terça-feira, agosto 11, 2015

Assim se comunica o Primeiro Ministro moçambicano

» A minha apertada agenda quase que me consome todo o tempo. Contudo, tenho sempre em mente e no coração todos os meus "facefriends". Como referi em Maio, depois da aprovação do PES e do PQG, seguir-se-ão momentos de muita acção e corrida contra o tempo. Creio que têm acompanhado pela imprensa a minha actividade...é um verdadeiro "corre-corre", como sói dizer-se na gíria popular. Tudo no intuito de imprimir maior dinamismo a nossa acção governativa. Permitam-me que aproveite esta ocasião para saudar as jornalistas de palmo e meio que se vêm na foto. Interagi com elas na minha recente visita a Rádio Moçambique. Foi agradável saber que a RM dispõe de um "viveiro" , de onde serão colhidos os futuros profissionais de comunicação social. Bem haja...(Carlos Agostinho do Rosárioin facebook)

Bairro Limpo

O Presidente do Conselho Municipal da Beira, Daviz Simango, fez a entrega, na manhã de hoje, 11 de Agosto, à equipa do saneamento oito tractores com os respectivos atrelados e 17 txovas (carrinhos de mão), para reforçar a capacidade de recolha de resíduos sólidos (lixo), principalmente nos bairros periféricos da cidade onde ainda persiste uma deficiente recolha de lixo.Ao mesmo tempo, Daviz Simango entregou cinco viaturas, de marca Nissan Hardbody dupla cabine a vários sectores da administração municipal. Igual modo entregou 70 motorizadas para dinamizar os serviços administrativos dos postos.Na ocasião, o edil da Beira revelou que os meios custaram aos cofres do município 23 milhões de meticais (entre viaturas, tractores com os respectivos atrelados, motorizadas e txovas).

mECHIdAS

O Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, no uso das suas competências que lhe são conferidas pela alínea a), no número 2 do artigo 160 da Constituição da República, exonerou Omar Mithá do cargo de Vice-ministro da Industria e Comercio”, refere o Comunicado de Imprensa da Presidência da República. Recorde-se que esta é a primeira mexida que o Presidente Nyusi faz aos nomeados em Fevereiro último.

