quinta-feira, junho 09, 2016

Desmantelemos a Renamo.Se não há meios……

Já que a figura que dirigia  o país na altura em que o país se endividou é histórica na Frelimo, participou na luta armada de libertação nacional, é um camarada das trincheiras, a sua possível penalização não pode criar ruptura no seio da Frelimo?
É previsível que provoque ruptura, porque Guebuza tem muitos apoiantes nos vários níveis da governação, que ele colocou lá e que beneficiavam da ligação com ele. Creio que é por isso que o governo actual insiste em assumir a responsabilidade pelos desmandos do governo de Guebuza, e recusa responsabilizá-lo. A minha opinião é: se a ruptura acontecer, que venha. Preparemo-nos para enfrentá-la. Somos a maioria, uma maioria consciente, engajada e não comprometida com interesses sórdidos. Um fenómeno que me deixa intrigado: como foi possível que um camarada, que deu provas de nacionalismo e patriotismo, a certa altura se deixe dominar pela ganância e desgrace o seu país e o seu povo? Estes apetites já existiam nele quando se engajou na luta, ou surgiram mais tarde? Não sei a resposta. Mas em certa medida nós próprios somos responsáveis, por não termos reagido quando começámos a detectar esses comportamentos. Por medo, estávamos sempre a elogiá-lo e a considerar certo tudo o que ele fazia. Até encorajávamos. Por exemplo, considerávamos normal e desejável que a nossa televisão transmitisse constantemente, de hora em hora, programas de elogio ao chefe: “as realizações de Armando Emílio Guebuza” está ainda fresca na nossa memória. Ou a transmissão em directo da festa do seu aniversário pela TVM, durante 7 horas seguidas. Para alimentar o ego insuflado do chefe. Preocupa-me notar que alguns de nós estamos a fazer o mesmo com o Presidente Nyusi. Ouvimos frequentemente elogios como - “sob a sua sábia direcção, o nosso país avança rumo a um progresso nunca sonhado”, etc. Esta era uma ladainha obrigatória no reinado de Guebuza. Qualquer ser humano, ao ouvir estes elogios constantemente repetidos, tende a acreditar e a considerar-se infalível. Torna-se arrogante e não aceita ser criticado. Espero que o Presidente Nyusi tenha o bom senso suficiente para não se deixar influenciar. Ainda sobre o Presidente Nyusi, Samora dizia que o chefe deve saber usar o martelo, deve saber exercer o poder. Deve consultar, mas não ficar amarrado à opinião dos outros. Há sinais de que o Presidente Nyusi tenta impor a sua autoridade como Chefe de Estado, tenta libertar-se das influências que o manietam. Uma prova parece-me ser a sua decisão recente de retomar o diálogo com a Renamo, nomeando uma equipa e, creio, dando-lhe orientações claras. O ponto de vista do homem da rua é este: temos de decidir: queremos desmantelar a Renamo? Temos meios para isso? Então desmantelemos. Não temos força suficiente ou achamos que não é a solução adequada, porque vai provocar muitas mortes e destruição e não conduz a uma paz duradoura? Então engajemo-nos num diálogo sério para chegar a um compromisso. O que não pode continuar é a situação dúbia actual, porque permite a continuação do conflito, mata pessoas todos os dias, provoca desespero, enfraquece o prestígio do Estado e mina a confiança da sociedade na capacidade dos seus governantes Temos consciência de que o trabalho desta equipa será muito difícil, já foi ensaiado um exercício semelhante durante mais de dois anos que não produziu nenhum resultado. Confiemos que agora resulte.

Desde a Independência nacional que o poder político está entregue à “geração da luta armada”. Porém, de 2015 a esta parte, o poder foi transferido para a chamada “geração de 8 de Março”. Que avaliação faz dessa transição? Está a corresponder às expectativas? Os jovens estão a conseguir tomar conta do recado?
A “geração 8 de Março” cumpriu a missão que recebeu de Samora em 1977, a de criar os alicerces da reconstrução de Moçambique após a independência. Para alguns, talvez muitos, foi um processo violento porque contrariava a sua vocação e anseios. Forçar alguém a aceitar ser professor quando o seu sonho
Resultado de imagem para jorge rebeloera ser médico ou engenheiro não é fácil. Mas a maioria compreendeu e engajou-se nessa nova tarefa e fê-lo
com alto sentido de responsabilidade e patriotismo. A “geração de 8 de Março” deu lugar a outra geração chamada da viragem, conforme proclamação do então Presidente Armando Guebuza em 2009. Esta é uma geração que está perdida porque ainda não sabe para onde virar-se. Não recebeu orientações do chefe que anunciou a sua criação, ele limitou-se a dizer que é a geração que luta contra a pobreza. Mas todas as chamadas gerações  lutaram contra a pobreza. Hoje diz-se que há uma crise de valores na nossa juventude.  Eu concordo, e isto acontece porque os modelos que deviam servir-lhe de referência, a começar pelo chefe que os mandou “virarem-se” não lhes inspiram confiança, e é por isso que os jovens ainda buscam referências em Samora. A pátria chama por nós – foi assim que Samora exortou os jovens. Este chamamento é também necessário hoje. Devia aparecer alguém com a estatura moral de Samora (na fotografia com M.Santos,Jorge Rebelo e J.Veloso) para engajar os jovens nesta nova tarefa de limpar a casa e restituir a credibilidade ao nosso país.

Como é que avalia a Frelimo de hoje?
Podemos analisar a dois níveis. A Frelimo como aparelho: ele é eficaz e eficiente e é ele que tem permitido à Frelimo ganhar as eleições. A Frelimo como organização, que se rege por princípios e valores justos, identificada com os anseios e aspirações do povo: aqui está muito deteriorada. Por isso há quem diga: se Samora ressuscitasse hoje morreria de desgosto no segundo seguinte.

