segunda-feira, dezembro 07, 2015

Desvalorização afecta construção

Foi o sector que mais cresceu nos últimos anos em Moçambique contribuindo com cerca de 9% do PIB. Foi o sector que na última revisão salarial, aprovada pelo Governo,teve um aumento 13%, o maior de todos os sectores de actividades. Trata-se da área de construção civil, uma das áreas mais empregadoras no país. Nos últimos anos, as grandes cidades moçambicanas, com maior enfoque para a capital do país, Maputo, viram o seu parque imobiliário a aumentar de forma vertiginosa com o aparecimento de uma gama de luxuosos e pujantes edifícios para fins habitacionais, de serviços e comerciais. 
Resultado de imagem para condominios maputoA corrida pelo lucrativo negócio imobiliário fez com que milhares de empresários ligados ao sector da construção civil e não só investissem milhares de dólares americanos nesta área. É que o caso não é para menos. Um apartamento num edifício localizado na zona nobre da cidade de Maputo, como é o caso dos bairros de Polana Cimento ou Sommerschield, podia custar de renda entre cinco a oito mil dólares americanos. Uma moradia localizada num desses bairros podia custar entre 10 mil a 15 mil dólares de renda mensalmente. O mesmo verifica-se nos casos da venda de imóveis onde um simples apartamento do tipo três podia ser transaccionado entre 300 a 500 mil dólares americanos enquanto que uma moradia podia atingir cerca de um milhão de dólares. Não obstante os preços serem proibitivos para a esmagadora maioria da população moçambicana, o negócio tinham sempre clientes e  muitas vezes as aquisições eram feitas na totalidade antes do respective edifício ser concluído.
O negócio que nos anos 2012, 2013 até aos primórdios de 2014 parecia um el dourado, tornou-se um verdadeiro pesadelo nos últimos meses. A contínua e cada mais preocupante desvalorização da moeda nacional, o metical, face ao dólar americano e outras moedas de referência como é o caso de Rand sul-africano e o Euro, está a deixar o pujante mercado imobiliário e de construção civil
Resultado de imagem para sommerschieldde “tangas”. A corrida pelo apetitoso sector fez com que muitos empresários recorressem a créditos bancários para investor na área. Hoje, com a desvalorização do metical e a fragilização do poder de compra da maioria dos moçambicanos da classe média, está a colocar o sector imobiliário em crise. A triste realidade por que o sector imobiliário passa neste momento foi reconhecida por Manuel Magalhães Pereira, um dos responsáveis pelo pelouro da Construção Civil, na Confederação das Associações Económicas (CTA). Manuel Pereira, que também é Administrador- Delegado da Construtora de Mondego, uma empresa de capitais moçambicanos criada em 1997, disse ao SAVANA que para responder os apelos governamentais, no sentido de criar-se condições habitacionais para a juventude, sobretudo da classe média, empresários ligados à área de construção civil direccionaram seus capitais para a imobiliária na esperança de reaver o dinheiro com venda de casas.
Resultado de imagem para sommerschieldConta o empresário que a corrida das imobiliárias para construção de novos parques habitacionais, de serviços e de escritórios ganhou fôlego nos anos 2012, 2013 e 2014, uma altura em que o dólar americano era cotado, no mercado nacional, a um preço de 20 e 30 meticais. Segundo Pereira, foi na base da cotação de 29, 30 e 31 meticais o dólar americano que muitos empresários planificaram e investiram seus capitais. “Foi na base dos 29 ou 30 meticaiso dólar que os empresários fizeram os seus planos e foram à banca pedir crédito para investir no sector. Foina base dos 20 a 30 meticais o dólar que as pessoas assumiram compromissos com as imobiliárias para aquisição de imóveis”, disse.Sublinha a fonte que, contra todas as previsões, o paradigma altera completamente em finais de 2014 quando o metical inicia os primeiros ensaios de depreciação. “Podemos dizer que no início a situação era encarada com alguma normalidade. Mas depois de algum tempo atingiu contornos insustentáveis. Hoje, o dólar que era cotado a 30 meticais, o seu valor duplicou, já nos custa 60 meticais.