8º Mês

Ao oitavo mês da governação de Filipe Nyusi, temo que o seu primeiro objectivo estratégico esteja a perder-se. Refiro-me ao objectivo anunciado aquando da tomada de posse. Filipe Nyusi prometeu o combate ao despesismo da função pública. É possível que esteja a fazê-lo ao nível da presidência, aliás, não tenho dúvidas. Timidamente reduziu os ministérios mas não conseguiu evitar o óbvio.
Desde muito que se tem discutido a pertinência da figura de Vice-ministro nos governos, estes que nem membros do Conselho de Ministros são. Quando Nyusi anunciou um governo com menos ministérios – de 28 para 22 - reavivou esperanças de poder vir a cumprir a sua promessa: contenção de custos e combate ao despesismo do Estado. Porém, a nomeação de Vice-ministros turvou esta esperança.
Ontem, o Ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane nomeou 26 pessoas para cargos de Directores Nacionais e Directores Nacionais adjuntos.  A minha pergunta é: Adriano Maleiane precisa de tantos Directores Nacionais assim? Pior, precisa de tantos directores nacionais adjuntos assim? Se juntarmos os 26 nomeados a ele, a Vice-ministra e o Secretário Permanente, teremos aproximadamente 30 dirigentes de topo de um ministério só. Este ministério não é exemplo de uma estrutura “SIMPLES E FUNCIONAL”. Este ministério é exemplo de uma estrutura complexa e macrocéfala. Aqui, Maleiane não deu corpo ao compromisso de Nyusi.
Anda por aí uma ideia de que este país é grande. E por ser grande surge a necessidade de dotá-lo de chefes em todo lado, para que os programas e planos de desenvolvimento mereçam o devido acompanhamento e orientação. Vão daí criar novos distritos, novos ministérios, novas direcções nacionais, visitas de campo – do presidente ao administrador, passando pelos governadores e ministros de pelouro e directores nacionais - e por aí em diante. Na verdade esta forma de pensar e fazer as coisas é característica de desorganizados. O ministério das finanças alemão – Alemanha é muito mais grande e rico que nós - apenas possui um Ministro (não possui nenhum vice-ministro) e cinco secretários de estado. Confira a estrutura a partir deste link: http://goo.gl/4UPBQR. Está é sim uma estrutura simples e funcional.
Dizia eu que um dos sintomas de gente desorganizada é a sua incapacidade em organizar o trabalho. O trabalho que o Estado deve fazer para alcançar seus objectivos está desorganizado. Para começar, ninguém o conhece. Muitos de nós pensamos que a prioridade para que qualquer empreendimento tenha sucesso é a organização da máquina ou das pessoas que vão realizar este trabalho. Não é verdade. Apesar de ser importante, esta não é para mim a prioridade. A prioridade é o que deve ser feito. Conhecer o trabalho, os passos, as acções e o custo.
Nós, povo moçambicano, herdamos um pesado fardo comunista na nossa forma de pensar. Só para recordar, no tempo do comunismo criamos aldeias comunais na esperança de colectivamente podermos produzir em machambas também coletivas e assim vivermos de forma organizada. A mesma teoria passa pelas cabeças dos dirigentes de hoje em relação a função pública. Nunca prestamos atenção na organização do trabalho. Não admira por isso que haja pessoas que até as 10 horas da manhã, já não tenha mais nada a fazer; funcionários há que deixam os seus postos para dar aula e depois regressam. O seu trabalho nunca está atrasado. Como é que o Estado paga um servidor salário completo, e este ainda encontra tempo para dar aulas em horário normal de expediente? O trabalho não está organizado.
Assim que estes 26 tipos foram nomeados, a próxima guerra é saber quem faz o quê. E nesta “guerra” vão surgir os que sentem que não têm trabalho, outros acharão seus poderes “usurpados”, haverá conflito e sobreposição de competências por aí em diante. Ou seja, estes 26 directores e directores nacionais adjuntos foram nomeados não porque há trabalho para todos, mas sim porque havia a necessidade de organizar as pessoas, dotando-as de alguma responsabilidade (mandato). Por sua vez, estes deverão arranjar trabalho para justificar as suas responsabilidades que se são conferidas! É chato, É FRUSTRANTE para o pagador de impostos. Só de pensar em benesses: desde casa paga, viatura, salário, décimo terceiro mês, telefone celular, combustível e lubrificantes e ainda a possibilidade real de eles abocanharem toda a contratação pública; despesas de representação, viagens para dentro e fora de Moçambique, reuniões etc., nenhum povo suporta tantos dirigentes assim. 
Ora, o Governo possui “apenas”22 Ministérios. 
• Primeira questão: Pensem num único exemplo de uma estrutura simples e funcional anunciada pelo actual Presidente da República
• Segunda questão: imaginem a estrutura do Ministério da Economia e Finanças replicado pelos restantes 21 Ministérios.Este país tem mais de 2000 dirigentes com cargo equiparável a Directores Nacionais ou Directores Nacionais Adjuntos!

O mais intrigante é que nós, cidadãos moçambicanos, não temos acesso a estes, senão à apenas menos de 50, que são os nossos governantes. Na verdade, quem paralisa o país são estes quadros, a verdadeira face oculta que debocha e imobiliza o Estado. São estes que vivem em silêncio enquanto desfrutam do melhor que o país produz, SENTADOS. Não são directamente escrutinados pelos cidadãos; não são directamente responsabilizáveis por nós cidadãos mas são os que melhor podem contar as maravilhas deste país; deste maravilhoso povo. 
Afinal, de que “estrutura simples e funcional” o Presidente se refere? 
Quando é que iremos parar para organizarmos o trabalho? Uma das características de um Estado com trabalho organizado é a estabilidade das instituições que cria.

PS: Há oito meses que este estado paga uma curadora do Museu da Presidência. Onde está o Museu senhor Presidente?

PS2: Há-de vir alguém justificar que o actual ministério é junção dos dois. Mesmo assim as minhas perguntas mantêm-se. Em que é que o anterior Ministério de Planificação e desenvolvimento foi útil? (Dr.Egidio Vaz in Facebook)

