segunda-feira, julho 06, 2015

“A música é o meu mundo”

Miguel Xabindza é uma das melhores vozes moçambicanas da actualidade. Sem nenhum álbum ainda, vive a música com a mesma responsabilidade de um autor consagrado. Afinal, esta arte constitui o seu mundo. Mergulhando nas especificidades da sua obra, Xabindza fala dos constrangimentos que marcam o universo musical moçambicano e dos aspectos a serem melhorados, de modo a que os interesses dos músicos não sejam abalados
Comecemos com uma pergunta prévia. O que é a música para si?
A música é o meu mundo, a minha actividade diária. É um mundo colorido, embora possua algumas partes negras. mas isso também faz parte das cores.A música é esta vertente das artes que decidi abraçar. Deve ser por isso que é o meu mundo. Mas comecei a cantar sem me aperceber disso, sempre gostei de escrever poesia. Cantar foi mais uma descoberta no meio do nada, a música chegou à minha vida como que de pára-quedas, e acabei aperfeiçoando-me e identificando-me com o canto. Mas ainda escrevo bastante.
É por isso que a sua música apresenta uma certa componente estilística relativa à poesia?
Penso que sim. A música e a poesia caminham juntas.     
 É dos autores que se preocupam em recriar estilos clássicos de outros músicos moçambicanos. Porquê?
É um pouco engraçada esta pergunta. As músicas dos autores que recrio também são minhas, porque me acompanharam a vida toda. Por isso, eu escutou-as e perguntou-me como é que posso compor e tocá-las do meu jeito. Penso que é preciso resgatar sempre os nossos clássicos. Devíamos olhar cada vez mais para a riqueza do nosso repertório musical. Muitas músicas desse repertório são esquecidas. Eu faço a minha parte ao resgatá-las, porque tenho essa necessidade. E isto é muito engraçado, porque as músicas que recrio acabam remetendo as pessoas que as ouvem a alguns momentos de nostalgia.
 
Com isso julga que o nosso passado artístico oferece melhor repertório musical que o do presente?
Não necessariamente. Conheço muitos bons artistas criativos, novos, que inovam e têm os seus traços particulares, o que lhes permite fazer boa música. Mas o nosso passado não deve ficar esquecido, porque é um passado muito bom e rico. Então, não se deve deitar fora.
Na sua opinião, de que depende a sobrevivência da música moçambicana?
Este é um dilema que nós, os músicos, temos estado a debater. Esta questão é tão séria que, para uma solução eficaz, há muita coisa que deve mudar, como o sistema todo. Há necessidade de se investir cada vez mais na cultura. O Governo deve divulgá-la mais; os músicos devem trabalhar; deve haver mais investimentos em estúdios e deve melhorar-se a remuneração dos músicos, porque alguns, mesmo com talento, sem o devido reconhecimento, acabam se frustrando.
Muitas vezes, o sucesso dos artistas ao nível da remuneração está a associado a factores “extra-musicais”, como contratos publicitários. Com fazer com que o artista consiga viva da venda dos seus CD e dos seus espectáculos?
Devemos acreditar mais nos nossos artistas e promover mais espectáculos. Algumas pessoas ainda não percebem que um artista pode fazer da música o seu modo de vida e, portanto, fonte de sobrevivência. Isto tem um impacto negativo na medida em que as pessoas, na hora de pagar ao músico, não agem com justiça, não porque não podem, a questão é que elas acham que o músico não merece tanto. Uma vez estava a conversar com Jimmy Gwaza, um dos integrantes da Banda Kakana, em torno das actuações que temos feito em festas privados. Quando determinamos um determinado valor, as pessoas imploram-nos para baixarmos, dizendo que não conseguem pagar-nos o que exigimos, que pode ser ¼ do buffet e da ornamentação. Ou seja, há dinheiro para pagar todas as outras despesas da cerimónia, menos para pagar ao artista. É isso que deve mudar, a cultura do desconto, porque o artista acaba se sentido desvalorizado. Temos de mudar esta situação, porque a música é importante e faz-nos companhia até nos momentos mais difíceis das nossas vidas.
A sua obra apresenta-nos uma elevada componente sentimental e muito emocionante. Acredita que o sucesso da arte no geral está na emoção ou isso é apenas um elemento que constitui a arte?
As duas vertentes são válidas. A emoção é fundamental. Alguns músicos são mais sensíveis no primeiro caso e outros no segundo. A componente mensagem é muito importante, mas, às vezes, a componente emoção é mais marcante. Casos há em que nem precisamos de entender o que a música diz. Contudo, veicular mensagens positivas é o que deve caracterizar os músicos, de modo a que possamos evitar algumas coisas más que acontecem na nossa sociedade.
Foi o que tentou fazer com a música “Se dzixile”?

Seguramente. Com as devidas metáforas, foi o que tentei fazer…

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