quinta-feira, agosto 19, 2021

Mil colinas

Promotores de Ruanda pediram a sentença de prisão perpétua para Paul Rusesabagina, herói retratado no filme "Hotel Ruanda", de 2004. Ele é julgado por "terrorismo" em Kigali, capital do país africano, em um processo que sua defesa avalia como político.

 Rusesabagina é ex-gerente do Hotel das Mil Colinas, em Kigali e foi importante no contexto do genocídio em Ruanda em 1994, quando salvou mais de mil pessoas, dentro do hotel. A crise humanitária, que levou à morte de 800 mil pessoas, principalmente da etnia tútsi, foi retratada em 2004 no filme "Hotel Ruanda", momento em que o ex-gerente ficou conhecido internacionalmente, pela actuação de Don Cheadle.  Crítico ferrenho do governo do presidente Paul Kagame, tútsi que comanda o país desde 2000, Paul Rusesabagina recebeu nove acusações, incluindo terrorismo, por suposta associação com a Frente de Libertação Nacional (FLN), grupo rebelde acusado de ter organizado e executado centenas de ataques a Ruanda nos últimos anos. Ele está sendo julgado junto a outros 20 réus.

— Demonstramos que cada ato de Rusesabagina era de natureza criminal, com a intenção de cometer atos de terrorismo —, declarou um dos promotores, Jean Pierre Habarurema. — Como dirigente, apoiador e partidário da MRCD/FLN, estimulou e permitiu aos combatentes que cometessem os atos terroristas contra Ruanda.

O promotor reforça que, apesar do ex-gerente não ter ligação ativa com os atentados, os promotores acreditam que ele teve um papel nos ataques apenas por ter prestado apoio aos combatentes. A defesa e a família de Rusesabagina consideram que "o governo de Ruanda não apresentou nenhuma prova" durante os quatro meses de processo e classificaram o julgamento de "farsa" para "calar" Tusesabagina, segundo um comunicado divulgado pela Fundação Hotel Ruanda. O documento ainda avalia o julgamento como político e acusa o governo ruandês de sequestrar o acusado.

Paul Rusesabagina vivia no exílio desde 1996, nos Estados Unidos e na Bélgica, e foi detido em Ruanda no fim de agosto de 2020 em circustâncias particulares, ao desembarcar de um avião que pensava que seguia para o Burundi, país ao sul de Ruanda. "Formámos a FLN (Frente Nacional de Libertação) como uma ala armada, não como um grupo terrorista, como a acusação continua a afirmar. Não nego que a FLN tenha cometido crimes, mas o meu papel foi a diplomacia", disse Rusesabagina ao tribunal, citado pelo jornal "The Daily Telegraph". O acusado tinha pedido fiança por estar doente e prometeu não fugir, embora o juiz tenha assegurado que a prisão não o impedia de receber tratamento médico.

Paul Rusesabagina, 66 anos, é um forte crítico do Presidente ruandês, Paul Kagamé.

 

NA fOTO - Milhares de pessoas tentaram de se refugiar nas igrejas aonde iam rezar todos os domingos. Só no templo de Ntarama, 5.000 pessoas foram aniquiladas na manhã de 11 de abril de 1996 , uma segunda-feira. Esta foto mostra o resultado daquele massacre.

O Ministério Público acusa-o, entre outros, de ter dado dinheiro às milícias das Forças de Libertação Nacional (FLN), a ala armada do Movimento Ruandês para a Mudança Democrática (MRCD), o partido que lidera. A FLN tem sido responsável por ataques no Ruanda desde 2018. No filme "Hotel Ruanda", Paulo Rusesabagina é apresentado como um hutu casado com uma mulher tutsi que salvou mais de 1.200 pessoas em 1994 no Hotel des Mille Collines, em Kigali, do qual foi o diretor, usando a sua influência junto das milícias hutu.Cerca de 8.000 tutsis e hutus moderados foram mortos diariamente entre abril e junho de 1994 no Ruanda por membros da etnia hutu.

 

 

sexta-feira, agosto 13, 2021

Presidente Nyuse, mantém recolher obrigatório noturno

 Falando à Nação, esta sexta-feira (13.08), o Presidente moçambicano confirmou a pressão que a terceira vaga da pandemia provocada pela Covid-19 está a fazer no setor da saúde e apelou à vacinação. O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, disse, que o sistema de saúde moçambicano está a sofrer a pressão da terceira vaga da pandemia, alertando que os números mostram que o país ainda vai atravessar um período mais difícil.