sexta-feira, agosto 07, 2015

Sobre os albinos

Vi dois „posts“ interessantes do Carlos Serra e da Cléo Mafu nos últimos dois dias. O primeiro solidarizava-se com os albinos que estão a ser vítima de violência no norte do País e a segunda mostrava-se inquieta em relação ao mesmo fenómeno. A leitura dos comentários lá postados suscitou algumas curiosidades em mim, sobretudo em relação à perplexidade com que costumamos abordar este tipo de assuntos. A maioria dos comentários agrupava-se em torno de dois temas principais. Um era sobre a necessidade de educar as pessoas e o outro era sobre uma maior preocupação com a AMETRAMO – a Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique – no sentido ou de limitar o seu raio de alcance, ou de a tornar mais presente.
“Educar” é, dum modo geral, a resposta de eleição para qualquer coisa que não entendemos. Isto é, nós próprios não entendemos uma coisa e a primeira coisa em que pensamos quando algumas pessoas fazem essa coisa é em educar essas pessoas. A questão é: quem vai ser o educador e educar em quê? É para irmos dizer às pessoas lá em Nampula que albinos são pessoas como nós os outros que padecem duma condição rara com uma explicação científica? É para irmos dizer que não é bom matar um ser humano? Que é irracional pensar que órgãos humanos possam trazer riqueza? Que magia é demência? Reparem que todas estas perguntas já têm uma descrição do problema que, por sua vez, já sugere uma resposta: o problema é que há pessoas que não sabem o que é um albino e que motivadas por crenças irracionais tiram a vida a albinos na vã expectativa de enriquecerem. É sob o pano de fundo desta descrição do problema que a educação aparece como solução. Se ensinarmos às pessoas que albinos são pessoas e que feitiçaria não funciona, a caça ao albino vai acabar. Pudera.
Isto, para mim, é sinal de perplexidade. É uma perplexidade que se alimenta de várias fontes. Uma fonte é a conversa sempre adiada com o que insistimos em chamar de cultura africana. Se for irracional do ponto de vista da ciência é cultura africana, é a nossa maneira de abordar o mundo. Quanto mais bizarro for, mais autêntico é. Espero que, já agora, o Américo Matavele (“maprovoco”), tradicionalista confesso, venha aqui defender a caça ao albino como manifestação da nossa cultura milenar. A conversa que temos adiado com a nossa cultura é a que nos permitiria formular um argumento coerente que explica porque certas práticas são aceitáveis e fazem parte da nossa cultura, e outras não. Idealmente, esse argumento devia conter princípios que nos permitam elaborar posições coerentes sobre qualquer prática que fira o nosso sentido ético ou mesmo científico. O que não me parece correcto é manter esta relação esquizofrénica com a cultura. Quando é bom – porque serve para defender alguma posição – dizemos que é nossa cultura; quando nos embaraça, ou não entendemos, dizemos que temos que educar as pessoas.
A outra fonte é a ressaca da guerra da Renamo. Apareceram no nosso país estudiosos a mostrarem que a adesão da população rural à Renamo explicava-se melhor com recurso às crenças metafísicas africanas e o papel que elas desempenharam na articulação da resistência às políticas colectivistas da Frelimo gloriosa. Esta perspectiva, a partir dos finais dos anos oitenta, virou uma autêntica praga nos meios académicos. Misturava a excitação compreensível do investigador estrangeiro que “descobre” uma lógica local que lhe permite entrar em comunhão com o moçambicano duma forma que nem o próprio investigador moçambicano é capaz de fazer porque membro da elite urbana, e os argumentos circulares que caracterizam os “estudos africanos”, particularmente na sua confusão metodológica e analítica entre explicação e justificação. De repente, a “cultura africana” ganhou conjuntura sob a forma da importância dada à autoridade tradicional. O Ministério da Administração Estatal, num “black-out” total de lucidez – mas impelido por alguns destes investigadores estrangeiros – santificou a coisa, introduziu uma bifurcação horrível e incoerente no nosso sistema administrativo e emulou categorias coloniais de classificação dos moçambicanos em “civilizados” e “indígenas” sem, naturalmente, usar estes nomes. Na ânsia de corrigir supostos erros do passado promoveu-se uma atitude acrítica em relação a instituições e formas de exercício de poder que eu considero retrógradas (para usar terminologia da Frelimo gloriosa).
