terça-feira, outubro 18, 2016

Para os advogados do Benfica os"pretos são todos iguais"?

Resultado de imagem para O berlinde com Eusébio lá dentroNo dia 22 de Setembro, o professor universitário Almiro Lobo era uma das pessoas mais felizes do mundo. Não devia ser diferente, afinal, era o lançamento do seu livro. Mas o seu semblante alegre era também movido pelo facto de aquela ser a sua primeira aventura no universo das crónicas e por contar as peripécias vividas desde a infância até aos dias mais recentes.“Aquilo que eu fiz neste livro foi escrever crónicas da minha memória… quando senti que tinha um número razoável de crónicas, aproximei à Alcance Editores e perguntei se aquilo que tinha escrito fazia sentido publicar em livro”, contou Almiro Lobo, mas já se tinha apagado semblante do dia 22.
Juntamente com Sérgio Pereira, da Alcance Editores, Lobo reagia, na manhã de hoje, pela primeira vez, a acusação do clube Sport Lisboa e Benfica, de Portugal. O clube português proibiu a venda do seu mais recente livro, O berlinde com Eusébio lá dentro, alegando que a foto da capa é do antigo futebolista Eusébio e que foi usada sem autorização.
O autor desmente a acusação e entende ser um atentado ao seu bom nome e reputação.
“Este menino que está aqui na capa (apontava a foto da capa do seu livro) é meu filho, chama-se Bruno José de Pires Lourenço Lobo. A carta dos advogados do Benfica diz que este menino que está aqui na capa é Eusébio da Silva Ferreira. Como quem acusa é que tem que provar, os advogados do Benfica vão ter que provar que meu filho não é meu filho e que eu sou pai do Eusébio da Silva Ferreira. Quero lembrar que quando Eusébio da Silva Ferreira partiu de Moçambique eu tinha cerca de 1 ou 2 anos de vida. Eu sou cidadão moçambicano e sinto que a acusação do Sport Lisboa e Benfica é um atentado ao meu bom nome e minha reputação.

Almiro Lobo, prestigiado académico moçambicano, homem de bem, e amigo do seu amigo, publicou mais um livro, este de crónicas autobiográficas, algo a que o belo título alude: “O berlinde com Eusébio lá dentro” (editado pela Alcance). São memórias da sua meninice e juventude, 14 textos que evocam o seu Chinde natal, a Zambézia, o Niassa, Maputo e ainda o cá Portugal*, onde o Almiro se pós-graduou. E onde também casou, com Patrícia Paula. Aliás, um fruto desse casamento surge ali na foto, em pujante pose futebolística (o rapaz tem “pinta”, não haja dúvidas).
Está Almiro Lobo (e decerto que a editora Alcance) agora surpreendido com a tomada da Luís Laureano Santos e Associados/Sociedade de Advogados, um escritório que representa o Benfica que o acusa de usurpar direitos de imagem de Eusébio, ao que parece detidos pelo clube. Como resultado disso a venda do livro foi suspensa.Isto é patético. 
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Não só devido ao produto de que se trata, um pequeno livro de memórias – que nunca se tornará um sucesso comercial, pilhável pelos omnívoros clubes de futebol. Mas também pela confusão acontecida: um rapaz mulato a jogar à bola? Eusébio será. Para Luís Laureano Santos e Associados os “pretos [de facto mulatos, no racialismo português] são todos iguais”?
Mas mais do que patético é gravoso, isto de chegarmos ao ponto de que a memória social (sim, não esqueçamos que Eusébio até para o Panteão foi) se torna património privado e não daqueles que a cultivaram e reproduzem. Li alguém escrever sobre este caso apatetado – raisparta, se fosse representado por um escritório de advogados que fizesse uma coisa destas mudava logo para uns quaisquer rivais – que “isto é o colonialismo”. Não é, nem pensar nisso. É sim o capitalismo. Com advogados da “distrital”, já agora. Enfim, a ver se o clube Benfica abre os olhos e retira esta acusação parvoíce, que só o apouca, clube popular – e de memórias – que é. E se o livro volta a ser vendido.


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