Disse que a Frelimo se desviou dos princípios e valores justos, identificados com os anseios e aspirações do povo. Logo a Frelimo mudou? Qual é, hoje, a ideologia da Frelimo?
Peço que não me faça perguntas que não posso ou tenho grande dificuldade em responder. Eu sou membro da Frelimo há 53 anos, portanto, cabe-me alguma responsabilidade pelos seus erros e defeitos. Há algum tempo venho criticando o que considero errado quando tenho oportunidade, mas com poucos resultados. O problema é que a Frelimo anda ao sabor das lideranças: quando temos um bom líder, como Samora, ela assume valores justos, ganha a confiança do povo, torna-se forte. Quando o líder é medíocre ou mau, ela fica desacreditada porque esses líderes desligam-se dos interesses do povo, apropriam-se de tudo o que é riqueza no país, fecham-se a qualquer opinião discordante e reprimem os que os denunciam. Não vale a pena especular mais: talvez a Frelimo que temos, com os seus defeitos e algumas virtudes, seja a Frelimo possível nos dias de hoje. Quanto à ideologia, eu também já não sei qual é. Os Estatutos do Partido dizem que a Frelimo luta em defesa dos interesses do povo moçambicano. Contentemo-nos com isto.

Há ou não pessoas ambiciosas dentro da Frelimo que para satisfazer seus apetites até se envolvem no crime organizado?
Quero acreditar que não. Pessoalmente não conheço ninguém. Há gananciosos e que se aproveitam do poder e influência para enriquecerem, mas daí até ao crime organizado vai uma grande distância.

Um membro fundador da Frelimo veio a público dizer que o povo não se devia preocupar com a dívida porque, quem iria pagar é o Governo e que nenhum cidadão iria tirar directamente o seu dinheiro para pagar os empréstimos. Qual é o seu comentário?
Gostei. Porque sempre tinha ouvido dizer que o dinheiro do governo provém dos impostos que ele cobra ao povo, isto é, a nós outros. Se o governo tem outra fonte onde vai buscar dinheiro, devemos felicitá-lo

e regozijarmo-nos. (SAVANA por Raul Senda)

Primeira mulher candidata há 144 anos

A nomeação de Hillary Clinton como candidata do Partido Democrata à Casa Branca só pode ser carimbada em Julho durante a convenção do partido, em Filadélfia. Mas só uma reviravolta nunca vista na história moderna dos EUA poderia impedir que a antiga secretária de Estado se torne na primeira candidata à presidência dos EUA por um dos maiores partidos.
Sem contar com o Partido Republicano e o Partido Democrata, a primeira mulher a candidatar-se à presidência dos EUA foi Victoria Woodhull, uma líder do movimento sufragista entre os séculos XIX e XX. Victoria Woodhull candidatou-se em 1872 pelo Equal Rights Party, mas foi detida dias antes das eleições, acusada de publicar um jornal "obsceno" – não foi autorizada a votar nem recebeu votos do Colégio Eleitoral.A candidatura de Victoria Woodhull foi também muito polémica porque o seu candidato a vice-presidente foi Frederick Douglass, um símbolo da luta pela igualdade de direitos que tinha fugido à escravatura aos 20 anos de idade. Como alguns historiadores consideram que houve vários problemas legais com a candidatura de Victoria Woodhull (por exemplo, ela tinha 34 anos, quando a idade mínima ainda hoje exigida aos candidatos é 35 anos), muitos apontam Belva Ann Lockwood como a primeira mulher a candidatar-se à presidência dos EUA – outra destacada activista pelos direitos das mulheres, Lockwood candidatou-se em 1884 pelo National Equal Rights Party, tendo como candidata a vice-presidente outra mulher, Marietta Stow.

Lava jato à moçambicana?

Jorge Rebelo, um dos fundadores da Frelimo, onde foi o temido secretário do Trabalho Ideológico nos tempos de Samora Machel, lamenta o facto de o país ter sido levado para a sarjeta por um líder consagrado como visionário.

Após vários anos consecutivos de crescimento forte, o desempenho económico de Moçambique está a registar sinais de queda nos últimos tempos. Como é
que encara esta triste realidade?
É o resultado de uma sucessão de vicissitudes. Crise na produção de alimentos. O próprio governo queixa-se de que estamos a consumir muito mais do que produzimos. Importamos quase tudo o que comemos. Mesmo produtos alimentares básicos como batata, cebola, tomate, apesar de termos tanta terra fértil. Isto é resultado de políticas erradas que não priorizavam a agricultura e a indústria ao longo de décadas. Hoje assistimos a uma espécie de acto de contrição de ex-dirigentes. Mas na prática ainda não se nota um esforço para mudar, para restituir agricultura e à indústria o devido lugar. E, assim, a tão proclamada luta contra a pobreza regrediu, a pobreza aumentou e o povo sofre as consequências das nossas falhas na governação. Mas muitos outros factores contribuíram e contribuem para a queda da nossa economia. Podemos falar da seca e das inundações que constantemente nos atingem, sem que se tomem as medidas possíveis para pelo menos mitigar estas calamidades previsíveis. Embora seja justo dizer que quando o El Nino se zanga não é possível aplacá-lo.

Há quem diga que a actual crise resulta, em parte, da actuação pouco criteriosa do governo cessante...
Tal como disse antes, estamos a passar por uma sucessão de crises. Estamos a assistir uma
situação em que o nosso metical está em derrapagem face ao dólar, os preços de carvão e gás baixaram muito no mercado internacional, vivemos uma situação de instabilidade e insegurança (conflito armado). Porém, de outro lado verificamos um cenário de ganância da classe política que conduz à corrupção (alguém definiu a corrupção como um imposto pago pelos pobres). A criminalidade galopante que faz fugir os investidores e agrava a instabilidade, a diminuição drástica da ajuda externa como sanção contra o endividamento ilícito do país.

