sábado, abril 04, 2015

“Ou sai a bem, ou nós vamos fazê-lo sair”

Tal como o previsto, um cenário de crispação caracterizou o ambiente interno na IV reunião ordinária do Comité Central da Frelimo, que culminou com a saída de cena de Armando Guebuza enquanto Presidente daquela formação política. Guebuza acabou saíndo pela “porta pequena”, depois de um discurso claramente intimidatório que proferiu na abertura do encontro três dias antes. Ao “suspense” criado nas vésperas da reunião do sai/não sai, Armando Guebuza, tal qual mestre de futebol que diz que “a melhor defesa é o ataque”, começou com um discurso descrito como intimidatório, o que indiciava que a sucessão seria difícil. “Preocupa-nos, todavia, a postura e comportamento de alguns camaradas, que, publicamente engendram acções que concorrem para perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições e para gerar divisões e confusão no nosso seio”, lamentou Guebuza, apelidando alguns camaradas de “barulhentos” e “perturbadores”. 
Colou os adversários às mortes de Mondlane e Samora Machel e desejou que os seus sonhos fossem transformados em pesadelos. Muitos membros saíram agitados. Não era para menos. Armando Guebuza acabava de proferir um discurso incisivo, muito mais para dentro do que para fora. Em alguns sectores, o discurso de Armando Guebuza foi interpretado como um ataque directo ao jurista Teodoto Hunguana, que, semanas antes, havia dado uma entrevista a sugerir que o antigo PR devia abandonar a presidência do partido e abrir caminho para Filipe Nyusi. Óscar Monteiro, um crítico de primeira linha, disse que, a partir daí, era uma “estrela do cinema mudo”. Graça Machel, que fez uma intervenção crucial para que dirigentes históricos participassem nos debates aquando do CC que elegeu Nyusi como candidato presidencial, também se refugiou no silêncio. Outros membros recusaram-se a fazer comentários ao discurso inaugural de Guebuza. Pachinuapa, Mariano Matsinhe e Fernando Faustino(o Secretário- geral da associação dos antigos combatentes) apareceram na comunicação social a dar a cara pela continuação de Guebuza até 2017, a altura em que deve ser convocado o próximo congresso da Frelimo. Damião José, o secretário e porta-voz partidário, tal como o antigo ministro da Informação do Iraque, insistia que a questão da sucessão não estava na agenda. 
Era a confusão total. Mas Jorge Rebelo, um histórico da Frelimo, que esteve na base do “afastamento” de Joaquim Chissano da presidência da Frelimo em Março de 2005, viu no discurso de Guebuza “objectivos intimidatórios”, com o propósito de fazer com que os membros do Comité Central” não abordassem o assunto da sucessão. “O meu dever não é vir aqui bater palmas. O dever do membro do Comité Central é levantar as  questões que cada um considera pertinentes e que contribuem para a estabilidade no país. E estabilidade só pode existir com uma discussão aberta”, precisou Rebelo.
Ao que o SAVANA apurou dias antes do polémico encontro do CC, Guebuza terá se reunido com Filipe Nyusi, manifestando a sua intenção de continuar na liderança da Frelimo por mais algum tempo. Como se tratava de uma mudança de gerações, Guebuza terá sugerido a Nyusi a importância da sucessão não ser feita a escopro e martelo. Ou seja, a transição geracional devia ser um processo a conta-gotas. Contudo, logo após o incendiário discurso de Guebuza no CC, um grupo de antigos combatentes, liderados por Alberto Chipande e o Major General João Facitela Pelembe (fez a intervenção chave na reunião da ACLLN em Março de 2014 que obrigou a direcção do partido a abrir espaço para a emergência de mais pré-candidatos presidenciais) reuniu-se com Guebuza exigindo a renúncia deste, uma clara reedição do processo que elevou AEG ao cargo cimeiro partido em Março de 2005. Sexta e sábado, durante os debates em grupos de trabalho, alguns membros pró-Guebuza pediram a palavra para chumbar o debate de sucessão, que já emergia, com base numa questão processual, pois não constava da agenda do encontro e tentavam colar a questão às propostas da Renamo.
Resultado de imagem para guebuza piadasMas, segundo um relato interno, eram mais que muitas as vozes que, mesmo não sendo tema, insistiam que a saída do presidente Guebuza deveria ser debatida no encontro. Antes da reunião do CC e mesmo no decorrer da reunião, elementos chave, identificados como muito próximos de Nyusi, foram alvo de ameaças via sms, telefone e mesmo contactos inter-pessoais, tentando garantir a todo o custo a continuação de Guebuza à frente do partido. Ao que apurámos, num encontro havido na casa do general Pelembe na sexta-feira, antigos combatentes, mais uma vez, tomaram a decisão de falar com Guebuza para o convencer a resignar. “Ou sai a bem, ou nós vamos fazê-lo sair”, assim reportaram ao jornal SAVANA. Um membro do CC contou ao que, dada a irredutibilidade de Guebuza em aceitar sair, “vamos usar os métodos típicos da Frelimo para o fazer sair ... como fizemos para ele não ir ao terceiro mandato”. Filhos de membros do CC fizeram passar mensagens insistindo em que “era tarefa de cada um” convencer os pais a forçar a saída do homem que conduziu os destinos do país nos últimos 10 anos. Foi então que no sábado, durante a plenária, Zeca Morgado, um militante de base eleito para CC pela Zambézia, abriu as hostilidades e fez a intervenção chave, dizendo que se o assunto já era alvo de acalorados debates nas “barracas”, porque não era discutido no Comité Central. Guebuza, sentindo “o chão a desabar”, fez vários contactos privados com membros da Comissão Política e Primeiros Secretários das Províncias aventando a possibilidade de resignar.
Na plenária, contam-nos, praticamente ninguém se levantou para defender a continuação de Guebuza, mesmo aqueles que ao longo de 10 anos lhe teceram os mais rendidos elogios. O mesmo sucedeu ao grupo de propagandistas denominado G-40. Foram atacados como nefastos à acção e postura do partido, mas ninguém os veio defender, nomeadamente os seus conhecidos ideólogos, Edson Macuácua e Gabriel Muthisse. 
Alberto Chipande, a quem a história oficial atribui a autoria do primeiro tiro no desencadeamento da luta de libertação nacional, fez uma intervenção para clarificar as águas. Perguntou directamente a Filipe Nyusi se estava preparado para assumir a presidência da Frelimo. “Estou preparado para tudo”, respondeu Nyusi. Alcinda Abreu, algo ressabiada, deu uma das estocadas finais nas pretensões do seu líder na Comissão Política. Mais uma vez não houve contra-ataques do outro lado. Estava assim aberto o caminho para que Filipe Nyusi fosse o único candidato à sucessão de Guebuza. Ao contrário do que afirmou o porta-voz Damião José, sem grande surpresa, Armando Guebuza, no domingo de manhã, anunciava a sua resignação do cargo de presidente do partido e de presidente da influente associação dos antigos combatentes (ACLLIN). Nyusi, na votação, fez quase o pleno. Teve um voto em branco e dois nulos. Como é hábito nestes encontros, Nyusi agradeceu aos membros do partido pela confiança e prestou vassalagem a Guebuza, a quem reconheceu um papel determinante na revitalizaçãomdo partido. Guebuza, cujos sonhos de permanência se viram transformados num tenebroso pesadelo, saiu da presidência com a promessa de um título honorífico a ser confirmado no congresso de 2017. 

0 comentários: