Tal
como o previsto, um cenário de crispação caracterizou o ambiente interno na IV
reunião ordinária do Comité Central da Frelimo, que culminou com a saída de
cena de Armando Guebuza enquanto Presidente
daquela formação política. Guebuza acabou saíndo pela “porta pequena”, depois
de um
discurso claramente intimidatório que proferiu na abertura do encontro três
dias antes. Ao
“suspense” criado nas vésperas da reunião do sai/não sai, Armando Guebuza, tal
qual mestre de futebol que diz que “a melhor defesa é o ataque”, começou com um
discurso descrito como intimidatório, o que indiciava que a sucessão seria
difícil. “Preocupa-nos, todavia, a postura e
comportamento de alguns camaradas, que, publicamente engendram acções que
concorrem para
perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições e para gerar
divisões e confusão no nosso seio”, lamentou Guebuza, apelidando alguns camaradas
de “barulhentos” e “perturbadores”.
Colou os adversários às mortes de Mondlane
e Samora Machel e desejou que os seus
sonhos fossem transformados em pesadelos. Muitos membros saíram agitados. Não
era para menos. Armando Guebuza acabava de proferir um discurso incisivo, muito
mais para dentro do que para fora. Em alguns sectores, o discurso de Armando
Guebuza foi interpretado como um ataque directo ao jurista Teodoto Hunguana,
que, semanas antes, havia dado uma entrevista a sugerir que o antigo PR devia
abandonar a presidência do partido e abrir caminho para Filipe Nyusi. Óscar
Monteiro, um crítico de primeira linha, disse que, a partir daí, era uma
“estrela do cinema mudo”.
Graça Machel, que fez uma intervenção crucial para que dirigentes históricos
participassem nos
debates aquando do CC que elegeu Nyusi como candidato presidencial, também se
refugiou no
silêncio. Outros membros recusaram-se a fazer comentários ao discurso inaugural
de Guebuza. Pachinuapa,
Mariano Matsinhe e Fernando Faustino(o Secretário- geral da associação dos antigos
combatentes) apareceram na comunicação social a dar a cara pela continuação de
Guebuza até
2017, a altura em que deve ser convocado o próximo congresso da Frelimo. Damião
José, o secretário e porta-voz partidário, tal como o antigo ministro da
Informação do Iraque, insistia que a questão
da sucessão não estava na agenda.
Era a confusão total. Mas Jorge Rebelo, um
histórico da Frelimo, que esteve na base do “afastamento” de Joaquim Chissano
da presidência da Frelimo em Março de 2005, viu no discurso de Guebuza “objectivos
intimidatórios”, com o propósito de fazer com que os membros do Comité Central”
não abordassem o assunto da sucessão. “O meu dever não é vir aqui bater palmas.
O dever do membro do Comité Central é levantar as questões que cada um considera pertinentes e
que contribuem para a estabilidade no país. E estabilidade só pode existir com
uma discussão aberta”, precisou Rebelo.
Ao
que o SAVANA apurou dias antes do polémico encontro do CC, Guebuza terá se
reunido com Filipe Nyusi, manifestando a sua intenção de continuar na liderança
da Frelimo por mais algum tempo. Como se tratava de uma mudança de gerações, Guebuza
terá sugerido a Nyusi a importância da sucessão não ser feita a escopro e
martelo. Ou seja, a transição geracional devia ser um processo a conta-gotas. Contudo,
logo após o incendiário discurso de Guebuza no CC, um grupo de antigos
combatentes, liderados por Alberto Chipande e o Major General João Facitela Pelembe
(fez a intervenção chave na reunião da ACLLN em Março de 2014 que obrigou a
direcção do partido a abrir espaço para a emergência de mais pré-candidatos
presidenciais) reuniu-se com Guebuza exigindo a renúncia deste, uma clara
reedição do processo que elevou AEG ao cargo cimeiro partido em Março de 2005. Sexta
e sábado, durante os debates em grupos de trabalho, alguns membros pró-Guebuza
pediram a
palavra para chumbar o debate de sucessão, que já emergia, com base numa
questão processual, pois
não constava da agenda do encontro e tentavam colar a questão às propostas da
Renamo.
Na
plenária, contam-nos, praticamente ninguém se levantou para defender a
continuação de Guebuza,
mesmo aqueles que ao longo de 10 anos lhe teceram os mais rendidos elogios. O
mesmo sucedeu
ao grupo de propagandistas denominado G-40. Foram atacados como nefastos à
acção e postura
do partido, mas ninguém os veio defender, nomeadamente os seus conhecidos
ideólogos, Edson
Macuácua e Gabriel Muthisse.
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