E como sair desta...
São tantos factores. Mas porque são muitos, é necessário definir quais os prioritários e sobre os quais o governo deve fazer incidir a sua acção. Penso que neste momento são o conflito armado e a instabilidade que ele gera; e a dívida oculta não transparente que, além do mais, nos privou do apoio dos doadores e organismos internacionais, com consequências que já estamos a sentir. E que vão agravar-se muito nos próximos tempos.

Ainda na linha dos endividamentos. Uma das coisas que está a agitar o país nos últimos anos são os créditos contraídos por “empresas privadas”, mas com garantias do Estado. Como vê esse fardo que o Estado está a ser obrigado a suportar?
Vejo como uma maldição, mas não castigo de Deus. É um mal que alguém de entre nós criou.
Pode dizer-se: justifica-se esta dívida astronómica porque esperávamos colher os frutos do carvão, do gás e do petróleo, o que não aconteceu. Mas um dirigente tem de saber fazer previsões e avaliações correctas da realidade. Além disso, há uma forte suspeita de que grande parte desses valores foram parar nos bolsos de alguém. É necessário uma investigação.

Diz parte dos valores que endividaram o país foram parar no bolso de alguém. Quem é?
Todos o conhecem.

Resultado de imagem para jorge rebeloO jornal Canal de Moçambique Moçambique noticiou, recentemente, que uma empresa ligada ao filho do presidente Guebuza intermediou a compra de armas para o Estado. O que acha disso?
Também li essa notícia, que acrescenta que as comissões deste jovem empresário foram de 11 milhões de dólares. Pode ser uma fabricação, por isso só me posso pronunciar quando estiver provado. De qualquer forma, a notícia não me surpreendeu. Os filhos dos Presidentes (e de grande parte da nomenklatura, e não só aqui) têm uma aptidão especial para enriquecerem sem trabalhar, graças à influência dos pais. É a aplicação de uma antiga teoria: vale mais o dinheiro ficar connosco, em família, do que ir para os bolsos dos outros. Como dizem os músicos: “é assim na terra do pandza”.

Na contracção das dívidas há quem diga que se violou a Constituição e que há espaço para a responsabilização criminal. Comunga o mesmo espírito?
Claro que sim. Não pela pressão da comunidade internacional, que é grande, mas para fazemos valer o princípio de que ninguém está acima da lei.

Será que a justiça moçambicana tem capacidade e/ou coragem para investigar e tomar medidas sobre a situação das dívidas?
Se não tem, os que dirigem as instituições da justiça deverão demitir-se e dar lugar a outros menos comprometidos com o poder, menos medrosos e mais íntegros, como o juiz que ilibou o Dr Castelo Branco, apesar da pressão em contrário da Procuradoria Geral da República. Temos quadros válidos neste sector.

Algumas figuras históricas da Frelimo defendem uma espécie de Lava Jato à moçambicana. Qual é a opinião do Jorge Rebelo?
Isso equivaleria a uma verdadeira revolução. Estamos preparados para a desencadear? Neste momento crítico não iria agravar a instabilidade? No Brasil essa operação levou à prisão de muitos altos dirigentes, alguns deles condenados a 15 ou mais anos de cadeia. Aqui iria acontecer o mesmo, se a operação fosse levada a sério. Bastava uma investigação sobre a origem da riqueza dos chefes. Pessoalmente, acho que se justifica, porque a dita estabilidade que vivemos é falsa, é aparente. Se a medida da estabilidade é o grau de satisfação da população, podemos dizer que ela é praticamente inexistente.

Tendo em conta a situação de insustentabilidade económica em que o país se encontra, que futuro vaticina?
Não é preciso ser um vidente para prever um futuro muito sombrio para os moçambicanos, principalmente os mais pobres. Mesmo os pequenos e grandes empresários estão já a ressentir-se da queda nos negócios e redução dos investimentos. Mas nós já passámos por crises graves na história recente de Moçambique. E conseguimos superar. Embora nenhuma com a dimensão que esta tem.


(SAVANA por Raul Senda)

Lula, pode voltar a governar !!!

Ex-presidente por dois mandatos consecutivos, Luiz Inácio Lula da Silva apareceu na frente de outros possíveis candidatos para as eleições presidenciais de 2018. A pesquisa estimulada divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e pelo instituto MDA, nesta quarta-feira (8), ainda tem uma simulação de segundo turno.


Nela, quem venceria em uma disputa com Lula seria o tucano Aécio Neves, atualmente senador pelo PSDB-MG e candidato derrotado nas eleições de 2014.  
Na pesquisa espontânea, Lula tem 8,6% de intenção de voto, enquanto Aécio aparece com 5,7%. A ex-senadora Marina Silva (Rede) possui 3,8% dos entrevistados a seu favor, enquanto a presidente afastada Dilma Rousseff tem 2,3%. Atualmente presidente interino, Michel Temer atingiu 2,1%, o mesmo íncide apresentado pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).Outro nome frequentemente citado nas entrevistas da CNT foi o de Ciro Gomes (PDT), que figura com 1,2% das intenções de voto. Os demais presidenciáveis não atingiram sequer 1%. Votos em branco somam 16,7%, enquanto os indecisos são nada menos do que 54,1%, mais da metade.Em uma pesquisa estimulada, Aécio teria 15,9% do apoio e, mesmo assim, ficaria atrás de Lula no primeiro turno, com 22%. Marina Silva teria 14,8% e, empatados tecnicamente, aparecem Ciro Gomes (6%), Bolsonaro (5,8%) e Temer (5,4%). 21,2% votariam em branco ou nulo e 8,9%, nesse cenário, ficariam indecisos. Quando a hipótese tem o governador paulista Geraldo Alckmin como representante do PSDB, a diferença para Lula fica ainda maior, com 22,3% para o petista e 15,9% para o tucano.
Num segundo turno, porém, Lula enfrentaria muitas dificuldades para se reeleger. Isso porque, com Aécio na disputa, o petista perderia por 34,3% a 29,9%. Contra Marina seria a mesma coisa: derrotado por 35% a 28,9%. Nesse caso, segundo a pesquisa da CNT, o ex-presidente só venceria Temer, em um “placar” de 31,7% a 27,3%.Caso Lula não fosse para o segundo turno e a disputa na etapa em questão fosse entre Aécio e Marina, eles empatariam tecnicamente: 29,7% a 28%, com leve vantagem para ele. Temer, por outro lado, perderia em todos os cenários de segundo turno emulados.O relatório da CNT/MDA mostrou também que a administração de Michel Temer tem baixa aprovação, quase idêntica à de Dilma. O governo peemedebista é aprovado por apenas 11,3% dos brasileiros, enquanto o da petista tinha uma taxa de 11,4%.A CNT/MDA ouviu 2.002 pessoas em 137 municípios de 25 unidades do Federação no período de 2 a 5 de junho. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais. Para acessar a pesquisa na íntegra, clique aqui.




