segunda-feira, janeiro 26, 2015

Conclave

No passado 12 de Novembro, escrevi aqui (in facebook)que o então candidato da Frelimo, Filipe Nyusi, estava a viver um dilema: o de se desarmar do colete de forças que lhe colocou no poder. E fiz também alguma futurologia, dizendo que “nos próximos meses, ainda vamos assistir a uma batalha campal, sempre em surdina, na Frelimo, onde os três dinossauros (Guebuza, Chipande e Chissano) vão tentar mandar em Nyusi”.Parece que acertei em cheio, embora muitos amigos duvidassem disso, preferindo olhar para o Nyusi como alguém investido de uma autonomia em toda a plenitude. Mas à medida que os dias correm, o material empírico no terreno corrobora a minha hipótese. Primeiro, o perfil do seu Governo mostra que Guebuza mantém uma boa quota de poder (uma percentagem razoável dos seus ministros permaneceu no Governo e muitos outros foram nomeados governadores provinciais). Segundo, a confirmação desse poder bicéfalo em função do poder decisório da Comissão Política Frelimo com a devolução de duas listas de Nyusi.E, agora, a história do conclave maconde em Bilene. Pois, as principais famílias macondes (Chipande, Lidimo, Nylabimpano e Mtumuke) reuniram-se com o Presidente Nyusi nos últimos dias naquela praia. Assunto: transmitir a Nyusi que este não era o Governo combinado e que o empresário Celso Correia não devia ter sido nomeado para aquela pasta. Porque? Porque Celso Correia “humilhou” Alberto Chipande quando assumiu a Presidência do Corredor de Desenvolvimento do Norte (CDN), onde Chipande era PCA. Isso terá acontecido em 2009, quando a Insitec (de Celso Correia e onde alegadamente Armando Guebuza tem interesses) comprou as participações do consórcio norte-americano Edlows Resources e da American Railroad Corporation para entrar na Sociedade de Desenvolvimento do Corredor de Nacala, passando a deter 51% contra 49% dos CFM.A SDNC detém as concessões do Porto de Nacala e do corredor ferroviário que liga aquela cidade ao Malawi. É um importante negócio no sector dos transportes e logística. Mas a transição de Chipande para Correia foi tão “violenta”, pois Chipande assinou a carta da sua renuncia sem saber que era isso que estava no texto e quem levou-lhe essa carta ao escritório foi Celso Correia. Por isso, a presença de Celso no Governo é um incomodo para os macondes. Agora, não sei fazer futurologia sobre como é que as coisas vão terminar. Mas o dilema de Nyusi está aí, tout court.(Marcelo Mosse)

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