sexta-feira, junho 06, 2014

Doentes, fonte de captação de receitas

Antes de mais, adverte-se que a intenção da abordagem desta sensível temática, prende-se com o facto de se afigurar uma necessária (e inevitável) reflexão em torno de um fenómeno que, de forma alastradora, ganha contorcionismos assustadores no nosso quotidiano vivencial.  Mais avisa-se que o que aqui se debruça não consiste numa insinuação (muito menos acusação), todavia, traduz-se numa imperiosidade (moral e social) de apreciação, análise e debate, em face da crescente onda de relatos e narracções verificadas por parte de pacientes (e seus familiares), bem como algumas “fugas de informação” por parte de pessoal privilegiadamente posicionado em lugares e funções que permitem (ob)ter o acesso a uma panóplia de informações e revelações que inquietam e alarmam a consciência pública.
O título acima é elucidativo e esclarecedor: paira uma atmosfera de suspeição sobre os médicos das clínicas privadas, que aponta para o sentido destes adiarem (o máximo que puderem) o estado de baixa do paciente a seu cargo, movidos por motivos de captação de vantagens financeiras (para si e para a unidade hospitalar), pois quanto maior for o tempo em que o paciente perpetuar na clínica, maior será, também, o encaixe pecuniário para as “algibeiras” da instituição. Aliás (e estou a vontade para dizê-lo), as mesmas suspeições sobrevoam em torno da actividade profissional dos advogados que, amiúde, são alvos dos mais asquerosos juízos de desconfiança, assumindo-se que, propositadamente, protelam os processos judiciais (requerimentos prolixos, recursos dilatórios, moção de incidentes e acções judiciais inúteis), unicamente com o objectivo de “vampirar o sangue” dos clientes, cobrando-lhes eternos honorários advocatícios. O assunto é de extremosa complexidade pelas mais variadíssimas razões: 
se, no que concerne aos advogados, existe sempre a possibilidade do processo findar na mesa de um juiz (independente) e, mais a mais, os interesses em causa são diametralmente opostos no que toca ao grau de importância, visto que, normalmente, num caso (medicina) é a vida de uma pessoa que está em causa e, noutro (processo judicial), com a excepção da privação da liberdade (prisão), são questões de natureza patrimonial ou indemnizatória que mais se suscitam.  Na esfera da medicina não existe um “médico de recurso” que sirva de árbitro para, no instante em que a prescrição médica é estabelecida, o decretamento da baixa é efectuado, as infindáveis análises (nenhuma delas gratuitas e que depois se mostram absolutamente desnecessárias) são realizadas, os exames são “insistentemente repetidos” (a contrapartida financeira sempre existente, obviamente), para sancionar, julgar, aquela decisão que se parte do princípio que é idónea e reveste carácter peculiarmente científico.
Dito doutro modo: em bom rigor, nenhum cidadão responsável por mais que se sinta convicto de que se encontra recuperado, irá desobedecer a um médico que o diz que tem de baixar, pois o resultado das análises (que o médico, entretanto, possui atravessado entre as mãos e faz o favor de mostrar ao paciente, como se este fosse entender o que quer que fosse daqueles gráficos que, naquele instante, só lhe causam vertigens…), aconselham que o repouso (na clínica e não em casa) é imprescindível.
A maioria das pessoas [ainda] tem medo de perder a vida e a “opinião” de um médico é das poucas “opiniões” que reveste carácter de “ordem”…
Existirá, sempre, o problema da prova: o paciente dificilmente poderá provar que o médico agiu livre, deliberada e conscientemente para usar a sua estadia no hospital como mecanismo sofisticadamente brutal para 
angariação de vantagens patrimoniais (para si e para a instituição), bem como, no caso de uma «inspecção», o médico, admitindo o erro, poderá sempre jurar que ao tomar uma determinada decisão, fê-lo convicto de que era, aquela decisão, que se mostrava adequada sob o ponto de vista científico, para debelar a maleita do paciente, ou que cada paciente reage de forma “suis generis” perante a administração de idênticos medicamentos, que o tempo de convalescença conhece distintas variações consoante o desenvolvimento imunológico ou imunitário do paciente, ou ainda que se operou um milagre divino… 
E porque não sigo a “cultura do avestruz” (de penetrar a cabeça no primeiro buraco que esteja ao seu alcance para se distanciar dos problemas que se lhe colocam), creio estarmos em face de um assunto que merece reflexão aprofundada, por mais indignação que despolete no seio da «classe da bata branca». Uma reflexão analítica que terá, forçosamente, que estreitar mecanismos de prevenção, combate e repressão perante medidas abusivas como as que se detém o presente texto, sempre conscientes do carácter dificílimo de identificar, provar e neutralizar “extorsões sofisticadas” que, sob mera hipótese, aqui avançadas, na medida em que a refinada especialidade dos domínios da medicina obstruem que um olho vulgar (não científico) possa arrogar-se a captar, com nitidez, práticas tão subtis e engenhosas…