segunda-feira, maio 23, 2016

Não vai mudar.Somos assim e prontos!

O Governo moçambicano, representado pelo Ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, foi esta semana à Assembleia da República explicar aos deputados os contornos da dívida pública do país e o que deve ser feito para sanar a actual crise económica em que o país se encontra.
Maleiane disse que uma das coisas que deve ser feita e que não custa dinheiro é a Renamo aceitar o diálogo com o Governo e parar com os ataques a viaturas e pessoas e com a destruição de bens nas nossas estradas.
O governante defendeu que a solução da questão da tensão militar é a mais barata que existe, uma vez que não precisa de gastar dinheiro, bastando que a Renamo volte ao diálogo com o Governo. “Como temos estado a dizer é necessário ter estabilidade na circulação rodoviária. A tensão militar é um problema que temos que resolver, porque não vamos gastar dinheiro. É só sentar e discutir. Portanto, esse é o preço mais barato a pagar e o resto vai se estabilizar”.
Para aquele governante, o elevado custo de vida no país não tem nenhuma relação com as dívidas de que se fala nos últimos tempos, mas sim, é derivado, entre outros aspectos, da não fluidez na circulação rodoviária devido aos ataques da Renamo, associado aos baixos níveis de produção nacional.
Em finais de Abril último, o Primeiro-Ministro, Carlos Agostinho do Rosário, falando também sobre a questão de como lidar melhor com a actual crise económica do país, disse que, as principais soluções (para além do fim do conflito militar) para podermos sair da actual situação são: “(…) alargarmos e diversificarmosa base produtiva, bem como aumentarmos a produtividade da economia nacional, capitalizando as potencialidades das quatro áreas de concentração e catalisadoras sem descurar outras, que o nosso país tem vantagens comparativas que facilmente podem-se converter em vantagens competitivas a saber: Agricultura, Energia, Infraestruturas e Turismo. O financiamento das actividades previstas para estes quatro sectores, em que o Governo vai actuar de forma mais concentrada e catalisadora, será através de linhas de crédito concessionais já identificadas e em negociação com os respectivos financiadores e pelo sector privado, através da Parceria Público-Privado. Melhorar a qualidadee eficiência da despesa pública, com maior impacto no capital humano e operacionalização das quatro áreas de concentração e catalisadoras; eracionalizaçãoda despesa pública.Moçambique é um país potencialmente rico, em recursos humanos e naturais. O potencial agrícola, energético, turístico, bem como a sua localização geoestratégica, fazem do nosso país um verdadeiro e natural ponto de atenção e de atracção de investidores”, defendeu Carlos Agostinho do Rosário.
“Uma das grandes lições a tirar da queda acentuada dos preços das matérias-primas passa, necessariamente, pela aposta na transformação da nossa economia, através da sua diversificação, aumentando a capacidade produtiva e produtividade. A diversificação da nossa economia vai garantir uma base sustentável de produção que garanta a segurança alimentar, substituição de importações e elevação de níveis de exportação, condições essenciais para uma estabilidade macroeconómica, particularmente a taxa do câmbio do Metical e redução do custo de vida e capacidade do país honrar com os seus compromissos referentes ao serviço da dívida”, disse.
Resultado de imagem para preguiça laboralPortanto, aqui estão as principais balizas da solução da actual crise. Estão, digamos, os faróis, que iluminam por onde e para onde ir. Nos dizem onde é que nós estamos, para onde queremos chegar e como podemos lá chegar.
Quer dizer, temos que ter a consciência de que para além de todos os esforços que têm de ser feitos para trazer a paz no país, que é um dos desafios essenciais, existem ainda como desafios actuais do país, o alargamento da base produtiva e o aumento da produtividade da economia nacional; a capitalização dos sectores da Agricultura, Energia, Infraestruturas e Turismo; o melhoramento da qualidadee eficiência da despesa pública, com maior impacto no capital humano, racionalizaçãoda mesma e a diversificação da economia nacional, de modo a assegurar uma base sustentável de produção que garanta a segurança alimentar, substituição de importações e elevação de níveis de exportação.
Aqui, nós vamo-nos debruçar apenas sobre a questão da produtividade da economia nacional e da produção no sector agrícola. Isto é, queremos falar da necessidade que há de todos arregaçarmos as mangas e trabalharmos, pois, ninguém há-de vir aqui fazer isso por nós. Tenhamos a certeza disso.
Nestes tempos de crise, temos que interiorizar que o desenvolvimento sustentado, só pode ser levado a cabo com êxito duradoiro, se cada uma das pessoas se capacitar de que é com o trabalho que se vencem os obstáculos. E, com efeito, tomarmos o trabalho como a causa eficiente da produção. E nos parece que esta é uma questão fundamental para a nossa sobrevivência e que tem passado a leste de muitos de nós.
É que se nota nos últimos tempos pouco empenho no trabalho, na disciplina do trabalho, tanto em instituições públicas ou privadas. Vamos avançar aqui alguns exemplos. Um jovem dedicado e competente é nomeado para delegado de uma instituição pública noutra província. Quando chega ao seu novo posto, estranha a fraca assiduidade, a falta de pontualidade e dedicação ao trabalho, a falta de disciplina laboral. Intrigado e irritado com a situação, reúne os funcionários para saber das razões e a única resposta que recebe do colectivo é de que “aqui é assim. Senhor delegado, aqui não vai conseguir mudar nada. Somos assim e prontos!”
Muito já foi dito sobre a necessidade de se cumprir horários e a disciplina laboral, mas das palavras aos actos vai uma grande distância. No emaranhado e sinuoso processo das admissões, com nepotismo e corrupção à mistura, o líder, impotente para tomar decisões e disciplinar funcionários, opta pelo “deixa andar”, “porque eu encontrei isto assim”. As avaliações de desempenho dos funcionários também se enlameiam neste recipiente de negligência e cobertura de indisciplinados e incompetentes.
O privado geralmente se queixa do facto de as suas unidades de produção estarem a ser roubadas ou mesmo saqueadas pelos próprios trabalhadores que as deviam defender para produzirem melhor e prosperarem, porque também constituem o ganho pão da massa laboral e suas famílias. Os esquemas de roubo de matérias-primas ou de produtos acabados, de equipamentos e outros, são engendrados em colectivo dentro das próprias unidades e até já têm denominações próprias do tipo “ways, “boladas” ou “muxuapos”. Tudo isso afecta a produção das nossas unidades produtivas e leva até à falência de algumas. Quer dizer, em vez de o trabalhador se preocupar com a sua produção e produtividade, preocupa-se em lesar a unidade para benefício próprio. Rouba e exige que seja pago salário, porque se este faltar, entra em greve!
Exemplos na área agrícola são vários. Aqui podemos apontar os mais corriqueiros. Na cidade de Maputo, por exemplo, durante muito tempo, havia uma grande cintura verde que abastecia a cidade de produtos frescos. Nestas zonas, nasceram nos últimos anos habitações desordenadas, no salve-se quem poder da ocupação de terrenos. Nas chamadas quintas, também se produziam hortícolas em grande escala. Hoje tudo isso está ocupado pelo betão: casas, pavimentos. Eliminaram-se hortas e pomares. Os habitantes desses locais que eram produtivos, agora, também procuram fruta e produtos frescos no Zimpeto, aumentando as nossas necessidades de importação.
Como dizia o Primeiro-Ministro, Moçambique é um país potencialmente rico, em recursos humanos e naturais. Tem potencial agrícola, energético, turístico. De facto, somos um país essencialmente agrícola com uma extensão de terra tão grande e tão fértil que é um escândalo falar-se em fome no país, mesmo considerando períodos de estiagem e de cheias. Os alimentos brotam da terra e terra é o que mais temos, sendo até propriedade do Estado com obrigação de a conceder ou distribuir baseado em políticas de desenvolvimento em função do homem de carne e osso. Quem cultiva a terra são homens e mulheres, que também temos em abundância.
Se temos o fundamental que faria felizes tantos países em que a terra é um bem sobremaneira escasso e a população está avelhentada, porque é que estamos tão em baixo?
Falta-nos sobretudo trabalho. O arregaçar de mangas em vários níveis e várias frentes da cadeia de produção agrícola. O trabalho é a causa eficiente da produção e quem trabalha é o homem, significando estas palavras tão simples que há que investir também no homem. Preparar-lhe a cabeça para que seja capaz de transformar a natureza a seu favor. Saberá, depois, procurar o capital e a tecnologia.
Há que fazer, por conseguinte, uma revolução na nossa própria mentalidade sobre o valor do trabalho, para adquirirmos uma cultura de trabalho, que faça o país crescer e atingir níveis elevados de desenvolvimento.
Para isso, também precisamos de lideranças. Mas lideranças esclarecidas e apaixonadas pelo seu trabalho, tendo como bússola orientadora o bem comum e não meros interesses umbilicais. 
Reconhecemos que só o trabalho não basta. Há necessidade de se lançar mão de técnicas, com um capital a servir de instrumento e meio de sustentação e um conhecimento adequado, por outras palavras, uma formação específica. Se, sem trabalho, nada se faz, também nada se faz sem condições para a rentabilidade desse mesmo trabalho, o mesmo se diga da formação adequada. Sem termos de entrar em grandes teorias, reafirmar que trabalho, formação, técnica e capital, são as alavancas do desenvolvimento. E isto vale tanto para uma empresa macro, como para a micro, mesmo para o cidadão individual que deseje trabalhar por sua conta e risco.


