quarta-feira, junho 21, 2017

Não há disparos!Num país grande,sem minitoria é um sucesso….

Numa altura em que o Presidente da República, Filipe Nyusi, regressa de  em Washington onde  participou  na cimeira bienal EUA-África, o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, voltou a acusar o Governo de lentidão nas negociações de paz e de resistência no abandono do cerco à serra da Gorongosa e alertou aos “camaradas” para um tratamento sério do assunto, para a mudança da imagem de Moçambique, garantido que não vai recuar enquanto não democratizar Moçambique e que um acordo será alcançado ainda este ano. No dia em que o Presidente Nyusi se reuniu com o secretário do Estado norte-americano, Rex Tillerson, o líder do maior partido da oposição reconheceu o mal-estar dos moçambicanos causado pela demora nas negociações de paz, afiançando que está a usar golpes de mestria para o alcance de um acordo, face às experiências amargas do passado, e assegurou que não vai “acobardar e decepcionar” na luta pela democracia.
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Após considerar lentas as negociações, abordou o Presidente da República  Filipe Nyusi? E como está a andar oprocesso agora?
Até agora não há nenhuma mudança. Tudo é lento, mas a promessa é que talvez já na próximan semana as coisas possam avançar já um pouco com pressa, quer na descentralização, assim como nos assuntos militares. Mesmo o assunto da retirada aqui no cerco da Gorongosa. É claro que ainda não esgotamos o prazo, que foi marcado, até finais do primeiro semestre, isto é, até dia 30 deste mês de Junho, todas as posições militares das forças governamentais teriam de sair da serra da Gorongosa. Mas podemos dizer que há um atraso, porque este assunto foi tratado em Abril, e a retirada começaria a partir da primeira semana de Maio e até aqui ninguém saiu. Os que tentaram sair, umas três posições, de Mapanga-panga, de Siua, assim como uma posição chamada Mazembe, não se retiraram para Mapundo ou onde haviam saído, retiraram-se aí, para mostrar que saíram, mas estão a uns 5 ou 10 quilómetros, na mesma área. O prazo combinado, de 30 de Junho, ainda não chegou. Posso crer e acreditar que, se calhar, até o dia 30 todos sairão mesmo, mas há morosidade.
A não retirada dos militares poderia se traduzir numa desobediência ao comando do PR Nyusi?
É difícil eu responder com precisão ou taxativamente, mas eu sou um general. Sou político, líder e general. Dirigi a luta desde 1977 até hoje. Desde os 23 anos a crescer nesta revolução, sei o que é um militar desobedecer ordens. Não é possível alguém das forças armadas, governamentais, rejeitar ordens do Comandante-em-chefe, constitucionalmente, que é (Filipe) Nyusi. Portanto, ele sabe das demoras, ele sabe das lacunas, da falta de coordenação entre ministérios, porque isto é um componente misturado, temos forças da FIR, da Intervenção Rápida, que pertencem ao Ministério do Interior, usando o fardamento das “fademos”, e temos mesmo as “fademos” que pertencem ao Ministério da Defesa, e depois é uma confusão, não há coordenação entre ministérios, e ele (Filipe Nyusi) é novo no poder. ( Joaquim) Chissano e (Armando) Guebuza foram presidentes, não é fácil, mas eu não quero achar que ele esteja isento, que haja indisciplina, ele tem conhecimento, a isto chamaríamos de uma desorganização organizada. Mas acabarão por se retirar, porque não foi uma conversa particular entre Dhlakama e Nyusi, em que as pessoas poderiam condenar-me, dizendo que Dhlakama é que disse, não, ele, o próprio Presidente da República, na presença do grupo de contacto, disse que se estavam a retirar, portanto, se não se cumprir, quem fica manchado? E toda a gente fica a acreditar que aquilo que ele está a tratar com Dhlakama não será implementado, será igual àquilo que eu fiz com Chissano e Guebuza, ele é que ficará a dever ao público. Mas quero ainda acreditar que se vão retirar porque o prazo combinado ainda não terminou.

