terça-feira, setembro 09, 2014

Diabolização do outro: fonte do poder ou de conflito?

Os vários teóricos da ciência politica discutem o conceito e o alcance do poder de diversas maneiras em determinado espaços políticos, contexto e horizonte temporal, sendo que é de consenso que o poder está intrinsicamente ligado à capacidade de influência. Nicolau Maquiavel discute o poder como sendo a capacidade que um determinado actor político tem de influenciar o outro, usando todos meios possíveis, ou seja, os fins justificam os meios, naquilo que chamaríamos de realismo politico. Emmanuel Kant olha para o poder também na capacidade de influencia, mas discorda do maquiavelismo, ou seja, os fins para Kant não justificam os meios, estaríamos em presença do idealismo.

O maquiavelismo tem vindo a caracterizar o comportamento dos actores políticos na esfera mundial, embora já esteja aprovado que estas teorias são nocivas a paz, a estabilidade politica, democracia e justiça social, justificando que o indivíduo sempre age em conformidade com os seus interesses, e como o individuo é que constrói o Estado, esse comportamento passa a ser o modo operante do Estado, que por sinal é conduzido por um grupo de indivíduos organizados em partidos políticos, e que querem defender os seus interesses ou do grupo, partindo da premissa básica de que todos partidos políticos tem como objectivo a conquista, exercício e manutenção do poder. A diabolização do outro faz parte da cultura humana, principalmente dos actores políticos. Nossa historia, o colonialismo usou a mesma estratégia, politizando as massas, as etnias, tribos, religião e chegando a chamar os movimentos de libertação de turras ou terroristas, tudo para mantar o regime fascista e satisfazer os interesses políticos e econômicos da metrópole.
A nossa pátria amada acaba de sair de uma segunda guerra civil a que eu chamaria da guerra dos dois anos. São vários pontos que podemos levantar para melhor discutir os determinantes da mesma, gostaria de trazer ao debate dois pontos: a privação relativa dos recursos versos a diabolizacao dos actores políticos da oposição ou mesmo o aniquilamento dos discursos contrários ao poder politico. Nos últimos anos assistimos a uma galopante assimetria entre os pobres e ricos, aonde os mais pobres vão ficando cada vez mais pobres e os mais ricos ficam cada vez mais ricos, onde os pobres são a maioria e os ricos são a minoria e vivem a custa das grandes massas, ou seja, dos mais pobres, criando a ideia de que o dinheiro público é dinheiro que o governo tira dos que não podem escapar, para dar os que sempre escapam, como já dizia o pensador Friedman, ora, o conceito do Estado e sua função social ficou resumido a um grupo de pessoa resultante da alta instrumentalização do mesmo para fins políticos partidários a favor do partido no poder, abrindo espaço para a exclusão social. Nos últimos dez anos, assistimos toda uma tentativa de construção do um partido dominante, que se caracteriza pela a diabolização da oposição, aniquilamento dos discursos contrários ao regime, proveniente dos acadêmicos e membros da sociedade civil, havendo discurso como bandidos armados, não se pode negociar duas vezes com o mesmo bandido, os grupos de organizações da sociedade civil são agente da mão externa e sem sentido patriótico, apóstolos da desgraça, discursos separatistas como moçambicanos de gema, e outros. Este tipo de comportamento que em minha opinião e igual aos regimes fascistas coloniais, ganhou forca com a criação de grupos de choque por parte do partido no poder com objetivo de promover através da comunicação social, culto de personalidade a figura do chefe do Estado e reabilitar a imagem do seu partido desgastada com a guerra dos dois anos e a má politica que se fez sentir principalmente na base da pirâmide, onde começamos a ver convulsões sociais, greves no sector da saúde, falta de transporte, onde as pessoas passaram a ser transportados em carros de caixa aberta em como se de algum gado se tratasse, altos índices de crime organizado, corrupção e mais. A diabolização do Outro passou a ser um argumento ou uma estratégia de fuga para frente por parte do poder politico, para justificar os erros da sua má politica. A questão que se coloca é: será que isso resolveu os nossos problemas ou simplesmente os intensificou? A intolerância do outro numa sociedade de tecnologia de comunicação e informação já não eh fonte de manutenção do poder, mas sim do conflito, porque mesmo no tempo colonial a voz do povo falou muito mais alto que a diabolização do movimento de libertação, a informação circula de uma forma muita rápida o que não acontecia neste período, ou mesmo na guerra civil, envolvendo os dois beligerantes da guerra dos dois anos, permitindo que as pessoas tenham mais capacidade analítica dos acontecimentos. A maneira como o poder politico construiu a animalização do seu adversário no campo da batalha e o discurso de que o país não estava em guerra, mas sim tratava-se de uns incidentes localizados, perpetuados por homens armados de um partido sem sentido de Estado em nada ajudou para fim rápido das hostilidades.
Nos como moçambicanos precisamos mudar a nossa forma de fazer politica e nos enquadrarmos no contexto actual, caracterizado pelo surgimento de muita massa critica que anualmente sai das universidades, a evolução e surgimento de vários meios de comunicação. Podemos construir um Moçambique melhor com pluralismo de pensamento sem precisar negar aquele que pensa diferente de nos, sem olhar para as cores partidárias, onde todos nós podemos ou devemos estar comprometidos com o desenvolvimento da nossa pátria, a diabolização do outro em nada ajuda para as conquista dos novos desafios que se colocam ao pais. Moçambique não é dos partidos políticos, muito menos de uma elite politica com interesses econômicos, mas sim é dos moçambicanos.Todas ideias devem ser ouvidas, assim podemos construir um Moçambique melhor.

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