Em que estado encontrou a
empresa? A empresa
atravessa por um período de grande expansão. Novas aeronaves, novos
equipamentos, foi removida da lista negra, de modo que novas rotas foram
iniciadas e tudo caminhava a bom ritmo. Era assim há vários anos. Quando
começámos a olhar para os livros, para o modo como a forma de gestão como foi
concebida, tenho de dizer que foi uma confusão. Não necessariamente por culpa
de alguém em particular, mas apenas porque estava fora de controlo. Por isso,
tivemos de segurar e estabilizar o navio. Tivemos de analisar as contas, a
organização e, basicamente, remodelá-la para tentar adequa-la ao que
esperávamos que viesse a tornar-se uma empresa sólida. É o que temos vindo a
fazer desde então. Houve uma atenção especial à questão financeira, certamente.
Reformulámos completamente a situação financeira da empresa. Agora podemos
dizer, com segurança, que sabemos exactamente quem somos e que dinheiro
devemos. Sabemos o que está no banco e sabemos para onde estamos a ir, em
termos do nosso desempenho financeiro. Sabemos o que temos de aprovisionar, à
medida que vamos para frente. É um quadro muito diferente do que herdamos.
Agora recebo um extracto mensal das contas, verdadeiras e factuais. Estou muito
confiante em que o Governo está muito feliz com isso, os nossos credores
também, e, certamente, a equipa de gestão está confortável com isso.
Como primeiro PCA
não-angolano, na história da TAAG, enfrentou resistência por esse facto? Ou
terá sido pelas reformas que aplicou? Esta não é a primeira vez que assumo um cargo, como estrangeiro. Estive em
Omã, no Sri Lanka e fiz parte da equipa que fundou a Emirates. Logo, isso não é
novo para mim e não o é para a maioria da minha equipa também. Em termos de
TAAG, isso foi completamente novo. O pessoal ficou realmente um pouco
preocupado que isso tenha ocorrido. Tive conversas com ministros e vários
funcionários do Governo. É muito mais fácil para um estrangeiro chegar a uma
empresa aérea, como a TAAG, e implementar políticas que realmente têm efeitos
benéficos sobre o negócio. Elas podem até perturbar as pessoas em Angola, mas a
pessoa encarregada de as realizar, no caso eu, não tem qualquer pressão que não
seja a pressão de ser o CEO da empresa.
Que despesas teve de cortar? Os 70 milhões de dólares é o montante que
conseguimos economizar desde a nossa chegada. Na realidade, no total são 120
milhões de dólares, porque há ainda os 50 milhões de dólares que tivemos de
aprovisionar para as contas deste ano e do ano anterior.
Como fizeram isso? Tivemos de passar pente a tudo.
Analisámos os contratos e a forma como estes foram concebidos. Será que
precisamos de todos eles? Tínhamos contratos de consultoria em quase todas as
áreas da nossa actividade. E eu perguntava-me: se eu tenho um gestor aqui que
deve desempenhar a sua função, por que razão tenho um consultor sentado ao lado
dele a fazer o mesmo trabalho? Ou o gestor faz o trabalho ou o consultor! Não preciso de duas
pessoas para o mesmo trabalho.
Hoje, o pessoal vê o que é, enquanto, antes, tínhamos tantos
processos na empresa, que era difícil saber o que era válido e o que não era. A
redução dos processos permitiu-nos também encontrar maneiras de fazer com que
muitas pessoas executassem diferentes tarefas muito melhor do que eram capazes
antes. Deixou de fazer sentido, por isso, a quantidade de consultores que
forneciam informações que não eram usadas. Foi-me dito, entretanto, que
eliminar alguns desses contratos não seria fácil.
Por que razão lhe disseram isso? Porque havia muitas empresas locais,
agentes locais, todo o tipo de pessoas envolvido por trás desses processos,
desses contratos. Eu respondia ‘ok’, mas o meu mandato é para cortar custos,
sempre que for possível e é o que venho fazendo. E isso foi apenas uma vez, em
todos esses processos, que me foi dito que havia processos intocáveis. A
realidade é que as pessoas que me disseram que se oporiam, não se opuseram. E,
no fim de contas, fomos capazes de sanear muita coisa, o que produziu enormes
poupanças.