Ocorreram incidentes desde a declaração da trégua indeterminada?
Bom, não de disparos. Posso dizer que é um grande sucesso, isso eu posso falar com todo o orgulho, porque quando dei a trégua sem prazo, era de facto suicídio, sem controlo, sem monitoria, num país tão grande, com todas as províncias com as forças armadas do Governo e da Renamo. Não tem havido incidentes de disparos uns contra outros, mas há um problema da indisciplina porparte das “fademos”. Usam e violam a trégua, usam fardamentos, levam armas, vão às barracas, isto é, nos mercados informais, bebem fardados, mas os militares não podem beber fardados, pedem dinheiro e, às vezes, arrancam bens. Isto tem acontecido, na Zambézia, sobretudo, em Manica. Em Tete houve um bocadinho de violação, e os polícias a dizerem que os da Renamo não podem içar bandeiras, sobretudo, naquelas bandas de Tsangano. Mas os deputados da Renamo têm estado a falar com o próprio comandante provincial e são essas coisinhas que acontecem, porque também porque, para quem conhece o exército da Frelimo, são indisciplinados. Não sei se é problema de formação, por causa da ética profissional, nunca foram militares assim e obedecer o regulamento militar.
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Há um crescente mal-estar de que o líder da Renamo estaria a ser enganado pelo PR Nyusi e a Frelimo, porque não estão a acontecer as principais coisas que deviam acontecer. Que leitura faz deste mal-estar?
Há sim, há reclamações! Até porque essas coisas, esses comentários começaram quando dei entrevistas a jornais e falei numa das teleconferências, dizendo que as coisas estavam a andar lentamente e, de facto, as pessoas começaram a comentar. Eu ainda não posso dizer que o Presidente Nyusi me tenha enganado, porque sempre é um processo, eu reconheço que é um processo. Não comecei a dialogar com o Nyusi, já trabalhei com o ex-Presidente Joaquim Chissano, assinei um acordo com ele, as coisas não foram cumpridas, já trabalhei também com o ex-Presidente, Armando Guebuza, assinei aquele acordo de 5 de Setembro de 2014, o acordo de cessação das hostilidades militares, também não foi implementado e, por isso, esse é o terceiro líder da Frelimo, pode ser a cultura dos dirigentes da Frelimo. Mas agora quero acreditar que a situação pode ser outra, porque há muita vigilância, mesmo ao nível de análise, dos quadros moçambicanos, não digo quadros da Renamo ou da Frelimo, quadros, técnicos, jornalistas. Estamos a exigir a descentralização e enquadramento dos comandos da Renamo  no exército, como forma de despartidarizar o exército. Não são coisas do outro mundo, são coisas visíveis. A paz, o desenvolvimento, a descentralização, aproximar o poder às populações, é um assunto que interessa a todos. Europeus, americanos já estão a pressionar para que haja um entendimento entre o Governo e a oposição, e a oposição referida é a Renamo, acredito que as coisas vão andar.

Imagem relacionadaDuas coisas estão na mesa, a descentralização e a desmilitarização. Qual das duas seria prioritária para a Renamo? As duas coisas. As duas coisas são prioritárias e são diferentes em especialização. É claro que podemos dar a descentralização como prioritária, porque tem de ser aprovada na Assembleia da República, enquanto que questões militares têm a ver com a implementação daquilo que devia ter sido feito no passado, é um assunto pendente. Agora, em termos de correr atrás dos prazos, prioritária é a descentralização, porque é preciso que, até finais deste ano, o processo entre na Assembleia da República, seja discutido e aprovado, ainda dentro deste ano ou finais deste ano, para permitir que o Presidente da República, constitucionalmente, anuncie a data das eleições gerais de 2019, com 18 meses de antecedência, e 18 meses antes das eleições de 2019 vai calhar nos meados de Abril do próximo ano. Por isso é bom que o tratamento do assunto da descentralização seja finalizado ainda antes do fim deste ano. É esta prioridade que podemos dar, mas em termos de peso e de importância, também é muito importante que o assunto de enquadramento dos comandos da Renamo, ao nível da chefia nas “fademos”, seja tratado com muita seriedade, que seja terminado este ano, como forma de garantir que, doravante, teremos as forças armadas apartidárias, técnico-profissionais e não como instrumentos de opressão do partido Frelimo, como agora está a acontecer.

