terça-feira, maio 23, 2017

Vitória do sector privado

O ministro que tutela opelouro do Trabalho já não pode anular unilateralmente contratos de trabalho de cidadãos estrangeiros em Moçambique e expulsá-los sem direito à defesa. Em causa está a deliberação doConselho Constitucional (CC) que,através do Acórdão nrº 1/CC/2017,declarou inconstitucional a norma contida no nrº 7 do artigo 27 do Regulamento dos Mecanismos e Procedimentos para a Contratação de Cidadãos de Nacionalidade Estrangeira, aprovada pelo Decreto nrº 37/2016 de 31 de Agosto. Concluiu o CC que aquela norma contraria os princípios constitucionais de segurança jurídica, do contraditório, da protecção efectiva e do direito ao trabalho constantes da Constituição da República.O pedido de inconstitucionalidade da norma foi levantado em 2012 pela Associação de Comércio, Indústria e Serviços (ACIS) sedeada na Beira. A organização diz que, nos últimos cinco anos, pelo menos 30 cidadãos estrangeiros que trabalhavam no país e filiados entre as 240 empresas que compõem a agremiação foram expulsos de Moçambique pelos ministros que superintendem a área do Trabalho.
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Deste número, não se inclui o antigo treinador do Costa do Sol, Diamantino Miranda, que também viu o seu contrato de trabalho revogado pela mão dura da então ministra do Trabalho Maria Helena Taipo, pelo facto de o clube não ser membro da associação.
Mas da lista faz parte o ex-representante do BES no Conselho de Administração do Moza Banco, José Alexandre Pinto Ribeiro, expulso por alegados insultos e maus tratos a trabalhadores moçambicanos. Nos casos mais mediáticos consta a directora do Pemba Beach Hotel, Claudine Moodley, uma militante do ANC da África do Sul, a directora dos Recursos Humanos da Açucareira de Marromeu, Ana Fernandinho (decisão de expulsão revogada por ser casada com moçambicano e com um filho menor) e os administradores da G4S, John Mortimer e Cassie Van der Merwe, invariavelmente acusados de racismo e maus tratos aos trabalhadores.O administrador do grupo Maeva teve a sua expulsão revogada depois de os trabalhadores apelarem junto do ministério.Preocupada com a contínua aplicação da norma em causa, que, no seu entender, estava a deteriorar os índices de confiança dos investidores em Moçambique, resultando no encerramento de empresas, perturbação do ambiente laboral nas empresas, com o agravante dos visados não terem o direito à defesa, a ACIS solicitou um estudo jurídico especializado sobre o assunto, que depois submeteu à Procuradoria Geral da República (PGR).
Segundo Carlos Henriques, presidente  da ACIS, o pedido da revisão da norma contida nrº 7 do artigo 27 do decreto nrº 37/2016 de 31 de Agosto foi objecto de apreciação pela PGR numa reunião específica do Conselho Técnico, que produziu um parecer favorável à sua agremiação, mas que depois foi barrado pelo Conselho de Ministros, por não ver nenhuma ilegalidade. O documento ficou engavetado durante quatro anos e em 2016 a ACIS voltou à carga, via Provedor de Justiça, que, em menos de duas semanas, fez um despacho solicitando a intervenção do CC, que, por sua vez, requereu, uma vez mais, o pronunciamento do Conselho de Ministros. O Conselho de Ministros reiterou que não via nenhuma anormalidade e fez aprovar um novo documento legal, mantendo os poderes de expulsão conferidos ao ministro do Trabalho. Mas, desta vez, o entendimento do Governo foi contrariado pelo CC,que, a 9 de Maio corrente, exarou o seu primeiro acórdão, declarando a inconstitucionalidade daquela norma. 
“ Aquilo que nós pretendemos é que haja um bom ambiente de negócios, que as leis sejam claras para que nós as possamos implementar devidamente e fazer progredir o país e o emprego. Isto mostra que há espaço para o pronunciamento de todas as camadas da sociedade e há espaço para que todos encontremos melhores formas de trabalhar para que Moçambique progrida”, disse Carlos Henriques, esta terça-feira, numa conferência de imprensa convocada para reagir à deliberação do CC. Faltava clareza da lei O sector privado entende que o debate do Decreto 55/2008, que regula os mecanismos e procedimentos para contratação de cidadãos estrangeiros em Moçambique, tinha como foco a simplificação das exigências processuais e a negociação do âmbito de regimes de quotas. Nesse sentido, foi introduzido o nr.5 do artigo 22 no Regulamento de Contratação de Cidadãos de Nacionalidade Estrangeira, mas o mesmo enfermava de vícios, tal como estabelece que:
“Em caso de violação dos princípios plasmados na Constituição da República e demais leis e normas vigentes no país, o exercício do direito ao trabalho por parte do estrangeiro em causa pode ser interdito por despacho do ministro que superintende a área do trabalho”.
É com base neste entendimento, segundo Carlos Henriques, que desde 2008, os titulares do pelouro do Trabalho têm usado dos poderes conferidos no nrº5 do artigo 22 do decreto 55/2008 para interditar o direito ao trabalho para estrangeiro, por via de despachos que concediam o tempo máximo de 48 horas, sendo recusado aos visados novos pedidos de autorização de trabalho. O Governo foi forçado a revogar o decreto 55/2008 mas voltou à carga com o 37/2016. Com a deliberação do CC, a ACIS considera que foi reposta a justiça, abrindo-se espaço para interposição de recurso. Doravante, nenhum trabalhador estrangeiro será expulso sem um processo instruído como emana a lei.  O pedido de declaração de inconstitucionalidade enviado pelo Provedor de Justiça ao CC visava o nr 5 do artigo 22 do decreto 55/2008, de 30 de Dezembro que aprova o Regulamento relativo aos Mecanismos e Procedimentos para Contratação de Cidadãos de Nacionalidade Estrangeira. Notificado, o Governo negou a existência de inconstitucionalidade, apontando que uma eventual anomalia decorre da interpretação que se atribui à expressão “interditar”. 
Resultado de imagem para expulsaoO executivo fundamentou também com o argumento de que a interpretação do conceito interdição extravasa em larga medida o sentido original que o legislador quis dar ao conferir poderes do Ministro de Trabalho para autorizar, em determinadas circunstâncias, que cidadãos estrangeiros possam trabalhar em Moçambique. Nesse contexto, o Governo ensaia uma fuga para frente, aprovando um novo Regulamento para Contratação de cidadãos de nacionalidade Estrangeira, através do decreto 37/2016, de 31 de Agosto, e revoga o Decreto nrº55/2008 de 30 de Dezembro. Compulsado o novo decreto, o CC conclui que, apesar de ligeira transformação do texto, o conteúdo continuava o mesmo do dispositivo revogado, dado que o ministro que superintende a área do Trabalho ainda detinha poderes para, de forma discricionária, revogar o acto administrativo que permitiu a contratação do trabalhador estrangeiro. Com a revogação da anterior norma, o CC centrou as suas atenções na nova norma constante do nrº 7 do artigo 27 do decreto nrº37/2016 de 31 de Agosto, tendo, por isso, concluído que um despacho revogatório do ministro do Trabalho, que põe termo ao contrato privado, sem antes abrir espaço para, em tempo útil, o visadose defender, está a violar flagrantemente o princípio do contraditório, que se mostra essencial num estado de direito. Juristas contactados pelo SAVANA consideram que os visados pelas expulsões dos ministros do Trabalho podem agora intentar uma acção contra o Estado. Os mesmos juristas consideram ser necessário questionar igualmente os poderes do ministro do Interior que pode igualmente expulsar cidadãos estrangeiros com visto de trabalho ou de residência sem que possam articular a sua defesa. Foi nessas circunstâncias que foi expulsa de Moçambique a activista espanhola Eva Moreno, envolvida na  controversa medida do ex-ministro da Educação, Jorge Ferrão, que fez baixar o comprimento das saias nos uniformes escolares.

