quinta-feira, junho 09, 2016

Desmantelemos a Renamo.Se não há meios……

Já que a figura que dirigia  o país na altura em que o país se endividou é histórica na Frelimo, participou na luta armada de libertação nacional, é um camarada das trincheiras, a sua possível penalização não pode criar ruptura no seio da Frelimo?
É previsível que provoque ruptura, porque Guebuza tem muitos apoiantes nos vários níveis da governação, que ele colocou lá e que beneficiavam da ligação com ele. Creio que é por isso que o governo actual insiste em assumir a responsabilidade pelos desmandos do governo de Guebuza, e recusa responsabilizá-lo. A minha opinião é: se a ruptura acontecer, que venha. Preparemo-nos para enfrentá-la. Somos a maioria, uma maioria consciente, engajada e não comprometida com interesses sórdidos. Um fenómeno que me deixa intrigado: como foi possível que um camarada, que deu provas de nacionalismo e patriotismo, a certa altura se deixe dominar pela ganância e desgrace o seu país e o seu povo? Estes apetites já existiam nele quando se engajou na luta, ou surgiram mais tarde? Não sei a resposta. Mas em certa medida nós próprios somos responsáveis, por não termos reagido quando começámos a detectar esses comportamentos. Por medo, estávamos sempre a elogiá-lo e a considerar certo tudo o que ele fazia. Até encorajávamos. Por exemplo, considerávamos normal e desejável que a nossa televisão transmitisse constantemente, de hora em hora, programas de elogio ao chefe: “as realizações de Armando Emílio Guebuza” está ainda fresca na nossa memória. Ou a transmissão em directo da festa do seu aniversário pela TVM, durante 7 horas seguidas. Para alimentar o ego insuflado do chefe. Preocupa-me notar que alguns de nós estamos a fazer o mesmo com o Presidente Nyusi. Ouvimos frequentemente elogios como - “sob a sua sábia direcção, o nosso país avança rumo a um progresso nunca sonhado”, etc. Esta era uma ladainha obrigatória no reinado de Guebuza. Qualquer ser humano, ao ouvir estes elogios constantemente repetidos, tende a acreditar e a considerar-se infalível. Torna-se arrogante e não aceita ser criticado. Espero que o Presidente Nyusi tenha o bom senso suficiente para não se deixar influenciar. Ainda sobre o Presidente Nyusi, Samora dizia que o chefe deve saber usar o martelo, deve saber exercer o poder. Deve consultar, mas não ficar amarrado à opinião dos outros. Há sinais de que o Presidente Nyusi tenta impor a sua autoridade como Chefe de Estado, tenta libertar-se das influências que o manietam. Uma prova parece-me ser a sua decisão recente de retomar o diálogo com a Renamo, nomeando uma equipa e, creio, dando-lhe orientações claras. O ponto de vista do homem da rua é este: temos de decidir: queremos desmantelar a Renamo? Temos meios para isso? Então desmantelemos. Não temos força suficiente ou achamos que não é a solução adequada, porque vai provocar muitas mortes e destruição e não conduz a uma paz duradoura? Então engajemo-nos num diálogo sério para chegar a um compromisso. O que não pode continuar é a situação dúbia actual, porque permite a continuação do conflito, mata pessoas todos os dias, provoca desespero, enfraquece o prestígio do Estado e mina a confiança da sociedade na capacidade dos seus governantes Temos consciência de que o trabalho desta equipa será muito difícil, já foi ensaiado um exercício semelhante durante mais de dois anos que não produziu nenhum resultado. Confiemos que agora resulte.