"Os números não mentem, eles captam e dão sentido a uma realidade que muitos de nós ainda não dão importância", disse o chefe de Estado moçambicano, numa declaração à nação a partir da Presidência da República. Os dados apresentados, esta sexta-feira, pelo chefe de Estado indicam que o mês de julho registou o maior número de casos desde o início da pandemia em Moçambique, em março do ano passado, com um total de 45.806 casos, mais de 1.900 internamentos e 555 mortes. Os números registados em agosto, prosseguiu o Presidente, provam que a situação pode piorar, com o país a registar um total de 15.385 casos, 649 internamentos e 256 mortes só nos primeiros 13 dias deste mês.

"A situação epidemiológica do nosso país, apesar de tender a estabilizar-se nos últimos dias, não mostra ainda sinais de melhoria substancial", acrescentou Filipe Nyusi, pedindo que as populações adiram a campanha de vacinação que decorre em todo país, onde pelo menos um milhão de pessoas já tomaram a primeira dose da vacina, segundo estatísticas oficiais.

Filipe Nyusi decidiu manter, por mais 30 dias, as medidas adotadas em 15 de julho, quando agravou as restrições para prevenção da covid-19 no arranque da terceira vaga no país.

Entre as medidas destaca-se o início do recolher obrigatório noturno, que recuou das 22:00 para as 21:00 e aplica-se a todas as cidades e vilas. Todos os eventos sociais, públicos ou privados, estão interditos, exceto casamentos e funerais, em que será permitida apenas a presença de um número reduzido de pessoas. Todos os horários estão mais restritivos, com a restauração, padarias, pastelarias e lojas de conveniência a fechar às 18:00. Nas viagens internacionais, só as crianças com menos de 5 anos ficam dispensadas de teste negativo à entrada em Moçambique (o limite era 12 anos) e a validade dos testes para múltiplas entradas é reduzida de 14 para sete dias. "Temos esperança de que a manutenção das medidas restritivas continuará a ter um efeito na redução da transmissão do novo coronavírus", declarou o chefe de Estado moçambicano. Desde o anúncio do primeiro caso em março do ano passado, Moçambique contabiliza 1.671 óbitos e 136.566 casos positivos, dos quais 84% recuperados da doença.






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“ah, não-sei-quantos”

Seria totalmente desonesto partir do princípio de que o actual Presidente de Moçambique herdou uma situação fácil. Desonesto e injusto. Ele tornou-se Presidente na pior altura. Eu dei o meu apoio a ele das duas vezes que se candidatou. 

Não me arrependo. Não o fiz por estar convencido de ele ser a pessoa certa. Fi-lo por confiar na qualidade do partido em nome do qual ele se candidatou e, também, por achar que não havia na oposição nada melhor. Mas que a sua missão ia ser difícil sem a devida experiência política, isso sempre esteve claro para mim.

Por causa disso, eu não o posso julgar pelas omissões e erros dos seus antecessores. Julgo-o pelo que está a fazer. E ao fazer isso, não coloco como critério de desempenho o alcance de resultados impossíveis para quem tem que agir no contexto em que ele tem de agir. Coloco como critério de desempenho o que ele está a fazer – e ao dizer ele, refiro-me também ao partido que ele dirige – para criar condições que lhe permitam trabalhar. E nisso há muito pouco que se diga em seu abono.

Começando pelo fiasco da “paz definitiva” (que só não está pior porque Dhlakama morreu) – que incluiu uma descentralização em contramão da democracia – passando pela perplexidade em torno da prevenção da Covid-19 (com uma insistência doentia na repressão ao invés de promover a criação de condições para que as pessoas se protejam) até à grande nôdoa que é Cabo Delgado (anos sem informar à nação, tomada de decisões de peso – como a contractação de mercenários sem aval dos representantes do povo – fraco trabalho diplomático na região – com danos que se podem revelar grandes para as nossas relações com a RSA, Tanzânia e Zimbabwe) a sua governação tem sido marcada pela perplexidade. E repito: a crítica vale para todo o partido, sobretudo para a Comissão Política que é o órgão que tinha a obrigação de o amparar dada a sua inexperiência.

Nunca governei, nem nunca governarei. 