segunda-feira, maio 16, 2016

Fragilizando o Estado de Direito que a Constituição proclama

A semana que findou foi de recados. De muitos recados e alguns posicionamentos firmes num país em crise. E é nas crises que os homens com H grande se demarcam. No render da guarda de mais uma direcção na Ordem dos Advogados, Rui Baltazar, um advogado que vem dos tempos da longa noite colonial, com a sua intervenção, levantou a sala que o aplaudiu em apoteose. O SAVANA deixa aqui a versão editada daquele momento muito especial. Ao olhar para esta sala, onde se encontram tantos juristas, não posso deixar de evocar os tempos de transição e da independência, em que contavam-se pelos dedos das mãos os licenciados em Direito moçambicanos de que me podia socorrer para me ajudarem a conceber um novo sistema de justiça em Moçambique. Aqui está a prova irrefutável de que valeu bem a pena lutar contra o colonialismo, como valeu a pena participar no nascimento de um novo País, como continua a valer a pena pôr as nossas capacidades e energias ao serviço do povo moçambicano. Não posso entrar no tema da responsabilidade social dos advogados sem previamente abordar, ainda que muito esquematicamente, dois aspectos que permitem enquadrar melhor tal responsabilidade. Primeiro, irei caracterizar alguns dos marcos principais e vicissitudes que ocorreram no exercício da advocacia desde a independência, para chegarmos onde estamos hoje. O outro aspecto tem a ver com a profunda crise que enfrenta neste momento a sociedade moçambicana, que a todos afecta e, portanto, também afecta a comunidade de advogados, fazendo-o numa abordagem eminentemente jurídica.
Olhar para o passado
Resultado de imagem para rui baltazarRecordar os principais marcos e vicissitudes por que passou o exercício da advocacia em Moçambique apetrecha-nos para sermos capazes de tirar lições e ensinamentos dos sucessos alcançados e dos erros cometidos e, assim, traçarmos perspectivas seguras para os caminhos do futuro. Logo após a independência, o exercício da profissão de advogado, a título liberal, foi interdito. É agora fácil dizer que essa foi uma decisão errada. Mas o erro não foi tanto porque essa interdição causasse qualquer significativa perturbação social (a esmagadora maioria dos moçambicanos nem sequer sabia então o que era advocacia), mas porque se enviou para a sociedade um sinal negativo de que os novos poderes instituídos não queriam ser incomodados ou perturbados na sua actuação por qualificados controlos de legalidade. Todo o exercício do poder dificilmente aceita e reage sempre mal à crítica. No entanto, a existência livre dessa capacidade de análise  crítica é imprescindível a qualquer boa governação. Os efeitos negativos do sinal então dado prolongam-se até ao presente, quando assistimos à extrema relutância e a dificuldade que persiste em se assumirem erros e definirem responsabilidades. Felizmente ainda antes da independência, em meados de Janeiro de 1975, havia sido desencadeado o processo de criação da Faculdade de Direito, que iria dotar o país dos juristas de que tanto carecia. Processo este também atribulado com o episódio lamentável do encerramento temporário dessa Faculdade. A sua reabertura em finais dos anos 80 procurou corrigir esse novo erro, sobre o qual já tive ocasião de me pronunciar publicamente em outras oportunidades, pelo que agora me abstenho de novos comentários. A relegalização do exercício da advocacia foi formalizada pela Lei no.3/86,de 16 de Abril, que simultaneamente criou o Instituto Nacional de Assistência Jurídica. Nesse diploma se reconheceu que os advogados, passo a citar, “são membros da justiça e agentes do desenvolvimento do Direito velando pela boa aplicação da lei em pela rápida aplicação da justiça”, fim de citação. Mas é na sequência da aprovação da Constituição de 90, e com a Lei no.7/94, de 14 de Setembro, que cria a Ordem dos Advogados, que o papel do advogado é reconhecido em toda a sua dimensão profissional e social. No preâmbulo dessa lei se diz que a advocacia é um dos três pilares da administração da justiça, sendo os outros dois os Tribunais (aqui se podendo incluir o Conselho Constitucional) e o Ministério Público. O ponto mais alto dessa afirmação da importância da função dos advogados veio a ser alcançado com a consagração constitucional do seu papel de elemento essencial à administração da justiça, no no.1 do artigo 63 da Constituição em vigor. A Lei no.28/2009, de 29 de Setembro, que aprovou os novos Estatutos da Ordem dos Advogados, não fez mais que preencher algumas lacunas e proceder a actualizações dos Estatutos anteriores.
Um percurso longo
Constatamos, assim, que foi necessário um longo período de tempo (cerca de três décadas) para que no nosso país se afinassem os instrumentos necessários ao bom exercício da actividade de advogado, e para lançar as bases que permitissem superar preconceitos e radicalismos com que no pós-independência foi encarada, pelo poder político, a profissão de advogado. Partindo desta breve resenha de algumas etapas do acidentado percurso que teve o exercício da advocacia em Moçambique, podemos, talvez, tirar algumas lições:
- no período colonial a advocacia não influiu significativamente na vida da generalidade dos moçambicanos, com excepção de intervenções pontuais em defesa de alguns direitos ofendidos ou  do desconforto político que os advogados causavam ao colonial-fascismo, através das denúncias de arbitrariedades e ilegalidades e da oposição política que faziam ao regime;
- o pensamento jurídico moçambicano, incluindo a elaboração legislativa (até à nossa Constituição tem demasiados artigos, senão capítulos, decalcados da Constituição portuguesa), continua colonizado e receptor da doutrina e legislação portuguesas, situação que deve ser ultrapassada.