Uma outra fonte foi a elevação do charlatanismo à condição de representante legítimo da racionalidade moçambicana. Esta frase é dura e injusta para aqueles que têm conhecimento de plantas medicinais e têm ajudado muita gente sem acesso à medicina formal. Mas ao criar uma categoria “medicina tradicional” sem um conhecimento claro e sistemático das suas práticas, capacidades e habilidades – apenas na base da crença na sua utilidade, já que existe… - promoveu-se uma tensão desnecessária entre a medicina formal e a tal medicina tradicional. Esta tensão atinge níveis de paroxismo quando algumas pessoas depois dizem que existem “realidades” ou “coisas” que só são acessíveis a esta forma de medicina. Bullshit. O que a gente chama de “medicina tradicional” não é prerrogativa dos africanos ou dos não-europeus. Eu que me interesso pela história social europeia – e mato essa sede lendo também romances históricos – fico espantado quando encontro crenças e práticas igualzinhas ao que nós teimamos em chamar de “racionalidade africana”. Ao invés de investirmos, como uma vez aconselhou o grande filósofo do Gana, Kwasi Wiredu, na integração das práticas terapêuticas africanas no grande sistema de medicina formal também como forma de as aprimorar e identificar o que é específico a elas (como, por exemplo, os chineses foram capazes de fazer) mistificamos o assunto desnecessariamente.
Então, quando pessoas começam a agredir agentes de saúde acusando-os de estarem a propagar a cólera, quando raparigas desmaiam nas escolas, ou quando as pessoas caçam albinos ficamos todos perplexos por causa desta esquizofrenia auto induzida. E queremos logo “educar” as pessoas sem nenhuma clareza sobre o que isso significa. Significa tirar as pessoas do “obscurantismo”? Significa dar aulas de moral e religião? Nesta questão específica dos albinos aposto que vão aparecer sabichões que nos vão aconselhar calma e com recurso a sua grande empatia com populações marginalizadas e seu profundo conhecimento de cosmogonias locais vão nos dizer com ar grave e erudito que é preciso primeiro perceber as lógicas locais. Não é irracional caçar albinos, vão dizer, é importante entender o sistema de valores e crenças que torna essa prática inteligível. Estou a caricaturar essa posição, claro, mas a situação é mais ou menos essa. Só que para mim este tipo de atitude “acadêmica” revela insuficiências metodológicas e analíticas, para já não falar de insuficiências epistemológicas. Muitas vezes as ciências sociais complicam o seu acesso à realidade por causa da sua maior preocupação em sempre se legitimarem perante as outras ciências. Sofrem dum complexo de inferioridade que as conduzem a abordagens muitas vezes problemáticas.
Por exemplo, o desafio que a caça aos albinos coloca às ciências sociais é simples. É o desafio de saber em que ela consiste. Só isso (bom, não bem, bem assim). Quantas pessoas já foram vítimas disto? Onde? Quais são as características socio-económicas desses lugares? Quais são as motivações que são dadas para isso por aqueles que foram apanhados? Qual é o perfil dessas pessoas que se envolveram nisso? São jovens do sexo masculino? Há alguma particularidade que os identifique? Etc. Precisamos de factos e não só de pegar na cabeça e gritarmos “nyandayeyo, estão a matar albinos, rápido, temos que educar o povo”. E o meu palpite é o seguinte: há maior probabilidade de atinar com a solução para este problema tentando encontrar resposta para a seguinte pergunta: que tipo de pessoa (ou, em que circunstâncias) estaria disposta a tirar a vida a alguém como forma de ganhar dinheiro? Só essa pergunta. Porque é evidente que não faz parte da nossa cultura matar gente para ganhar dinheiro, logo, haverá por aí gente muito especial com certa predisposição para isso. É essa gente que precisamos de entender, e não o sistema cultural ou sua irracionalidade.

