terça-feira, outubro 20, 2015

Novas Vagas

Coincidência ou não, a verdade é que a cidade de Maputo sofreu (e ainda sofre) graves restrições de energia eléctrica logo após o segundo desfile de tiros entre a Renamo e as forças governamentais, danificando ainda mais as relações entre ambos. No dia seguinte ao indesejável episódio ficamos sem corrente nas tomadas, convencidos que no final do dia estaria tudo resolvido. Quando o sol se pós fomos cobertos pela escuridão. Infelizmente, como que a ecoar, tivemos no segundo dia uma espécie de reedição do primeiro. Ao terceiro e quarto dias, na sequência da manutenção da “situação”, mas com a gravidade progressivamente em queda, começamos a perceber que a reposição total da normalidade levaria cerca de mês e meio. Tanto tempo, tanta ansiedade!
Ora bem, a questão da energia eléctrica é crucial para qualquer cidade ou vila dependente da mesma. Não pode ser negligenciada sob nenhum pretexto. A cidade de Maputo não escapa a essa regra. Nos poucos lugares onde a corrente eléctrica criava ou cria alguma satisfação, deu para acompanhar, pela televisão, não só o desespero dos clientes da Electricidade de Moçambique como também, em geral, o quotidiano moçambicano. É que o sumiço da corrente eléctrica está associado aos problemas de fornecimento de água. Sem água, como sempre se repete, não há vida. Uma cidade sem vida transforma-se numa “cidade fantasma”. Torna-se desagradável e multiplicam-se paulatinamente os focos que se podem constituir em potencial atentadoà saúde pública ou mesmo à segurança pública. A vaga de calor, associada ao problema de fornecimento de energia eléctrica, contribuiu para que muitos optassem por um bom mergulho nas nossas praias. Um mergulho que funcionou como uma boa receita para esquecer a nossa paz-podre, esquecer comoo whatsapp pode fazer emergir “verdades inconvenientes” no palco de conflitos político-militares, receita para relembrar que um debate político é tempo perdido quando nele só está uma única corrente de opinião borbulhando os seus desesperos, …esquecer, enfim, que há muita ironia na fervura da paz. Mas agora já não é só a “situação” da energia eléctrica, da paz e/ou “guerra” e das vagas de calor e de deterioração deste e daquele alimento, é também a “situação” da vaga de subidas de preços tsunamizados pelo dólar norte-americano e outros factores. Os impactos, esses, poderão ser minimizados pela folga que cada um conseguir criar no processo do “apertar do cinto”.

Cá entre nós: a vaga da “suposta” derrapagem do metical está a deixar bastante febril a economia moçambicana, está a obrigar-nos a reapertar um cinto que já não oferece novas oportunidades e que, por isso, deve ter um outro nome; está a (re)enervar quem tinha na sobrevivência uma prática diária. Como reequacionar a questão da sobrevivência do cidadão comum que luta incansavelmente por conquistar o lugar de digno cidadão neste ambiente crescentemente severo? Como parar esta subida surda, cega e galopante do custo de vida? Resta-nos sempre, por detrás de uma lágrima, uma nova vaga de esperança por atracar. (Luís Guevane)

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