O livro de
Michaela Wrong, uma jornalista internacional com larga experiência de trabalho
em África, onde cobriu vários eventos e crises políticas para a BBC, a Reuters
e a Financial Times, conta a odisseia de um alto funcionário do governo
queniano que, confrontado entre a lealdade tribal/ partidária e a sua
consciência ética, opta por esta última, pisando graves riscos pessoais e para
a sua família, incluindo o risco da própria vida! Através de uma pesquisa
rigorosa, Michaela Wrong demonstra como se urdem os esquemas de corrupção de
alto nível dentro do governo, em conluio com o mundo dos negócios, questionando
também o papel, quantas vezes cínico, dos doadores ocidentais, na luta contra a
corrupção em África. O texto que se segue é uma tentativa de resumo de um denso
livro de 354 páginas, publicado em 2009, mas cada dia mais actual!
Onde vem escrito “Quénia”, leia-se “Moçambique”;
onde vem escrito “tribos/tribalismo” leia-se “partidos/ partidarismo”. Com a
ascensão de Arap Moi ao poder, emergiu a era dos Kallenjin, que passariam a
dirigir a máquina do Estado e a ascender, também, a grandes negócios da mais
forte economia da África Oriental. Porém, a chegada ao poder de Kibaki (da
tribo Kikuio) parecia prenunciar o fim deste ciclo: quando rompeu com Moi, o
“elitista jogador de golfe” - como alguma imprensa o qualificava - logrou criar
e liderar uma forte aliança com outras forças da oposição, através da NARC
(National Rainbow Coalition), para derrubar o governo do seu antigo líder. A
NARC incluía partidos conotados com diferentes tribos, nomeadamente com a mais
directa tribo rival, a dos Luo, agrupada em torno do Orange Democratic Party,
liderado por Raila Odinga. Como se não bastasse, os parceiros ocidentais do
Quénia haviam já bloqueado toda a ajuda a Arap Moi, após sucessivos escândalos
de corrupção massiva de alto nível! Este quadro parecia proporcionar a Kibaki
excelentes condições sócio-políticas e psicológicas para introduzir reformas
políticas estruturais no Quénia. Sendo um homem do “sistema”, Kibaki seria,
pois, a figura certa para liderar uma revolução pacífica na sociedade queniana,
libertando-a das políticas tribalistas que engendravam, desde há 50 anos, uma
distribuição incestuosa e potencialmente explosiva da renda nacional. Afinal,
não tinham sido forças políticas fora do “sistema” a liderar os processos de
reformas políticas profundas que transformaram a África do Sul e a União
Soviética (sobretudo neste último caso), nos finais dos anos 1980, mas sim
dirigentes máximos do próprio “sistema”, como foram os casos de Frederich de
Klerk e Michael Gorbatchov! Por isso, dizem as crónicas da época, a ascensão ao
poder de Kibaki era celebrada, mais pelo fim do regime cleptocrata de Moi, do
que pela chegada ao poder do novo Presidente! Ou seja: as razões da expectativa
ultrapassavam a figura do novo Presidente! No acto da sua investidura, e
discursando mesmo ao lado do seu antecessor, Kibaki vai afirmar: “A era do
“vale tudo” (any thing goes) acabou!” E sentencia: “A corrupção vai agora
deixar de ser o modo de vida no Quénia!” Na linha desta retórica, nos primeiros
meses do consulado de Kibaki, os jornais vão sair todos os dias com estórias
pitorescas, assinalando a “nova era”: condutores de matatus (“chapa cem”), vão
procurar agentes corruptos da Polícia nas esquadras, exigindo que lhes devolvam
dinheiro que lhes vinham extorquindo na estrada, ao longo de anos, naquilo que
é comummente designado por kitu kidoko (pequena corrupção). Por seu lado,
funcioná- rios públicos vão escrever em jornais, revelando nomes de seus
superiores hierárquicos, a quem pagavam mensalmente kitu kidoko, como “taxas de
segurança”, para manterem os seus empregos seguros; nas salas de espera e em
gabinetes de Gestores Públicos são pendurados grandes quadros, proclamando, em
letras garrafais: “zona livre de corrupção” ou “aqui não se aceitam subornos”;
etc. O próprio Presidente Kibaki vai criticar publicamente grandes empresas que
haviam comprado largos espaços nos jornais, para o felicitarem, dizendo que
estavam a desperdiçar dinheiro! (A mensagem verdadeira era: “escusem-se de me
“escovar”!). As largas fotografias de Arap Moi, algumas de corpo inteiro,
ubiquamente pregadas em tudo quanto fosse sítio, vão ser retiradas, mas o novo
Chefe de Estado proíbe que sejam substituídas pela sua própria imagem; as
sirenes da comitiva presidencial, cortejada por filas de motorizadas de alta
cilindragem, que paralisavam o já insuportável tráfego de Nairobi, desaparecem:
um novo Quénia parece anunciar-se! Um Czar anti-corrupção no Governo Para
provar que falava a sério, a respeito da luta contra a corrupção, Kibaki vai
criar, junto do seu Gabinete, um posto com um propósito claro: o de Secretário
Permanente para a Governação e Ética, uma entidade estatal dotada de poderes
extraordinários e plenipotenciários, que incluem acesso directo e privilegiado
ao Chefe de Estado, a qualquer hora. A escolha do titular de tão poderosa pasta
vai reconfirmar, aos olhos da opinião pública, designadamente da Sociedade
Civil e dos doadores, a determinação do Presidente:
Mês-após-mês, assim que penetra naquilo que se vai
relevar ser um tú- nel profundo e escuro, Githongo vai acabar por dar “de
caras” com um devastador esquema de delapidação de fundos públicos, através do
qual Ministros do seu Governo roubam ao Estado, impiedosamente, milhões de
dólares, mensalmente!