Mas sei que isto, traduzindo literalmente uma expressão idiomática tsonga, é água em cima do pato… (é indiferente para quem devia pensar seriamente no assunto).(Elisio Macamo in Facebook)

quinta-feira, julho 16, 2015

Registada como “Malvinda”, porque a gravidez não tinha sido boa

Um pouco por todo o país, os serviços de Registo Civil tem estado a registar um movimento desusado de cidadãos que solicitam a mudança de nome. Uns porque acham que a sua vida anda às avessas devido ao nome que receberam e que dá azar. Outros porque descobriram que o nome é feminino, enquanto são rapazes. E ainda há quem faz a troca porque o seu nome, numa outra língua, é um autêntico palavrão.Só na cidade de Maputo, na Primeira Conservatória de Registos e Notariado correram 38 requerimentos para a troca de nomes, sem contar com magotes de outros processos de pedido de mudança de grafia, porque o nome está mal escrito, a data de nascimento está errada e os nomes dos pais, não tem nada a ver.Observa-se igualmente que muitos pais residentes nas zonas urbanas escusam-se de atribuir aos filhos nomes como João, Filipe, Felisberto, Jorge, José ou Mário, bem como nomes femininos como Luísa, Maria, Ana, Paula, Francisca, e por aí em diante. Agora sobram Agnes, Milson, Sholtz, John, Duke, Sunilton, Colin, entre outros do género.Enquanto produzíamos a presente Reportagem, apurámos que uma família submeteu um pedido de rectificação de grafia do nome que tinha atribuído ao filho, porque descobriu que Nicole não é nome masculino, mas, sim, feminino. O rapaz tinha beneficiado de alguma zombaria na escola.Dados em nosso poder indicam que os pedidos para a troca de nome não são um fenómeno isolado da Primeira Conservatória da cidade de Maputo. “Há muitos em curso um pouco por todo o país”, indica fonte ligada ao Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos. Os factos remontam ao momento em que os pais se veem confrontados com a necessidade de dar um nome a um filho já nascido ou a caminho. Por vezes o evento é pacífico. A família, sem fazer grande esforço, oferece um nome tranquilo e o beneficiário cresce numa boa, sem fazer nenhuma objecção à designação que lhe foi oferecida. Porém, casos há, e aos milhares, em que o nome vira pesadelo para o dono e, o único remédio é trocá-lo mesmo. Por exemplo, Tristeza e Miséria parecem nomes corriqueiros, mas muitas mulheres começam a rejeitá-los porque não lhes trazem nenhuma felicidade. Ao contrário de Alegria, Esperança, Felizarda e Felicidade.Aliás, parte das beneficiárias destes nomes, quando se encontram perante o infortúnios da vida, de tipo falta de namorado, emprego, dinheiro e filhos, vão à busca de respostas em igrejas evangélicas ou no submundo dos curandeiros que, entre outros, questionam “como queres ser feliz e sortuda com um nome que remete à desgraça”. Para o caso de crianças, o confronto com o nome começa a ser difícil no contacto com colegas de escola, pois, é frequente ser vítima de zombaria no seio escolar a ponto do menor desistir por causa do nome que não ajuda. Exemplo, Mainato Manteiga, Alfinete Canivete, Sabonete Candeeiro Fogo, entre outros, são nomes susceptíveis de escárnio de “baliza aberta”. Na pesquisa que desencadeamos, constatamos que alguns pais optam por oferecer nomes difíceis simplesmente porque pretendem vincar um determinado episódio, por vezes negativo, que terão enfrentado durante a gestação ou no namoro.A título de exemplo, Esperança Nhangumbe, conservadora e directora da Primeira Conservatória da cidade de Maputo, revela que já recebeu uma mãe solteira que pretendia registar a sua filha, já crescidinha, com o nome de “Malvinda”, só porque a gravidez não tinha sido boa. Daquelas que fazem a gestante fazer pensar seriamente em desistir da caminhada.Entretanto, e como era de esperar, os conservadores rejeitaram com um sonoro “não”, uma vez que o nome era pejorativo. “Aliás, a própria criança pediu para ser tratada por Dércia alegando que era vítima de chacota na escola”.  Dados em nosso poder indicam que, nos últimos tempos, progenitores mais jovens atribuem nomes aparentemente modernos aos filhos e, poucos meses ou anos depois, descobrem que cometeram o erro de dar um nome que numa outra língua é literalmente um palavrão.Há também situações em que pais oferecem aos filhos um nome feito de iniciais de ambos. Pai e mãe. O resultado é um composto bizarro que se torna difícil de pronunciar até para os próprios progenitores. Para não mencionar os avós. Fala-se de um casal que levava o nome de Ivan e Sofia. Deram ao filho o nome de Soivan, que lembra a marca de um tractor.Outros dificultam ainda mais a vida da criança e dos avós e primos ao rebuscarem o nome de Patrick Cluvert, antigo jogador de futebol holandês. Os avôs da criança mordem a língua para chamar o neto e acabam apelidando-o de Papaíto. Assim fica mais fácil. Papaíto. Na senda de oferecer nomes de fora aos filhos, os serviços de Registo Civil da capital do país já se depararam com situações fora do comum de um casal que decidiu atribuir ao filho o sugestivo nome de Heineken. Assim mesmo. Heineken. Segundo o pai do petiz, a ideia era homenagear o holandês que inventou a cerveja e não a bebida.Na mesma senda, aqueles serviços receberam uma família que tinha o plano de dar ao seu recém-nascido o nome completo de Nelson Mandela. Algo como Nelson Rolilhalha Mandela. Os funcionários daqueles serviços voltaram a torcer o nariz. Depois de ouvirem Heineken, este segundo caso foi para cair de costas.