Requalificar valorizando o histórico-cultural

O Conselho Municipal da Cidade de Maputo (CMCM) garante que o Plano Parcial de Urbanização para a Requalificação da Baixa da Cidade Maputo não vai afectar todos os edifícios com alto valor histórico. A garantia foi feita ontem, em Maputo, durante uma audiência sobre o plano que será estabelecido no quadro da execução do PROMAPUTO II, cujo horizonte é de 2007/2015.“Há edifícios que ainda vamos decidir se serão modificados ou não. Entretanto, existem os que poderão ser remodelados apenas no seu interior. Não vou revelar quais”, referiu o consultor do Plano, João Tique.Prevê-se que o plano seja concluído até Dezembro do ano em curso, esperando-se, posteriormente, que se aprove pelo município de Maputo, a Assembleia Municipal e o governo central, através do Ministério da Administração Estatal (MAE).Por isso, o vereador de planeamento urbano, Luís Nhaca, acrescentou que “a partir deste plano podemos agregar projectos e programas que podem ser integrados nos nossos planos de actividades para a sua implementação”, disse.
 O plano prevê, de entre vários pontos, a indicação das terminais de transportes na baixa da cidade, associada ao comércio informal.O plano visa, sobretudo, a identificação de um conjunto de intervenções integradas que possam promover a multifuncionalidade, a valorização do património histórico-cultural, o aumento de actividades sociais, económicas e recreativas, na perspectiva de a capital do país ser cada vez mais atractiva e competitiva.Constam ainda como outras prioridades do plano, a reintrodução da componente residencial, através da oferta de instalações de alta densidade habitacional, a par da recuperação e preservação da integridade histórica do património, sem descurar a melhoria da mobilidade urbana e a definição de um sistema adequado de transporte público.


EUA torce o nariz

O Governo dos Estados Unidos da América, através da sua representação diplomática em Maputo, manifestou, ao princípio da noite de quinta-feira, 5 de Junho, a sua preocupação com o reacender da violência em Moçambique, entre as forças militares do Governo da Frelimo e as da Renamo, o segundo maior partido.Num comunicado de imprensa, o Governo dos EUA expressou as suas condolências a todos os moçambicanos afectados e reitera a sua convicção de que o diálogo constitui a única via para se ultrapassar diferenças que existam no cenário político do país.“A Embaixada dos Estados Unidos reafirma a sua convicção de que existem no país todos os ingredientes para um diálogo aberto, frutífero e construtivo e apela aos actores para que se abstenham da violência”, lê-se no documento.O Governo do presidente Barack Obama, entende que “o anúncio do fim dum cessar-fogo, os pronunciamentos de ameaça de dividir o país, bem como os actos de violência reportados geram inquietação em todos os que almejam ver a continuação dos progressos alcançados nas duas décadas de paz”.Enquanto isso, no teatro das operações, as hostilidades continuam, com as tropas governamentais a tentarem alvejar o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, tentativas essas que têm tido respostas da outra parte. Desde o princípio desta semana, são reportados ataques sobretudo na estrada nacional N1, no troco Save-Muxúnguè. (B.Alvaro)