Erros que se não devem repetir

1. A linha de Sena deixou os CFM individados (US$ 500.000.000!), e agora que a Vale Moçambique construiu a sua linha para escoar o carvão de Moatize via Porto de Nacala à Velha, a linha de Sena vai virar um elefante branco... Se ele (Armando Guebuza) tivesse ouvido os argumentos contra o aumento da capacidade da linha Sena, teria evitado o endividamento excessivo dos CFM.
2. O Aeroporto de Nacala é, por ora, um outro elefante branco, por conta de uma decisão errada de Armando Guebuza. Se ele tivesse ouvido cuidadosamente os argumentos para examinar o interesse dos norte-americanos pela antiga base aérea de Nacala, e pela capacidade natural da Baía de Nacala para acomodar navios de grande calado sem precisar de dragagem, a Província de Nampula poderia rapidamente transformar-se na Califórmia de Moçambique.
3. O projecto de constituição das empresas EMATUM, Proindicus e MAM foi bem concebido, em princípio. Porém, os planos de negócios desta empresas foram mal preparados e mal executados no detalhe. O resultado disso é que as referidas empresas não estão a produzir para responder às suas obrigações, e o Estado moçambicano ficou com uma dívida de US$ 2,2 mil milhões por conta disso. Pode dizer-se EMATUM, Proindicus e MAM são elefantes brancos.
4. A revolução verde foi discurso que ficou letra morta, antes de produzir frutos. Não sei em que às quantas anda o projecto de produção da jetrofa...
5. O fundo de desenvolvimento distrital (FDD), vulgo "7 milhões", está com mutuários que não estão a honrar os seus compromissos sem consequências para si, mas com consequências nefastas para os demais cidadãos moçambicanos...
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Neste momento, estou com dúvida sobre se o projecto de construção do Aeroporto de Chongoene não vai produzir mais um elefante branco... Também tenho dúvidas sobre se a iniciativa "Um Distrito, Um Banco" vai vincar com a banca comercial à frente, num momento em que a actividade produtiva e a rede comercial em Moçambique são fracas... Questiono-me ainda sobre os planos que existem para a utilização da quota de 2 milhões de toneladas de carga diversa, disponibilizados pela Vale Moçambique ao Estado moçambicano, no recentemente inaugurado corredor logístico de Nacala. Enfim, ouvir atentamente a opinião contrária pode evitar erros de palmatória na hora de tomar decisões cruciais para viabilizar a independência económica e o desenvolvimento sustentável de um país. Reitero que o Presidente Filipe Nyusi precisa mais é de ouvir e analisar questionamentos sobre as decisões que toma, do que dos nossos aplausos ao seu mais simples gesto.
Pessoalmente acho que em Moçambique temos muitos fundos dispersos e mal geridos. Por que não pegar nesses fundos e constituir bancos de fomento de actividades produtivas por sector?
Que tal um "Banco de Fomento Pesqueiro", no lugar do "Fundo de Fomento Pesqueiro"?
Que tal um "Banco de Fomento dos Transportes", no lugar do "Fundo bla... bla... dos Transportes"?
Que tal um "Banco de Fomento da Indústria", no lugar do "Fundo bla...bla... da Indústria"?
E assim por diante...
Tenho comigo que estes "bancos sectoriais" seriam fáceis de capitalizar, e de gerir responsavelmente. (J.J.Cumbane in facebook)