Face a este cenário todo, ainda se pode pensar numa paz num curto prazo?
Sim. Sim senhor, porque eu estou a ver as coisas, embora continue aqui nas matas da Gorongosa, vejo
a compreensão e o crescimento dos moçambicanos, sobretudo, na camada intelectual. Os jovens já conseguem se expressar, já querem um verdadeiro desenvolvimento, já querem andar à vontade sem guerras, condenam os esquadrões da morte e sequestros, já são pessoas que estão a crescer, o que não acontecia há 10 anos. As pessoas ficavam assim escondidas, agora, abertamente, há pressão sobre a Renamo, há pressão sobre o Governo, sobretudo, o Governo, porque as pessoas sabem que o Governo é que provoca, é que ataca a Renamo. A Renamo está apenas a autodefender-se para não ser liquidada. Voltando à sua pergunta se podemos alcançar um acordo a curto prazo, sim senhor, porque há interesse, mesmo do povo moçambicano, de andar tranquilamente, sem disparos e sem nada, produzirem bem, para que haja o desenvolvimento económico, também há  pressão internacional. Geograficamente, Moçambique é um ponto estratégico através dos seus corredores, mesmo a África do Sul que é um país muito rico, muitas das suas exportações passam via porto de Maputo, Suazilândia, Malawi, Zimbabwe, Zâmbia, dependem dos portos da Beira e Nacala-porto, esses interesses económicos, nestes países vizinhos, não são só as empresas dos zimbabweanos, de zambianos e de malawinos, até empresas europeias estão nestes países vizinhos, e querem que as suas mercadorias passem tranquilamente pelos corredores de Moçambique. E nisto tudo, há pressão para que, de facto, as partes, quer a Renamo, quer a Frelimo, saibam que Moçambique pode recuperar a sua imagem, política, governação, justiça, desenvolvimento económico e paz efectiva. Se levarmos as coisas seriamente, eu não sou pessimista, estou a acreditar embora com experiência amarga do passado com Chissano e com Guebuza, vamos experimentar esse Nyusi para ver como as coisas vão, eu quero acreditar. Quero garantir ao povo de Moçambique uma mensagem da paz. Nós queremos uma paz efectiva, a paz verdadeira e não a paz do calar das armas, como essa da trégua sem prazo, mas a paz verdadeira que irá atingir os corações, sobretudo, dos jovens, olhando o futuro com desenvolvimento, o futuro com boa governação, constituições democráticas a funcionarem a favor das populações de Moçambique, e ver de facto o desenvolvimento equilibrado, para melhorar a vida das famílias. Veja que o salário dos funcionários públicos desvalorizou 50 por cento, com a inflação, as famílias que faziam estudar os seus filhos nas escolas privadas, estão a trocar porque já não aguentam pagar as propinas, e nesta situação em Moçambique, tudo está parado. 
Imagem relacionadaToda a produção nacional vai para acomodar o partido Frelimo, através da corrupção, das dívidas absurdas, e tudo isto pode ser resolvido não com bazucas, não com helicópteros, nem com canhão, por via do diálogo, com a alternância governativa em Moçambique. Eu não estou emocionado, já sou uma pessoa com mais de 60, e comecei a lutar pela democracia aos 23 anos, já passei por fases difíceis, de escapar à morte e tudo, porém, nunca  recuei porque no dia em que recuar serei cobarde, depois de ter dado a esperança aos moçambicanos sem temer a morte. É para tranquilizar os moçambicanos de que teremos os melhores dias, teremos um estado de direito, teremos a economia equilibrada, o desenvolvimento. Temos mar, temos boas terras para agricultura, ouro carvão, essas coisas minerais, tudo, e mesmo o turismo, por isso não é um país pobre, se Moçambique é pobre, foi empobrecido por causa das políticas sectoriais do governo da Frelimo. Quero acreditar que, nos próximos anos, teremos um estado de direito, e até europeus virão pedir empréstimos ao governo moçambicano, com os empresários ricos em Moçambique. Tenho esta perspectiva, a minha mensagem é que o povo não esteja decepcionado, sem esperança, estamos a trabalhar para o povo.
A Frelimo tem lhe acusado de falta cultura democrática, pela sempre recusa dos resultados eleitorais, mesmo chanceladas por observadores internacionais. Desta vez, após estas negociações, vai aceitar os resultados?
Bom, isto toda a gente sabe, nunca tivemos eleições democráticas neste país. É o mesmo que acontece