Dhlakama páre imediatamente de semear terror

A FEDERAÇÃO Mundial da Juventude Democrática (WFDY) condena com veemência os recentes e recorrentes ataques protagonizados por homens armados da Renamo em Muxúnguè e Gorongosa, na província de Sofala, que resultaram na morte de civis e destruição de bens públicos e privados. Um comunicado desta organização refere que a Federação Mundial da Juventude Democrática repudia fortemente a atitude da Renamo de manipular e intimidar a juventude e o povo moçambicano em geral, sendo responsável pela morte de centenas de pessoas desde que os ataques começaram o ano passado.Segundo o comunicado, as posições das Forças de Defesa e Segurança são igualmente alvos de sabotagem e destruição, incluindo bens públicos e privados naquela província do país. A Federação Mundial da Juventude Democrática, de que a Organização da Juventude Moçambicana (OJM) é membro, considera que esses acontecimentos inaceitáveis entravam o processo de consolidação do Estado moçambicano, que tem sido testemunhado desde a independência nacional a 25 de Junho de 1975. A WFDY insta a Renamo a enveredar pelo caminho democrático como único meio para alcançar o poder, segundo está plasmado na Constituição do país. Exige que a formação política liderada por Afonso Dhlakama páre imediatamente de semear terror, desarmando os seus homens e seguir uma postura de paz e tolerância política, como um partido.A Federação Mundial da Juventude Democrática insta igualmente a Renamo a parar com desculpas e agir de acordo com a ordem pública estabelecida no país e deste modo juntar-se aos esforços visando a criação de melhores condições de vida dos moçambicanos, que considera já terem sido suficientemente vítimas das atrocidades e desafios no passado, tanto do regime colonial como do “Apartheid”, que patrocinou a Renamo durante a guerra dos 16 anos.Apela ao partido de Afonso Dhlakama para reassumir uma postura patriótica e responsável de modo que o diálogo em curso com o Governo traga resultados benéficos no interesse do desenvolvimento socioeconómico que o país tem testemunhado nos últimos anos.Encoraja às autoridades governamentais a continuarem a garantir a ordem, segurança e tranquilidade públicas através da neutralização de criminosos, devendo ser responsabilizados pelos danos que causam à paz, estabilidade e unidade nacional e da região, sabido que Moçambique é um país africano que tem estado a atrair muitos investimentos.

quarta-feira, junho 04, 2014

"Vale" com prejuízos


O recém-chegado director da “Vale Moçambique”, Pedro Gutemberg, anunciou que a empresa registou um prejuízo de 44 milhões de dólares no decurso do primeiro trimestre de 2014. Aquele responsável precisou que os prejuízos decorrem dos elevados custos operacionais no sector do carvão em Moçambique e à queda vertiginosa do preço do minério no mercado internacional. Na semana passada, duas locomotivas tombadas, 26 vagões destruídos, 150 metros de linha danificados, 50 metros de plataforma removidos, a interrupção do tráfego e a perda de 1638 toneladas de carvão mineral foi o resultado do pior descarrilamento registado na linha de Sena, no centro de Moçambique. Este descarrilamento duma composição com duas locomotivas e 42 vagões carregados de carvão extraído em Moatize pela “Vale Moçambique”, subsidiária do grupo brasileiro “Vale”, causou também ferimentos nos maquinistas das locomotivas. Citado pela agência “Macaub”, o director da Brigada de Reconstrução da Linha de Sena, Elias Xai-Xai, disse que a parte mais afectada por este descarrilamento é a plataforma, zona onde assentam o balastro, chulipas e carris, cuja reposição vai exigir uma profunda compactação dos solos. Se, há dois anos, o preço da tonelada de carvão se situava em 250 dólares no mercado internacional, actualmente a mesma quantidade está cotada em cerca de 100 dólares, adiantou o director da “Vale Moçambique”. Pedro Gutemburg salientou que é necessário garantir a eficiência máxima ao longo de toda a cadeia de valor da produção de carvão em Moçambique. Caso tal não seja possível, conclui Gutemburg: “Os resultados manter-se-ão negativos e dificilmente vamos conseguir atrair novos investimentos”.




Paz,urgente!!!