Como diz o nosso filósofo Severino Goenha na sua obra Terceira Questão, “Não se trata de ignorar ou desdenhar o direito do colonizador, por exemplo, mas nunca devemos esquecer que ele e a história são respostas jurídico-políticas que os portugueses se deram num momento do seu passado.  Essas soluções, por mais extraordinárias que sejam ou tenham sido, não se adequam necessariamente ao nosso contexto”, fim de citação;
- o poder político, de uma maneira geral, não convive bem com a actividade dos advogados, e isto é tanto mais evidente quanto mais autoritário, menos democrático, e mais medíocre for esse poder;
- as resistências ou obstáculos às actividades dos advogados agudizam-se quando eles melhor estiverem a cumprir o seu papel de controlo da legalidade, de combate aos abusos de poder, a violência sobre os cidadãos e as violações dos direitos e liberdades fundamentais;
- daqui decorre que uma das principais virtudes que se exige a um advogado é a coragem e determinação no exercício da profissão, o que torna esta uma profissão de risco (tal como são as profissões dos magistrados e agentes do Ministério Público cuja menção aproveito para aqui e agora saudar o heroísmo de que alguns já têm dado provas);
- devem, pois, os advogados e a Ordem estarem prevenidos e preparados para as dificuldades que lhes possam surgir e lutar pelo seu prestígio e pelo reforço permanente da sua coesão em torno da Organização que os representa. Valorizemos esse nosso passado da advocacia de olhos postos no futuro, mas com os pés bem assentes nas realidades do presente.
A actual crise
O nosso presente é de profunda crise política, económica e social. Enumeremos, também sinteticamente, numa perspectiva sobretudo legalista, alguns sintomas dessa crise naquilo que mais pode preocupar os juristas:
- o nosso país vive, há já demasiado longo tempo, situações de instabilidade e insegurança, proliferam violações graves de direitos e liberdades fundamentais, cometem-se, com inteira impunidade, atentados à vida e integridade física e moral dos cidadãos, o que gera o sentimento da existência de poderes paralelos e ocultos, tornando mais vulnerável a existência desses mesmos cidadãos;
- vivemos em tempos recentes um prolongado período de exercício do poder político com cariz autoritário, grande opacidade e aparato formal oco e ostentatório, com os inconvenientes de, pelo perverso efeito de demonstração, se repercutir nos demais níveis do exercício do poder político e administrativo, fragilizando o Estado de Direito que a Constituição proclama e que cada vez menos corresponde à realidade nacional;
- diluiu-se a separação dos poderes do Estado com excessivo e desproporcionado predomínio do executivo;em alguns casos preteriu-se o papel de Instituições fundamentais que se tornaram meras caixas de ressonância de decisões tomadas em outros fórum, e inoperacionalizou-se o sistema de pesos e contra-pesos que é uma regra fundamental ao bom funcionamento dum Estado democrático;
- alastrou e aprofundou-se a corrupção, o uso indevido do património do Estado, o nepotismo, o assalto aos bens públicos que deviam ser explorados em benefício do povo, cometem-se graves crimes contra o meio ambiente e a natureza, a criminalidade sofisticou-se e ganhou novas formas sem que se criassem os antídotos adequados ao seu combate, a política parece reconduzir-se apenas à conquista ou preservação do poder como meio para ter acesso indevido aos recursos,promoveu-se uma prematura e perigosa euforia, propícia a esbanjamentos e megalomanias fundadas em eldorados energéticos anunciados, com todas as nefastas consequências a que agora teremos de fazer face;
- assiste-se a uma grave indisciplina cívica e social, não só tolerada como por vezes até estimulada pelos maus exemplos que a inspiram, e que contem uma enorme carga de instabilidade;
- inoperacionalidade ou inexistência de mecanismos eficazes de diálogo, de inclusão, de superação das clivagens ideológicas, económicas, sociais ou políticas, com a perda do sentido do interesse nacional e da busca dem consensos (tentativas de os alcançar, como foi o caso da Agenda 2025, acabaram em estantes ou gavetas sem serem devidamente valorizadas).
Profeta de infortúnios
Tudo isto, e muito mais que se podia dizer, basta para que me possam acusar de profeta de infortúnios consumados. Mas a minha longa vida e experiências ensinaram-me a ser por natureza optimista, tantas e tão importantes foram as mudanças positivas e transformações a que já assisti. A enumeração feita tem por único objectivo alertar-vos, aos advogados e à Ordem, para os difíceis desafios e perigos que terão pela frente e para vos encorajar a enfrentá-los com coragem e determinação. E aqui chegámos, finalmente, à responsabilidade social dos advogados. O exercício da actividade de advogado reveste-se de uma dimensão eminentemente social. O advogado insere-se na sociedade em que vive, faz parte integrante dela e participa do seu dinamismo, podendo e devendo ser seu elemento de transformação e aperfeiçoamento. Como diz o Professor brasileiro Eduardo Bittar no seu curso de ética jurídica, passo a citar, “o jurista tem de estar consciente de que o instrumental que manipula É capaz de cercear a liberdade, de alterar factores económicos e prejudicar populações inteiras, de causar a desunião de uma sociedade, a corrosão de um grande foco de empregos e serviços, de desestruturar uma família e a saúde psíquica dos filhos dela oriundos, de interferir sobre a felicidade e o bem-estar das pessoas...”, fim de citação. Embora advogar também seja um ofício, pelo seu impacto social ele não pode ser perspectivado em termos idênticos aos das profissões mais comuns, pela carga de valores éticos e deontológicos que carrega consigo. Entre esses valores devem figurar em primeiro lugar a conformação e obediência a normas éticas universais e as assumidas individualmente e que são decorrentes do processo de formação e aprendizagem inerente a própria vida; bem como os adquiridos no seio da família, da comunidade, da escola, de outras inserções sociais, ou seja, em geral, no viver social. Para além destes valores, e podendo também coincidir em grande parte com eles, há regras de conteúdo ético formalmente definidas e adoptadas em termos normativos e que são as constantes de códigos de conduta ou regulamentos de carácter obrigatório e implicando sanções.