segunda-feira, maio 22, 2017

10 exames em busca de uma artrite

A sociedade moderna assemelha-se ao comboio que descarrilou, todavia continua em andamento.                                                                                                  José Vilema, investigador da Universidade de Évora
“Tenho saudades dos tempos em que a educação ainda não sofria de anemia científica”, eis a resposta do meu amigo Nkulu quando o abordei sobre o tema em epígrafe. De facto, a nossa educação está a atravessar o pior momento da sua história com a escassez de qualidade. E já não constituiu novidade para ninguém (cautos) que o pelouro da Educação tem responsabilidades nisso. Trabalha-se mais pela estatística em detrimento da qualidade do ensino.
Resultado de imagem para  medicos fracosQuando os alicerces não são bem implantados, através de um investimento maciço no ensino primário, no superior os estudantes pervertem o processo de ensino e aprendizagem e anula todo os resultados desejados de qualidade. Há necessidade de se fazer um investimento sério, não apenas no capital humano, mas também em infraestruras e equipamentos. A técnica exige laboratórios modernos e em qualquer parte do mundo são caros de se adquirir. Mas vale a pena, se quisermos formar com qualidade. Eu ia jurar que, se parássemos de politizar o ensino e apostássemos mais em reformas estruturais que garantem uma educação com qualidade, hoje estaríamos numa posição respeitada nos rankings mundiais. Se assim fosse, insisto, o país não dependeria do carvão e do gás (que são recursos esgotáveis) para se desenvolver.
A qualidade do ensino fala todas as línguas e esta seria o carimbo para que os nossos diplomados facilmente fossem escoados no mercado de emprego. Só o pelouro da educação é que não vem esta aberração (ou não quer ver). Os nossos alunos não produzem o que aprendem (a transformação do conhecimento em matéria-prima). Não são capazes de pensar e criticar pela própria cabeça. São repetidores. Estamos a formar “papagaios.” Não se admire, caro leitor, que hoje na política haja tantos desses tipos, malandros e medíocres!
Não me causou admiração o facto de quase metade dos graduados em medicina tenham reprovado no exame de certificação médica, simplesmente porque reimprimiram a imagem que o país tem nestes sectores (digo bem: educação e saúde). A mim o que me preocupa não são os anos que um licenciado em medicina leva na faculdade, mas sim como é que foi o seu processo de formação (o processo de ensino e aprendizagem). Questões têm de ser feitas para responder algumas hipóteses, como por exemplo, a qualidade das infraestruturas, o acesso aos laboratórios e aos materiais didácticos, a seriação do corpo docente para expurgar os chamados professores turbos, etc. Mas ainda, o mais importante, é apurar o espírito (a vocação) dos estudante que é a base para se ter um bom médico.
Os estudantes devem estudar a medicina porque gostam e devem fazê-lo de corpo e alma, não para satisfazer os caprichos de quem patrocina os estudos. Porque a medicina hoje virou uma actividade comercial e não humanitária no verdadeiro sentido da palavra, muitos desses estudantes apenas fazem a medicina para agradar os seus financiadores sem no entanto construir o compromisso com a profissão que pretendem abraçam.
Note-se que, não foi a Ordem dos Médicos quem os reprovou. Esta, a Ordem, apenas chancelou os resultados obtidos pelos visados no teste de certificação. Se a Ordem os tivesse admitido e os mesmos – no exercício da profissão - matassem vidas nas unidades sanitárias do país, de quem seria a culpa? Não preciso fazer um exame profundo de consciência para saber que a responsabilidades, pelo menos em peso de 80%, seria atribuída à Ordem. E os prejuízos também. Cabe a Ordem, como uma espécie de funil, amputar, literalmente, a mediocridade que reinava e acredito que ainda reina na medicina. Esta atitude da Ordem não deve criar espalhafato, antes acarinhado pelos reitores de todas as universidades e pela população em geral. Fiquei indignado quando vi um reitor atacar a Ordem. Até certo ponto compreendi que aquele reitor agia em defesa do seu rebanho, mas do ponto de vista académico, esteve mal na fotografia, porque parecia vestir a pele de um paternalista da mediocridade. A constatação deste fato não deve, porém, reduzir os esforços e conquistas do aludido reitor em prol do desenvolvimento da educação. Mas…
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Quem anda pelos nossos hospitais sabe que alguns médicos deixam muito a desejar. Certo dia o meu filho mais novo passou mal e ouvido a opinião de um amigo médico dirigi-me a uma unidade sanitária do país para a certificação do diagnóstico e efectivo tratamento. Chegado ao hospital a primeira coisa que percebi daquela médica foi a insegurança com quem me transmitira ao atender o meu filho. Coitado do miúdo, mal perceberá que seria mais uma vítima da incompetência médica. Uma “simples” artrite, mas por causa das deficiências de formação médica, recomendara que se fizesse mais de 10 exames. A ideia era, no meu entender, o exame que desse errado (alguma anomalia) seria, então, essa a causa do mal-estar da criança. Ou seja, entrou com suspeitas de uma doença de trato ligeiro e saiu com várias lesões corporais graves causadas, neste caso, pelas impiedosas seringas que daquela mão médica picara à procura de veias. Soube mais tarde que aquela médica havia sido uma das mais fracas durante a sua formação. Levei o caso à direcção daquele hospital, nunca mais tive resposta alguma...Alegra-me, porém, que a Ordem dos Médicos tenha-se apercebido destas deficiências e decida primar pela qualidade e competência. Seja louvada a Ordem dos Médicos. (Por Viriato C. Dias)