O troço entre o Muxúnguè e o rio Save voltou, na terça-feira, a ser palco de violentos confrontos entre as tropas governamentais e homens armados da Renamo. Só no dia de ontem(4), dois confrontos resultaram na morte de 15 militares e ferimento de outros 20. Durante as confrontações, seis civis contraíram ferimentos. O número de feridos foi-nos  confirmado por fontes do Hospital Rural de Muxúnguè.   Dados fornecidos por fontes das FADM em Muxúnguè indicam que o primeiro confronto se registou às 9h40 na região do Zove, distrito de Machanga, e o segundo às 13h25, entre o rio Gorongosa e o rio Ripembe. As colunas atacadas incluíam cerca de 200 veículos, que seguiam de Muxúnguè para o rio Save e no sentido Sul-Norte.  Os mortos, segundo fontes do Canalmoz nas FADM, foram transferidos para o Hospital Provincial de Chimoio, capital de Manica. Não chegaram a dar entrada no Hospital de Muxúnguè.A Renamo havia ameaçado voltar a empreender ataques devido ao impasse nas negociações em Maputo, mas sobretudo pelo facto de as forças governamentais continuarem a cercar o seu presidente, Afonso Dhlakama, no distrito da Gorongosa, a norte do Corredor da Beira. (J.Jeco)

terça-feira, junho 03, 2014

Acontece a qualquer passageiro

O avião presidencial que deveria transportar o chefe de Estado Moçambicano  à República Irlanda avariou minutos antes de iniciar o voo. O Presidente Armando Guebuza viu-se na contingência de abandonar o avião e acabou por seguir viagem num voo comercial para África do Sul, de onde fez ligação para europa, duas horas depois. O Chefe de Estado foi  informado pelo comandante da aeronave que o avião não estava em condições para efectuar o voo que ligaria Maputo áquele país europeu e sem escalas. O Presidente teve de sair da base aérea e esperar o voo diário das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) no aeroporto Internacional de Maputo. Sabe-se que o despacho operacional, uma rotina quando se trata de um voo presidencial, horas antes, após o teste, indicava que o avião estava em condições. Não houve até ao momento qualquer esclarecimento técnico. O porta-voz do Governo Alberto Nkutumula falou de “falha técnica que aconteceu e foi detectada na hora”. 
A Presidência da República não tem avião próprio e as deslocações dentro do país e para o estrangeiro são feitas em aeronaves executivas alugadas a empresas na África do Sul.O antigo Presidente Joaquim Chissano fazia as suas viagens internas a bordo dos aviões das Linhas Aéreas de Moçambique e para o estrangeiro sujeitava-se a escalas técnicas e de trânsito de companhias comerciais. Samora Machel , o primeiro Presidente de Moçambique alternava as suas viagens internas e para o exterior usando os aviões da LAM de longo curso ou um Topolev de fabrico russo ao serviço da presidência(despenhamento em 1986 que o levou a morte).O actual chefe de Estado,Armando Guebuza, face a avaria do jacto presidencial,realizou ontem (2)em dêz anos de Governação a sua primeira viagem a bordo de um avião da companhia aérea nacional.

sexta-feira, maio 30, 2014

Dhlakama falta a palavra

Os guerrilheiros da Renamo, de Afonso Dhlakama, quebraram o cessar-fogo unilateral, que há dias, a sua liderança tinha declarado, atacando ontem (29), as posições das Forças de Defesa e Segurança, em Piro, Mucoza e Gravata, distrito de Gorongosa, onde há registo de baixas assinaláveis do lado das tropas do governo e da destruição de viaturas militares.O porta-voz da PRM em Sofala, Daniel Macuácua, em conferência de imprensa que concedeu na manhã de hoje (30), falou de ataque dos homens armados da Renamo, que saldaram na destruição parcial de uma viatura das tropas governamentais.Todavia, uma fonte independente garante que os guerrilheiros de Afonso Dhlakama infligiram pesadas baixas nas Forças de Defesa e Segurança, em Mucoza, Piro e Gravata, no distrito da Gorongosa, estes que enfrentam problemas de abastecimento logístico.(Magazine CRV)

