quarta-feira, setembro 17, 2014

Os negros não estudam jazz



A cantora Angélique Kidjo, que esteve em Maputo a participar na quarta edição do More Jazz Series, afirmou que antes de se tornar cantora quis ser advogada e conhecer os Direitos Humanos. kidjo falava no MasterClass realizado com os alunos da ECA (UEM) em parceria com Morejazz Promotion. “Sempre quis defender esses valores. Os Direitos Humanos sempre cativaram-me, quis fazer Direito. Tinha duas amigas que já estavam numa universidade na França e quando cheguei lá em 1983 já não havia vagas e fui estudar música clássica italiana. Mas todos os dias lutava pela justiça. Mesmo ainda criança sempre entrei em pancadaria quando sentisse que os meus direitos e dos outros estavam a ser violados”, recorda Angélique Kidjo. Quando confrontada pelo Director do departamento de Direito na universidade, na França,sobre os porquês de querer fazer curso, a artista respondeu: “os negros sempre sofreram quando se fala em Direitos Humanos. Queria perceber se esses direitos funcionavam da mesma maneira entre os brancos e os negros”, explica a artista. Questionada se a possibilidade de fazer alguém ir para a cadeia sem que se comprovasse a sua culpa num crime fez com que desistisse do sonho de ser advogada, a artista respondeu:  “foi quando vi que não estava preparada para fazer Direito e preferi a música. O meu sentimento pelos Direitos Humanos não justifica que em certos casos possa levar alguém para a cadeia, isso fez-me desistir dessa carreira”, lamenta. Por ser negra, a artista enfrentou várias adversidades para inserir-se na universidade. “Quando ia registar-me no departamento de música da universidade encontrei duas moças brancas que me perguntaram o que ia fazer na universidade? Eu respondi que ia estudar jazz e elas disseram que os pretos não estudavam jazz. Fiquei mais convicta de que tinha de provar o contrário para todos que pensavam assim. Hoje elas não têm carreira musical”, frisa. Apesar das dificuldades, a artista encontrou apoio e motivação para continuar com os seus estudos. “O Director do departamento depois de ter ouvido a conversa com as moças brancas disse para eu não ligar ao que diziam, que elas não sabiam o que estavam a falar. Não se discute com um burro para não ser confundido com ele. Os meus pais sempre disseram que quando queremos aprender alguma coisa na vida temos que conhecer os nossos limites, ambições”, alerta. As cláusulas contratuais fizeram com que a artista saísse da França. “Saí da França quando as coisas ficaram complicadas. O contrato que eu tinha com Griss Blackwell, a gravadora que registou muitas músicas de Bob Marley, não me dava a liberdade de dizer que música tinha de escrever.
 Os franceses têm uma ideia, um tecto sobre como os africanos têm de se comportar no seu país. Até hoje pensam que a África continua na mesma, que vivemos nas cavernas”, aponta. A música intitulada “Agolo” que significa “por favor” mostrou uma outra realidade da música africana no mundo. “Esta música trouxe uma nova perspectiva da música africana. Por isso que quando o artista grava os vídeos tem de incluir os lugares emblemáticos do seu país para serem conhecidos no mundo. A capa do disco tem de ter as cores que representam a sua cultura, país e por aí fora”, vaticina. Com trabalho árduo, a artista ganhou seu espaço no mundo musical na Europa e América. “Na Europa quando ven des os discos ganhas dinheiro. Mas na Inglaterra e Estados Unidos antes de vender os discos tens que pagar pelo que fizeste. Ganhei dinheiro senão não estaria aqui onde cheguei”, remata. Os europeus continuam a pensar que a África continua na mesma.(in savana)

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