Desde a Independência nacional que o poder político está entregue à “geração da luta armada”. Porém, de 2015 a esta parte, o poder foi transferido para a chamada “geração de 8 de Março”. Que avaliação faz dessa transição? Está a corresponder às expectativas? Os jovens estão a conseguir tomar conta do recado?
A “geração 8 de Março” cumpriu a missão que recebeu de Samora em 1977, a de criar os alicerces da reconstrução de Moçambique após a independência. Para alguns, talvez muitos, foi um processo violento porque contrariava a sua vocação e anseios. Forçar alguém a aceitar ser professor quando o seu sonho
Resultado de imagem para jorge rebeloera ser médico ou engenheiro não é fácil. Mas a maioria compreendeu e engajou-se nessa nova tarefa e fê-lo
com alto sentido de responsabilidade e patriotismo. A “geração de 8 de Março” deu lugar a outra geração chamada da viragem, conforme proclamação do então Presidente Armando Guebuza em 2009. Esta é uma geração que está perdida porque ainda não sabe para onde virar-se. Não recebeu orientações do chefe que anunciou a sua criação, ele limitou-se a dizer que é a geração que luta contra a pobreza. Mas todas as chamadas gerações  lutaram contra a pobreza. Hoje diz-se que há uma crise de valores na nossa juventude.  Eu concordo, e isto acontece porque os modelos que deviam servir-lhe de referência, a começar pelo chefe que os mandou “virarem-se” não lhes inspiram confiança, e é por isso que os jovens ainda buscam referências em Samora. A pátria chama por nós – foi assim que Samora exortou os jovens. Este chamamento é também necessário hoje. Devia aparecer alguém com a estatura moral de Samora (na fotografia com M.Santos,Jorge Rebelo e J.Veloso) para engajar os jovens nesta nova tarefa de limpar a casa e restituir a credibilidade ao nosso país.

Como é que avalia a Frelimo de hoje?
Podemos analisar a dois níveis. A Frelimo como aparelho: ele é eficaz e eficiente e é ele que tem permitido à Frelimo ganhar as eleições. A Frelimo como organização, que se rege por princípios e valores justos, identificada com os anseios e aspirações do povo: aqui está muito deteriorada. Por isso há quem diga: se Samora ressuscitasse hoje morreria de desgosto no segundo seguinte.

Disse que a Frelimo se desviou dos princípios e valores justos, identificados com os anseios e aspirações do povo. Logo a Frelimo mudou? Qual é, hoje, a ideologia da Frelimo?
Peço que não me faça perguntas que não posso ou tenho grande dificuldade em responder. Eu sou membro da Frelimo há 53 anos, portanto, cabe-me alguma responsabilidade pelos seus erros e defeitos. Há algum tempo venho criticando o que considero errado quando tenho oportunidade, mas com poucos resultados. O problema é que a Frelimo anda ao sabor das lideranças: quando temos um bom líder, como Samora, ela assume valores justos, ganha a confiança do povo, torna-se forte. Quando o líder é medíocre ou mau, ela fica desacreditada porque esses líderes desligam-se dos interesses do povo, apropriam-se de tudo o que é riqueza no país, fecham-se a qualquer opinião discordante e reprimem os que os denunciam. Não vale a pena especular mais: talvez a Frelimo que temos, com os seus defeitos e algumas virtudes, seja a Frelimo possível nos dias de hoje. Quanto à ideologia, eu também já não sei qual é. Os Estatutos do Partido dizem que a Frelimo luta em defesa dos interesses do povo moçambicano. Contentemo-nos com isto.

Há ou não pessoas ambiciosas dentro da Frelimo que para satisfazer seus apetites até se envolvem no crime organizado?
Quero acreditar que não. Pessoalmente não conheço ninguém. Há gananciosos e que se aproveitam do poder e influência para enriquecerem, mas daí até ao crime organizado vai uma grande distância.

Um membro fundador da Frelimo veio a público dizer que o povo não se devia preocupar com a dívida porque, quem iria pagar é o Governo e que nenhum cidadão iria tirar directamente o seu dinheiro para pagar os empréstimos. Qual é o seu comentário?
Gostei. Porque sempre tinha ouvido dizer que o dinheiro do governo provém dos impostos que ele cobra ao povo, isto é, a nós outros. Se o governo tem outra fonte onde vai buscar dinheiro, devemos felicitá-lo

e regozijarmo-nos. (SAVANA por Raul Senda)

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