"Na França não votam por questões ideológicas"-Michel Cahen

O académico, que falou à agência Lusa à margem da conferência sobre "Espaço Lusófono: trajetórias económicas e políticas" entre 1974-2014, caracterizou Filipe Nyusi como "um candidato do Presidente (moçambicano Armando) Guebuza""Mas também do aparelho interno da Frelimo", acrescentou, considerando que Nyusi protagoniza uma candidatura "estranha"."É um candidato que é muito pouco conhecido. Não tem carisma, não faz parte dos antigos combatentes, não foi um dirigente civil bem conhecido. É daqueles civis que tiveram uma certa importância no país. Para mim, para perceber porque realmente Nyusi foi nomeado para candidato presidencial é um fator interno da Frelimo. Mas ao meu ver é um mau candidato. Aliás, (a sua indicação) torna muito importante as próximas eleições gerais, porque a Frelimo está a ser muito criticada, por ter nomeado um candidato que, ao meu ver, é fraco", afirmou à Lusa Michel Cahen.Entrevistado pela Lusa sobre a situação política em Moçambique, um dos temas discutidos na conferência de três dias que decorre em Lisboa, Michel Cahen afirmou que "o relacionamento da população com a Frelimo está a distanciar-se", apesar a população "ainda poder votar (neste partido). Mas já ninguém continua a acreditar (na Frelimo) como antes"."Retomando a antiga concepção de Antony Gramsci, podemos dizer que já estamos a entrar no novo período político onde a Frelimo ainda é dominante, mas já perdeu a hegemonia ideológica e mental. No tempo de partido único, toda a gente reconhecia que a Frelimo era um partido histórico, de libertação anti-colonial. Podia-se criticar mas havia um modelo de desenvolvimento, portanto, havia uma ideia de nação. Hoje em dia parece que não há nada disso e o relacionamento da população com a Frelimo está a distanciar-se", afirmou.O historiador, que tem diversos estudos sobre a situação sócio-política moçambicana afirmou que, embora parte do eleitorado moçambicano apoie a Renamo e o MDM, principais partidos da oposição do país, que "estão contra a Frelimo", estes potenciais votantes "ainda estão à espera de um claro programa alternativo bem diferente" dessas formações políticas.A pergunta que esta parte da população faz é: "Querem substituir a Frelimo, mas para fazer o quê de diferente? Isso ainda não está bem claro. Isso pode permitir a Frelimo continuar a ficar com uma certa dominação. As eleições são em outubro próximo mas não há bem um debate sobre os programas alternativos. Sabemos o que a Frelimo fez, podemos pensar que ela vai continuar na mesma, então conhecemos o seu programa, mas o que os outros querem fazer?. Isso também não está a facilitar a queda da Frelimo", que de resto, "ainda é um partido hegemónico. Ainda não há uma clara distinção entre o partido e o Estado, pois a Frelimo tira muito proveito do Estado, o que os outros partidos não têm", afirmou Michel Cahen.De resto, disse, esta vantagem comparativa poderá contribuir para que a Frelimo vença as próximas eleições de 15 de outubro."Penso que a Frelimo é capaz de ganhar, mas isso não é certo. Como partido do Estado pode perder nas cidades mas a maior parte da população moçambicana ainda é rural. E na ruralidade, o neo-patrimonialismo, o controlo político da população, na maioria das zonas, com a recuperação dos chefes tradicionais que eram da Renamo, mas que passaram para a Frelimo, pode permitir, não estou certo, ganhar mais uma vez", afirmou.Questionado sobre o futuro político da Renamo, maior partido da oposição moçambicana, cujo líder, Afonso Dhlakama, continua em parte incerta após ter sido expulso ano passado da sua base em Gorongosa, por forças governamentais moçambicanas, na sequência do conflito político-militar que dura há um ano, Michel Cahen acreedita que a Renamo "tem possibilidade de sobreviver" depois de outubro."Mas", acrescentou, "se o Dhlakama for morto (pelo exército moçambicano que tem atacado a serra da Gorongosa, onde acredita que o líder da oposição esteja escondido), a Renamo pode explodir, ou seja: haverá mais cisão porque Dhlakama organizou o vazio à volta dele. 
Não há um delfim, nem segundo nem terceiro delfim. Há ele e subalternos. Se o chefe grande desaparecer isso é perigosíssimo para a Renamo. No entanto, espero que não seja morto. Aí penso que a Renamo pode até recuperar um bocadinho. Com aquela demonstração de força militar ela pode convencer o povo moçambicano que é um grupo importante e que vale a pena votar nela. (E as pessoas) podem votar nela", até porque "a Renamo nunca perdeu a totalidade da base".O historiador sublinhou que "se o contexto político mudar, pode ser que as pessoas que uma vez votaram na Frelimo voltem a votar na Renamo para exprimir o descontentamento. O voto para a Renamo é um voto político"."Para mim, a Renamo não são bandidos armados, é um fenómeno político. Estão a exprimir o sofrimento de parte da população que foram historicamente marginalizados, às vezes, desde o tempo dos portugueses, mas a marginalização continuou com a Frelimo", adiantou.Quanto ao MDM, terceiro partido com representação parlamentar, que tem vindo a destacar-se na cena política moçambicana, Michel Cahen considerou que apesar de ser um partido com uma base social que "parece muito mais urbana, (essa formação politica) é um fenómeno novo".Mas, avisou: "Em Moçambique e no meu país também, em França, as pessoas não votam por questões ideológicas. A ideologia pode ser uma coisa importante como cultura geral, mas as pessoas votam porque estão descontentes, estão a sofrer, é uma camada social que é marginalizada. No entanto, um bom debate de programas de alternativas poderia esclarecer a situação, mostrar bem a toda a gente quem propõe o quê. Isso não existe, então é uma certa confusão".