Tremedeira no gás do Rovuma

O drama das chamadas dívidas escondidas encerra uma ironia também melodramática. Os empréstimos ilegais foram supostamente investidos em empresas criadas para aproveitar as oportunidades geradas pelas multinacionais do gás. Contudo, a turbulência financeira criada pelos empréstimos pode resultar em consequências negativas para o negócio do gás no que toca à participação moçambicana.
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“Numa altura em que a crise financeira em Moçambique complica a já melindrosa situação financeira dos projectos de LNG (Gás Natural Liquefeito), pode ser que os negócios em torno da EMATUM, Proindicus e MAM tenham comprometido exactamente os mesmos projectos que pretendiam proteger”, refere o portal. O incumprimento do Governo no pagamento das dívidas a que prestou aval, a favor das três empresas, vai tornar mais difícil a arrecadação de dinheiro necessário para permitir que a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) realize a sua parte de investimento nos projectos de gás natural na Bacia do Rovuma. As concessionárias das Áreas 1 e 4 nos blocos de gás natural da bacia do Rovuma comprometeram-se a financiar a entrada da ENH nos financiamentos dos referidos projectos, mas esse esforço financeiro será altamente oneroso para a companhia que representa o Estado moçambicano na extracção dos recursos energéticos. A Zitamar estima em 2.5 biliões dólares o montante do ingresso da ENH nos projectos de produção de GNL nas Áreas 1 e 4, assinalando que esse valor poderá mostrar- -se insuportável em ser angariado junto da banca. “Dependerá de quanto e da rapidez com que os projectos de gás começarem a gerar dividendos”, lê-se na matéria. A ENH, diz o texto, lançou recentemente um concurso para a contratação de assessoria legal e financeira, visando ajudar a refinanciar a sua participação nos projectos de gás, tendo em conta um quadro mais favorável. Mas essa missão,  não será fácil e as opções são limitadas. A Anadarko, cujo consórcio opera a Área 1, terá de mobilizar 15 mil milhões de dólares para o seu projecto. A maioria do financiamento virá de agências de crédito às exportações, mas parte significativa será suportada por bancos comerciais. “Ninguém estará disposto a emprestar dinheiro, enquanto Mo- çambique estiver em incumprimento. Todos estão atentos ao que o Fundo Monetário Internacional irá fazer, quanto é que irá emprestar ao país, isso vai abrir as portas”, considera um banqueiro. Um novo programa do FMI não é pré-condição para o financiamento dos projectos de gás, mas esta entidade tem estado em contactos com as empresas, acrescenta. Nos recentes encontros com o Governo de Moçambique em Washington, o FMI deu contribuições positivas em vários aspectos, que são necessários para a prossecução dos projectos. A Zitamar observa que as companhias de gás estão protegidas de qualquer deriva nas acções do Governo e dos enormes desafios que as operações enfrentam em Moçambique. Elas operam como os chamados “enclaves”, com os seus próprios projectos de lei, elaborados para garantir a exequibilidade dos projectos financeiros. A estrutura financeira dos projectos foi delineada para blindá-los de riscos “on shore”, com contas domiciliadas “off shore” e os “special vehicles purpose” (SVP), visando proteger os fluxos de caixa, como tem sido padrão neste tipo de projectos em países emergentes. “O financiamento dos projectos estará inteiramente dependente dos contratos de exportação de GNL e dos credores e é quase acidental que o gás natural esteja em Moçambique”, considera Stewart Smith, da firma de advogados Bracewell, de Londres. Nessa perspectiva, os progressos nos projectos de gás vão depender da procura na Ásia do que dos desenvolvimentos em Moçambique, de acordo com Mark Bohlund, economista para África da Bloomberg Intelligence. Até ao momento, a Anadarko conseguiu contratos de venda não vinculativos para oito milhões de toneladas por ano, mas vai precisar de conseguir 10 milhões de toneladas anuais em contratos efectivos, para alcançar o fecho financeiro nas negociações dos projectos. Uma vez que peritos da indústria de gás não projectam um aumento da procura antes de meados de 2020, espera-se que a decisão final de investimento (FID) demore mais um ano, pelo menos. O projecto da plataforma flutuante de LNG da ENI será o primeiro a ser implementado, mas o consórcio não conseguiu anunciar em Março a FID orçada em 9000 milhões de dólares. Não foram indicadas as razões para o adiamento, mas fontes ligadas a bancos apontam a complexidade do projecto como motivo do incumprimento, observando que o projecto é o maior no mundo envolvendo pela primeira vez uma plataforma flutuante. A ENI assegurou, entretanto, a aprovação da companhia chinesa CNPC, que detém 20% no consórcio, mas que esteve condicionada a uma pesada burocracia por parte do Governo da China, para realizar o seu capital no empreendimento.
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Num outro desenvolvimento, o Governo moçambicano aprovou, na terça-feira, a estrutura de financiamento do projecto de construção de uma plataforma flutuante para a produção de gás natural pelo consórcio liderado pela ENI, na Área 4 da Bacia do Rovuma, norte do país. Em conferência de imprensa no fi- nal da sessão semanal do Conselho de Ministros, o porta-voz do órgão, Mouzinho Saíde, declarou que o projecto da plataforma flutuante está orçado em 4,6 mil milhões de dólares. Na mesma sessão, o Conselho de Ministros aprovou ainda o Acordo Directo de Financiamento do Projecto FLNG Coral sul, que será desenvolvido pelo consórcio dirigido pela ENI. Mouzinho Saíde afirmou que a aprovação vai permitir ao consórcio o início das operações na Área 4 da bacia do Rovuma. Com a decisão tomada nesta terça- -feira pelo Conselho de Ministros, espera-se que o consórcio tome a decisão final de investimento (FID) nas próximas semanas. Apesar de estar presente no consórcio da ENI, através da ENH, o Governo moçambicano não vai realizar a sua parte do capital no investimento, devido à incapacidade financeira para o efeito, estando ainda por negociar as formas de compensação desse esforço financeiro, que poderá incluir a renúncia aos dividendos durante algum período. Segundo a Zitamar, a ENI ainda não tem finalizado o financiamento para a construção da plataforma flutuante nos estaleiros da Samsung, na Coreia do Sul.


segunda-feira, maio 08, 2017

Planificação,números,metas não é com eles

O Presidente da República, Filipe Nyusi, manifestou a sua insatisfação com a falta de domínio de matérias relativas a planificação por parte dos administradores distritais da província de Cabo Delgado, na região norte de Moçambique.Por isso, Nyusi recomenda a elaboração de cursos de capacitação para os administradores, que deverão incluir matérias tais como avaliação e monitoria, para que possam melhorar o seu desempenho.O Chefe de Estado constatou o facto durante a visita de trabalho àquela província durante a qual escalou sucessivamente os distritos de Nangade, Ancuabe, Macomia, Montepuez e que teve como ponto de entrada a vila municipal da Mocímboa da Praia.
“Não fiquei satisfeito com o domínio dos administradores na planificação. A concepção dos planos, a implementação dos planos, a monitoria”, disse
Resultado de imagem para nyuse cabo delgadoEstabeleceu um paralelismo entre a falta de domínio e clareza daquilo que se pretende produzir, com um atleta que corre sem meta.Nyusi, que falava em conferência de imprensa havida hoje, no posto administrativo de Namanhumbir, distrito de Montepuez, e que marcou o término da visita a Cabo Delgado, sublinhou que quando não existe sensibilidade sobre números e indicadores não é possível saber se estão a correr rápido ou devagar, ou saber se vão a tempo de cortar a meta.
“A felicidade, minha, é o facto de ter estado cá, tendo constatado que precisamos de dar este tipo de apoio. Esta é a razão da nossa vinda aqui para não estarmos no gabinete. Temos de dar o apoio necessário aos que precisam para poderem trabalhar”, afirmou o Presidente da República.
Reiterou que o governo vai organizar cursos de capacitação dos administradores para dotá-los de ferramentas necessárias para que possam melhorar o seu desempenho. De uma forma geral, Nyusi avalia positivamente o desempenho da província nas diferentes componentes.
“A avaliação geral que fazemos é que as coisas estão a acontecer em Cabo Delgado’ sublinhou o Chefe de Estado, apontando, como exemplo, as áreas de infra-estruturas, emprego, agricultura, pecuária e pesca, como as que vem registando avanços, embora esta ultima área não tenha muita tradição nesta província como acontece com as regiões sul e centro do país.
“Por isso mesmo, encorajamos a população e saudamos a província para que isso possa continuar”, anotou.Em Cabo Delgado, Nyusi manteve encontros com as autoridades e populações locais, onde se inteirou do nível de execução do Plano Economico e Social (PES), e inaugurou algumas infra-estruturas sociais e económicas.