Mas estudo a governação e, por isso, posso opinar com segurança. 

O principal desafio de governação, sobretudo em países como os nossos, não consiste na resolução de problemas. 

Consiste na criação de condições para que os problemas sejam resolvidos. É este critério que precisa de ser observado na avaliação do seu desempenho em relação a Cabo Delgado.

Sabendo do estado das nossas FDS (e ele foi ministro da defesa), sabendo da falta de recursos, sabendo das tensões que lá existiam, etc. o que ele e o seu governo fizeram para que estivéssemos em melhores condições de lidar com o problema? Sabendo que o problema ia se agravando, porque não procurou galvanizar a sociedade informando-a com transparência e consultando os seus representantes no Parlamento? Sabendo das fragilidades do Estado a vários níveis, fragilidades essas que podem ter contribuído para que o problema piorasse, o que fez para procurar consertar isso? Sabendo de vários pesquisadores mozes que no meio da hostilidade das FDS e dos bobos da corte iam estudando o problema, o que fez para os ouvir e para colher deles ideias novas sobre como melhor lidar com o problema?

Não colocar estas questões, ou pensar isso baixinho por receio de ferir susceptibilidades ou, pior, procurar identificar motivações obscuras naquele que coloca as questões (“ah, é Guebuzista”, “ah não gosta de Makondes”, “ah, tem mania de que sabe tudo”, “ah, odeia o Presidente”, “ah, esses ‘intelectuais’”, “ah, não-sei-quantos”...) é perder tempo com futilidades. E é o recurso a essas futilidades que nos impede de fazer melhor. Pior: é tentar proteger a mediocridade para nivelar por baixo o grande País que Moz é.

Repito: quando 1000 pessoas dum País que cabe 30 vezes no nosso resolve em duas semanas um problema que não resolvemos em quatro anos, é profundamente anti-patriótico achar que haja motivo para festejar.

 Não há. Temos que nos questionar. 

Temos que questionar a qualidade da liderança (e isso inclui toda a cúpula do partido e do governo). 

Temos que questionar a nossa atitude em relação ao País que é de todos nós. Não podemos cair na complacência porque não há nenhuma razão para tal.

Questionar não significa não estarmos aliviados pelo facto de os ruandeses terem feito o nosso trabalho por nós. É também uma maneira de respeitar os mozes que sofrem lá em Cabo Delgado, abandonados à sua sorte por um governo que sabe que sempre haverá quem vai compreender que não tenha feito melhor. Não importa o que Samora, Chissano ou Guebuza não fizeram, ou fizeram mal. Importa como nós hoje nos erguemos à medida do desafio.

Vimos aquela holandesa nos Jogos Olímpicos que caiu, levantou-se, continuou a correr e ainda ganhou a corrida. Se fosse Moze teria feito sorna por saber que toda a gente ia compreender. Com este tipo de postura que temos, os egípcios nunca teriam construído as pirâmides por falta de andaimes...

(De Elisio Macamo)

800 raptos em 3 meses

Embora o rapto de 276 alunas da Escola Secundária Estatal Feminina de Chibok tenha originado indignação a nível global, esta prática chocante continua. As crianças em idade escolar no norte da Nigéria tornaram-se mercadorias de uma indústria próspera para sequestradores que procuram atenção e dinheiro.    Apenas nos primeiros três meses de 2021, extremistas raptaram mais de 800 alunos e seus professores, em seis eventos em quatro Estados.Homens munidos de armamento pesado atacaram internatos e universidades, levando forçosamente estudantes para florestas próximas para fazê-los reféns, em troca de dinheiro de resgate. Durante um rapto na Greenfield University, no Estado de Kaduna, os sequestradores mataram cinco reféns quando os seus pais não conseguiram satisfazer as suas exigências.  Os resgates podem levar as famílias a venderem todas as suas posses e terras de cultivo para angariar o dinheiro. Por cada rapto de grande visibilidade que acontece, muitos mais passam despercebidos, de acordo com Bulama Bukarti, analista sénior da Unidade de Política contra o Extremismo, no Instituto Tony Blair para Mudança Global.

“Com os culpados praticamente nunca presos e julgados, os criminosos deram-se conta de que o crime compensa,” escreveu Bukarti no The Washington Post. “A vulnerabilidade inata das crianças e a presença de escolas públicas em edifícios velhos e inseguros nos arredores das cidades deixa-as expostas.”