Na base de um esquema com terminais no exterior,
Ministros de áreas- -chave, nomeadamente das Finanças, da Justiça, do Interior,
dos Transportes e Comunicações, da Defesa e da Segurança e entidades
subordinadas, haviam criado uma empresa fantasma, denominada Anglo Leasing, com
um falso endereço de Londres. A esta empresa, eles iam “encomendando”,
sucessivamente, equipamento sofisticado, de tecnologia de ponta, supostamente destinado
à modernização das forças de defesa e segurança! A longa lista de equipamento
constante de falsos contratos inclui: uma rede digital multi-canais de
comunicação para os serviços penitenciários; novos helicópteros e um sistema
seguro de comunicações para a polícia; uma fragata de tecnologia de ponta para
a marinha de guerra; uma rede de dados e serviço de Internet via satélite para
os Correios; um sistema sofisticado de vigilância militar denominado “Project
Nexus”; um sistema de radar de aviso prévio para os serviços de meteorologia,
etc., etc. Para a “aquisição” destes equipamentos, o gangue lançava concursos
internacionais, para os quais concorriam, de facto, várias empresas que, apesar
da sua reputação internacional nas respectivas áreas de especialidade, sempre
perdiam a favor da …Anglo Leasing! Ao longo de anos, com esta empresa, eles e
seus antecessores, do Governo de Arap Moi, haviam simulado um total de 18
contratos milionários! A opção por “equipamento de segurança nacional” é óbvia:
à luz das leis de segurança do estado, sempre há- -de ser, em qualquer parte do
mundo, entendível que tais operações sejam efectuadas pelo governo em ambiente
sigiloso, sendo o acesso aos respectivos ficheiros extremamente restrito, mesmo
para a acção fiscalizadora do Parlamento… Velhas cobras debaixo de novas
alcatifas
Dos 18 contratos através dos quais o gangue urdiu
esta saga, 12 haviam sido assinados na era de Arap Moi; os restantes seis…já no
primeiro ano da era de Kibaki! Ou seja: quando Kibaki assume o poder, as velhas
cobras que ele tanto atacava, enquanto líder da oposição, enfiaram-se no seu
Gabinete e esconderam-se debaixo das novas alcatifas! A rede, tentacular, tem
conexões junto de sectores da comunidade queniana de origem asiática,
conhecedora dos meandros da corrupção internacional! Rapidamente, os Ministros
vão dar-se conta de que o Czar Anticorrupção está “cavando” fundo demais e
acabará, inevitavelmente, por descobrir o secreto esquema: encarando-o como
“irmão” do mesmo sangue Kikuio, chamam-no e lhe dizem: “na verdade, a Anglo
Leasing…somos nós”. A “justificação” apoia-se, exactamente, em argumentos
tribalistas: “o governo anterior privilegiou os Kalenjin, a tribo de Arap Moi;
agora somos nós, os Kikuios: é a nossa vez de comer…” O grupo - a que Githongo
vai mais tarde designar por “Mafia do Monte Quénia” - faz esta revelação na
convicção de que ele, sendo Kikuio, vai condescender e, assim, desistir de mais
investigações: não só se enganavam, como também corriam um alto risco: afinal
Githongo estava gravando, discretamente, esta confissão e iria gravar muitas
outras conversas sigilosas, com os ministros do seu governo, nos tempos que se
iam seguir!