L A M & Low-Cost

O artigo em questão  tenta mapear a fracção de custos cobertos pelo número de passageiros a bordo do avião. Assim, se um voo com 100 passageiros pagando a mesma tarifa, 29 pessoas (e portanto, 29% da receita) é usada para pagar o combustível queimado em vôo. Veja a figura ao lado.
A imagem mostra que 29% da receita com passagens é usada para pagar combustível. Salários consomem 20%, custos ligados à propriedade ficam com 16%, enquanto impostos e taxas governamentais (nos EUA) ficam com 14%. Fazer a manutenção da aeronave custa 11 assentos, e outros custos ficam com 9%. O lucro da companhia aérea é de apenas 1 assento, ou 1% da receita com as passagens vendidas! Nos EUA, isso representa em média 164 dólares. Apenas 164 dólares de lucro por vôo.
Portanto hoje o combustível é o maior componente na estrutura de custos de uma companhia aérea, o que tem estimulado o fabrico de aeronaves mais eficientes.Face a situação actual das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) uma saída proposta pelo capitão André Goís é uma gestão de transporte de passageiros e cargas, operando no Low-Cost. LEIA AQUI.....

quarta-feira, maio 03, 2017

Morosidade processual é uma "chatice"

Resultado de imagem para Flávio MeneteEnquanto candidato a bastonário da Ordem dos Advogados, sonhava com uma ordem dinâmica, inclusiva e descentralizada. Como encontrou a Ordem e que mudanças implementou?
Quando temos os processos essencialmente concentrados na Cidade de Maputo, não damos oportunidade de os advogados que se encontram nas províncias terem uma participação activa na vida da Ordem. Esta era uma grande preocupação e o que nós fizemos foi, entre outras coisas, assegurar que tínhamos dois conselheiros membros do Conselho Nacional residentes nas províncias, um em Sofala e outro em Nampula. E temos dois conselheiros do Conselho Jurisdicional em Sofala. Por outro lado, no âmbito da descentralização, assegurámos a implementação efectiva dos conselhos províncias de Sofala e Nampula. Nesta fase, estamos a indicar focal points do Instituto de Acesso à Justiça, que permitem a realização efectiva, a continuidade das actividades do instituto em algumas províncias. Ainda não conseguimos cobrir todas as províncias, mas a ideia é paulatinamente irmos realizando esta actividade. Quanto à inclusão, a descentralização já inclui este pacote. Quanto ao dinamismo da Ordem, o trabalho que estamos a fazer é de um melhor alinhamento dos processos administrativos, por um lado, de modo a assegurar que a máquina da Ordem funcione, independentemente do bastonário que lá estiver. Estamos a pensar em criar mais conselhos provinciais, eventualmente em Maputo e Tete.

Falou da promoção do acesso à justiça, para assistir cidadãos mais carenciados. Como é que avalia o trabalho dos advogados, no âmbito deste instituto, e até que ponto os seniores também estão ao serviço dos mais carenciados?
Resultado de imagem para advogados estrangeirosO Instituto de Acesso à Justiça funciona sob direcção de advogados. Tem uma coordenadora, mas depois tem coordenadores permanentes que são advogados dedicados ao funcionamento desta entidade. Temos advogados estagiários que estão afectos e prestam trabalhos de assistência a carenciados. E temos, todos os dias, gente que aflui à nossa entidade à procura de assistência jurídica. A intervenção dos advogados é essencialmente de supervisionar e dar apoio necessário aos estagiários que estão lá. O instituto também tem organizado as chamadas caravanas jurídicas, desloca-se a um determinado espaço territorial e afluem os cidadãos que têm necessidade de assistência jurídica. Com a nomeação dos focal points nas províncias, estes ficam responsáveis por assegurar que os cidadãos tenham acompanhamento até ao desfecho.

E até que ponto o IAJ vem sombrear as actuações do IPAJ, uma vez que a Ordem sempre fez uma crítica à actuação do IPAJ, no sentido de independência, porque se subordina a órgãos do Estado. Até que ponto a criação deste instituto é para complementar ou substituir a presença do Estado no apoio aos carenciados?
Ainda não discutimos a ponto de falar de substituição. Nós somos menos de 1 500 advogados e devemos ser cerca de 1 200 advogados que exercemos efectivamente a profissão, sendo que, desse número, há uns tantos que são funcionários públicos, portanto, não exercem a profissão a tempo inteiro. Assim sendo, a nossa capacidade de responder à demanda está muito aquém. Então, estamos longe de falar em substituição do IPAJ.

Não seria uma visão de longo prazo?
A visão de longo prazo tem que ser discutida com os diversos actores do sistema de administração da justiça, porque não se pode pensar num pilar da justiça sozinho. É preciso ver uma série de implicações e ter a capacidade de projectar tudo isso. Além de que o próprio Estado tem de ter a certeza de que qualquer passo que seja tomado no sentido de uma eventual substituição garante uma efectiva defesa dos interesses dos carenciados. Então, não é uma decisão que possa ser tomada de forma precipitada, nós ainda nem equacionamos isso. Temos as nossas críticas ao IPAJ e fazemos em fóruns apropriados, mas não queremos extinguir. Como podemos substituir o trabalho do IPAJ nos distritos, se nós nem estamos lá? A Ordem não está nos distritos, porque os advogados estão essencialmente concentrados nas capitais provinciais. Então, seria extremamente precipitado e, se calhar, irresponsável nesta altura pensar em erradicar o IPAJ.

