quarta-feira, outubro 05, 2016

Surto psicótico ou exercício de bullying

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Quanto mais conhecermos as causas da violência social, mais capazes seremos de a prevenir. A violência social combate-se com o conhecimento das infra-estruturas sociais e mentais que a ela conduzem ou podem conduzir. De nada serve mostrar continuamente em inúmeras instâncias de debate e persuasão que a violência é desnecessária e nociva, se não forem continuamente desarmadas as condições sociais que continuamente armam as mentes. [Carlos Serra/2010]

Resultado de imagem para esfaqueamento na josina machel1.  Atacando ou defendendo-se, um jovem esfaqueou outro em luta ocorrida há dias em luta ocorrida num dos corredores da  Escola Secundária Josina Machel, cidade de Maputo. Uma faca e um vídeo tornaram o fenómeno rapidamente viral, nas redes sociais físicas e digitais. Tratou-se de um episódio isolado? Iterativo? O estudante estava drogado? Foi um fenómeno de natureza patológica? Ou de violência momentânea, produto de um con- flito banal com a vítima? Ou exercício corrente de luta pela preeminência no estilo dos “mabandido”? Foi um transtorno de personalidade, um distúrbio psíquico vigoroso? Remete para o foro individual ou, pelo contrário, tem uma base social que importa descobrir? É sintoma de crise social? Sem uma investigação corremos o risco de cometer erros de vários tipos. Na ausência dessa investiga- ção, restam as hipóteses. É o que aqui será feito, com recurso a quatro tipos analíticos, sem que isso signifique criminalizar A ou B.

Resultado de imagem para escola  josina machel2. Agredir um colega com uma faca no interior de um estabelecimento escolar, em zona nobre do Bairro da Polana na cidade de Maputo, não é, de imediato, um fenómeno normal no nosso país. Houve um transtorno no agressor, um surto psicótico ou um mero exercício de bullying: eis a visão mais clássica de uma certa psicologia individualizada do senso comum, aquela que centra a sua atenção no indivíduo em si, mesmo quando parece ter em conta o social que permanentemente, multiplamente, o habita e fluidifica. A este nível, o agressor tanto pode ser encarado como são ou como doente. O transtorno à retaguarda da agressão pode ser ocasional ou recorrente, visível ou encoberto, remetendo quer para o foro criminal, quer para o foro neuropatológico. Múltiplas causas podem ser invocadas para explicar o acto do agressor: luta corrente pela preeminência chefal, consumo de substâncias psicoactivas (droga, álcool), violência parental, depressão, complexo de inferioridade, desejo de afirmação, trauma de infância, deriva autoritária, etc. Porém, mesmo que o social seja invocado, o individual será sempre o eixo fundamental de referência neste tipo de análise. Preocupa-o mais a anormalidade do acto e do autor do que o tipo de sociedade que contribuiu para o seu desencadeamento.

3. Aceitemos a hipótese de que as pessoas vivem em várias teias de interdependência que dão origem a configurações de vária índole, teias das quais muitas vezes não têm consciência. Uma investigação deve tomar em conta essas teias e essas configurações. 
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A Escola Secundária Josina Machel é contígua às chamadas barracas do Museu e tem, num dos lados [através de um dos passeios e do bulevar da Rua dos Lusíadas], grande promiscuidade com chapas, desempregados e vendedores ambulantes de produtos de todos os tipos. A interdependência entre esse mundo - do qual provavelmente também fazem parte meliantes diversos - e os estudantes da Josina Machel é permanente e múltipla. Pode acontecer que a extrema agressividade do estudante da faca tenha raízes na interdependência zonal assinalada, tal como parecem testemunhar algumas passagens de um texto divulgado pelo matutino “Notícias” em sua versão digital de 29 de Julho deste ano:  “A falta de segurança no recinto da Escola Secundária Josina Machel, na cidade de Maputo, está a criar um ambiente de pavor entre alunos e professores, que com frequência são vítimas de assaltos e agressões por parte de marginais que transpõem a vedação. [Aliado a este facto, o consumo de álcool e drogas por parte de alguns estudantes está a tornar-se preocupante, o que tem concorrido para o aumento da insegurança, pois não raras vezes os protagonistas, na sua maioria adolescentes, depois de consumir estas substâncias são orientados à indisciplina e chegam a violentar os seus colegas.[Recentemente a Polícia da República de Moçambique (PRM) afecta à 2.ª esquadra foi solicitada pela Direcção da escola para repor a ordem, após um grupo de quatro alunos terem-se envolvido em cenas de pancadaria, paralisando literalmente o decurso normal das aulas. [Soubemos que na circunstância um dos agentes da Polícia foi vítima de agressões e sevícias quando tentava serenar os ânimos dos estudantes desordeiros. Em consequência, os alunos envolvidos, todos da 10.ª Classe, foram recolhidos para as celas da 2.ª esquadra.”

