segunda-feira, janeiro 23, 2017

Oficialmente esquecida

Resultado de imagem para Igreja de Cristo Unida moçambiqueNo passado chamou-se American Board, mas hoje leva o nome de Igreja de Cristo Unida em Moçambique. Poucos, sobretudo as novas gerações, ouviram falar dela, mas nem por isso foi menos preponderante no movimento nacionalista moçambicano. Tal como a glorificada igreja presbiteriana, ligada à elite da Frelimo do sul de Moçambique com Eduardo Mondlane como dos principais rostos, a ex-American Board, associada pelo regime dominante a “perigosos reaccionários” oriundos do centro de Moçambique, como Nkamba e Uria Simango, foi determinante na luta contra a opressão portuguesa, o que lhe custou perseguição por um sistema colonial intolerante para com as chamadas igrejas protestantes. Nós, no SAVANA, fomos revisitar a história, ouvimos testemunhas vivas e, nas próximas linhas, tentamos contar esse passado sinuoso, de torturas e sangue, que a história oficial, simplesmente, ignora. No seu livro intitulado “Toward African Church in Mozambique”, qualquer coisa como “Rumo à Igreja Africana em Moçambique”, uma obra que traça o percurso da ex-American Board, da América à África do Sul, passando pelo então Império de Gaza até ao Zimbabwe, o historiador americano, Leon Spencer, refere que foi em Julho de 1892 que os primeiros missionários americanos, liderados por Fred Bunker, chegaram à Beira. Tratava-se dos primórdios de uma igreja que só viria a se fixar, oficialmente, em 1905. Com a presbiteriana fortemente presente no sul de Moçambique, a ex- -American Board centrou as atenções na região centro, precisamente, nos antigos distritos de Manica e Sofala, hoje províncias. Num contexto de colonização, para além do evangelho, a igreja alargou a sua acção para a consciencialização das comunidades contra a opressão portuguesa. Com Manica e Sofala, na altura sob domínio da Companhia de Moçambique, que submetia as populações a grandes plantações de açúcar e algodão, a ex-American Board, que nos seus cultos dava ênfase à liberdade dos homens, foi a primeira igreja a denunciar Portugal na então Sociedade das Nações, hoje Nações Unidas, acusando Lisboa de actos de escravatura em Moçambique. Reza a história que, por força da conjuntura do século XIX, marcada pela propagação dos ideais do liberalismo, que preconizava a liberdade do homem, Lisboa declarou, oficialmente, a abolição da escravatura, em 1878. Mas o certo é que Portugal continuava a escravizar os “indígenas” nas suas colónias. Assim, um contundente relatório-denúncia submetido em Nova York pela ex-American Board fez com que o mundo se revoltasse contra Portugal, o que azedou as já tensas relações entre aquele país europeu e a igreja de origem americana. Nem mais: Portugal intensificou a perseguição contra a igreja que chegou a ser banida. Foi mesmo na tentativa de escapar das masmorras do colonialismo que os seus membros decidiram mudar de A ex-American Board e o nacionalismo moçambicano A igreja que a história oficial preteriu Por Armando Nhantumbo designações. Assim, de American Board, em 1905, passa a designar-se, em 1935, como Associação Evangélica Portuguesa; em 1944 como Conselho Intermissionário da Beira; em 1947 como Igreja de Cristo em Moçambique - Ramo Manica e Sofala e só em 1985, depois da independência, é que passou a se designar Igreja de Cristo Unida em Moçambique (Ex-Missão American Board).  No quadro do seu papel no nacionalismo moçambicano, a American Board enviou jovens para se juntarem à Frelimo na Tanzânia, o berço da Luta de Libertação Nacional. Feliciano Gundana, natural 
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de Sofala, que já desempenhou as funções de Adjunto chefe do Departamento de Defesa e Segurança, governador de Inhambane, Zambézia e Nampula, ministro dos Combatentes e da Presidência para Assuntos da Casa Militar, assim como outros crentes, estudou na escola da ex-American Board e foi pela mão desta igreja que rumou à Tanzânia, onde se juntou à Frelimo. Deolinda Guezimane, igualmente antiga combatente e ex-secretária-geral da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), o braço feminino da Frelimo, mais tarde deputada na Assembleia da República e Conselheira de Estado, é também uma das muitas jovens que “cresceu” na ex-American Board, de onde mais tarde seguiu para a Tanzânia. Lucas Chomera, deputado da Frelimo na Assembleia da República, onde preside a Comissão da Administração Pública e Poder Local, foi também um dos vários jovens que hoje a igreja diz terem sido “filhos de casa”. Entretanto, quis o destino que, em Moçambique, a igreja tivesse como precursores “inimigos jurados” da Frelimo. 
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Um deles foi Nkamba Simango, o primeiro moçambicano doutorado nos Estados Unidos da América (EUA), muito antes de Eduardo Mondlane celebrado pela histó- ria oficial como o primeiro doutor em Moçambique. Natural de Machanga, por volta dos anos 1890, Nkamba Simango, descrito na obra de Leon Spencer, investigador e docente de história africana, como um “líder religioso bem treinado”, teve os primeiros laços com a ex- -American Board na Beira e Monte Selinda (em território zimbabweano), mas essa ligação ficou fortalecida nos EUA, onde para além de se formar em Sociologia e Psicologia, ensinou, mais tarde, Chindau no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, entre vários outros títulos que obteve. Fazendo da religião um instrumento para a liberdade humana, Nkamba Simango já observara, em 1921, que “nos velhos tempos, o homem negro era detido por indivíduos, enquanto hoje é detido por governos e corporações”, defendendo que “devemos agir para libertar estas pessoas” em referência aos escravos. Uma outra geração ligada à ex- -Missão American Board, por sinal a terceira, integrou o Reverendo Uria Simango, que foi, mais tarde, um dos fundadores da Frelimo, partido no qual chegou a ser vice-presidente, co- djuvando Eduardo Mondlane. Tal como Nkamba Simango, Uria teve a sua vida, intrinsecamente, ligada a esta igreja de que pouco se fala. Em “Uria Simango, um homem, uma causa”, Barnabé Lucas Nkomo retrata a “história da penosa trajectória política de um missionário revolucionário, cujo empenho e dedicação à causa da libertação do seu povo foram negados pela memória colectiva da história recente do seu país”. Também natural de Machanga, Uria acabaria, barbaramente, assassinado entre Maio de 1977 e Junho de 1980, no campo de reeducação de M´telela, distrito de Majune, província do Niassa. (por : Armando Nhantumbo)

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