Imagem relacionadaem Angola, ou aqui no país vizinho, no Zimbabwe, e nos outros países africanos, posso lhe dizer, com toda a clareza, que nunca tivemos eleições livres e transparentes. Desde que iniciamos com as eleições em 1994, a Frelimo nunca ganhou, nem Chissano, nem Guebuza, nem ele Nyusi, isto não é dito por mim como Dhlakama, porque não sou o dono do país, eu sou um dos líderes políticos, é dito pelo povo moçambicano. Os próprios interessados em ver dirigentes democraticamente eleitos nunca tiveram dirigentes eleitos democraticamente. Falta da democracia por parte da Frelimo. Isto revela-se com as próprias instituições. Veja como é possível que o Conselho Constitucional, num processo cheio de fraude, que nem uma criança de três anos vê que é fraude, por uma questão partidária, porque tudo é Frelimo, Comité Central, valida as eleições. Nyusi diz aquilo que também o Guebuza disse, e aquilo que o Chissano sempre disse, os três nunca ganharam as eleições, o que nós pretendemos agora é que haja Moçambique, e Moçambique tem de mudar, não podemos continuar a chamar “sua excelência”, pessoas que perdem, mas usam a força, militares, polícias, subornos. A luta que a Renamo iniciou em 1977, pela democracia multipartidária, até hoje o povo está a exigir. Agora, quando me pergunta o que vai acontecer, nas eleições autárquicas, e nas eleições presidenciais de 2019, não sei, mas como líder político, não posso ficar com as mãos cruzadas, porque a Frelimo rouba votos e tudo, é o problema africano, não é só Moçambique, muitos países africanos não sabem o que é cultura democrática, acham que ser chamado presidente a roubar voto é assim. África não pode continuar nas mãos de ditadores. Ninguém reconheu as eleições, em termos éticos, em Moçambique. Os europeus, os americanos, como os outros, não têm culpa. O que interessa aos estrangeiros é um terreno livre, desde que consigam as concessões, tudo fazer e tirar os lucros, não estão preocupados com ditadores africanos. Se de facto houvesse em Moçambique uma norma própria, segundo a qual aquele que rouba voto não pode governar, Chissano não teria governado dois mandatos, Guebuza não teria governado doismandatos, nem este Filipe teria, porque ninguém ganha as eleições. Mas como a comunidade internacional não está interessada em olhar para o sofrimento dos africanos, há interesses económicos, eu sei muito bem, cada país quer priorizar o desenvolvimento de cada país, pronto. Agora cabe a Dhlakama, com os moçambicanos, lutar pela paz e democracia, para fazermos com que as eleições, as próximas eleições, tragam alternância governativa, constituições fortes, a trabalhar a favor das populações, não aquilo que está a acontecer em Moçambique, em que os tribunais e outros sectores é tudo Frelimo, algo tem que mudar no país.
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O PR Filipe Nyusi encontrou-se quarta-feira, 14, com o secretário de Estado norte-americano, RexTillerson. Isto se enquadra também no processo das negociações de paz?
Eu acho que a visita dele e o encontro pode ser para tratar de outros assuntos, de interesse também do país, que não posso especificar, mas eu conheço a situação. É que os americanos sempre disseram que, havendo boa vontade das partes, Governo e a Renamo, de demonstrar o fim do conflito militar e criar condições para a paz efectiva, estariam disponíveis para ajudar o processo, e isto o embaixador americano tem afirmado. É por isso, para o seu conhecimento, que os americanos no grupo de contacto, que tem como responsabilidade observar o processo, puxam para os dois lados, e América está no segundo lugar como adjunto, e a Suécia está com a presidência do grupo de contacto, e estão também os europeus, neste âmbito. Portanto, ele como Presidente da República a visitar os Estados Unidos, é possível também que se encontre com chefes importantes e falar da paz e se calhar falar também dos interesses económicos. Sabe que os americanos consideram Moçambique. Há a questão de petróleo e gás de Palma, na bacia do Rovuma, e estão também interessados, mas que eles querem garantias por parte de Moçambique, que haja coisas sérias. Que o Governo acorde com a oposição, Renamo, para que de facto haja condições para eles iniciarem com as actividades ou exploração, dos combustíveis em Rovuma e, por isso, acho que pode haver duas coisas ao mesmo tempo, relações diplomáticas entre Estados Unidos e Moçambique e os interesses económicos.

Já que tocou no gás do Rovuma, gostou de saber que a Eni vai começar a explorar o gás? Eu ouvi na semana passada coisas que ainda não tem, digamos, muita confirmação, porque não são só americanos que exigem condições da paz, e muitas outras empresas estrangeiras, não só que estãoligadas à questão de gás, mesmo para agricultura, para construção, todos pensam que a condição chave de incentivar os nacionais e estrangeiros a investirem com tranquilidade é o fim do conflito, um acordo que ponha fim ao conflito político-militar. (SAVANA)

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