No noroeste do Estado de Kaduna, as autoridades fecharam 13 escolas após extremistas terem raptado 140 alunos da escola Bethel Baptist High School. Mais de duas dezenas de alunos e um professor foram resgatados posteriormente. Num outro ataque, na Escola Islâmica de Salihu Tanko, no Estado do Níger, sequestradores raptaram crianças de apenas 3 anos de idade. Abandonaram as crianças mais pequenas na floresta quando estas não conseguiram manter o ritmo do grupo.  Em Julho, os sequestradores contactaram as famílias de 100 alunos reféns, exigindo que lhes dessem arroz e outros alimentos, caso contrário, as suas crianças passariam fome.  O risco de rapto fez com que os pais em todo o norte da Nigéria deixassem os seus filhos fora da escola. As autoridades também fecharam escolas para prevenir ataques.

Cerca de 10,5 milhões de crianças com menos de 14 anos de idade deixaram de frequentar a escola, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A organização estima que mais de 1.100 escolas tenham sido fechadas em todo o noroeste da Nigéria. Mesmo onde as escolas continuaram abertas, dezenas de milhares de alunos deixaram de ir à escola, porque os seus pais tentam protegê-los dos ataques.

“As autoridades nigerianas arriscam ter uma geração perdida devido à sua incapacidade de proporcionar escolas seguras para as crianças, numa região já devastada pelas atrocidades do Boko Haram,” disse Osai Ojigho, diretora da Amnistia Internacional na Nigéria. “A incapacidade das autoridades nigerianas em proteger as crianças em idade escolar de ataques recentes mostra claramente que não foi aprendida nenhuma lição com a tragédia de Chibok.” Os raptos e o fecho das escolas foram particularmente prejudiciais para as alunas. No caso de Chibok, algumas raparigas saíram do cativeiro com crianças nascidas durante o seu sequestro, causando estigma entre as suas famílias. Após o encerramento das escolas, alguns pais entregaram as suas filhas em casamento, terminando a sua educação, disse Bukarti.

Chukwuemeka Nwajiuba, Ministro do Estado para a Educação, na Nigéria, disse que o país tem o maior número de alunos fora da escola na África Subsariana. Mas também disse aos nigerianos que o governo não os pode proteger de todos os ataques. “O Governo Federal não pode proteger todas as casas. Precisamos todos de estar vigilantes”, disse Nwajiuba ao jornal nigeriano, The Punch.

O governo ordenou as escolas para entrarem em contacto com a agência de segurança mais próxima se estiverem preocupadas com um ataque, acrescentou. No entanto, essas forças estão a ser utilizadas ao limite na luta contra o Boko Haram e outros insurgentes na região. Bukarti disse que o governo deve enfrentar as forças que alimentam o extremismo e os raptos — a pobreza, o desemprego e a falta de educação — se se pretende combater o problema.“As crianças nigerianas e os seus pais estão a ser forçados a escolher entre as suas   vidas e a sua educação,” disse Bukarti à National Public Radio. “Isto representa o risco de criar uma geração perdida de nigerianos, que afectará não apenas o futuro dessas crianças, mas também o de todo o país.”

O Dia Mundial do Elefante

Este dia, conhecido mundialmente como World Elephant Day, tem em vista a preservação dos elefantes de todo o mundo. A cada quinze minutos morre um elefante na África, envenenado ou baleado pelo seu marfim e pela sua carne. Na China o marfim vale mais do que o ouro. Se nenhuma ação for tomada, prevê-se que o elefante esteja extinto por 2025.

O elefante é o maior mamífero da terra (pode pesar 7 toneladas) e mesmo assim um animal muito vulnerável. A sua tromba é capaz de arrancar ramos ou de apanhar uma única folha do chão. Inteligente, dedicado à família, emocional e com uma memória extraordinária, o elefante é um animal dotado das boas características do homem, mas que recebe os piores comportamentos por parte deste.

Símbolo nacional da Tailândia, o elefante mereceu um dia próprio em 2012. O Dia Mundial do Elefante foi fundado pela realizadora canadiana Patricia Sims e pela Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia. Atualmente a data é apoiada por cerca de 70 fundações de vida selvagem no mundo.

 

Rasto de destruição Mocímboa da Praia

SETENTA E SEIS

Para além do envio de 20 militares para a província moçambicana de Cabo Delgado, Angola está a jogar um papel importante no transporte de pessoal militar e material de países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para aquela província moçambicana.

