segunda-feira, maio 22, 2017

10 exames em busca de uma artrite

A sociedade moderna assemelha-se ao comboio que descarrilou, todavia continua em andamento.                                                                                                  José Vilema, investigador da Universidade de Évora
“Tenho saudades dos tempos em que a educação ainda não sofria de anemia científica”, eis a resposta do meu amigo Nkulu quando o abordei sobre o tema em epígrafe. De facto, a nossa educação está a atravessar o pior momento da sua história com a escassez de qualidade. E já não constituiu novidade para ninguém (cautos) que o pelouro da Educação tem responsabilidades nisso. Trabalha-se mais pela estatística em detrimento da qualidade do ensino.
Resultado de imagem para  medicos fracosQuando os alicerces não são bem implantados, através de um investimento maciço no ensino primário, no superior os estudantes pervertem o processo de ensino e aprendizagem e anula todo os resultados desejados de qualidade. Há necessidade de se fazer um investimento sério, não apenas no capital humano, mas também em infraestruras e equipamentos. A técnica exige laboratórios modernos e em qualquer parte do mundo são caros de se adquirir. Mas vale a pena, se quisermos formar com qualidade. Eu ia jurar que, se parássemos de politizar o ensino e apostássemos mais em reformas estruturais que garantem uma educação com qualidade, hoje estaríamos numa posição respeitada nos rankings mundiais. Se assim fosse, insisto, o país não dependeria do carvão e do gás (que são recursos esgotáveis) para se desenvolver.
A qualidade do ensino fala todas as línguas e esta seria o carimbo para que os nossos diplomados facilmente fossem escoados no mercado de emprego. Só o pelouro da educação é que não vem esta aberração (ou não quer ver). Os nossos alunos não produzem o que aprendem (a transformação do conhecimento em matéria-prima). Não são capazes de pensar e criticar pela própria cabeça. São repetidores. Estamos a formar “papagaios.” Não se admire, caro leitor, que hoje na política haja tantos desses tipos, malandros e medíocres!
Não me causou admiração o facto de quase metade dos graduados em medicina tenham reprovado no exame de certificação médica, simplesmente porque reimprimiram a imagem que o país tem nestes sectores (digo bem: educação e saúde). A mim o que me preocupa não são os anos que um licenciado em medicina leva na faculdade, mas sim como é que foi o seu processo de formação (o processo de ensino e aprendizagem). Questões têm de ser feitas para responder algumas hipóteses, como por exemplo, a qualidade das infraestruturas, o acesso aos laboratórios e aos materiais didácticos, a seriação do corpo docente para expurgar os chamados professores turbos, etc. Mas ainda, o mais importante, é apurar o espírito (a vocação) dos estudante que é a base para se ter um bom médico.
Os estudantes devem estudar a medicina porque gostam e devem fazê-lo de corpo e alma, não para satisfazer os caprichos de quem patrocina os estudos. Porque a medicina hoje virou uma actividade comercial e não humanitária no verdadeiro sentido da palavra, muitos desses estudantes apenas fazem a medicina para agradar os seus financiadores sem no entanto construir o compromisso com a profissão que pretendem abraçam.
Note-se que, não foi a Ordem dos Médicos quem os reprovou. Esta, a Ordem, apenas chancelou os resultados obtidos pelos visados no teste de certificação. Se a Ordem os tivesse admitido e os mesmos – no exercício da profissão - matassem vidas nas unidades sanitárias do país, de quem seria a culpa? Não preciso fazer um exame profundo de consciência para saber que a responsabilidades, pelo menos em peso de 80%, seria atribuída à Ordem. E os prejuízos também. Cabe a Ordem, como uma espécie de funil, amputar, literalmente, a mediocridade que reinava e acredito que ainda reina na medicina. Esta atitude da Ordem não deve criar espalhafato, antes acarinhado pelos reitores de todas as universidades e pela população em geral. Fiquei indignado quando vi um reitor atacar a Ordem. Até certo ponto compreendi que aquele reitor agia em defesa do seu rebanho, mas do ponto de vista académico, esteve mal na fotografia, porque parecia vestir a pele de um paternalista da mediocridade. A constatação deste fato não deve, porém, reduzir os esforços e conquistas do aludido reitor em prol do desenvolvimento da educação. Mas…
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Quem anda pelos nossos hospitais sabe que alguns médicos deixam muito a desejar. Certo dia o meu filho mais novo passou mal e ouvido a opinião de um amigo médico dirigi-me a uma unidade sanitária do país para a certificação do diagnóstico e efectivo tratamento. Chegado ao hospital a primeira coisa que percebi daquela médica foi a insegurança com quem me transmitira ao atender o meu filho. Coitado do miúdo, mal perceberá que seria mais uma vítima da incompetência médica. Uma “simples” artrite, mas por causa das deficiências de formação médica, recomendara que se fizesse mais de 10 exames. A ideia era, no meu entender, o exame que desse errado (alguma anomalia) seria, então, essa a causa do mal-estar da criança. Ou seja, entrou com suspeitas de uma doença de trato ligeiro e saiu com várias lesões corporais graves causadas, neste caso, pelas impiedosas seringas que daquela mão médica picara à procura de veias. Soube mais tarde que aquela médica havia sido uma das mais fracas durante a sua formação. Levei o caso à direcção daquele hospital, nunca mais tive resposta alguma...Alegra-me, porém, que a Ordem dos Médicos tenha-se apercebido destas deficiências e decida primar pela qualidade e competência. Seja louvada a Ordem dos Médicos. (Por Viriato C. Dias)

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