Resultado de imagem para escola  josina machel4. Quantos mais holofotes estiverem direccionados para um determinado fenómeno, melhor será a sua visibilidade. A análise nacional é mais um holofote no conjunto de hipóteses em jogo neste texto. O jovem armado com uma faca na Escola Secundária Josina Machel na cidade de Maputo  não é o único caso de violência escolar que poderia ter sido letal. É, apenas, um exemplo entre muitos outros. Poderá ter sido permeado por uma cultura de agressividade e punição naturalizadas que, sob as mais diversas formas, habita a vida do dia-a-dia, as redes sociais físicas e digitais, as televisões e as rádios do país, tivesse disso consciência ou não. Ataques, emboscadas, sequestros, assassinatos e destrui- ções variadas tornaram-se parte integrante e banalizada do nosso quotidiano. Com uma faca ou com uma arma de fogo, jovens há que se convencem de poder jogar o papel de heróis, determinando com crueldade - e quantas vezes com letalidade - o destino de pessoas, grupos e locais. Em seu percurso, em sua acção punitiva, em sua agressividade com uma arma branca, o jovem da Josina Machel pode ter sido o repositório, o veículo inconsciente de uma quádrupla e interligada cultura em curso no país: cultura da violência, cultura da punição, cultura do medo e cultura da impunidade. A este nível há o drama de uma dupla determinação: os impulsos da violência multilateral deixam raízes especiais, os aguilhões. Quando julgamos que os impulsos desapareceram através de acções de profilaxia social, irrompem um dia, veementes, os aguilhões. Este é um dilema à Jano que, geracionalmente, faz parte da nossa história conflitual desde pelo menos o sé- culo XVII (aceleração do tráfico de escravos). E que, afinal, espécie de peristalto social, parece habitar por inteiro a atitude do jovem da Josina Machel, atitude que é unicamente a ponta do iceberg.

Resultado de imagem para alunos escola secundaria josina machel 5. A extrema agressividade do jovem da Escola Secundária Josina Machel faz parte de um conjunto de círculos sociais concêntricos. Um desses círculos tem características internacionais. Por outras palavras: o jovem é, ao mesmo tempo, ele, a zona, a nação e a humanidade. Hoje, em segundos, do celular à televisão passando pelo computador, sabemos o que se passa no mundo dos riscos crescentes de todos os tipos, da violência, da precariedade e da exclusão sociais, dos atentados a trouxe-mouxe, das guerras a esmo, das carnificinas em cafés e escolas, da morte banalizada, dos medos que se espalham como que liquidamente, dos símbolos trágicos das rixas e das batalhas. O modesto estudante que agrediu um colega com uma faca na Josina Machel – defendendo-se ou atacando - não é estrangeiro a esse mundo, ele - como qualquer um de nós, por mais paroquiais que sejamos - é-lhe parte integrante, esteja ou não consciente disso. Esse mundo de risco variado não consiste apenas de informação, mas também de formação, de modelo, de proposta. Na verdade, mundo que ao mesmo tempo informa, forma, molda, comanda e formata. A faca do jovem era, afinal, uma faca mundial, uma bandeira da extensa modernidade problemática que vivemos.

Resultado de imagem para alunos escola secundaria josina machel6. Procurei mostrar que o jovem da Josina Machel é bem mais do que ele e do que o seu acto (excluí patologizá-lo ou vê-lo como tóxicodependente), bem mais do que a consequência de um excesso numa luta normal entre adolescentes de uma escola, bem mais do que um exercício banal pela preeminência chefal. É, por hipótese e enquanto paradigma de um fenómeno, imperativamente, uma figura dialéctica, habitada por várias círculos sociais concêntricos, interdependentes. É, no pequeno local que é a Escola Secundária Josina Machel, a expressão de uma configuração planetária. Vivemos, a nível mundial, um período de transição, entalados neste presente entre um passado que continua a ser o nosso guia cognitivo e um futuro que julgamos distante mas que já actua em nós. Neste  mundo anfibológico, estamos ainda reféns das categorias analíticas de ontem e por isso não vemos os indícios do futuro. Mundo que se torna mais agreste, mais rapidamente propenso à turbulência social com a velocidade das novas técnicas de comunicação. O modo capitalista de produção militariza-se mais rapidamente, mais intensamente, mais destrutivamente. À medida que o futuro se tornar pouco a pouco visível, a militariza- ção dos países e das mentes gerará intranquilidade, medo e desespero. Procurar abrigo e paz algures poderá tornar-se uma regra no planeta. Esse é apenas um cenário. Há muitos outros a ter em conta.  Um dos grandes riscos que corremos é acharmos normal a violência, de tanto ela manifestar-se das mais variadas formas. Acresce que, no caso da Josina Machel, pode haver outros fenómenos por estudar. Finalmente: resta saber como introduzir a razão nos instintos e evitar as múltiplas facas da vida. Talvez aqui resida, desde sempre na história da humanidade, o centro e a aposta de todos os círculos sociais concêntricos.

__________________ Nota: esta é uma versão melhorada de um texto publicado sob forma de série em sete números no meu blogue, aqui: http://oficinadesociologia.blogspot. com/

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