Ilyushin 76 da Forças Aerea Nacional de Angola que está a ser usado para o transporte de
material e militares para Cabo Delgado (Moçambique)

O portal sul-africano DefenceWeb disse que um avião militar angolano vai transportar 113 soldados das forças defesa do Lesotho para Cabo Delgado, para se juntarem aos 12 soldados desse país já enviados para a zona. A mesma fonte disse que Angola está envolvida em operações de transporte aéreo em diversos países da região que se comprometeram a participar na força internacional de combate à insurgência em Moçambique.

 Um avião de transportes angolano Ilyushin 76 foi visto no Botswana para transportar material militar a ser usado por membros das forças de Defesa do Botswana na província moçambicana. Um avião angolano do mesmo tipo – Ilyushin 76 – foi também visto na base aérea militar sul-africana de Waterkloof em Pretória durante o passado fim de semana o que, segundo a DefenceWeb, “indica que Angola poderá também estar a ajudar com logística o contigente sul-africano”.

O Ruanda não faz parte da SADC e enviou cerca de 1.000 soldados para Cabo Delgado onde têm sido a principal força de acção contra os rebeldes. As tropas ruandesas libertaram recentemente a cidade portuária de Mocímboa da Praia depois de terem também expulsado os rebeldes de várias vilas na região.

 

 

Jogam a bola com o pessoal

Em entrevista, o investigador do Observatorio do Meio Rural (OMR), uma organização não governamental moçambicana, João Feijó refere que os terroristas que protagonizam ataques armados em Cabo Delgado são moçambicanos, bem identificados pelas comunidades locais.  Um estudo recente do OMR intitulado "Do inimigo sem rosto à hipótese de diálogo: Pretensões e canais de comunicação com os machababos", são  apresentados os "currículos" de algumas das principais figuras que comandam a insurgência em Cabo Delgado. Algumas delas foram sancionadas pelos Estados Unidos de América, desmanchando o mito de serem desconhecidos os indivíduos por trás da insurgência. João Feijó entende que há canais de comunicação que precisam ser explorados pelo Governo para permitir encetar negociações com os insurgentes.

DWA: Quase quatro anos depois do início da insurgência, pode-se concluir que não há vontade política para negociar?

João Feijó (JF): Há um discurso oficial por parte do Governo de Moçambique de que o inimigo não tem rosto, não sabemos o que eles querem, não há canais de comunicação. Nós queremos demonstrar que o inimigo tem carne e osso. São pessoas comuns, conhecidas pela sociedade local. Têm um caderno de reivindicações que ainda que é pouco estruturado e imaturo, mas existe. Em terceiro lugar queremos mostrar que há canais de comunicação. Sobre o diálogo, achamos que deve ser entendido não como uma forma simplesmente formal no sentido de negociação sentado à mesa, mas como uma coisa mais abrangente, que possa incluir a possibilidade de libertação de reféns ou de pessoas raptadas. Mas também pode abranger assistência às pessoas que estão nas zonas da insurgência. Ou seja, uma negociação abrangente, que deve incluir a possibilidade de se repensar o modelo de desenvolvimento.

DWA: O Observatório do Meio Rural indica os nomes dos envolvidos nas insurgências. Também os EUA o fazem e sancionam até essas figuras. Não seria este um elemento motivador para as autoridades avançarem para as negociações com os insurgentes?

JF: O que importa é desmitificar a ideia de que o inimigo não tem rosto. O inimigo é moçambicano, é uma pessoa que nasceu entre nós, que jogou futebol connosco, que estudou connosco e que, em determinada altura, se radicalizou e explorou as contradições sociais existentes na sociedade moçambicana. Acho que quer o relatório dos Estados Unidos, quer este relatório atual, fornecem subsídios que permitem uma reflexão nacional, não só por parte do Governo moçambicano, no sentido de alagar os horizontes e criar um novo paradigma de reflexão, que seja menos bélico e que crie espaços de negociações.

DWA: O facto do antigo Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, ter apelado para negociações pode fazer o regime aposta nesta iniciativa?