Voltando à questão dos
recursos humanos. Admite a possibilidade de baixar salários? Não necessariamente. Apenas racionalizar o
trabalho, olhando para a taxa de trabalho no mercado actual. Muitas empresas
estão a fazer isso agora. Quando não se está a ganhar tanto dinheiro quanto
antes, tem de se certificar que a força de trabalho seja acessível. Se não for
acessível, então tem de se fazer algo. Podemos ter de encontrar um mecanismo de
oferecer um esquema de afastamento voluntário. Dessa forma, podemos ter de
oferecer às pessoas um pacote de pagamento que vai encorajá- -lo a pensar se
quer ficar ou partir. Quem partisse seria devidamente compensado. Esta empresa
já fez isso antes, certas posições foram eliminadas, mas depois foram
recrutadas novamente. Não é muito inteligente fazer isso.
Claro, que se o
Governo nos disser: “queremos que mantenha o voo e estamos preparados para
subsidiá-lo”, nós aceitaremos. Se o governo de Cabo Verde disser: “vamos
dar-vos concessões, reduzir as taxas de aterragem, o custo do combustível, etc,
etc, se chegarmos a algum tipo de assistência, vamos continuar a rota como um
serviço público. Mas, até lá, as pessoas que me desculpem, a empresa tem de
ganhar dinheiro.
E voos domésticos são
rentáveis? Não sei. Têm o
seu custo, digamos assim. Estamos a operar uma abrangente rede de voos
domésticos, melhoramos um pouco nos horários. Alguns desses voos têm ligação
com as rotas que deixam Luanda para outros destinos, como Lisboa. Lisboa é
muito popular na nossa rede, por isso é útil que alguns desses voos conectem,
para que possam fornecer mais ligações a Lisboa e Porto e vice-versa.
Realmente, tivemos de analisar a programação nacional e internacional e é
curioso notar que, se olharmos para as rotas internacionais, o que acontecia
era que os voos são Angola para outros lugares, e de outros lugares para
Angola. Não é esse o potencial de Luanda. Luanda é um ponto importante e
estratégico para os serviços aéreos ao sul do Sahara e precisamos aproveitar
isso. Por outras palavras, precisamos trazer os voos provenientes da América do
Sul, Europa, China, que liguem Luanda a outros pontos em África, de modo a que
pessoas viagem de uns destinos para outros e possam usar os nossos voos para
isso. Isso é algo que nunca foi feito antes.
Porquê? Primariamente, é preciso ter um visto
para transitar por Angola. Quando chegámos aqui, reunimo-nos com oficiais do
departamento de migrações, altos funcionários ministeriais e dissemos-lhes:
“olhem, Luanda é uma potencial placa giratória, não precisam pedir vistos a
quem entra em Angola”. E eles concordaram e estão a eliminar a maior parte dos
vistos de trânsito para as pessoas que apanham voos de ligação dentro de 24
horas, e os resultados do sucesso já são significativos. Embora o mercado
angolano não cresça de momento, estamos a conseguir trazer os clientes dos
mercados ao redor, o que aumenta a nossa carga dentro e para fora de Angola em
voos internacionais. Por exemplo, quando, em Março ou Abril, começámos a ligar
Joanesburgo e Cidade do Cabo, para os nossos voos para Lisboa e Porto, tínhamos
6,7 passageiros. Seis meses depois, estamos receber entre 80 e 90 passageiros
que vêm através daqueles destinos que conectam com o nosso voo para Lisboa e
Porto. Neste inverno, ligaremos para o nosso voo para o Brasil, Havana e talvez
Dubai. São essas coisas que irão aumentar o nosso negócio daqui para frente. E
isso permitiu-nos manter voos diários duplos para Portugal todo o tempo, mesmo
no Inverno, quando, no passado, teríamos de reduzir o número de frequências
nessa altura, por falta de demanda.
Em segundo lugar,
queremos construir a marca para que as pessoas olham para a TAAG como uma das
transportadora aéreas líderes em África. Esse é o objectivo. Se vamos ser
capazes de o alcançar, vamos ver... De qualquer forma, vou recebendo
declarações positivas de muitos dos nossos clientes regulares que estão a notar
diferenças. Os voos são muito mais pontuais do que eram no passado. O interior
da aeronave é muito mais limpo, muito melhor do que eram. O serviço de chão
começou a funcionar melhor. Não é o ideal, porque não estamos a operar num
aeroporto ideal. É um muito congestionado aeroporto, lotado. Mas tentamos
melhorar os processos que controlamos tanto quanto podemos. O que gostaria de
ver em três anos é as pessoas dizerem: “Há aí o voo da TAAG? eu vou com a
TAAG”, enquanto, no passado, era: “TAAG? que outra companhia também vai?” (Por
Cândido Mendes)


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