Resultado de imagem para casas de luxo maputo É um enorme défice que o empresário é obrigado a “cobrir”, lamentou. Continuou a sua explanação referindo que, por causa desta nova realidade cambial, muitos empresários imobiliários estão altamente endividados e têm poucas alternativas de honrar seus compromissos porque o poder de compra baixou de forma significante. Pereira recorre aos números da sua empresa para ilustrar a queda do negócio. Sublinha que, entre 2013 e 2014, tinha em média 700 pedidos de compra de imóveis proporcionadas pela sua imobiliária por mês. Hoje, o cenário é totalmente desolador e o número de pedidos de aquisição de casas não vai para além de seis mensalmente. Disse que, se a situação não se inverter nos próximos meses, o sector irá à bancarrota. “Hoje, muitas obras pararam porque não há como dar prosseguimento, os empresários que tinham casas concluídas estão a ter dificuldades de vender e as taxas de juro vão se multiplicando dia após dia”, queixou-se. De acordo com o Administrador Delegado da Construtora de Mondego, a situação torna-se muito mais dramática na medida em que, no mercado imobiliário, os custos são calculados em dólares, mas os pagamentos são feitos em dólares e os clientes auferem seus ordenados em meticais, sendo que com a desvalorização da moeda nacional torna-se mais complexo.
Resultado de imagem para sommerschield“O nosso mercado é dominado por pessoas da classe média que auferem seus salários em meticais e, para responder aos compromissos que têm com as imobiliárias, tem de ir ao mercado comprar dólar porque neste sector as transacções são feitas em dólares. Veja que, se alguém recebia em 2014 o equivalente a cinco mil dólares em meticais, hoje, o mesmo valor equivale apenas em 2500 dólares. Essa pessoa é obrigada a fazer novas contas para a sobrevivência e até pode ter dificuldades de honrar seus compromissos com as imobiliárias,n aliás, isso já é comum”, disse. Já na vertente dos empreiteiros, o nosso entrevistado também lembrou que um empresário que contraiu dívida com a banca na ordem dos 45 milhões de meticais em 2013, na altura equivalia a 15 milhões de dólares, mas hoje já não chega oito milhões de dólares. Trata-se de uma situação que baralha por completo as contas dos empresários de construção civil na medida em que, nesta área, mais de 70% do material usado, sobretudo na vertente dos acabamentos, é importado. Muitas vezes, no grosso das obras públicas que executamos, a cotação é feita em moeda nacional, mas o material é adquirido em dólares porque vem de fora do país. Com esta continua desvalorização do metical os empreiteiros ficam sufocados. Manuel Pereira disse que falta protecção aos empreiteiros nacionais por parte das entidades governamentais perante a forte e desigual concorrência resultante da intensa procura do mercado nacional por parte de empresas estrangeiras. De acordo com o nosso entrevistado, ao contrário do que se verifica com as construtoras internacionais, as empresas moçambicanas não são facilitadas o acesso ao financiamento para a execução das suas actividades.O nosso interlocutor referiu que este tipo de constrangimentos exclui grosso dos empreiteiros moçambicanos na medida em que se vêem fora das grandes obras, quer públicas ou privadas.
Resultado de imagem para construção civil arruinada maputoNo país, todas as empresas nacionais que pagam impostos e salários aos seus trabalhadores estão a ser fortemente penalizadas e corre-se o risco de futuramente não se ter empreiteiros capazes. No entender no nosso entrevistado, cabe ao Governo promover o´crescimento da capacidade técnica e económico-financeira das empresas nacionais, criando cada vez mais oportunidades de negócio, através da aprovação de regulamentos que estabeleceram condições justas e equilibradas das partes de contratos de empreitadas de obras públicas, formando parcerias com o sector privado no controlo da actuação dos operadores do sector. Para além de descrever o ambiente que se vive no ramo de construção civil no seu todo, Manuel Pereira falou daquilo que tem sido o circuito de negócios da empresa por ele dirigida. Com um volume de negócios na ordem de 80 milhões de dólares norte-americanos, a Construtora de Mondego é uma empresa virada essencialmente para o ramo imobiliário e de obras públicas. Mais de 90% dos seus negócios são com o Estado moçambicano, onde se destaca a construção de escolas, hospitais, esquadras e outro tipo de infra-estruturas públicas. Mas também executa obras de índole privada.  Segundo Pereira, a empresa já garantiu uma solidez relevante no mercado, facto que garante confiança da parte das instituições financeiras.“Somos uma empresa sólida, confiável e com garantias reais, o que nos permite aceder, junto aos bancos, a créditos para financiarmos as nossas obras”, disse.Aponta o dinamismo, a seriedade e o empenho da sua equipa como razão de sucesso.


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