Fria, em que países politicamente independentes não passavam de marionetes e satélites das chancelarias internacionais, chegou-se à actualidade sem mudanças de vulto quanto aos procedimentos.
Do “Angolagate” saltou-se para jantares amistosos numa situação de limpeza da imagem que não corresponde perfeitamente ao modo de actuação de quem quer ganhar espaço e influência. Afinal a aceitação internacional adquire-se através de lobistas generosamente pagos.  Mal-entendidos do passado e mesmo acusações levadas aos tribunais são apagados sob alegações de realismo e interesses estratégicos dos países. Os crimes cometidos são amnistiados como se nunca tivessem acontecido.  Como, por exemplo, Lisboa precisa de investimentos e dinheiro fresco para alavancar a sua economia e finanças na bancarrota, não importa que os direitos políticos de milhões de angolanos sejam esquecidos. Há que, a qualquer custo, não perder terreno face ao avanço “amarelo”.
Estamos destinados a ser “povos menores”, ou temos que, como cidadãos, nos livrarmos duma corja de governantes lesa-pátria? Somos cidadãos de segunda classe, ou somos vítimas dum processo de governação historicamente desfasado dos reais interesses dos nossos países? Somos uma consequência duma política externa de longo prazo, concebida e implementada por governos atentos aos seus interesses geoestratégicos, ou somos antes vítimas da mediocridade governativa dos nossos próprios governos?
A diferença entre um africano que vendia os seus conterrâneos para a escravatura e aqueles que dizimam os seus concidadãos e vendem ao desbarato os minerais, madeiras e camarão, existe? Como entender que diferenças de religião e de etnia possam conduzir a autênticos genocídios?
Alguma coisa está visceralmente errada connosco. Não nos podemos queixar de falta de conhecimento ou de experiências. A idade das nossas Independências e os conhecimentos adquiridos já não justificam que se chame à mesa o colonialismo, sempre que algo é feito sem qualidade ou que algo de errado aconteça nos nossos países. Os que se atiram ao circo político não podem continuar a merecer a nossa aceitação quando alegam que “isto e aquilo” é culpa do colonialismo. O neocolonialismo em que vivemos afigura-se de concepção e implementação endógena. Quem se nega a salvaguardar os legítimos interesses dos países africanos são os seus governantes. Quem abdicou dos princípios orientadores da gesta da libertação africana foram governantes africanos. Os parceiros externos da pilhagem de África limitam-se a defender seus interesses e a aproveitar as facilidades concedidas pelos chamados líderes de África.
A diáspora africana silenciada ou manietada por políticas de repressão é activamente impedida de regressar e contribuir com o seu saber para o desenvolvimento de África.
Multiplicam-se fóruns internacionais de cooperação entre a África e Índia, China, Europa, EUA, França, Reino Unido, Japão, mas os resultados concretos são escassos. O Fórum de Davos tornou-se num exercício de controlo de agendas e não de discussão de saídas sustentáveis.
Onde a caridade e filantropia internacional substituem acções concretas de empoderamento das pessoas há que dizer que algo está sendo mal feito. Não se pode permitir que países como Angola tenham mais de cinquenta por cento da sua população vivendo abaixo dos padrões internacionais de pobreza, quando o seu país é o segundo maior exportador de petróleo de África.  Um continente que vê os seus políticos apegados ao poder como se de reis se tratasse, caminhando para a senilidade, mas sempre insistindo que o seu destino é governar, tem um grave deficit de democracia política. Ter reis como o da Suazilândia, esbanjando parcos recursos nacionais em casamentos todos os anos, enquanto uma boa parte dos seus concidadãos vegeta e se encontra doente de HIV/SIDA e outras enfermidades é desumano e atroz.   Onde deveria haver lugar a um renascimento continental sugerido por gente como Thabo Mbeki, vemos governantes associados a negócios escuros de compra de armas. A corrupção é abraçada com “unhas e dentes” como forma de vida e cultura. Filhos e filhas tornam-se herdeiros de pais e empresários de sucesso num processo escuro e cheio de ilicitudes.
Diz a tradição africana, “o feiticeiro entra quando alguém lhe abre a porta”.
Se os megaprojectos supostamente constituem a via do renascimento económico de África, isso ainda tem de ser visto. Porque os milhões de africanos votados à sua sorte e vegetando na maioria dos países não sente que assim seja.  Regressão histórica e humilhação de milhões são os relatos de racismo e tratamento eticamente deplorável que parceiros internacionais como os chineses e alguns europeus praticam com os africanos. 
Quando até se impede que os cidadãos nacionais possam servir-se das praias e complexos turísticos instalados em alguns países, que resta dizer deste continente à deriva?
É possível alterar este quadro dantesco? Obviamente que isto não é intrínseco, mas político.
São os próprios africanos que devem tomar nas suas mãos o seu destino e tudo fazer para remover as células cancerosas que teimam em multiplicar-se no organismo continental.
A democracia não é exógena, como o querem dar a entender certos políticos como Museveni e o defendia Kadaafi. Viver bem e livre não é exógeno. A justiça económica e social não é exógena. (Noé Nhantumbo)





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