Ao longo do período em que finge ignorar as
operações da Mafia do Monte Quénia, Githongo vai tendo acesso a mais evidências
sobre o esquema e, já na posse de provas suficientes, escreve uma carta ao
Governador do Banco Central, pedindo-lhe para parar imediatamente com quaisquer
novos pagamentos à Anglo Leasing, e solicitando detalhes sobre todo o di nheiro
transferido para a firma até à data. Compilados vários documentos e cruzadas
várias fontes, os auditores descobrem que o gangue acoitado no Governo tinha
saqueado, através daquele esquema, nada menos que… 751 milhões de dólares, ao
longo de anos! Ora, uma tal quantia, de tão elevada, já não causa qualquer
revolta no cidadão comum, pois ela já não cabe, nem faz qualquer sentido, na
sua cabeça! Pouco depois, John Githongo, tomando pequeno-almoço com Kibaki - o
que era habitual, tal era a sua proximidade com o Presidente - conclui ter
chegado o momento apropriado para dar o passo decisivo, e sugere ao Chefe de
Estado: “Vossa Excelência tem agora todas as evidências necessárias para agir;
confiar no nosso sistema de justiça… não vai adiantar nada: sugiro-lhe, pelo
contrário, uma acção política enérgica!” Githongo fica na maior expectativa,
pois está convicto de que, chegado a este ponto, o seu desempenho satisfaz,
certamente, as expectativas do Presidente! E o que diz o Presidente? Para o
total espanto de Githongo, o Presidente vai reagir como reagiria um rato
surpreendido com uma fatia de queijo na boca, e diz, simplesmente: Take it
easy…Isto é: “tenha calma”. O Presidente diz isto e levanta-se da mesa,
deixando Githongo estupefacto e confuso: afinal o que quer o Presidente?! Nos
dias que se seguem o Secretá- rio Permanente para a Governação e Ética vai
começar a notar que os seus colegas do Governo, Ministros, olham-no de forma
estranha, de soslaio, e lançam-lhe piadas despropositadas, conduta não muito
comum aos hábitos algo sisudos, pretensamente britânicos, da classe política
queniana. Dias depois, o Presidente, surpreendendo Githongo, convoca a
imprensa, dizendo que pretende fazer uma comunicação à Nação: John Githongo não
tem dúvidas: o Presidente vai, certamente, anunciar uma remodelação
governamental, demitindo os ministros corruptos e nomeando um novo governo. Não
poderia estar mais equivocado! A Mafia do Monte Qué- nia vai, pelo contrário,
sair reforçada do discurso televisivo do Presidente e ele… transferido para um
obscuro gabinete, junto do Ministério da Justiça! Exactamente o Ministério que,
com o das Finanças, liderava as operações da Anglo Leasing, que ele tinha
documentado e denunciado ao Presidente! No dia seguinte, quando Githongo
arrumava os papéis do seu gabinete, para se mudar, um assistente do Presidente
vai ter com ele diz-lhe o seguinte: na verdade, o Presidente não o tinha
demitido do seu cargo: foi o Ministro da Justiça que, sub-repticiamente, enfiou
um parágrafo no discurso do Presidente, com o nome de Githongo, anunciando
aquela transferência! E o assistente do Presidente enfatiza: “Aposto que o
Presidente nem se deu conta do que leu…até agora!”
Quando, incrédulo, John Githongo vai ter com o
Presidente, o que vai ocorrer é uma cena absolutamente surrealista: o
Presidente mostra- -se sinceramente espantado; nega a pés juntos que o tenha
demitido, e diz-lhe para continuar a trabalhar… …”normalmente”! O que será que
se estaria a passar? Teria o “velho” sido enganado, e de forma tão vil e primária,
por um dos seus ministros-chave, sem se dar conta de nada? Estará o Presidente
em pleno gozo das suas faculdades mentais? Ou serão ainda sequelas do ataque
cardí- aco que sofreu, na sequência do grave acidente de viação de que foi
vítima, durante a campanha eleitoral? Ou será o velho hábito dos líderes fracos
- quais generais cobardes! - de querem agradar a toda a gente, ficando
paralisados, na hora de tomar grandes decisões? Ou então a velha táctica de
pronunciar discursos de mudança, porém sistematicamente desmentidos pela
prática, para criar o discurso desculpabilizante, bem africano, segundo o qual
“o Mais Velho quer honestamente a mudança, mas está rodeado de crápulas que o
sabotam”? Todas estas perguntas cruzavam-se na cabeça de Githongo, porém sem
reposta. Mas um facto apresentava- -se-lhe evidente: depois de tudo, já não lhe
restava ambiente de trabalho sustentável!
(Tomás Vieira Mário/jornalista)
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