A morosidade processual é um dos maiores desafios da nossa justiça. Como torná-la mais célere?
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A morosidade processual é um dos maiores cancros que temos e esta não é uma crítica feita apenas pela Ordem dos Advogados. É uma realidade que é conhecida pelo poder judicial, pelo Ministério Público, por nós outros que representamos a defesa e mesmo pelo cidadão comum. Esta morosidade tem a ver com uma série de assuntos. Primeiro, nós não temos plena cobertura territorial, com tribunais, procuradoria… ainda temos distritos que não têm um tribunal ou procuradoria a funcionar. Será que temos meios humanos suficientes? Não, não temos. Essa é uma das razões que nos levam a não ter todas estas instituições instaladas em todos os distritos. Mas há vezes em que temos recursos humanos e não temos condições para ter lá estas instituições a funcionar. Portanto, há ainda estes constrangimentos que têm estado a contribuir para a morosidade. Mas também temos o facto de nem sempre as decisões serem tomadas em tempo útil, e não é por falta de pessoal. Precisamos, de facto, de melhorar o desempenho em todos os pilares da justiça. Estamos a ver a avaliação dos magistrados, e da avaliação que lhes é feita, depende a progressão da carreira. E há alguns que, por causa de uma avaliação negativa, ou foram despromovidos ou tiveram outro tipo de penalização ou foram convidados a sair. Portanto, este processo tem estado a ajudar-nos a crescer, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Há quem diga que a criação dos tribunais superiores de recurso veio ajudar a descongestionar o Tribunal Supremo. Até que ponto houve ganho em termos de celeridade da justiça?
Houve ganhos. Isso eu garanto, porque, antes da criação dos tribunais superiores se recurso, nós éramos capazes de ficar sete, oito ou mais anos à espera de uma decisão do Supremo. Hoje, já conseguimos ter diversas decisões dos tribunais superiores de recurso a saírem em muito menos tempo, vamos dizer, dois anos. Já houve decisões que saíram em menos tempo, mas a diferença é muito grande. O que veio a acontecer é que, como, em simultâneo, os tribunais de nível provincial também passaram a ser tribunais de recurso dos tribunais distritais, eles ficaram entupidos. Significa que os juízes e procuradores que estão afectos a nível provincial estão sobrecarregados com o processo normal das acções em primeira instância, entretanto, recebem umas tantas em recurso. O esforço que está a ser feito, e tem quer ser acelerado, é assegurar que nestes tribunais provinciais há juízes, procuradores que estão exclusivamente afectos aos recursos.

Defende que os tribunais comunitários são inoperantes. Como fundamenta esta tese e como torná-los mais prestativos?
Não sei se em algum momento disse que os tribunais comunitários eram inoperantes. Mas, se calhar, a diferença entre o dizer e o que acontece não deve ser muito grande. Os tribunais comunitários são inúmeros, ao longo do país. Existe uma lei que define as regras de funcionamento, mas não há um acompanhamento claro do que acontece nos tribunais comunitários. Era necessária uma uniformização efectiva… mas quero acreditar que ninguém está em condições de dizer muito sobre os tribunais comunitários. Impõe-se um estudo para ir ao terreno e verificar o que está a acontecer. Há espaços, inclusivamente, em que encontramos tribunais comunitários na linha dos órgãos locais regidos por um partido e outros regidos por outro partido.

Disse alguma vez que o acesso à justiça não se confunde com acesso aos tribunais. E disse no mesmo documento que a Ordem e o Tribunal Supremo estabeleceram uma parceria para encontrar novas formas de resolução de conflitos. De que parceria se trata, como é que actuam e que resultados já foram alcançados?
Resultado de imagem para Flávio MeneteDe facto, nós temos esta justiça formal, os tribunais. Falamos há pouco da morosidade processual. Quando se vai ao tribunal, salvo essencialmente em aspectos de natureza criminal, a primeira coisa que o juiz faz é ver se consegue encontrar uma solução amigável entre as partes em conflito. O que a Ordem e o Tribunal Supremo fizeram foi buscar a possibilidade de se instalar, junto dos tribunais, uma forma de resolução de conflitos antes do tribunal. Nos mecanismos alternativos de resolução de conflitos, que têm menos formalidades, o juiz não está lá. Um advogado ou alguma pessoa que tenha formação para as ajudar a se encontrarem na solução do conflito leva as pessoas a chegarem a uma determinada conclusão, que é depois remetida ao juiz para efeitos de homologação. Uma vez homologada, tem o valor de sentença, isso está previsto na Constituição. Nós estamos na parte final deste processo e acredito que, em menos de dois meses, começará a funcionar a título experimental, no Tribunal Judicial da Cidade de Maputo. E só não iniciou porque houve algumas alterações no formato da organização do parceiro que financiou este projecto.

Atendendo à excessiva onerosidade da justiça, existe algum acordo com o Governo para o patrocínio jurídico de pessoas carenciadas?
Este aspecto das custas judiciais é complicado e constitui, de facto, um obstáculo à justiça. Nós temos estado a discutir isso com o Estado, com o Governo, através do Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos e creio que existe sensibilidade do lado do Governo para a necessidade de se repensar o código das custas judiciais. E iremos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso aconteça neste mandato do Governo, porque é um assunto urgente. Em virtude das custas judiciais, as pessoas acabam por ter dificuldades de acesso à justiça. As custas judiciais devem ser repensadas. O Estado é responsável por assegurar que haja justiça, e em tempo útil.

Acha que há corrupção no sistema judiciário?
Corrupção há em todos os sítios. Existem algumas coisas para as quais não encontramos explicação. Se determinado assunto está esgotado e dentro do prazo de 15 dias tem que ser tomada uma decisão, esta decisão não é tomada e o assunto fica a ‘marinar’ por um, dois anos… então, temos que começar a desconfiar que há aí qualquer coisa.

O que a Ordem tem feito para evitar comportamentos que manchem a classe judiciária?
Temos estado a fazer referência a isto nas nossas intervenções. Temos estado a fazer pressão aos juízes que têm assuntos parados. Mas é preciso reconhecer que nem sempre tem estado a ser feito tudo para assegurar que as coisas corram como deve ser, e não excluo a possibilidade de existirem advogados promotores dessa corrupção. Não estou a dizer que corrupção no sistema judiciário é dos juízes, não. Hão-de ser os juízes, advogados, procuradores, oficiais de justiça. Por exemplo, se formos à secção de instrução criminal do tribunal… e tenho um despacho do juiz a conceder a liberdade provisória a um arguido mediante pagamento de caução X, eu sou capaz de ir lá até cinco vezes, o pessoal do cartório não me notifica deste despacho do juiz. É uma pouca-vergonha. Por que o pessoal do cartório retém este despacho, se há extrema urgência, em virtude de estar em causa um direito fundamental, que é o da liberdade? Eu só posso assumir essa retenção do despacho como mecanismo para forçar alguém a meter um ‘envelope’.