A singularidade da advocacia
Embora considere prevalecentes as normas de carácter ético que são de cumprimento espontâneo e voluntário, automaticamente assumidas por cada indivíduo, e nas que estão codificadas que me passarei a concentrar, pois felizmente os advogados moçambicanos dispõem de um quadro suficientemente amplo dentro do qual se devem movimentar, como bússolas orientadoras da sua actividade e da sua responsabilidade social. A responsabilidade dos advogados está inserida em diversos diplomas legais, desde a Constituição e a legislação processual ou outra legislação avulsa, até aos Estatutos da Ordem que constituem a pedra angular na definição da responsabilidade social. A Constituição, ao referir que o patrocínio forense e essencial à administração da justiça, e ao acolher e consagrar certas garantias mínimas ao exercícioda profissão de advogado (nos.1 a 4 do artigo 63) associou, de forma incindível, a actividade dos advogados ao valor público e fim último que é a realização da justiça e que incumbe aos Tribunais (mas não só). Mas é sobretudo no Estatuto da Ordem dos Advogados, aprovado pela Lei no. 28/2009, de 29 de Setembro (por coincidência a data de aniversário do nosso saudoso Presidente Samora), e mais concretamente no seu capítulo V relativo à Deontologia Profissional, que se contêm as disposições que melhor enquadram a responsabilidade social dos advogados. Não me irei debruçar sobre essas disposições que são bem conhecidas de todos vós, mas apenas chamar à atenção para os essenciais valores e princípios nelas contidos como a integridade, a independência, a qualidade de servidor da justiça e do direito, os deveres para com a comunidade, os deveres para com a Ordem, a transparência, o sigilo profissional, os limites quanto à publicidade, a urbanidade, os deveres para com o constituinte, a solidariedade e o dever de patrocínio e assistência judiciária. A simples enunciação destes princípios, sem sequer aprofundar o conteúdo de cada um deles, espelha bem a amplitude e a dimensão da responsabilidade social dos advogados e o alto grau de exigência ética e profissional que se espera desta actividade. É nas condições de crise como as que já foram referidas que os grandes homens se revelam e as Instituições melhor se afirmam. Devem, por isso, os advogados, na conjuntura actual do nosso país, serem muito mais rigorosos  na observância destes princípios, como mais vigilante deve ser a Ordem na prevenção, controlo e sancionamento das violações pelos seus membros, que infelizmente também ocorrem, como deve ser muito mais tutelar e protectora dos seus membros nos ataques que forem desferidos ao exercício pleno das suas funções. Os advogados e a Ordem, para alémde deverem constituir elementos de equilíbrio social, de permanente afirmação dos princípios e normas constitucionais e legais, dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos e de contribuírem para a responsabilização dos violadores desses princípios responsabilidade social que vêm expressas nas alíneas b) e c) do artigo 4 dos Estatutos. Quanto a promover o acesso à justiça não irei agora falar, pois daria matéria para outra intervenção.
O papel da Ordem
Mas já quanto ao contribuir para o desenvolvimento da cultura jurídica e para o conhecimento e aperfeiçoamento do Direito, está aqui enunciado todo um imenso programa de intervenções possíveis e que a Ordem até já muitas vezes assumiu. Nestes domínios, a Ordem pode e deve continuar a desempenhar um papel cada vez mais relevante. Só para dar um exemplo. Todos estamos recordados da recente e patética experiência de uma Comissão de Revisão da Constituição que durante anos esteve envolvida na suposta tarefa de rever a Constituição, consumindo grandes recursos, sem que tivesse alcançado propor sequer a alteração de uma vírgula que fosse da Constituição. Pois bem, a Ordem congrega recursos humanos em qualidade e quantidade suficientes para elaborar um estudo-proposta de alteração da Constituição. Pode até fazê-lo em colaboração com outras organizações da sociedade civil e com constitucionalistas da nossa Academia, como forma de prestar um contributo e facilitar consensos numa matéria que é do mais alto interesse e valor para a reconciliação dos moçambicanos.
Porque não fazê-lo? É um desafio ousado e ambicioso mas não impossível. Todos sabemos que a Ordem não tem iniciativa de Lei e muito menos de propor alterações constitucionais. Mas nada a impede de lançar documentos de trabalho e sugestões facilitadoras e susceptíveis de tirar as Instituições competentes do imobilismo, incapacidade criativa e de inovação em que estão mergulhadas, incomodando-as com boas e desafiadoras propostas. Já tenho ouvido o mais Alto Magistrado da Nação proclamar que lhe devem levar soluções e não problemas. Embora a identificação de problemas e o seu atempado diagnóstico sejam importantes para aplicar os remédios adequados, o apelo para que se apresentem soluções é uma janela aberta de oportunidades para toda a sociedade e, portanto, também para a Ordem avançar com as suas ideias, despidas de preconceitos partidários. Fazendo-o, a Ordem estaria a assumir as suas mais altas responsabilidades sociais e a dar uma mais valia inestimável à reconciliação dos moçambicanos, sabendo como sabemos todos nos que não são só as leis que resolvem os problemas, mas que elas podem contribuir para a pacificação e a concórdia nacional. Como podem contribuir para a divisão, mas não é isso seguramente o que pretende qualquer moçambicano.
Os longos sapatos do Dr. Menete