DE VOLTA ÀS RAÍZES
O facto de Moçambique ter estado sob dominação colonial portuguesa em parte contribuiu para o desaparecimento dos nomes indígenas, sobretudo na província da Zambézia, onde muitos adultos ainda se apresentam com nomes de tipo Garfo Tigela, Penteado Azul, João Sabonete, Lurdes Vai Embora, Maria Faz Bem, Tudo Mal Feito, entre outros.Nos tempos que lá vão, quem quisesse ser um cidadão com mínimos direitos, de tipo assimilado, era condicionado a deixar seus hábitos e costumes e, automaticamente, assimilar a identidade e cultura portuguesas, muitas vezes porque os colonos desprezavam tudo o que era nosso.Pode se dizer que este acto era compulsivo, pois quem fosse registar o seu filho nunca lhe era permitido dar nome africano, de tipo Camizinga, Potesse, Bissopo, Nhantsave, kharige, entre outros. No lugar destes, muitos cidadãos acabaram recebendo nomes e apelidos como Alves, Pereira, Araújo, Teixeira, Costa, Silveira, Silva e mais.Com o acesso à informação, que hoje caracteriza a sociedade, muitos procuram resgatar a identidade perdida. Por conta disso, está a registar-se uma tendência de se rejeitar nomes de origem portuguesa e até se buscam os verdadeiros apelidos. Os Costas, Alves e Pereiras procuram ser Cossa, Mandlate, Nguila, Bambo, Guitsetse, por aí em diante.
De igual modo, e para os descendentes, muitos pais jovens começam a resgatar nomes feitos em línguas locais. Mas há ainda aqueles que preferem os brasileiros e americanos.“Há uns 10 anos a tendência era de buscar nomes de origem brasileira, como Walter, Edmilson, Edson, Emerson, entre outros. Actualmente, as pessoas buscam nomes tradicionais como forma de resgatar a identidade moçambicana. A maior parte destes nomes contêm significados diversos, desde alegria e agradecimentos. A título de exemplo temos Tsaquilke, Nkensany, Nkensa, Wanga, Mbonguile e mais”, referiu Esperança Nhagumbe.Perante este novo fenómeno, os serviços de Registo Civil têm sido obrigados a questionar o significado de alguns nomes que os pais apresentam, para evitar passar para o Boletim de Nascimento identidades que em outras línguas contêm significados pejorativos.Neste processo, quando os progenitores mostram sinais de não conhecerem o significado do nome que pretendem dar ao filho, o Registo Civil encarrega-se de investigar. “Já recebemos alguém que registou um nome e, pouco tempo depois, veio trocá-lo alegando que não desejava ver a sua criança com maus espíritos uma vez que tinha descoberto que o mesmo significava Satanás”, disse.

Azares por detrás dos nomes
“Os pais deveriam pensar muito bem antes de atribuir certos nomes aos filhos, pois essa é marca que fica para o resto da vida. Quando o nome nos desagrada torna-nos pessoas sem autoconfiança”, disse Esperança Nhangumbe.Por conta deste problema, há muitos casos de adultos insatisfeitos com os seus nomes e desejam trocar. Geralmente, têm um nome de registo, mas no seu meio social são conhecidos por outro nome, simplesmente porque não se identificam com o que consta nos documentos.“É por isso que apelamos aos pais para pensarem nos nomes antes de os atribuir aos filhos. Que não sejam egoístas. É sempre conveniente que se pondere no que o nome pode significar para os filhos que amanhã serão pessoas adultas, e irão carregar essa denominação pelo resto da vida”.No que se refere a eventuais azares que um nome pode “ostentar”, a nossa fonte disse acreditar nesta crença e alerta que “não podemos dar nomes que estão associados à maldade e a energias negativas, pois, à medida que são pronunciados se está também a invocar tais coisas más”.Mais adiante questionou “se a criança é um dom divino, então porquê começar a dar energias negativas cedo através do nome? É certo que o azar pode vir da crença da pessoa, mas é preciso que os pais evitem esses nomes. É triste quando somos rejeitados só porque temos um nome “feio”.