JF: Sem dúvida. O Presidente Joaquim Chissano é alguém que tem uma grande experiência ao nível da governação de Moçambique e ao nível da gestão de conflitos. É alguém que, quando chegou ao poder, herdou uma guerra que existia entre o Governo e a RENAMO, em que as posições estavam muito extremadas. Neste contexto em remou contra a corrente e criou novos paradigmas de reflexão e as condições para permitir que houvesse os encontros de Roma e que as partes em conflito aw sentassem e refletissem sobre um país que têm em comum.

DWA: Estamos diante de uma repetição de abordagem por parte da FRELIMO de relativa arrogância ao catalogar os seus opositores como terroristas ou bandidos armados?

JF: Sim, de facto, existe esse obstáculo nas negociações entre o partido que está no poder e a oposição. Mas é um obstáculo que é transversal a toda a sociedade moçambicana e que deriva da nossa própria cultura de poder. Ou seja, nós encaramos o poder, não como uma relação, não como um espaço em que temos que negociar, mas como uma coisa que temos que possuir. Encaramos a possibilidade de fazer cedências como um sinal de fraqueza. Então, quando nós temos esta cultura política arrogante, torna-se complicado entrar num espaço de negociação, porque já entramos no espaço com uma atitude dominadora. Acho que isto pode ser uma lição não só para o Governo de Moçambique, mas para toda a sociedade.

 

אין ישראל

Moçambique rejeita decisão da União Africana de atribuir à Israel o estatuto de observadorEsta posição vem expressa num comunicado da Embaixada de Moçambique na capital etíope, Adis-Abeba, enviado à "Carta de Mocambique". Moçambique defende que, por ser um assunto sensível, a decisão de atribuir à Israel o estatuto de observador requer a priori uma consulta aos Estados-membros da organização continental, um procedimento que não foi observado pela Comissão da União Africana.

"A República de Moçambique notou também que a decisão do presidente da Comissão da União Africana foi tomada numa altura em que as circunstâncias que levaram o Estado de Israel a perder o estatuto de observador junto da União Africana e o fracasso na aplicação das resoluções de 2013, 2015 e 2016 ainda prevalecem inalteráveis, nomeadamente, a ocupação da Palestina e a sistemática violação dos direitos humanos do povo palestino pelo Estado de Israel, contrariando os princípios constitutivos da Carta da União Africana", destaca o comunicado. 

"Neste contexto, o governo da República de Moçambique objecta a decisão da Comissão da União Africana de conceder acreditação ao Estado de Israel e apela à Comissão para observar os devidos procedimentos, submetendo o assunto para deliberação na próxima sessão do Conselho Executivo", reforça a nota da Embaixada de Moçambique na Etiópia.

sábado, julho 24, 2021

Cerimônia de Abertura Olimpíada de Tóquio

Pode parecer estranho e polémico

Huntington, um cientista político americano referiu, após a II Guerra Mundial, que as futuras guerras, seriam, fundamentalmente, motivadas por “choques de civilizações”, numa perspectiva de afirmação de identidades culturais e religiosas e contra a hegemonização tendente à uniformização desses factores no contexto da globalização económica e cultural. Huntington rejeitava que as ideologias, os interesses políticos, económicos e geoestratégicos, e qua as bordagens marxistas de classes sociais, fossem os elementos fundamentais dos conflitos posteriores à segunda guerra. Foi muito criticado. 

O autor deste texto está em conformidade com as críticas. Porém, não reduz a zero que também possam existir, no conflito de cabo Delgado, factores culturais e religiosos, isto é, que elementos que suportam a teoria de Huntington sejam totalmente desprezíveis. Existem muitas pesquisas, textos e comentários sobre o conflito/guerra de Cabo Delgado. Uma parte, dá enfâse aos factores internos, como, por exemplo: (1) pobreza, desigualdades sociais, etnolinguísticas e de género; (2) acesso aos órgãos do poder local e central e a recursos; (3) negócios em crise; (4) tráficos de pedras preciosas, madeira, marfim, entre outras, e as relações de agentes internos com circuitos internacionais; (5) falta de oportunidades de trabalho e de pequenos negócios para a juventude. 

