terça-feira, janeiro 27, 2009

Os eléctricos de Moçambique (clik aquí)

Em 1904, Lourenço Marques passou a contar com um novo e moderno serviço de transporte urbano : os elétricos. Como mais um espaço social, também aqui se reproduziram as relações sociais e raciais excludentes : logo após o início do serviço, a Câmara, elaborou um Regulamento de Exploração dos s Eléctricos, que estatuía, em seu artigo 5o que " os indígenas e asiáticos " só poderiam " transitar nas imperiais e em lugar especial determinado pela Companhia "41, ou seja, não poderiam entrar no recinto do carro propriamente dito e não poderiam sentar-se em suas poltronas, tendo que viajar de pé na pequena área a eles destinados ou pendurados nos estribos. A comunidade nativa parece não ter reagido de imediato, mas a Associação Comercial e setores da imprensa reagiram e a Câmara acabou por sugerir ao Conselho Administrativo de Lourenço Marques que o artigo passasse a ter a seguinte redação42 : " Os indígenas e asiáticos ou quaisquer outras pessoas não podem transitar dentro dos carros eléctricos sem que se apresentem decentemente vestidos à européia "43, deixando ao arbítrio dos funcionários da Companhia decidir quem estava decentemente trajado à européia. Ou seja, se queriam poder usufruir deste novo meio de transporte, os asiáticos e africanos teriam que se submeterem aos ditames da lei e abdicar de seus valores estéticos e culturais adotando os padrões europeus. Com o passar dos anos os asiáticos conquistaram o direito de viajarem dentro dos tramways mas os passageiros negros continuaram a ser discriminados, não podendo viajar senão na plataforma externa traseira. O Africano, em 1911, contestava o fato de que as " mulheres decentemente vestidas com "capulanas", asseadíssimas " eram obrigadas a viajar de pé, na traseira dos carros, e que, apesar disto, elas, assim como os demais indígenas eram obrigados a pagar a mesma importância pelas passagens44. Anos depois, em 1928, Zacarias Bakar, um passageiro negro, cujo sobrenome denota sua filiação com o islã, escrevia com certa ironia : " Estimaria imenso que V. Exa. mandasse por um aviso para os pretos saberem onde se devem sentar. Tenho visto nos carros, brancos sujos sentados dentro, ao passo que alguns africanos decentes e bem vestidos e civilizados como eu, são obrigados a sentar Deus sabe onde "45. A exclusão racial também atingia os funcionários : dos trinta e dois condutores e guarda-freios empregados pela Companhia, em 1912, somente quatro eram pardos, nenhum asiático ou negro46. (COLONIALISMO E RACISMO EM LOURENÇO MARQUES de autoria de VALDEMIR ZAMPARONI).

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