Falou da liberdade como um direito fundamental. A liberdade que é a regra e a privação dela a excepção. Como é que vê a actuação dos órgãos de Polícia, ao optarem por prender para investigar?
Isto é muito complicado. É uma das coisas que quebram o coração de qualquer pessoa que entende o Direito e quer agir como profissional.
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E não está a ser ferido, também, o princípio de presunção de inocência?
Naturalmente que sim. Mas o que nós temos legislado e o que nós temos de jurisprudência, no caso vertente do Conselho Constitucional, é clareza de que há pressupostos para a prisão preventiva fora do flagrante delito e nós continuamos a ter a Polícia a prender fora do flagrante delito e a levar à legalização. O juiz, no seu despacho, diz que embora não tenha sido detido em flagrante delito e não tenham sido observadas as formalidades, legaliza. Mas a pessoa esteve detida ilegalmente. O que nós queremos é que, em resultado desta prisão ilegal, este agente que ordenou a prisão responda em processo-crime por prisão ilegal.

Isso já se tem verificado?
Isto ainda não aconteceu, mas é isto que tem que acontecer. Porque, quando começar a acontecer, teremos a Polícia a preocupar-se em instruir o processo como deve ser, o Ministério Público vai promover, o juiz vai ordenar e eles vão executar.

Uma das atribuições da Ordem é defender o Estado de Direito democrático, os direitos e as liberdades fundamentais. No contexto da exploração dos recursos naturais, como o carvão de Tete, o gás de Palma, como é que a Ordem se posiciona para garantir que as comunidades não fiquem negativamente afectadas no processo de reassentamento?
O básico de que o homem precisa para viver é aquilo que tem a ver com a essência da pessoa humana. Temos boas leis. A lei estabelece que não pode ser retirada a terra sem se observar determinados processos. Se tiver que se transferir uma comunidade de um sítio para outro, têm que ser criadas condições apropriadas de habitação, de saneamento, de saúde, de acesso e, sobretudo, de continuidade de desenvolvimento de actividade de sustentabilidade das comunidades ou desenvolvimento de uma outra actividade. O Importante é que as pessoas tenham renda resultante de uma actividade. O que temos estado a assistir um pouco por todo o lado em que ocorrem estes processos é que as empresas fazem o mínimo que podem e, de algum modo, nós não encontramos o pulso do Estado forçando as empresas a fazer o que devem a bem das comunidades.

E como se faz sentir o pulso da Ordem para forçar o Estado assumir o seu papel?
Resultado de imagem para Flávio MeneteAntes do pulso da Ordem, vamos para o pulso do Estado. Por exemplo, a Lei de Minas estabelece que numa situação de um projecto tem que haver uma negociação entre o investidor, a comunidade e o Governo. E o Governo, no processo das negociações, tem que garantir as melhores condições possíveis para a comunidade. É aqui onde as coisas falham, porque em muitas situações, senão na maior parte delas, acabamos sendo levados por propostas dos investidores, enquanto o Estado devia dizer não, você tem que fazer isto, garantir mais aquilo, porque só assim é que vamos efectivamente autorizar os investimentos. Como Ordem, estamos a fazer esforço no sentido de corrigir esta situação e evitar que surjam situações idênticas. Contactamos os governos provinciais, as empresas, os ministérios envolvidos, no sentido de obter informação e esclarecimentos sobre aspectos que constatamos na visita ao terreno que nos são revelados pelas comunidades e que nós próprios constatamos. Isto é no âmbito extrajudicial. Também já colocámos questões em nome dessas mesmas comunidades ao provedor da Justiça, que, em seu tempo, também inquiriu os governos e outras instituições, instando-os a seguir determinada conduta.

Teve efeitos?
O provedor de Justiça diz que deve ser feito isto e aquilo, mas não é o tribunal. Esses papéis todos, incluindo alguns pareceres da procuradoria provincial sobre uma e outra situação, sobre a legalidade ou não de um determinado processo, têm sempre utilidade, porque em algum momento podemos usar em fase de contencioso administrativo.

No âmbito das actuações do provedor da Justiça, faz sentido a sua existência?
Faz. O que temos que mudar são as nossas mentalidades. Não é o provedor da Justiça que está a mais, nós é que devemos assumir que o provedor da Justiça, que tem um assento constitucional, é um órgão importante para garantir o Estado de Direito. Quem tem que mudar são as pessoas que estão no Governo, que estão nas empresas. Esses é que devem mudar de mentalidade, porque não é o provedor da Justiça que está a mais. Nós é temos mente com algum défice.

A procuradoria ilícita constituía um dos grandes desafios da Ordem. Que avanços se registou para conter o recrudescimento dessa prática?
O primeiro exercício que nós fizemos neste particular foi de constituir uma comissão que se dedica a esta actividade em concreto. Esta comissão já apresentou um plano de acção, já temos um número significativo de denúncias de situações de procuradoria ilícita. Optamos por começar não por atacar este e aquele caso isoladamente, mas por sistematizar. A procuradoria ilícita apresenta-se nas formas X, Y e Z. Apresentando-se desta forma, o nosso modo de actuação é este, para nós podermos medir o resultado. Ainda não posso falar de resultados palpáveis nesta altura, mas se perguntar isto daqui a um ano, seguramente vou dizer-lhe.

E como é que a Ordem garante a ética e deontologia profissional dos membros?
Através de duas vertentes. Primeiro, temos a preocupação de dar formação nas universidades, aos finalistas, essencialmente para aqueles que pensam, algum dia, ser advogados. Formação aos advogados estagiários tem uma componente de ética e deontologia profissional obrigatória. Não falta nos exames nacionais de acesso questionamento sobre aspectos relacionados com ética e deontologia profissional. Sempre que podemos, abordamos estas matérias, quando temos queixa de violação.

Há registos de sanções?
Há, sim.
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É atribuição da Ordem participar no estudo e divulgação das leis, promover o respeito da legalidade, assim como propor as alterações legislativas que se entendam convenientes. Neste capítulo, a avaliação que faz é satisfatória?
Nem tanto. Mas temos estado a fazer e é preciso destacar que a Ordem tem estado a receber, quer da Assembleia da República quer do Ministério da Justiça, essencialmente, pedidos de pareceres sobre leis e alterações legislativas. E temos estado a ser ouvidos em sede da Assembleia da República, temos estado envolvidos na discussão de aspectos antes mesmo da haver uma proposta legislativa, por saberem que somos um interlocutor válido e podemos trazer alguns subsídios.

Há apreciação de haver uma luta pelo poder e espaço entre a Ordem e outros órgãos de administração da justiça. Qual é o seu entendimento?
Acho que não há uma luta pelo poder. O que existe é um esforço para que estejamos todos alinhados. É um esforço para que haja respeito entre os três pilares da administração da justiça, porque temos estado a assistir como que a um desrespeito pelo advogado. Advogado tem papel, mas não tem poder. Então, o esforço que está a existir é no sentido de melhoramos a articulação. Cada um faz aquilo que a lei manda e a máquina da justiça funciona. Não há quem é superior que o outro. E nos órgãos de administração da justiça, normalmente, os que aparecem são os tribunais, procuradorias e advogados. Mas temos outros órgãos que têm importância no sistema.