A crise económica, política e das instituições, não são só ou principalmente, como oficialmente se fundamenta, consequência da crise e dos mercados internacionais, da COVID-19, ou de conflitos “externos”. Existem opções de política económica e de políticas públicas erradas e erráticas, factores estruturais de longa duração, instituições ineficientes, pouco transparentes e a corrupção tornou-se sistémica. Alega-se que, nestes contextos, existem condições internas para a emergência de um ou vários conflitos violentos, instabilidade social que, a prazo, com ou sem gás, se despoletariam em Cabo Delgado ou em outras partes de Moçambique. Outros, defendem que a guerra é motivada pela existência de recursos naturais e as geoestratégias à escala global, como, por exemplo: (1) reduzir a possibilidade de alterações nos actuais (des)equilíbrios do mercado energético, com a entrada de grandes quantidades de gás, eventualmente, reforçando a posição de algumas multinacionais e países, além de eventuais efeitos sobre os preços, mesmo considerando as desvantagens do gás, comparativamente com o petróleo; (2) vantagem de médio/longo prazo, em termos ambientais, do gás em relação ao petróleo; (3) controlo das rotas do Índico pelos Estados Unidos da América e de França, não somente para controlo de tráficos de droga e outros recursos naturais, migrações clandestinas e pirataria marítima, como ainda pelo controlo militar e económico da zona; (3) dificultar a “penetração” chinesa (principalmente) e indiana em África, que têm por estratégia, deslocalizar indústrias intensivas em mão-de-obra produtora de bens para demandas de baixo rendimento, com salários baixos e terra barata, maior proximidade dos grandes mercados, como ainda, para “exportar” a emissão de gases contaminantes do ambiente devido às tecnologias dessas indústrias, numa perspectiva de especialização desses países no mercado de tecnologias de última geração e a transformação/especialização nas “novas economias”.

O Governo diz ser um inimigo sem rosto e, por isso, sem possibilidade de negociação para o caminho da paz. Mas, afinal, pensa-se que interessa aos líderes deste tipo de conflito e actuação militar/actos de terror, serem conhecidos ou a organização possui formalização transparente para o efeito? É estratégia deles negociar neste momento? Embora o Estado Islâmico tenha uma estrutura interna e linhas de comando, pode-se admitir que, pelo menos parte das suas células, actuam descentralizadamente, com decisões e táticas locais. Os militantes actuam guiados por uma ideologia, com raízes ou ramificações do islamismo radical. A guerra de Cabo Delgado não é parte da guerra, designada por “santa”? Se assim for, então, pode-se induzir que será, também, uma guerra anti-Estado, no quadro de uma luta contra os “infiéis”, e, portanto, pode ter uma ideologia e filosofia civilizacional, como foram as cruzadas e a missão “civilizadora” colonial. 

Na realidade, os factores internos e externos reforçam-se mutuamente. O terrorismo radical actua em países/zonas onde existem estados falhados ou frágeis, pobreza, grandes desigualdades sociais e espaciais, elites corruptas e juventudes sem perspectivas de vida. Moçambique possui estas características que facilitam a presença deste tipo de instabilidade. O governo de Moçambique não tem sabido lidar com o conflito. Primeiro, foi negligente, pois sabia-se, pelo menos desde 2012, que existiam sinais que poderiam desembocar em conflito; depois, procurou esconder ou minimizar a importância dos acontecimentos; a seguir, foi evidente da incapacidade do exército de suster a guerra; seguiu-se a retórica de recusa de apoio militar externo, quando, simultaneamente, actuavam mercenários; falou-se em apoios externos não letais; e, finalmente, entram forças estrangeiras. E a pergunta será: certamente que os serviços de segurança sabiam do que se passava desde o início, seja por acção directa, como através de informações de outras agências de segurança; por que não se actuou? Será porque a guerra de Cabo Delgado inclui interesses económicos das elites internas, a nível local e nacional e, destas, com o exterior? A guerra de Cabo Delgado facilita os tráficos de droga e de recursos naturais (pedras preciosas, madeira, etc.)? Ou, no princípio, estava-se mais preocupado com Afonso Dlakhama? Será que os serviços de segurança, num Estado de partido dominante, servem plenamente o país? Ou será que está ao serviço de um Estado partidarizado que se tornou numa plataforma de acesso e distribuição de poder e de negócios? 

