segunda-feira, janeiro 17, 2011

Prosperidade e estabilidade insuficientes

É cedo para festejar a transformação da Tunísia em um raro exemplo de democracia no mundo árabe.O país teve ontem e hoje dois dias de violência e morte. Não se sabe muito bem que apito tocam os novos governantes do local –o premie, Mohamed Ghannouchi, e o chefe do Parlamento, Fouad Mebazza, dois ex-integrantes da cozinha de Zine Ben Ali, o ditador destronado na sexta-feira.Não se sabe se são democratas convictos ou se apenas vão emular o que fez Ben Ali em 1987, quando tomou o poder do fundador da moderna Tunísia, Habib Bourguiba, prometendo liberdade e democracia. Aliás, não se sabe nem se Ghannouchi e Mebazza são aliados ou rivais pelo poder.Tamanha era a sombra que Ben Ali projetava sobre a pequena ex-colônia francesa que pouco se sabe sobre os que estavam a seu redor. Mas algo já é possível concluir.Mesmo se tudo der errado a partir de agora, ainda será possível dizer que algo momentoso ocorreu nas ruas de Túnis, que trará consequências por muito tempo para uma das regiões mais autoritárias do planeta.Não é todo dia que cai um ditador por uma revolta popular. Há paralelos recentes na Ucrânia e na Geórgia (em nenhum o que se viu em seguida foi um mar de rosas). No mundo árabe, o Líbano viveu um processo de mobilização de massas há cinco anos, que resultou na saída de tropas sírias do pais e numa democracia imperfeita.O recado a ditadores é inequívoco, no entanto. Prosperidade moderada e estabilidade, como se via na Tunísia de Ben Ali, não bastam. Direitos civis são importantes. Corrupção incomoda. Transparência é uma exigência.Egito e Líbia, liderados há mais de 30 anos pelos mesmos ditadores (Hosni Mubarak e Muhammar Gaddafi, respectivamente), podem, por que não?, viver processos semelhantes no futuro. Os reis de Marrocos, Jordânia e Arábia Saudita deveriam se preocupar. Idem para as demais ditaduras do Golfo Pérsico.Nunca houve uma influência democrática no mundo árabe, com as exceções parciais do Líbano e, ironicamente, do Iraque pós-Saddam. O impacto do que ocorreu na Tunísia é, portanto, imprevisível. No futuro, a revolução tunisiana pode entrar para a história como uma das mais improváveis e surpreendentes da história recente. Na Ucrânia, foram necessárias semanas de protestos contra o ditador local, e a partir de certo ponto, já estava claro que sua queda era inevitável. Na Tunísia, Ben Ali era uma maçã podre que caiu ao primeiro sopro. Sua sombra era ilusória. Olhando em retrospecto, fica fácil apontar sinais de um regime que não tinha como se sustentar. Há pouco mais de um ano, em novembro de 2009, estive na Tunísia e tive duas experiências reveladoras. A primeira, na chegada, no porto de Túnis, quando ingenuamente escrevi “jornalista” no campo “profissão” do cartão de embarque e levei uma canseira de meia hora com a autoridade local, que quis saber tudo da minha vida, embora eu ali estivesse apenas de férias.E a segunda na saída, quando o restinho de dinheiro local que eu levava para a área de embarque do aeroporto, para aquele tradicional último café antes do voo, foi confiscado por um operador de raio-x a título de ˜gorjeta”.Repressão à imprensa e corrupção (ainda que pontual), sobre isso se assentava o regime de Ben Ali. Mas nem nos meus pensamentos mais delirantes eu suporia que aquilo em breve se tornaria uma bola de neve que derrubaria o velho líder.(Escrito por Fábio Zanini)

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