Foi membro da subcomissão da reforma pontual do Código Penal. Qual é o seu entendimento sobre a relevância das penas alternativas à prisão? Não há gente a mais nas cadeias que pode, com recurso a esta pena, ser salva?
Há muita gente e estávamos à espera que, com estas medidas de penas alternativas apresentadas, conseguíssemos desanuviar os estabelecimentos penitenciários. Não está a acontecer. Eu sei que um dos grandes dilemas que surgiram é aprovámos o Código Penal, mas não aprovámos nem o código do processo, nem o código de execução de penas em simultâneo. Isto criou esta situação. Naturalmente que a inexistência da lei não pode justificar nada. Se o Código Penal estabelece que é possível adoptar uma alternativa, essa medida tem que ser adoptada. E tem que haver coragem do juiz de adoptar estas mesmas leis. Outro factor que leva ao congestionamento nos estabelecimentos penitenciários é o facto de existir gente com os prazos de prisão preventiva expirados.

Neste momento, como é que a ordem consegue garantir o controlo da actuação de advogados estrangeiros?
Resultado de imagem para Flávio MeneteNós temos advogados estrangeiros inscritos na Ordem dos Advogados de Moçambique e, relativamente a estes, não existem problemas. Estão aqui a exercer legalmente a profissão de advogado. Temos conhecimento de situações de senhores e senhoras com a profissão jurídica, eventualmente advogados nos seus países de origem, que vêm para aqui como se viessem para o turismo e estão aí nos hotéis usando ‘wireless’, preparando consultorias jurídicas, etc.. por isso é que começámos por emitir um comunicado dando conta de que a procuradoria ilícita era um crime que devemos combater e denunciar. O nosso plano a curto e médio prazo é de termos maior agressividade nos órgãos de comunicação social para debater esta questão, de modo a que as pessoas saibam o que é isso de procuradoria ilícita. Olha que, muitas vezes, não me refiro a situações em que intervêm advogados estrangeiros, porque eles não devem estar a prestar assistência a carenciado, que não sabe o que é isso de procuradoria ilícita. Nós temos procuradoria ilícita praticada por moçambicanos e aí nós temos que desenvolver um trabalho de divulgação, conscientização das pessoas sobre o que é procuradoria ilícita, os riscos, como devem agir quando detectam uma situação dessas. Temos, por exemplo, advogados estagiários na primeira fase que aparecem a patrocinar causas. É-lhes impedido por lei, porque isto é procuradoria ilícita. Temos juristas que nem sequer estão inscritos, nem se quer têm alguma relação com os órgãos de administração da justiça, isto é procuradoria ilícita.


 X Criminosos atacaram uma viatura da Polícia e libertaram dois detidos. Tendo em conta a sua passagem pela Polícia de Investigação Criminal (PIC), por onde começar a investigação de um crime desta natureza e que hipóteses se pode levantar à partida para iniciar a investigação?
Há muita coisa estranha neste acontecimento. Primeiro, no caso dos cidadãos condenados a cumprir uma pena, o interrogatório pela Polícia é feito lá no estabelecimento prisional. E parece que tem que ter autorização do juiz, porque aquele cidadão que está a cumprir pena está à guarda do tribunal. Então, tem que requerer a esse juiz para que este cidadão esteja disponível para poder ser ouvido. Será que foi feito? Tenho dúvidas, porque, afinal, não ia a tribunal nem sequer foi ouvido lá. Era para ser ouvido numa esquadra. A outra questão que coloco é: seria esta matéria da investigação da PRM ou do SERNIC? A terceira questão é que aquelas celas no Comando da Cidade são uma extensão da cadeia de máxima segurança da Machava, portanto, pertencem ao SERNAP e não à PRM. Deveriam estar protegidas pelo SERNAP. O que sabemos é que quem acompanha os reclusos aos tribunais é o SERNAP. Então, por que PRM? Se formos à viatura, vai reparar que a parte onde estavam o motorista e eventualmente alguém a proteger, portanto, na cabine, não há um único tiro. É estranho, porque, normalmente, se vou atacar uma viatura daquelas, tenho que atacar esses, porque constituem perigo para mim.

Quais seriam as primeiras hipóteses a levantar?
Não sei, é preciso ter antecedentes e quem os tiver poderá seguir os diversos cenários, porque até há tiros que foram dados na parte de trás, correndo o risco de matar as pessoas que iam ser resgatadas. Deixa-me algumas dúvidas sobre o que efectivamente aconteceu.

Resultado de imagem para pgr maputoE em relação à escolta?
É a primeira vez que oiço dizer que o carro da escolta parou porque o semáforo ficou vermelho. Vemos carros de escolta a andarem em contramão todos os dias com sirenes. Essa desculpa não convence.

X Falou da Assembleia da República. Em Outubro de 2013, a Assembleia da República aprovou na generalidade a Lei das Sociedades de Advogados. Passados quatro anos, sente que esta lei está a corresponder aos objectivos da sua criação?
Está. Mas, naturalmente, era necessário definir em que moldes é que os advogados se organizam em sociedade. Nas sociedades comuns, é muito simples, porque as pessoas funcionam em função da cota, da parte do capital social e, no fim do exercício, se houver lucros a dividir, é em função da percentagem. Nas sociedades de profissionais, depende muito do desempenho de cada um. Até pode ter um capital diferente ou podem ter todos capital igual, mas há regras próprias entre os advogados, porque as pessoas têm que correr para ter maiores benefícios. Do ponto de vista fiscal, as sociedades dos advogados têm a possibilidade de ser enquadradas no regime de transparência. Isto significa que nós estamos organizados em sociedade só para termos robustez. Mas o que estamos ali a fazer é lutar pelo rendimento individual de cada um dos advogados e tudo aquilo que vamos levantando mensalmente é um adiantamento, mas não pode ser, do ponto de vista fiscal, penalizado. Daí que, neste regime, seja aplicável apenas o RPS sobre os montantes que são pagos aos advogados e não RPS das sociedades, porque o que está em jogo é que as pessoas se juntaram, mas o objectivo é o rendimento do trabalho que cada um está ali a fazer.