domingo, agosto 16, 2015

Plágio!!!

O Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) publicou, há dias, o relatório de um estudo sobre plágio em cinco universidades moçambicanas, entre públicas e privadas, com o título “Plágio em 5 Universidades Moçambicanas: Amplitude, Técnicas de Detecção e Medidas de Controlo”. O referido estudo, da autoria de Peter Coughlin, teve como amostra 150 trabalhos de fim de curso (monografias de licenciatura e dissertações de mestrado), tendo concluído que nada mais, nada menos que 75 por cento dos mesmos continham plágio. Antes de nos alongarmos, talvez valha a pena dizer o que é plágio. De forma simples e segundo Thomas e Bruin (2015), plágio é um “roubo intelectual” que consiste no uso de ideias e/ou pensamentos alheios como se fossem nossos, ou seja, sem atribuição ou citação, ofendendo os mais supremos valores da academia, adiando a aprendizagem séria, a disseminação de conhecimento novo e a integridade da academia como instituição. Ele pode ser derivado da falta de rigor nas citações, o que pode induzir os leitores a pensarem que aquelas são ideias do autor. E há também o chamado self-plagiarism (auto-plágio), ou seja, um autor usar um texto seu como se fosse um novo texto, mudando-lhe, quase sempre, apenas o título), que não é menos preocupante. Numa altura em que existe um “consenso generalizado” sobre a baixa qualidade do ensino no país a todos os níveis, não deixa de ser preocupante que três em cada quatro (75 por cento) trabalhos de fim de curso nos níveis atrás referidos contenham níveis elevados de plágio. É certo que o estudo admite que pode ser que parte de situações tais tenham que ver com deficiências metodológicas dos autores desses trabalhos, mas, mesmo assim, não estamos perante uma boa notícia. A limitada observação que tenho feito ao longo dos tempos, tanto em universidades públicas como privadas, me leva a inferir que a grande lição que o estudo do IESE nos dá é no sentido de se leccionar as disciplinas de métodos e técnicas de investigação e redacção de trabalhos científicos de forma mais rigorosa, para que não tenhamos almas empurradas ao estatuto de plagiadores por mera inocência metodológica, ao que se juntaria, naturalmente, a própria negligência dos autores dos estudos tais, e porque não dos seus tutores e examinadores, que, pelo menos nas situações particularmente graves, deveriam ou ter evitado ou ter detectado situações de atropelo à ética. Entretanto, para averiguar a gravidade da situação do plágio no país, que tal se se fizesse algo similar para com as teses de doutoramento e artigos científicos sujeitos à revisão de pares da autoria dos doutores da nossa República? Se a diferença entre uma e outra situação fosse similar, confesso que não me espantaria assim tanto, considerando a dimensão potencialmente universal do problema do plágio académico. Aliás, há algumas semanas um renomado investigador doméstico denunciava um seu colega de profissão, por alegado plágio. E, ao que tudo indica, de forma reiterada!

Um trabalho recente (Abril de 2015) de dois professores sul-africanos (Adèle Thomas e Gideon de Bruin, da Universidade de Joanesburgo, intitulado “The millions we spend on stolen ideas”, revela a gravidade da situação naquele que é o país que mais se destaca, ao nível de África, no ranking das melhores universidades do continente (as cinco melhores instituições de ensino superior de África são sul-africanas). E, diferentemente do que constituiu objecto do estudo de Coughlin, Thomas e Bruin tiveram como amostra 371 artigos científicos publicados em 19 revistas científicas, em 2011, depois que aprovados em sede de revisão de pares. O que se constatou na pátria das melhores universidades do continente, com recurso às plataformas tecnológicas de detecção de plágio (Turnitin), é simplesmente alarmante: 68 porcento dos artigos submetidos ao exame continham similaridades e evidência bastante para qualificar como produto de plágio. Os que continham plágio considerado nitidamente excessivo correspondiam a 21 por cento, enquanto que 27 por cento se inseriam na categoria de níveis muito elevados de plágio. E convém sublinhar o seguinte: como que se inspirando no sagrado princípio constitucional e jurídico-penal segundo o qual a dúvida beneficia o réu, os investigadores sul-africanos fizeram o mesmo para com os autores que estivessem na fronteira entre o rigor académico e o plágio. Os dois investigadores referem, no seu estudo, que os contribuintes sul-africanos dispenderam pelo menos sete milhões de randes na recompensa à fraude: naquele país vizinho, o Governo paga 120 mil randes por cada artigo científico publicado numa revista científica, depois da relevante revisão de pares. Compete a cada universidade a que os autores estão associados a definição da margem ou parcela que é alocada a estes últimos. Se no caso de estudantes moçambicanos ainda se pode aventar a possibilidade de o plágio ter que ver com deficiências na sua formação, no caso dos investigadores sul-africanos, os doutorados sobretudo, a situação é mais de pendor ético. Naquele país, as verbas públicas disponíveis e em tantos outros países, há-de estar a propiciar situações de oportunismo. Adicionalmente, a luta pela promoção na carreira universitária, que toma as publicações científicas como um dos requisitos centrais, há-de fazer parte da triste equação do plágio académico. Domesticamente, seria interessante saber da posição do Conselho de Reitores!

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