Estigmatizados

Para o sociólogo Carlos Bavo, a busca pelos nomes estrangeiros resulta da vontade humana de se integrar no sistema internacional através dos nomes. Por outro lado, este fenómeno está associado ao esforço para a recuperação da tradição perdida por força da actuação colonial.“A busca dos nomes não termina apenas nos africanos, mas sim nos americanos e brasileiros, isso porque essa é uma forma que as pessoas encontraram de internacionalizarem-se, já que estamos num mundo globalizado”, disse.No que concerne aos nomes estranhos atribuídos pelos pais, o sociólogo Bavo afirma que “as pessoas tentam fazer com que um determinado evento vivido no passado se reflicta na criança. Mas, isso pode trazer consequências para quem transporta o nome. Ela pode sofrer um estigma e até ser desqualificada por causa do nome”, disse.Avança ainda que é traumático quando ao começarmos a construir a identidade somos duramente criticados e “agredidos” por causa do nosso nome. “Quando a pessoa é discriminada pelos colegas ainda em tenra idade, mesmo sem tanta noção da auto-estima, isso desenvolve em si um sentimento de rejeição pelos próximos”.Por seu turno, o antropólogo Marílio Wane acredita que o facto de a colonização ter desprezado a cultura moçambicana faz com que as pessoas queiram e procurem recuperar a identidade que estava perdida. “Agora já ninguém pode impedir, por isso as pessoas sentem a necessidade de fechar esse défice.”No que concerne à adopção de nomes brasileiros ou americanos, Wane explica que isso se deve à forte influência e interferência cultural que o povo moçambicano sofre desses países. As novelas, programas brasileiros, futebol internacional e astros americanos influenciam-nos e é neles que vamos buscar esses nomes”, concluiu.

sexta-feira, julho 10, 2015

Olhar o norte com mais atenção

Resultado de imagem para educação moçambiqueO norte de Moçambique passará a merecer maior atenção das autoridades da Educação e Desenvolvimento Humano, por se ter constatado, nas reflexões feitas nos primeiros cinco meses, que é a região com graves problemas comparativamente às outras duas zonas - Centro e Sul.Doravante os melhores professores, materiais e investimentos serão direccionados para Nampula, Cabo Delgado e Niassa como forma de colmatar o desequilíbrio existente nas três províncias quando comparadas com as provincias meridionais de Maputo, Gaza e Inhambane, e as centrais de Manica, Sofala, Zambézia e Tete.Falando na tarde desta quinta-feira na cerimónia de recepção de três mil livros oferecidos pela Fundação José Abudo, o titular da Educação e Desenvolvimento Humano, Jorge Ferrão, é hoje citado pelo “Notícias”, a dizer que no início havia a ideia de que o sector está completamente mal. Entretanto, dos debates havidos percebeu-se que tem, afinal, aspectos positivos. Identificou-se os críticos, a sua localização e as possíveis soluções.
A título de exemplo, notou-se que enquanto no Sul e Centro há uma tendência de o número de raparigas igualar-se ao dos rapazes em diversos níveis de ensino, na parte norte as cifras das meninas encontram-se abaixo das dos efectivos do outro género.
É igualmente facto que da província de Maputo até Zambézia e Tete regista-se, no geral, uma descida dos números de alunos por turma, mas no Norte os efectivos continuam cerca de 70 em cada sala de aulas nas primeiras classes. Contudo, já na quinta o universo baixa drasticamente, o que ilustra elevadas cifras de abandono e/ou reprovações.
Resultado de imagem para educação moçambiqueÉ perante este cenário, aliado a outros dados que o governante não precisou, que se decidiu em virar as atenções para o Norte, encaminhando mais apoios, investimentos de vária ordem, incluindo o destacamento dos professores que se mostrarem melhores mas ainda afectos nas outras províncias.Reagindo à oferta, Ferrão reconheceu que as bibliotecas escolares estão muito mal equipadas, pelo que qualquer apoio em livros é um valioso contributo para que as crianças aprendam a ler, escrever e calcular.
A Fundação José Abudo tem como patrono o antigo ministro da Justiça e actual Provedor da Justiça.O director executivo da Fundação, Charifo Ali, disse que os três mil livros destinados ao ensino do 1.º ao 12.º ano do sistema português resultaram de parcerias da sua instituição com uma congénere lusa.Destacou que embora sejam do ensino português a ciência é universal, pelo que acreditam que serão úteis nas bibliotecas das escolas nacionais, não só para os alunos, mas também na planificação das matérias por parte dos professores.