Já vai longa, demasiado longa até para o meu gosto, esta minha intervenção. Sem vos querer assustar, reafirmo a minha convicção de que não vão ser nada fáceis os tempos que se aproximam, e que a fibra e espírito de luta de todos vós serão postos duramente à prova exigindo muita coragem e convicção. Não se deixem intimidar por ameaças nem aliciar por falsas promessas. A melhor defesa dos profissionais de advocacia está na competência e honestidade com que exercerem as suas tarefas, na escrupulosa obediência à lei e às regras que norteiam o exercício da profissão, no constante aperfeiçoamento e estudo, na manutenção do espírito de solidariedade social, na intransigência na luta contra as arbitrariedades e os abusos do poder, na fidelidade na e coerência com os princípios éticos que enunciamos. Se a minha experiência, já no ocaso da vida, vos pode servir de alguma inspiração, acreditem quando vos digo que os momentos mais exaltantes que vivi como advogado foi quando, durante a noite colonial, sem qualquer remuneração, defendi presos políticos e consegui a sua absolvição libertando-os da prisão, ou quando consegui no Supremo Tribunal de Justiça de Lisboa vencimento num pedido de habeas corpus, devolvendo a liberdade um modesto camponês de Inhambane que fora preso pela PIDE por ousar opor-se à tentativa de espoliação dos seus coqueiros pelas autoridades coloniais. As minhas últimas palavras são para si, Senhor Bastonário, e são de estímulo e encorajamento. Não é fácil a tarefa que está a receber, mas é altamente honrosa. Sobretudo porque nos mandatos dos seus antecessores eles souberam prestigiar a Instituição e apetrechá-la para voos cada vez mais largos. Não se curvaram a bajulações ou compromissos iníquos, criaram condições de trabalho mais adequadas, fizeram crescer a Ordem e tornaram-na numa voz que passou a ser escutada e valorizada por toda a sociedade. Estou certo, estimado Dr. Flávio Menete, que saberá dar continuidade e aprofundar essas conquistas e por isso aceite os meus votos dos maiores sucessos e felicidades.
*intervenção editada do antigo Presidente
do Conselho Constitucional na
tomada de posse no novo bastonário da
OAM a 04.05.16.