As hierarquias islâmicas internas, distanciam-se, certamente de forma genuína, do radicalismo e das acções armadas. Por outro lado, o grupo que pratica a guerra revela ser não alinhada ou é mesmo contra as hierarquias islâmicas em Moçambique. A igreja católica condena e assume posicionamento de apoio às vítimas das acções dos alshababes. As igrejas são milenares e milenarmente têm as suas estratégias e, neste sentido, pode-se estar em presença de disputa de espaços e influência, aliando-se necessariamente aos poderes do Estado. Nesta perspectiva, não haverá o que se designa como as continuidades de muito longa duração, de restauração dos domínios árabes no mundo e no caso concreto do califado de Zanzibar e da influência em toda a costa africana do Índico? Muitas das pesquisas sobre este conflito têm enfatizado os factores internos. Existem condições locais que, perante acções comandadas, com objectivos exteriores e supranacionais de longo prazo e com motivações económicas e de poder (e, eventualmente de influência religiosa actual e de longo prazo), se reforçam e se aproveitam mutuamente. Por outro lado, há muitos comentaristas, geralmente bem informados, que enfatizam diferentes factores, geralmente assentes no dualismo interno/externo. 

Colocar a questão civilizacional pode parecer estranho e polémico, num mundo que se diz de construção da paz e de entendimentos diversos, de globalização económica e de aproximação de civilizações, aspectos estes que também são manipulados por mais poder e dinheiro. Mas que os factores culturais e religiosos são questões de reflexão, lá isso parece não haver dúvidas. Assim sendo, rejeitar a colocação dos aspectos civilizacionais nas hipóteses e metodologias de pesquisa também parece ser não académico. Estas são algumas das questões que os pesquisadores poderiam explorar, sem tabus, nem preconceitos. Pelos assuntos que se tratam, não é fácil a equipes de pesquisa isoladas, conseguirem material que fundamente, ou não, estas hipóteses de trabalho. É necessário unir funcionalmente grupos de pesquisa, especializá-los, o que, por razões diversas (económicas, políticas e ideológicas), não será fácil. Se assim não for, as pesquisas procurarão aprofundar temas que, embora importantes, podem não explicar plenamente a realidade, motivações e estratégias de longo prazo. Há muitas questões por responder. As colocadas neste texto, são apenas algumas delas. (Joao Mosca)

segunda-feira, julho 19, 2021

Deu o berro

Os proprietários de restaurantes em Maputo opõem-se ao novo horário de funcionamento que o governo moçambicano impôs no âmbito da sua batalha para restringir a propagação da doença respiratória Covid-19, e alguns deles reagiram suspendendo os contactos de trabalho dos seus quadros. Anteriormente, os restaurantes podiam abrir das 6h00 às 20h00, mas ao abrigo das novas medidas, anunciadas quinta-feira pelo Presidente Filipe Nyusi, todos os restaurantes deverão encerrar até às 18h00.

A justificativa para esta alteração é que permitirá aos trabalhadores do restaurante regressar a casa antes do início do toque de recolher noturno, às 21h00, e evitará a aglomeração de multidões nos restaurantes que poderiam constituir um ambiente favorável à propagação do vírus.

Mas donos de restaurantes entrevistados pela estação de televisão independente STV protestam, dizendo que seu horário de maior movimento é precisamente entre 18h00 e 20h00. Dizem que é nessa época que muitos clientes costumavam jantar fora, mas ninguém vai a um restaurante jantar antes das 18h00. Eles argumentam que o novo horário de fechamento levará a uma queda em suas receitas e pode, eventualmente, forçá-los a fechar totalmente as portas. Alguns dos entrevistados pelo jornal afirmam já conhecer casos de suspensão de contratos de funcionários de restaurantes.   “Não sabemos por quanto tempo podemos suportar essa situação”, disse o dono de um restaurante, Lino Machava, que temia que a situação piorasse,    Outro, Nélio Manuel, sugeriu que os restaurantes teriam de se “reinventar” e passar a fazer entregas ao domicílio.

As igrejas em Maputo, no entanto, não levantaram oposição à decisão do governo de proibir todos os serviços religiosos pelos próximos 30 dias. Em vez disso, os líderes religiosos disseram à STV que consideravam o fechamento das igrejas uma “medida oportuna” para evitar a disseminação da Covid-19. O bispo anglicano Carlos Matsinhe disse que a proibição “não é um problema, porque é uma medida que visa proteger a saúde de todos, proteger a vida dos fiéis religiosos e do povo moçambicano em geral”. O padre católico Geraldo Uaiare concordou, declarando que a Igreja Católica “é uma instituição que trabalha para o bem de todos”. Mesmo com as portas da igreja fechadas, as entidades religiosas estão pensando em maneiras de os fiéis acompanharem os cultos em formato digital.