quinta-feira, maio 29, 2014

A escumalha que engorda África

Não se pode ignorar que a situação africana é deveras preocupante e grave. Os pequenos avanços em algumas áreas não substituem ou cobrem os fracassos graves em grandes áreas da vida no continente. Golpes de Estado em permanência e protagonizados por políticos e militares africanos na maior parte dos países, motivados muitas vezes por uma busca do controle dos recursos minerais e de outras riquezas, golpes palacianos, golpes constitucionais travam e impedem que as instituições democráticas vinguem e floresçam. Ao nível da esfera económica e financeira era incongruência total. Recursos em abundância e de qualidade excelente não têm uma exploração que beneficie as economias africanas e seus povos.  Face à incapacidade de os Governos construírem agendas consensuais que os unam e que fortaleçam as suas posições negociais, a Organização Mundial do Comércio acaba adoptando instrumentos legislativos e de procedimentos lesivos para África. Os termos de troca, o que África paga pelas importações e o que recebe pelas suas exportações, são completamente desiguais, desfasados e sem qualquer correspondência com os valores reais.

O neocolonialismo de que se fala é este comprar baratíssimo e vender caro. É o acesso facilitado e desleal aos recursos africanos. É uma corrente migratória dum sentido, em que os europeus entram em África como lhes apetece, e os africanos morrem na travessia do deserto ou no Mediterrâneo, de cada vez que procuram chegar à Europa. Neocolonialismo na prática é o custo dos créditos financeiros que os países africanos têm de pagar, de cada vez que recorrem à banca internacional em busca de recursos financeiros para custear despesas com os seus projectos de infraestruturas públicas. Neocolonialismo acaba sendo o entretimento habitual nos Fóruns Económicos Mundiais, no circuito jurídico-político de Davos, em que surgem muitas receitas, mas quase sempre ignorando a sustentabilidade dos países de África. África, ao longo de décadas, desde que os seus países começaram a ascender às Independências, não teve a coesão programática de base. Os Governos que foram tomando o poder ou chegando ao poder esqueceram-se dos objectivos que brandiam aquando da luta anticolonial.O “deficit” em termos educacionais, em qualidade da Educação, em termos de acesso à informação, em termos de exposição a experiências relevantes é de dimensão tal que a maioria dos cidadãos se vê incapacitada de participar condignamente nos processos políticos e económicos de seus países. 
Nem tudo foi e é mal feito em África, diriam uns. E concordamos, embora não tenhamos motivos para sorrir. Enquanto morrem centenas de africanos todos os dias por doenças evitáveis, não se pode festejar. Enquanto milhares morrem vítimas de conflitos sangrentos de natureza étnica, religiosa e económica, não se pode descansar e festejar. Enquanto milhares recorrem à emigração ilegal para escapar ao círculo da morte antecipada por razões políticas e económicas, não se pode festejar. O aspecto mais preocupante é como a União Africana reage aos conflitos fratricidas que ceifam milhares de vítimas inocentes. Como a UA contrapõe autênticas violações dos direitos humanos mais elementares. Quando os Governos falham no mais básico de suas obrigações, há razão para afirmar que África está regredindo a largos passos.  Presidentes de República procurando eternizar-se no poder personifica apetites de natureza monárquica e tribal.
Quando se diz que a UA é um clube restrito de ditadores e aspirantes a isso, não se está longe da verdade. Preocupante é também a falta de líderes “proactivos” e observar-se sinais preocupantes de aproveitamento por parte dos seus parceiros externos. A ofensiva francesa em África, em nome de combate ao terrorismo e pela defesa da vida humana no continente, tem outras interpretações legítimas. O socorro de Paris insere-se numa tradição política intervencionista, de cada vez que interesses franceses sejam colocados em risco. A França sabe que não pode permitir que a instabilidade se aproxime de suas fontes de abastecimento de urânio ou petróleo. A Grã-Bretanha utiliza como cavalo de batalha da sua posição anti-Mugabe algo perfeitamente compreensível, que é a questão de terras que foram confiscadas aos farmeiros brancos em nome duma suposta reparação de erros e injustiças históricas. Mas este posicionamento esconde um outro lado da moeda. Mugabe não é nenhum santo, mas o Reino Unido é movido por considerações que pendem para a discriminação racial, pois não impõe sanções, quando os seus “interesses vitais” estão salvaguardados. Milhões de pessoas sofrem em várias das suas ex-colónias, vítimas de abusos contra os seus direitos humanos, sem que se veja a sua diplomacia pressionando os Governos promotores de tais abusos. Crime na Europa tem de ser crime também em África e vice-versa. 
Quantas vezes “think-tanks” ligados ao poder em Londres não premeiam gente de realizações e história mais do que suspeita? Líderes africanos com mãos ensanguentadas, desde que não irritem Londres, recebem prémios de prestígio. Moçambique e Angola não podem esperar que Lisboa seja fundamental ou crucial para o seu desenvolvimento político e económico. Fonte de matérias-primas e de recursos financeiros para aliviar crises e sustentar o desenvolvimento de Lisboa é a visão emanada daquela capital.  A ingerência nos assuntos africanos é feita de várias formas e uma delas é exactamente promover imagens que até têm sido lesivas para os países. Temos de consumir aquilo que o Ocidente diz que é bom, mesmo quando os resultados nos prejudicam.
Outra forma subtil de intervir e influenciar processos políticos africanos tem sido a disseminação duma pseudociência. Impor aos africanos maneira de pensar e proceder que os coloca sob influência daquilo que afinal são considerações estratégicas dos países do Norte. Ao nível das instituições multilaterais, como a ONU, OMC, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, os critérios e avaliação e deliberações tomadas não têm em conta aquilo que seria melhor para os países africanos. E os diversos países africanos não conseguem jogar na unidade como forma de defesa e protecção de seus genuínos interesses. Criou-se uma União Africana que nem consegue travar chacinas inter-religiosas na RCA, e políticas no Sudão do Sul.
Qualquer crise humanitária tem de ser socorrida pela ONU, pelos EUA e União Europeia.
Para combater a malária e a tuberculose é preciso esperar por doações internacionais.
Esta posição de pedinte crónico é sintoma claro de falta de liderança e de concertação estratégica entre os Governos de África. Os clamores dos cidadãos de África têm sido ignorados pelos Governos do continente. Ditaduras camufladas saltam de golpe em golpe, e qualquer tipo de golpe é bem-vindo, desde que sirva para os perpetuar no poder. Acusam os defensores da democracia em África de agentes do imperialismo, quando, na verdade, a sua preocupação é impedir que as decisões sobre quem governa sejam tomadas através do voto dos cidadãos.Face à escumalha política que navega e engorda em África, este aniversário da União Africana, 25 de Maio, deve ser data para reflexão e de tomada de consciência de que, se os africanos não aprendem a tomar posições de defesa dos seus interesses, ninguém o fará por eles.Construir e capitalizar a partir dos poucos sucessos existentes vai ser tarefa de líderes comprometidos com África e dignos herdeiros dos fundadores da Organização da Unidade Africana.  O momento é de batalha pela democracia, pois só esta cria as condições para o desenvolvimento duma sociedade educada e informada pronta para “empoderar-se” e livrar-se de complexos entorpecentes do passado. (Noé Nhantumbo)